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Full text of "Coleção Os Pensadores - 1ª Edição. Abril Cultural, 1973/1974. [Convertido E Comprimido Para Preto & Branco]"

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OS PENSADORES 


— ne 


ERASMO DE ROTTERDAM 


ELOGIO DA LOUCURA 


THOMAS MORE 


A UTOPIA 


EDITOR: VICTOR CIVITA 


Titulos originais: 
Encomium, id est, Stultitiae Laus. 
De optimo reipublicae statu, deque nova insula Utopia. 


1.3 edição — Dezembro 1972 


ce — Copyright desta edição, 1972, 
Abril S.A. Cultural e Industrial, São Paulo. 
Traduções publicadas sob licença de: 
Atena Editora, São Paulo. 


SUMARIO 


FEOGIO DALOUCUR AM ariano da SE e co TA pena oO MD ua E, q 


A UTOPIA 


+ 


ERASMO DE ROT TERDAM 


ELOGIO DA LOUCURA 


ERASMO 
A 
THOMAS MORE, 
SAÚDE. 


x 


Achando-me, dias atrás, de regresso da Itália à Inglaterra, a 
fim de não gastar todo o-tempo da viagem em insípidas fábulas, 
preferi recrear-me, ora volvendo o espirito aos nossos comuns 
estudos, ora recordando os doutíssimos e ao mesmo tempo 
dulcíssimos amigos que deixara ao partir. E foste tu, meu caro 
More, o primeiro a aparecer aos meus olhos, pois que malgrado 
tanta distância, eu via e falava contigo com o mesmo prazer que 
costumava ter em tua presença e que juro não ter experimentado 
maior em minha vida. Não desejando, naquele intervalo, passar 
por indolente, e não me parecendo as circunstâncias adequadas 
aos pensamentos sérios, julguei conveniente divertir-me com um 
elogio da Loucura. Por que essa inspiração'? — perguntar-me- 
às. Pelo seguinte: a princípio, dominou-me essa fantasia por 
causa do teu gentil sobrenome, tão parecido com a Moria? quan- 
to realmente estás longe dela e, decerto, ainda mais longe do 
conceito que em geral dela se faz. Em seguida, lisonjeou-me a 
idéia de que essa engenhosa pilhéria pudesse merecer a tua apro- 
vação, se é verdade que divertimentos tão artificiais, não me 
* Quae Pallas isthuc tibi misit in mentem. Homero introduz Palas, que vai sugerindo, a 


Penélope e a Ulisses, ora uma coisa, ora outra. 
2 Loucura, em grego. 


10 - ERASMO 


parecendo plebeus, naturalmente, nem de todo insulsos, te pos- 
sam deleitar?, permitindo que, como um novo Demócrito, obser- 
ves e ridicularizes os acontecimentos da vida humana. Mas 
assim como, pela excelência do gênio e de talentos, estás acima 
da maioria dos homens, assim também, pela rara suavidade do 
costume e pela singular afabilidade, sabes e gostas, sempre e em 
toda parte, de habituar-te a todos e a todos parecer amável e 
grato. 

Por conseguinte, gostarás agora não só de aceitar de bom 
grado esta minha pequena arenga, como um presente do teu bom 
amigo, mas também de colocá-la sob o teu patrocínio, como 
coisa sagrada para ti e, na verdade, mais tua do que minha. Já 
prevejo que não faltarão detratores para insurgir-se contra ela, 
acusando-a de frivolidade indigna de um teólogo, de sátira inde- 
cente para a moderação cristã, em suma, clamando e cacare- 
jando contra o fato de eu ter ressuscitado a antiga comédia? e, 
qual novo Luciano *, ter magoado a todos sem piedade. Mas os 
que se desgostarem com a ligeireza do argumento e com o seu 
ridiculo devem ficar avisados de que não sou eu o seu autor, pois 
que com o seu uso se familiarizaram numerosos grandes 
homens. Com efeito, muitos séculos antes, Homero escreveu a 


sua Batraquiomaquia, Virgílio cantou o mosquito e a amoreira, 
e Ovídio, a nogueira; Polícrates chegou a fazer o elogio de Busi- 
ris, mais tarde impugnado e corrigido por Isócrates; Glauco 
enalteceu a injustiça, o filósofo Favorino louvou Tersites e a 


3 Ao subiriao' cadafalso, onde devia perder a cabeça em testemunho da Verdade, Thomas 
More, com o mesmo ânimo intrépido e tranquilo, não podendo dar um passo por causa 
da gota, disse a um dos guardas, com aquele seu mesmo estilo de bonomia: “Amigo, aju- 
da-me a subir, que ao descer não te darei mais incômodo ”. 

* Criada por Susarião de Megara. Tão desabusada que citava os nomes das pessoas, sem 
que a leio proibisse. À antiga comédia sucedeu a sátira entre os latinos. 

s Luciano, retórico de Samos, autor do Diálogo dos Mortos. Tão satírico que não per- 


ELOGIO DA LOUCURA 11 


febre quarta; Sinésio, a calvície e Luciano, a mosca parasita; 
finalmente, Sêneca ridicularizou a apoteose de Cláudio, Plutarco 
escreveu o diálogo do grilo com Ulisses, Luciano e Apuleio fala- 


ram do burro; e um tal Grunnio Corocotta fez o testamento do 
porco, citado por São Jerônimo. Saibam, pois, esses censores 


que também, para divertir-me, jà joguei xadrez e montei em ca- 
valo de pau º, como um menino. Na verdade, haverá maior injus- 


tiça do que, sendo permitida uma brincadeira adequada a cada 
idade e condição, não poder um literato pilheriar, principal- 


mente quando a pilhéria tem um fundo de seriedade, sendo as 
facécias manejadas apenas como disfarce, de forma que quem as 
lê, quando não seja um solene bobalhão, mas possua algum faro, 
encontre nelas ainda mais proveito do que em profundos e lumi- 


nosos temas? Que dizer, então, de alguém que, com um longo 
discurso, depois de muito estudar e fatigar as costas, elogiasse a 


retórica ou a filosofia? Ou de alguém que escrevesse o elogio de 


um príncipe; outro, uma exortação contra os turcos; outro fizes- 
se horóscopos e predições baseado nos planetas; outro, questões 


de lana caprina” e investigações futilissimas? Portanto, assim 


como não há nada mais inepto do que abordar graves argumen- 
tos puerilmente, assim também é bastante agradável e plausível 


tratar de igual forma as pilhérias, que não têm aqui outro obje- 
tivo senão o pilheriar. 

Quanto a mim, deixo que os outros julguem esta minha taga- 
relice; contudo, se o amor-próprio não me engana, creio ter elo- 
giado a Loucura sem estar inteiramente louco. Quanto à imputa- 
ção de sarcasmo, não deixarei de dizer que há muito tempo 
existe a liberdade de estilo com a qual se zomba da maneira por 
que vive e conversa o homem, desde que não se caia no cinismo 
doava aos próprios deuses. Foi por isso considerado ímpio e ateu. 


8 Equitare in arundine longa. (Horácio.) 
7 Alter rixatur de lana saepe caprina. (Horácio.) 


12 ERASMO 


e no veneno. Assim, pergunto se se deve estimar o que magoa, 
ou antes o que ensina e instrui, censurando a vida e os costumes 
humanos, sem pessoalmente ferir ninguém. Se assim não fosse, 
precisaria eu mesmo fazer uma sátira a meu respeito, com todas 
as particularidades que atribuo aos outros. Além disso, quem se 
insurge em geral contra todos os aspectos da vida não deve ser 
inimigo de ninguém, mas unicamente do vício em toda a sua 
extensão e totalidade. Se houver, pois, alguém que se sinta ofen- 
dido por isso, deverá procurar descobrir as suas próprias maze- 
las, porque, do contrário, se tornará suspeito ao mostrar receio 
de ser objeto da minha censura. Muito mais livre e acerbo nesse 
gênero literário foi São Jerônimo, que nem sequer perdoava os 
nomes das pessoas! Nós, porém, além de calarmos absoluta- 
mente os nomes, temperamos o estilo, de forma que o leitor 
honesto verá por si mesmo que o nosso propósito foi mais divertir 
do que magoar. Seguindo o exemplo de Juvenal, em nenhum 
ponto tocamos na oculta cloaca de vícios da humanidade, nem 
revelamos as suas torpezas e infâmias, limitando-nos a mostrar 
o que nos pareceu ridículo. Se, apesar de tudo, ainda houver ran- 
zinzas e descontentes, que ao menos observem como é bonito e 
vantajoso ser acusado de loucura. Com efeito, na boca da que 
trouxemos à cena e fizemos falar, foi necessário pôr os juízos e 
as palavras que mais se coadunam com o seu caráter. Mas, para 
que hei de te dizer todas essas coisas, se és emérito advogado, 
capaz de defender egregiamente mesmo as causas menos 
favoráveis? 

Sem mais, elogquentiíssimo More, estimo que estejas são e 
tomes animosamente a parte de tua loucura, 


Vila, 10 de junho de 1508. 


DECLAMAÇÃO DE ERASMO 
DE ROTTERDAM 


Embora os homens costumem ferir a minha reputação e eu 
saiba muito bem quanto o meu nome soa mal aos ouvidos dos 
mais tolos, orgulho-me de vos dizer que esta Loucura, sim, esta 
Loucura que estais vendo é a única capaz de alegrar os deuses e 
os mortais. A prova incontestável do que afirmo está em que não 
sei que súbita e desusada alegria brilhou no rosto de todos ao 
aparecer eu diante deste numerosíssimo auditório. De fato, 
erguestes logo a fronte, satisfeitos, e com tão prazenteiro e amá- 
vel sorriso me aplaudistes, que na verdade todos os que distingo 
ao meu redor me parecem outros tantos deuses de Homero, 
embriagados pelo néctar com nepente?. No entanto, antes, esti- 
vestes sentados, tristes e inquietos, como se há pouco tivésseis 
saído da caverna de Trofônio?. Com efeito, como no instante em 
que surge no céu a brilhante figura do sol, ou como quando, 
após um rígido inverno, retorna a primavera com suas doces 
aragens e vemos todas as coisas tomarem logo um novo aspecto, 
matizando-se de novas cores, contribuindo tudo para de certo 
modo rejuvenescer a natureza, assim também, logo que me vis- 
tes, transformastes inteiramente as vossas fisionomias. Bastou, 


8 Erva cujo suco, misturado com vinho, desperta a alegria. 

3 Trofônio, filho de Apolo, segundo a lenda, era um célebre arquiteto grego. Construiu em 
Lebadia, na Beócia, um templo consagrado a Apolo, no centro do qual havia uma caverna 
onde se acreditava que um demônio interpretasse os oráculos. Como os que aí entravam 
para consultá-lo saíssem desfigurados, surgiu o provérbio segundo o qual uma pessoa 
muito triste parece ter saido do antro ou da caverna de Trofônio. 


14 ERASMO 


pois, a minha simples presença para eu obter o que valentes ora- 
dores mal teriam podido conseguir com um longo e longamente 
meditado discurso: expulsar a tristeza de vossa alma. 

Se. agora, fazeis questão de saber por que motivo me agrada 
aparecer diante de vós com uma roupa tão extravagante, eu vo- 
lo direi em seguida, se tiverdes a gentileza de me prestar atenção; 
não a atenção que costumais prestar aos oradores sacros, mas a 
que prestais aos charlatães, aos intrujões e aos bobos das ruas, 
numa palavra, a que o nosso Midas!º prestava ao canto do deus 
Pa. E isso porque me agrada ser convosco um tanto sofista: não 
da espécie dos que hoje não fazem senão imbuir as mentes juve- 
nis de inúteis e dificeis bagatelas, ensinando-os a discutir com 
uma pertinácia mais do que feminina. Ao contrário, pretendo 
imitar os antigos, que, evitando o infame nome de filósofos, pre- 
feriram chamar-se sofistas!!, cuja principal cogitação consistia 
em elogiar os deuses e os heróis. Ireis, pois, ouvir o elogio, não 
de um Hércules ou de um Sólon, mas de mim mesma, isto é, da 
Loucura. 

Para dizer a verdade, não nutro nenhuma simpatia pelos sá- 
bios que consideram tolo e impudente o auto-elogio. Poderão 
Julgar que seja isso uma insensatez, mas deverão concordar que 
uma coisa muito decorosa é zelar pelo próprio nome. 

De fato, que mais poderia convir à Loucura do que ser o arau- 
to do próprio mérito e fazer ecoar por toda parte os seus pró- 
prios louvores? Quem poderá pintar-me com mais fidelidade do 
que eu mesma? Haverá, talvez, quem reconheça melhor em mim 


1º Midas, famoso rei da Frígia. Escolhido juiz para decidir quem cantava melhor, Pã ou 
Apolo, julgou em favor do primeiro. Apolo, irritado, colocou-lhe duas orelhas de burro na 
testa. 

11 Antigamente, assim se chamavam os filósofos e os que professavam a verdadeira sabe- 
doria. Em seguida, os retóricos também tiveram esse nome. 


ELOGIO DA LOUCURA Es 


o que eu mesma não reconheço? De resto, esta minha conduta 
me parece muito mais modesta do que a que costuma ter a maior 
parte dos grandes e dos sábios do mundo. É que estes, calcando 
o pudor aos pés, subornam qualquer panegirista adulador, ou 
um poetastro tagarela, que, à custa do ouro, recita os seus elo- 
gios, que não passam, afinal, de uma rede de mentiras. E, 
enquanto o modestissimo homem fica a escutá-lo, o adulador 
ostenta penas de pavão, levanta a crista, modula uma voz de 
timbre descarado comparando aos deuses o homenzinho de 
nada, apresentando-o como modelo absoluto de todas as virtu- 
des, muito embora saiba estar ele muito longe disso, enfeitando 
com penas não suas a desprezível gralha, esforçando-se por alve- 
jar as peles da Etiópia, e, finalmente, fazendo de uma mosca um 
elefante. Assim, pois, sigo aquele conhecido provérbio que diz: 
Não tens quem te elogie? Elogia-te a ti mesmo. 

Não posso deixar, neste momento, de manifestar um grande 
desprezo, não sei se pela ingratidão ou pelo fingimento dos mor- 
tais. É certo que nutrem por mim uma veneração muito grande e 
apreciam bastante as minhas boas ações; mas, parece incrível, 
desde que o mundo é mundo, nunca houve um só homem que, 
manifestando reconhecimento, fizesse o elogio da Loucura. 

Não faltou, contudo, quem, com grande perda de azeite e de 
sono, exaltasse, com elogios estudadíssimos, os Busiris!? e os 
Fálaris!3, a febre quartã e a mosca, a calvície e outras pestes 
semelhantes. Ireis, pois, ouvir de mim mesma o meu panegírico, 
o qual, não sendo oportuno nem estudado, será, por isso mesmo, 


'2 Busíris, rei do Egito, filho de Neteno e de Líbia. Segundo a lenda, foi morto por Hércu- 
les, por sacrificar os forasteiros e usar para com eles de grande crueldade. 

13 Fálaris, famoso tirano de Agrigento, na Sicília. Entre as suas crueldades inauditas, 
distingue-se a de ter mandado Perilo fazer um touro de cobre para dentro dele queimar 
vivos os que condenava a morte. 


16 ERASMO 


muito mais sincero. Não julgueis que assim vos fale por ostenta- 
ção de engenho, como costuma fazer a maior parte dos oradores. 
Estes, como bem sabeis, depois de se esfalfarem bem uns trinta 
anos em cima de um discurso, talvez surrupiado de outrem, são 
tão impudentes que procuram impingir que o fizeram, por diver- 
timento, em três dias, ou então que o ditaram. Eu, ao contrário, 
sempre gostei muito de dizer tudo o que me vem a boca. 

Não espereis que, de acordo com o costume dos retóricos vul- 
gares, eu vos dê a minha definição e muito menos a minha divi- 
são. Com efeito, que é definir? É encerrar a idéia de uma coisa 
nos seus justos limites.E que é dividir? É separar uma coisa em 
suas diversas partes. Ora, nem uma nem outra me convém. 
Como poderia limitar-me, quando o meu poder se estende a todo 
o gênero humano? E como poderia dividir-me, quando tudo con- 
corre, em geral, para sustentar a minha divindade? Além disso, 
por que haveria de me pintar como sombra e imagem numa defi- 
nição quando estou diante dos vossos olhos e me vedes em 
pessoa? 

Sou eu mesma, como vedes; sim, sou eu aquela verdadeira 
dispenseira de bens, a que os latinos chamam Stultitia e os gre- 
gos, Moria. E que necessidade haveria de vo-lo dizer? O meu 
rosto já não o diz bastante? Se há alguém que desastradamente 
se tenha iludido, tomando-me por Minerva ou pela Sabedoria, 
bastará olhar-me de frente, para logo me conhecer a fundo, sem 
aue eu me sirva das palavras, que são a imagem sincera do 
pensamento. Não existe em mim simulação alguma, mostrando- 
me eu por fora o que sou no coração. Sou sempre igual a mim 
mesma, de tal forma que, se alguns dos meus sequazes presu- 
mem não passar por tais, disfarçando-se sob a máscara e o nome 
de sábios, não serão eles mais do que macacos vestidos de púr- 


ELOGIO DA LOUCURA 17 


pura, do que burros vestidos com pele de leão. Qualquer, pois, 
que seja o raciocínio feito para se mostrarem diferentes do que 
são, dois compridos orelhões descobrirão sempre o seu Midas. 

Para dizer a verdade, não estou nada satisfeita com essa gente 
ingrata, com esses perversos velhacos, porque, embora perten- 
çam mais do que os outros ao nosso império, não só publica- 
mente se envergonham de usar o meu nome, como muitas vezes 
chegam a aplicá-lo aos outros como título oprobrioso. Portanto, 
sendo eles loucos e arquiloucos, embora assumam a atitude de 
sábios e de Tales! 4, não teremos razão de chamá-los loucamente 
de sábios? 

A esse respeito, pareceu-me igualmente oportuno imitar os 
retóricos dos nossos dias, que se reputam outras tantas divinda- 
des, uma vez que podem gabar-se de outras línguas como a 
sanguessuga! * e consideram coisa maravilhosa inserir nos seus 
discursos, de cambulhada, mesmo fora de propósito, palavrinhas 
gregas, a fim de formarem belíssimos mosaicos. E, quando acon- 
tece que um desses oradores não conhece as línguas estrangeiras, 
desentranha ele de rançosos papéis quatro ou cinco vocábulos, 
com os quais lança poeira aos olhos do leitor, de forma que os 
que o entendem se orgulhem do próprio saber e os que não o 
compreendem o admirem na proporção da própria ignorância. 
Para nós, os tolos, um dos maiores prazeres não consistirá em 
admirar, com a máxima surpresa, tudo o que nos vem dos países 
ultramontanos? Finalmente, se houver alguns que, embora não 
entendendo nada desses velhos idiomas, queiram dar mostras de 
que os compreendem, nesse caso devem aparentar uma fisiono- 
mia satisfeita, aprovar abanando a cabeça, ou simplesmente as 


14 Tales, um dos sete sábios da Grecia. 
'5 Diz Plínio que a lingua da sanguessuga é bifurcada. 


18 ERASMO 


longas orelhas de burro, e dizer com um ar de importância: 
Bravo! Bravo! Muito bem! Justamente! 

Mas retomemos o fio do nosso raciocínio. Portanto, sabeis 
agora o meu nome, homens. .. Mas, que epíteto poderei apli- 
car-vos? Sem dúvida, o de estultíssimos ! Que vos parece? Pode- 
ria, acaso, a deusa Loucura dar epíteto mais digno aos seus 
adoradores, aos iniciados nos seus mistérios? Como, porém, 
poucos dentre vós conhecem a minha genealogia, vou procurar 
informar-vos a respeito com o auxílio das musas! *. 

Para dizer a verdade, não nasci nem do Caos! 7, nem do Orco, 
nem de Saturno, nem de Jápeto, nem de nenhum desses deuses 
rançosos e caducos. É Plutão, deus das riquezas, o meu pai. Sim, 
Plutão (sem que o levem a mal Hesíodo, Homero e o próprio Jú- 
piter), pai dos deuses e dos homens; Plutão, que, no presente 
como no passado, a um simples gesto, cria, destrói, governa 
todas as coisas sagradas e profanas; Plutão, por cujo talento a 
guerra, a paz, os impérios, os conselhos, os juízes, os comícios, 
os matrimônios, os tratados, as confederações, as leis, as artes, O 
ridículo, o sério (ai! não posso mais! falta-me a respiração), 
concluamos, por cujo talento se regulam todos os negócios pú- 
blicos e privados dos mortais; Plutão, sem cujo braço toda a 
turba das divindades poéticas, falemos com mais franqueza, os 
próprios deuses de primeira ordem!º não existiriam, ou pelo 
menos passariam muito mal; Plutão, finalmente, cujo desprezo é 
tão terrível que a própria Palas!'º não seria: capaz de proteger 
bastante os que o provocassem, mas cujo favor, ao contrário, é 
16 Com o auxílio das musas, porque o que se segue é uma ficção poética. 

17 Hesiodo, na sua Teogonia, faz derivar do Caos e do Orco, como deuses mais antigos, 
todas as outras divindades. 


18 A teologia pagã admitia doze divindades primárias, superiores a todas as outras. 
'º Palas, deusa da sabedoria. Defendeu Júpiter contra os gigantes. 


ELOGIO DA LOUCURA 19 


tão poderoso que quem o obtém pode rir-se de Júpiter e de suas 
setas. Pois bem, é justamente esse o meu pai, de quem tanto me 
orgulho, pois me gerou, não do cérebro, como fez Júpiter com a 
torva e feroz Minerva, mas de Neotetes?º, a mais bonita e alegre 
ninfa do mundo. Além disso, os meus progenitores não eram 
ligados pelo matrimônio, nem nasci como o defeituoso Vulcano, 
filho da fastidiosissima ligação de Júpiter com Juno. Sou filha 
do prazer e o amor livre presidiu ao meu nascimento; para falar 
com nosso Homero, foi Plutão dominado por um transporte de 
ternura amorosa. Assim, para não incorrerdes em erro, declaro- 
vos que já não falo daquele decrépito Plutão que nos descreveu 
Aristófanes, agora caduco e cego, mas de Plutão ainda robusto, 
cheio de calor na flor da juventude, e não só moço, mas também 
exaltado como nunca pelo néctar, a ponto de, num jantar com os 
deuses, por extravagância, o ter bebido puro e a grandes goles. 
Se, além disso, fazeis questão de saber ainda qual a minha pá- 
tria (uma vez que, em nossos dias, é como uma prova de nobreza 
notificar ao público o lugar no qual demos os nossos primeiros 
vagidos), ficai sabendo que não nasci nem na ilha Natante de 
Delos, como Apolo; nem da espuma do agitado Oceano, como 
Vênus; nem das escuras cavernas. Nasci nas ilhas Fortunadas, 
onde a natureza não tem necessidade alguma da arte. Não se 
sabe, ali, o que sejam o trabalho, a velhice, as doenças; nunca se 
vêem, nos campos, nem asfódelo, nem malva, nem lilá, nem lúpu- 
lo, nem fava, nem outros semelhantes e desprezíveis vegetais. 
Ali, ao contrário, a terra produz tudo quanto possa deleitar a 
vista e embriagar o olfato: mólio? !, panacéia, nepente, manjero- 
na, ambrósia, lótus, rosas, violetas, jacintos, anêmonas. Nascida 


20 Neotetes, isto é, a juventude. 
21 Erva excelente contra o veneno. 


20 ERASMO 


no meio de tantas delícias, não saudei a luz com o pranto, como 
quase todos os homens: mas quando fui parida, comecei a rir 
gostosamente na cara de minha mãe. Não invejo, pois, ao supre- 
mo Júpiter, o ter sido amamentado pela cabra Amaltéia, pois 
que duas graciosissimas ninfas me deram de mamar: Mete??2, 
filha de Baco, e Apédia?3, filha de Pã. Ainda podeis vê-las, aqui, 
no consórcio das outras minhas sequazes companheiras. Se, por 
Júpiter, também quereis saber os seus nomes, eu vo-los direi, 
mas somente em grego. Estais vendo esta, de olhar altivo? É Phi 
lautia, isto é, o amor-próprio. E esta, de olhos risonhos, que 
aplaude batendo palmas? É Kolaxia, isto é, a adulação. E a 
outra, de pálpebras cerradas parecendo dormir? É Lethes, isto é, 
o esquecimento. E aquela, que se acha apoiada nos cotovelos, 
com as mãos cruzadas? É Misoponia; isto é, o horror à fadiga. 
E esta, que tem a cabeça engrinaldada de rosas, exalando essên- 
cias e perfumes? É Hedoné, isto é, a volúpia. E a outra, que está 
revirando os olhos lúbricos e incertos e parece dominada por 
convulsões? É Ania, isto é, a irreflexão. Finalmente, aquela, de 
pele alabastrina, gorducha e bem nutrida, é Trophis, isto é, a 
delícia. Entre essas ninfas, podeis distinguir ainda dois deuses: 
um é Komo, isto é, o riso e o prazer da mesa; o outro é Nigreton 
Hyvpnon, isto é, o sono profundo. 

Acompanhada, pois, e servida fielmente por esse séquito de 
criados, estendo meu domínio sobre todas as coisas, e até os 
monarcas mais absolutos estão submetidos ao meu império. Já 
conheceis, portanto, o meu nascimento, a minha educação e a 
minha corte. Agora, para que ninguém julgue não haver razão 
para eu usurpar o nome de deusa, quero demonstrar-vos quanto 


22 Mete,a Embriaguez. 
23 Apédia, a Impericia. Segundo a lenda, Pã é grosseiro e material. 


ELOGIO DA LOUCURA 21 


sou útil aos deuses e aos homens e até onde chega o meu divino 
poder, desde que me presteis ouvidos com bastante atenção. 

Já escreveu sensatamente alguém que ser deus consiste em 
favorecer os mortais. Ora, se com razão foram incluídos no rol 
dos deuses os que introduziram na sociedade o vinho, a cerveja 
e outras tantas vantagens proporcionadas ao homem, por que 
não serei eu proclamada e venerada como a primeira das divin- 
dades, eu, que a todos, prodigamente, dispenso sozinha tantos 
bens? 


Antes de tudo, dizei-me: haverá no mundo coisa mais doce e 
mais preciosa do que a vida? E quem, mais do que eu, contribui 
para a concepção dos mortais? Nem a lança poderosa de Palas, 
nem a égide? 4 do fulminante Júpiter, nada valem para produzir 
e propagar o gênero humano. O próprio pai dos deuses e rei dos 
homens, a um gesto do qual treme todo o Olimpo, faria bem em 
depor o seu fulmineo trissulco, em deixar aquele ar terrível e 
majestoso com o qual aterroriza toda aquela multidão de deuses, 
e em apresentar-se, o pobrezinho, como bom cômico, sob uma 
forma inteiramente nova, quando quiser desempenhar a função, 
por ele já tantas vezes desempenhada, de procriar pequenos 
Júpiter. 


Vejamos, agora, os bobalhões dos estóicos, que se reputam 
tão próximos e afins dos deuses. Mostrai-me apenas um, dentre 
eles, que, sendo mil vezes estóico, nunca tenha usado barba, dis- 
tintivo da sabedoria (se bem que tal distintivo seja também 
comum aos bodes): precisará deixar o seu ar cheio de orgulho, 
assumir uns ares de fidalgo, abandonar a sua moralaustera e 
inflexível, fazer asneiras e loucuras. Em suma, será forçoso que 


24 Escudo de Júpiter, feito com a pele da cabra Amaltéia, que o amamentou. 


22 ERASMO 


esse filósofo se dirija a mim e a mim se recomende, se quiser tor- 
nar-se pal. 

E por que, segundo o meu costume, não hei de vos falar mais 
livremente? Dizei-me, por favor: serão, talvez, a cabeça, a cara, 
o peito, as mãos, as orelhas, partes do corpo reputadas honestas, 
que geram os deuses e os homens? Ora, meus senhores, eu acho 
que não: o instrumento propagador do gênero humano é aquela 
parte, tão deselegante e ridícula que não se lhe pode dizer o 
nome sem provocar o riso. Aquela, sim, é justamente aquela a 
fonte sagrada de onde provêm os deuses e os mortais. 

Pois bem, quem desejaria sacrificar-se ao laço matrimonial, se 
antes, como costumam fazer em geral os filósofos, refletisse bem 
nos incômodos que acompanham essa condição? Qual é a mu- 
lher que se submeteria ao dever conjugal, se todas conhecessem 
ou tivessem em mente as perigosas dores do parto e as penas da 
educação? Se, portanto, deveis a vida ao matrimônio e o matri- 
mônio à Irreflexão, que é uma das minhas sequazes, avaliai 
quanto me deveis. Além disso, uma mulher que já passou uma 
vez pelos espinhos do indissolúvel laço, e que anseia por tornar 
a passar por eles, não o fará, talvez, em virtude da assistência da 
ninfa Esquecimento, minha cara companheira? É preciso dizer, 
pois, a despeito do poeta Lucrécio, e a própria Vênus não ousa- 
ria negá-lo, que sem a nossa pujança e a nossa proteção, a sua 
força e a sua virtude languesceriam e se desvaneceriam 
completamente? *. 

Foi, por conseguinte, dessa agradável brincadeira, por mim 
temperada com o riso, o prazer e a amorosa embriaguez, que 
saíram os carrancudos filósofos, agora substituídos pelos ho- 
mens vulgarmente chamados frades, os purpúreos monarcas, os 


28 Lucrécio reconheceu em Vênus o princípio de toda a geração. 


ELOGIO DA LOUCURA 23 


pios sacerdotes e os pontífices três vezes santíssimos. Final- 
mente, dessa brincadeira é que também surgiu toda a turba das 
divindades poéticas; turba tão imensa que o céu, embora muito 
espaçoso, mal pode contê-la. Mas, pouco amiga seria eu da ver- 
dade, se, depois de vos provar que de mim tivestes o gérmen e o 
desenvolvimento da vida, não vos demonstrasse ainda que pro- 
vêm da minha liberalidade todos os bens que a vida encerra. 

Que seria esta vida, se é que de vida merece o nome, sem os 
prazeres da volúpia? Oh! Oh! Vós me aplaudis? Já vejo que não 
há aqui nenhum insensato que não possua esse sentimento. Sois 
todos muito sábios, uma vez que, a meu ver, loucura é o mesmo 
que sabedoria. Podeis, pois, estar certos de que também os estói- 
cos não desprezam a volúpia, embora astutamente se finjam 
alheios a ela e a ultrajem com mil injúrias diante do povo, a fim 
de que, amedrontando os outros, possam gozá-la mais frequente- 
mente. Mas, admitindo que esses hipócritas declamem de boa fé, 
dizei-me, por Júpiter, sim, dizei-me se há, acaso, um só dia na 
vida que não seja triste, desagradável, fastidioso, enfadonho, 
aborrecido, quando não é animado pela volúpia, isto é, pelo con- 
dimento da loucura. Tomo Sófocles por testemunho irrefragável, 
Sófocles? º nunca bastante louvado. Oh! nunca se me fez tanta 
Justiça! Diz ele, para minha honra e minha glória: “Como é 
bom viver! mas, sem sabedoria, porque esta é o veneno da vida”. 
Procuremos explicar essa proposição. 

Todos sabem que a infância é a idade mais alegre e agradável. 
Mas, que é que torna os meninos tão amados? Que é que nos 
leva a beijá-los, abraçá-los e amá-los com tanta afeição? Ao ver 
esses pequenos inocentes, até um inimigo se enternece e os 


26 Alusão a uma passagem de Sófocles: Filoxeno assoa o nariz dentro de um apetitoso 
manjar, para Os outros ficarem com nojo e ele comê-lo sozinho. 


24 ERASMO 


socorre. Qual é a causa disso? É a natureza, que, procedendo 
com sabedoria, deu às crianças um certo ar de loucura, pelo qual 
elas obtêm a redução dos castigos dos seus educadores e se tor- 
nam merecedoras do afeto de quem as tem ao seu cuidado. 
Ama-se a primeira juventude que se sucede à infância, sente-se 
prazer em ser-lhe útil, iniciá-la, socorrê-la. Mas, de quem recebe 
a meninice os seus atrativos? De quem, se não de mim, que lhe 
concedo a graça de ser amalucada e, por conseguinte, de gozar e 
de brincar? Quero que me chamem de mentirosa, se não for ver- 
dade que os jovens mudam inteiramente de caráter logo que 
principiam a ficar homens e, orientados pelas lições e pela expe- 
riência do mundo, entram na infeliz carreira da sabedoria. 
Vemos, então, desvanecer-se aos poucos a sua beleza, diminuir a 
sua vivacidade, desaparecerem aquela simplicidade e aquela 
candura tão apreciadas. E acaba por extinguir-se neles o natural 
vigor. 

Por tudo isso, observai, senhores, que,quanto mais o homem 
se afasta de mim, tanto menos goza dos bens da vida, avançando 
de tal maneira nesse sentido que logo chega a fastidiosa e incô- 
moda velhice, tão insuportável para si como para os outros. E, já 
que falamos de velhice, não fiqueis aborrecidos se por um 
momento chamo para ela a vossa atenção. Oh! como os homens 
seriam lastimáveis sem mim, no fim dos seus dias! Mas, tenho 
pena deles e estendo-lhes a mão. Não raro, as divindades poéti- 
cas socorrem piedosamente, com o divino segredo da metamor- 
fose, os que estão prestes a morrer: Faetonte transforma-se em 
cisne, Alcione em pássaro, etc. Também eu, até certo ponto, imito 
essas benéficas divindades. Quando a trôpega velhice coloca os 
homens à beira da sepultura, então, na medida do que sei e do 
que posso, eu os faço de novo meninos. De onde o provérbio: Os 
velhos são duas vezes crianças. 


ELOGIO DA LOUCURA 25 


Perguntar-me-eis, sem dúvida, como o consigo. Da seguinte 
forma: levo essas caducas cabeças ao nosso Letes (porque, entre 
parênteses, sabeis que esse rio tem sua nascente nas ilhas Fortu- 
nadas € que um seu pequeno afluente corre nas proximidades do 
Averno) e faço-as beber a grandes goles a água do Esqueci- 
mento. E é assim que dissipam insensivelmente as suas mágoas 
e recuperam a juventude. Alegar-se-á, contudo, que deliram e 
enlouquecem: pois é isso mesmo, justamente nisso consiste o 
tornar a ser criança. O delírio e a loucura não serão, talvez, pró- 
prios das crianças? Que é que, a vosso ver, mais agrada nas 
crianças? A falta de juízo. Um menino que falasse e agisse como 
um adulto não seria um pequeno monstro? Pelo menos não 
poderíamos deixar de odiá-lo e de ter por ele um certo horror. 
Há muitos séculos, é trivial o provérbio: Odeio o menino de 
saber precoce. Quem, por outro lado, poderia fazer negócios ou 
ter relações com um velho, se este aliasse a uma longa expe- 
riência todo o vigor do espírito e a força do discernimento? 

Por conseguinte, por obra da minha bondade, o velho se torna 
criança, devendo-me a libertação de todas as fastidiosas aflições 
que atormentam o sábio. Além disso, o meu criançola não desa- 
grada numa roda de bebida, nem sente aversão pela vida, dificil- 
mente suportada na idade robusta. Torna a soletrar, muitas 
vezes, as três letras daquele tolo velho a que alude Plauto: 
AM.O. Ora, se ele fosse um pouquinho sábio, não é certo que 
seria o mais infeliz dos mortais? Mas, por efeito da minha bon 
dade, uma vez isento de todo aborrecimento e inquietação, 
recreia os amigos e é agradável na conversação. E não vemos, 
em Homero, o velho Nestor falar mais doce do que o mel, 
enquanto o feroz Aquiles prorrompe em excessos de furor? O 
mesmo poeta não nos pinta alguns velhos sentados nos muros e 
fazendo lépidos discursos? Afirmo, pois, de acordo com esse 


26 ERASMO 


raciocinio, que a felicidade da velhice supera a da meninice. Não 
se pode negar que a infância é muito feliz; mas, nessa idade, não 
se tem o prazer de tagarelar, de resmungar por trás de todos, 
como fazem os velhos, prazer que constitui o principal condi- 
mento da vida. Outra prova do meu confronto é a reciproca 
inclinação que se nota nos velhos e nos meninos, e o instinto que 
os leva a manterem entre si boas relações. Assim é que se veri- 
fica que todo semelhante ama o seu semelhante. 

De fato, essas duas idades têm uma grande relação entre si, e 
não vejo nelas outra diferença senão as rugas da velhice e a por- 
ção de carnavais que os primeiros têm sobre a corcunda. Quanto 
ao mais, a brancura dos cabelos, a falta dos dentes, o abandono 
do corpo, o balbucio, a garrulice, as asneiras, a falta de memó- 
ria, a irreflexão, numa palavra, tudo coincide nas duas idades. 
Enfim, quanto mais entra na velhice, tanto mais se aproxima o 
homem da infância, a tal ponto que sai deste mundo como as 
crianças, sem desejar a vida e sem temer a morte. 

Julgue-me, agora, quem quiser, e confronte o bom serviço que 
prestei aos homens com a metamorfose dos deuses. Não preciso 
recordar aqui os horríveis efeitos do seu ódio; falarei apenas dos 
seus benefícios. Que graças concedem eles aos que estão para 
morrer? Transformam um em árvore, outro em pássaro, este em 
cigarra, aquele em serpente, etc., que são, na verdade, grandes 
esforços de beneficência! Chega a parecer que a passagem de 
um ser para o outro é o mesmo que morrer. Quanto a mim, é o 
homem em pessoa que eu reconduzo à idade mais bela e mais 
feliz. Se os mortais se abstivessem totalmente da sabedoria e só 
quisessem viver submetidos às minhas leis, é certo que não 
conheceriam a velhice e gozariam, felizes, de uma perpétua 
Juventude. 


ELOGIO DA LOUCURA 27 


Observai, por favor, aquelas fisionomias sombrias, aqueles 
rostos torturados e sem cor, mergulhados na contemplação da 
natureza ou em outras sérias e dificeis ocupações: parecem enve- 
lhecidos antes de terminada a juventude, e isso porque um traba- 
lho mental assíduo, penoso, violento, profundo, faz com que aos 
poucos se esgotem os espíritos e a seiva da vida. Reparai, agora, 
um pouco, como os meus tolos são gordos, lúcidos e bem nutri- 
dos, ao ponto de parecerem verdadeiros porcos acarnânios? ”. 
Esses felizes mortaisnão sentiriam nenhum incômodo na velhi- 
ce, se nenhum contato tivessem com os sábios. Infelizmente, 
porém, isso acontece. Que fazer? Vê-se claramente que o homem 
não nasceu para gozar aqui na terra de uma felicidade perfeita. 

Tenho ainda em meu favor o importante testemunho de um fa- 
moso provérbio que diz: Só a loucura tem a virtude de prolongar 
a juventude, embora fugacíssima, e de retardar bastante a malfa- 
dada 'velhice. Compreende-se, pois, o que em geral se diz dos 
belgas; ao passo que em todos os outros homens a prudência 
cresce na proporção dos anos, neles, ao contrário, a loucura está 
na proporção da velhice. Pode-se dizer, portanto, que não há no 
mundo nenhuma nação mais jovial nem mais alegre do que essa, 
no comércio da vida, nem que sinta menos o aborrecimento dos 
anos. Citemos porém, além dos belgas, os povos que vivem sob 
o mesmo clima e cujos costumes são quase os mesmos: quero 
referir-me aos meus holandeses, que eu posso gabar-me de ter 
entre os meus fiéis adoradores. Nutrem por mim tanto afeto e 
tanto zelo que foram julgados dignos de um epíteto derivado do 
meu nome e, muito longe de se envergonharem, o consideram 
sua glória principal. 


27 Para Acarnânia, cidade não muito distante de Siracusa, na Sicília, iam os porcos de 
raça mais apurada. 


28 ERASMO 


Invoquem tudo isso os estultíssimos mortais, invoquem Circe, 
Medéia, Vênus, a Aurora, e procurem também aquela não sei 
que fonte que tem a virtude de rejuvenescer, virtude que somente 
eu, contudo, posso e costumo praticar. Só eu possuo o elixir 
admirável com o qual a filha de Memnão prolongou a juventude 
de Titão, seu avô. Eu sou a Vênus cujo favor rejuvenesceu Faão, 
por quem Safo andou perdidamente apaixonada. São minhas 
aquelas ervas, se é que existem, meus aqueles encantamentos, 
minha aquela fonte, que não só restituem a passada juventude, 
mas, o que é mais desejável, a tornam perpétua. Se, portanto, 
concordais em que não há nada mais precioso do que a juven- 
tude e mais detestável do que a velhice, posso concluir que reco- 
nheceis a dívida que tendes para comigo, sim, para comigo, pois 
que, para vos tornar felizes, sei prolongar tamanho bem e retar- 
dar um mal tão grande. 


Mas, por que falar ainda mais dos mortais? Percorrei todo o 
céu, analisai todas as divindades: ficarei satisfeita por me insul- 
tarem com o belo nome que tenho a honra de trazer, se for 
encontrada uma só divindade que não deva exclusivamente a 
mim todo o seu poder. Por favor: por que Baco tem sempre, 
como um rapazinho, o rosto rubicundo e a longa cabeleira 
loura? É porque passa a vida fora de si, embriagado nos banque- 
tes, nos bailes, nas festas, nos folguedos, recusando qualquer 
relação com Minerva. E tão alheio é à ambição de trazer o nome 
de sábio, que gosta de ser venerado com escárnios e zombarias. 
Nem mesmo se ofende com o provérbio que lhe dá o sobrenome 
de Ridículo, sobrenome que mereceu porque, sentado à porta do 
templo, e divertindo-se os camponeses em emporcalhá-lo de 
mosto e de figos frescos, ele se ria de arrebentar os queixos. E 
quantos golpes satíricos não desferiu contra esse deus a Comé- 


ELOGIO DA LOUCURA 29 


dia Antiga?º? — O estólido, o insulso deus! — exclamava-se. 
— Digno de haver nascido da coxa de Júpiter! — Mas, dizei-me 
sem simulação: quem de vós, a ser esse deus, estólido e insulso, 
mas sempre alegre, sempre jovem, sempre feliz, sempre motivo 
de prazer e alegria gerais, preferiria ser aquele Júpiter simulador, 
terror do mundo inteiro, ou o velho Pã, que com o seu barulho 
espalha terrores pânicos, ou o defeituoso Vulcano, todo enfuma- 
rado e cansado do estafante trabalho, ou a própria Palas, terrível 
pela lança e pela cabeça de Medusa, e que a todos encara com 
um olhar feroz? 

Passemos a outras divindades. Sabeis por que Cupido se con- 
serva sempre moço? É porque só se ocupa com bagatelas, por- 
que está sempre brincando e rindo, sem juizo e sem reflexão 
alguma, correndo puerilmente de um lado para outro, sem saber 
ao menos o que se faz ou o que se diz. Por que a áurea Vênus 
mantém sempre florida a sua beleza? Não o sabeis? É porque é 
minha parente próxima, conservando sempre no rosto a áurea 
cor de meu pai Plutão. Além disso, se devemos prestar fé aos 
poetas e aos seus rivais, os escultores, essa deusa aparece sempre 
com uma expressão risonha e satisfeita, sendo com razão cha- 
mada por Homero de áurea Vênus. E Flora, mãe das delícias, 
não era, talvez, um dos principais objetos da religião dos 
romanos? 

Das divindades dos prazeres já falamos bastante. Fazeis ques- 
tão, agora, de conhecer a vida dos deuses tétricos e melancó- 
licos? Interrogai Homero e os outros poetas, e eles poderão 
dizer-vos, a esse respeito, belíssimas coisas, fazendo-vos ver que 
os deuses são pelo menos tão loucos quanto os mortais. Júpiter 
deixa os seus raios, abandona as rédeas do universo, para entre- 


28 Atribuíam-se a Baco dois nascimentos: um, materno; outro, da coxa de Júpiter. 


30 ERASMO 


gar-se aos amores, o que para vós não constitui novidade. 
Esquece o seu sexo a altiva e inacessível Diana, para consagrar- 
se inteiramente à caça, o que não impede que se apaixone louca- 
mente por seu ardoroso Endimião, a ponto de se dar, muitas 
vezes, ao incômodo de descer do céu, em forma de Lua, para 
cumulá-lo com seus favores. Mas prefiro que as suas indecências 
sejam reprovadas por Momo?º, cujas censuras são eles os úni- 
cos a ouvir. Foi, pois, bem feito que os deuses, enraivecidos, o 
precipitassem à terra juntamente com Ate*º, porque, importuno 
com a sua sabedoria, ele perturbava sua felicidade. E, longe de 
encontrar acolhimento nos paços monárquicos, não acha uma 
alma que lhe preste hospitalidade em seu exílio, ao passo que a 
Adulação, minha companheira, ocupa sempre o primeiro lugar, 
essa mesma Adulação que sempre esteve de acordo com Momo 
como o lobo com o cordeiro. 

E assim, livres da importuna censura de Momo, os deuses se 
entregaram com maior liberdade e alegria a toda sorte de praze- 
res. Com efeito, quantas palavras chistosas não pronuncia aque- 
le Priapo de uma figa? Quanto não faz rir Mercúrio com suas 
ladroeiras e seus feitiços? Que não faz Vulcano?" nos banquetes 
dos deuses? Poe-se a correr para chamar a atenção sobre o seu 
andar claudicante, brinca, diz asneiras, em suma, faz tudo para 
tornar o banquete alegre. E que direi daquele velho imbecil que 
se apaixonou por Silene e gosta de dançar com Polifemo e com 
as ninfas? E daqueles sátiros semicapros que em suas danças 
praticam cem atos imodestissimos? Pã provoca o riso dos deu- 


2º Momo, filho do Sono e da Noite; deus ocioso, que censura os outros deuses. 

3º Ates, a Discórdia. 

31 Diz Homero que Vulcano serve a mesa nos banquetes, faz os deuses rirem com o seu 
andar claudicante, serve o néctar a sua mãe e diz coisas engraçadas para reconciliá-la com 
Júpiter, seu pai. 


ELOGIO DA LOUCURA 31 


ses com suas insípidas cantilenas: eles o escutam com grande 
atenção e preferem cem vezes a sua música à das musas, princi- 
palmente quando os vapores do néctar principiam a perturbar- 
lhes a cabeça. Mas, por que não hei de recordar as extrava- 
gâncias que fazem as divindades depois dos banquetes, 
sobretudo depois de terem bebido muito? Asseguro-vos, por 
Deus, que, embora eu seja a Loucura e esteja, por conseguinte, 
habituada a toda espécie de extravagâncias, muitas vezes não 
consigo conter o riso. Mas é melhor que me cale, porque, se 
algum deus desconfiado e prevenido me escutasse, também eu 
poderia ter a mesma sorte de Momo. 

Mas já é tempo de, seguindo o. exemplo de Homero, passar- 
mos alternadamente, dos habitantes do céu aos da terra, onde 


nada se descobre de feliz e de alegre que não seja obra minha. 
Primeiro, vós bem vedes com que providência a natureza, esta 


mãe produtora do gênero humano, dispôs que em coisa alguma 
faltasse o condimento da loucura. Segundo a definição dos estói- 
cos, sábio é aquele que vive de acordo com as regras da razão, € 
louco, ao contrário, é o que se deixa arrastar ao sabor de suas 
paixões. Eis por que Júpiter, com receio de que a vida do homem 
se tornasse triste e infeliz, achou conveniente aumentar muito 
mais a dose das paixões que a da razão, de forma que a dife- 
rença entre ambas é pelo menos de um para vinte e quatro. Além 
disso, relegou a razão para um estreito cantinho da cabeça, dei- 
xando todo o resto do corpo presa das desordens e da confusão. 
Depois, ainda não satisfeito com isso, uniu Júpiter à razão, que 
está sozinha, duas fortissimas paixões, que são como dois 
impetuosissimos tiranos: uma é a Cólera, que domina o coração, 
centro das vísceras e fonte da vida; a outra é a Concupiscência, 
que estende o seu império desde a mais tenra juventude até a 


32 ERASMO 


idade mais madura. Quanto ao que pode a razão contra esses 
dois tiranos, demonstra-o bem a conduta normal dos homens. 
Prescreve os deveres da honestidade, grita contra os vícios a 
ponto de ficar rouca, e é tudo o que pode fazer; mas os vícios 
riem-se de sua rainha, gritam ainda mais forte e mais imperiosa- 
mente do que ela, até que a pobre soberana, não tendo mais fóle- 
go, é constrangida a ceder e a concordar com os seus rivais. 

De resto, tendo o homem nascido para o manejo e a adminis- 
tração dos negócios, era justo aumentar um pouco, para esse 
fim, a sua pequeníssima dose de razão, mas, querendo Júpiter 
prevenir melhor esse inconveniente, achou de me consultar a res- 
peito, como, aliás, costuma fazer quanto ao resto. Dei-lhe uma 
opinião verdadeiramente digna de mim: — Senhor — disse-lhe 
eu — dá uma mulher ao homem, porque, embora seja a mulher 
um animal inepto e estúpido, não deixa contudo de ser mais ale- 
gre e suave, e, vivendo familiarmente com o homem, saberá tem- 
perar com sua loucura o humor áspero e triste deste. 

Quando Plutão pareceu hesitar se devia incluir a mulher no 
gênero dos animais racionais ou no dos brutos, não quis com 
isso significar que a mulher fosse um verdadeiro bicho, mas pre- 
tendeu, ao contrário, exprimir com essa dúvida a imensa dose de 
loucura dô querido animal. Se, porventura, alguma mulher meter 
na cabeça a idéia de passar por sábia, só fará mostrar-se dupla- 
mente louca, procedendo mais ou menos como quem tentasse 
untar um boi, malgrado seu, com o mesmo óleo com que costu- 
mam ungir-se os atletas. Acreditai-me, pois, que todo aquele 
que, agindo contra a natureza, se cobre com o manto da virtude, 
ou afeta uma falsa inclinação ou não faz senão multiplicar os 
próprios defeitos. E isso porque, segundo o provérbio dos gre- 
gos, o macaco é sempre macaco, mesmo vestido de púrpura. 


ELOGIO DA LOUCURA 33 


Assim também a mulher é sempre mulher, isto é, sempre louca, 
seja qual for a máscara sob a qual se apresente. 

Não quero, todavia, acreditar jamais que o belo sexo seja tolo 
ao ponto de se aborrecer comigo pelo que eu lhe disse, pois tam- 
bém sou mulher, e sou a Loucura. Ao contrário, tenho a impres- 
são de que nada pode honrar tanto as mulheres como o associá- 
las à minha glória, de forma que, se julgarem direito as coisas, 
espero que saibam agradecer-me o fato de eu as ter tornado mais 
felizes do que os homens. 

Antes de tudo, têm elas o atrativo da beleza, que com razão 
preferem a todas as outras coisas, pois é graças a esta que exer- 
cem uma absoluta tirania mesmo sobre os mais bárbaros tira- 
nos. Sabereis de. que provém aquele feio aspecto, aquela pele hís- 
pida, aquela barba cerrada, que muitas vezes fazem parecer 
velho um homem que se acha ainda na flor dos anos? Eu vo-lo 
direi: provém do maldito vício da prudência, do qual são priva- 
das as mulheres, que por isso conservam sempre a frescura da 
face, a sutileza da voz, a maciez da carne, parecendo não acabar 
nunca, para elas, a flor da juventude. Além disso, que outra 
preocupação têm as mulheres, a não ser a de proporcionar aos 
homens o maior prazer possível? Não será essa a única razão 
dos enfeites, do carmim, dos banhos, dos penteados, dos perfu- 
mes, das essências aromáticas, e de tantos outros artifícios e 
modas sempre diferentes de vestir-se e disfarçar os defeitos, real- 
çando a graça do rosto, dos olhos, da cor? Quereis prova mais 
evidente de que só a loucura constitui o ascendente das mulheres 
sobre os homens? Os homens tudo concedem às mulheres por 
causa da volúpia, e, por conseguinte, é só com a loucura que as 
mulheres agradam aos homens. Para confirmar ainda mais essa 
conclusão, basta refletir nas tolices que se dizem, nas loucuras 


34 ERASMO 


que se fazem com as mulheres, quando se anseia por extinguir o 
fogo do amor. 

Já vos revelei, portanto, a fonte do primeiro e supremo prazer 
da vida. Concordo em que alguns existam (sobretudo certos ve- 
lhos mais bebedores que mulherengos) cujo supremo prazer não 
seja a devassidão. Deixo indecisa a questão de saber se é possi- 
vel um bom banquete sem mulheres. O que é certo é que mesa al- 
guma nos pode agradar sem o condimento da loucura. E tanto 
isso é verdade que, quando nenhum dos convidados se julga ma- 
luco ou, pelo menos, não finge sê-lo, é pago um bobo, ou convi- 
dado um engraçado filante que, com suas piadas, suas brincadei- 
ras, suas bobagens, expulse da mesa o silêncio e a melancolia. 
Com efeito, que nos adiantaria encher o estômago com tão sun- 
tuosas, esquisitas e apetitosas iguarias, se os olhos, os ouvidos, o 
espírito e o coração não se nutrissem também de diversões, risa- 
das e agradáveis conceitos? Ora, sou eu a inventora exclusiva de 
tais delícias. Teriam sido, porventura, os sete sábios da Grécia 
os descobridores de todos os prazeres de um banquete, como 
sejam tirar a sorte para se saber quem deve ser o rei da mesa, 
jogar dado, beberem todos no mesmo copo, cantar um de cada 
vez com o ramo de murta na mão*?, dançar, pular, ficar em và- 
rias atitudes? Decerto que não: somente eu podia inventá-los, 
para a felicidade do gênero humano. Todas as coisas são de tal 
natureza que, quanto mais abundante é a dose de loucura que 
encerram, tanto maior é o bem que proporcionam aos mortais. 
Sem alegria, a vida humana nem sequer merece o nome de vida. 
Mergulhariamos na tristeza todos os nossos dias, se com essa 
espécie de prazeres não dissipássemos o tédio que parece ter nas- 
cido conosco. 

32 Cantar com um ramo de murta na mão era um costume dos antigos: o primeiro a can- 


tar pegava um ramo de murta e, ao terminar, entregava-o ao vizinho, que fazia o mesmo, 
e assim até ao último convidado. 


ELOGIO DA LOUCURA 35 


Talvez haja pessoas que, à falta de tais passatempos, limitem 
toda a sua felicidade às relações com verdadeiros amigos, repe- 
tindo sem cessar que a doçura de uma terna e fiel amizade ultra- 
passa todos os outros prazeres, sendo tão necessária à vida 
como o ar, a água, o fogo. — Tão agradável é a amizade 
acrescentam — que afastá-la do mundo equivaleria a afastar o 
sol; em suma, é ela tão honesta (vocábulo sem significado para 
mim) que os próprios filósofos não hesitam em incluí-la entre os 
principais bens da vida. — Mas, que se dirá, quando eu provar 
que sou também a única fonte criadora de semelhante bem? 
Vou, pois, demonstrá-lo, não com sofismas, nem com capri- 
chosos argumentos tão ao gosto de retóricos, mas à boa maneira 
e com toda a clareza. 

Coragem, vamos! Dissimular, enganar, fingir, fechar os olhos 
aos defeitos dos amigos, ao ponto de apreciar e admirar grandes 
vícios como grandes virtudes, não será, acaso, avizinhar-se da 
loucura? Beijar, num transporte, uma verruga da amiga, ou sen- 
tir com prazer o fedor do seu nariz, e pretender um pai que o 
filho zarolho tenha dois olhos de Vênus*?, não será isso uma 
verdadeira loucura? Bradem, pois, quanto quiserem, ser uma 
grande loucura, e acrescentarei que essa loucura é a única que 
cria e conserva a amizade. Falo aqui unicamente dos homens, 
dos quais não há um só que tenha nascido sem defeitos, e admi- 
tindo que, para nós, o homem melhor seja o que tem menores vi- 
cios. É por isso que os sábios, pretendendo divinizar-se com sua 
filosofia, ou não contraem nenhuma amizade ou tornam a sua 
uma ligação áspera e desagradável. Além disso, só costumam 
gostar sinceramente de raríssimas pessoas, de forma que ne- 
nhum escrúpulo me impede de asseverar que não gostam absolu- 


33 Costumava-se pintar Vênus com os olhos um pouco estrábicos, para despertar o amor 
e o desejo, e porque o estrabismo de certas mulheres não passa de pura afetação. 


36 ERASMO 


tamente de ninguém, pela razão que vou apresentar. Quase todos 
os homens são loucos; mas por que quase todos? Não há quem 
não faça suas loucuras e, a esse respeito, por conseguinte, todos 
se assemelham; ora, a semelhança é justamente o principal fun- 
damento de toda estreita amizade. 

Quando, porventura, nasce entre esses austeros filósofos uma 
reciproca benevolência, decerto que não é sincera nem durável. 
Todos eles são de humor volúvel e intratável, além de serem 
penetrantes demais: têm olhos de lince para descobrir os defeitos 
dos amigos, e de toupeira para ver os próprios. Portanto, como 
os homens estão sujeitos a muitas imperfeições (e podeis acres- 
centar a estas a diferença de idade e de inclinações, os numero- 
sos erros, passos em falso e vicissitudes da vida humana), como 
poderia por um só instante subsistir entre esses Argos o laço da 
amizade, se a euétheia, como a chamam os gregos, que em latim 
equivale a estupidez ou conivência, não o reforçasse? Não traz 
Cupido, esse autor, esse pai de toda ternura, uma venda nos 
olhos, que lhe faz confundir o belo com o feio? Não é ele, 
porventura, que faz cada um achar belo o que é seu, de forma 
que o velho é tão apaixonado por sua velha quanto o jovem por 
sua donzela? Essas coisas se verificam em toda parte, mas em 
toda parte são motivo de riso. Pois são justamente essas coisas 
ridículas que formam o principal laço da sociedade e que, mais 
do que tudo, contribuem para a alegria da vida. 

O que dissemos da amizade também pensamos e com mais 
razão dizemos do matrimônio. Trata-se (como deveis estar far- 
tos de saber) de um laço que só pode ser dissolvido pela morte. 
Deuses eternos! Quantos divórcios não se verificariam, ou coi- 
sas ainda piores do que o divórcio, se a união do homem com a 
mulher não se apoiasse, não fosse alimentada pela adulação, 


ELOGIO DA LOUCURA 37 


pelas carícias, pela complacência, pela volúpia, pela simulação, 
em suma, por todas as minhas sequazes e auxiliares? Ah! como 
seriam poucos os matrimônios, se o noivo prudentemente inves- 
tigasse a vida e os segredos de sua futura cara-metade, que lhe 
parece o retrato da discrição, da pudicícia e da simplicidade! 
Ainda menos numerosos seriam os matrimônios duráveis, se os 
maridos, por interesse, por complacência ou por burrice, não 
ignorassem a vida secreta de suas esposas. Costuma-se achar 
isso uma loucura, e com razão; mas é justamente essa loucura 
que torna o esposo querido da mulher, e a mulher, do esposo, 
mantendo a paz doméstica e a unidade da família. Corneia-se 
um marido? Toda a gente ri e o chama de corno, enquanto o 
bom homem, todo atencioso, fica a consolar a cara-metade, e 
enxugar com seus ternos beijos as lágrimas fingidas da mulher 
adúltera. Pois não é melhor ser enganado dessa forma do que 
roer-se de bílis, fazer barulho, pôr tudo de pernas para o ar, ficar 
furioso, abandonando-se a um ciúme funesto e inútil? Afinal de 
contas, nenhuma sociedade, nenhuma união grata e durável 
poderia existir na vida, sem a minha intervenção: o povo não 
suportaria por muito tempo o príncipe, nem o patrão o servo, 
nem a patroa a criada, nem o professor o aluno, nem o amigo o 
amigo, nem o marido a mulher, nem o hospedeiro o hóspede, 
nem o senhorio o inquilino, etc., se não se enganassem recipro- 
camente, não se adulassem, não fossem prudentemente câúmpli- 
ces, temperando tudo com um grãozinho de loucura. Não duvi- 
do de que tudo o que até agora vos disse vos tenha parecido da 
máxima importância. E de que duvida a Loucura? Mas muitas 
outras coisas deveis ainda escutar de mim. Redobrai, pois, vossa 
gentil atenção. 

Dizei-me por obséquio: um homem que odeia a si mesmo 


38 ERASMO 


poderá, acaso, amar alguém? Um homem que discorda de si 
mesmo poderá, acaso, concordar com outro? Poderá ser capaz 
de inspirar alegria aos outros quem tem em si mesmo a aflição e 
o tédio? Só um louco, mais louco ainda do que a própria Loucu- 
ra, admitireis que possa sustentar a afirmativa de tal opinião. 
Ora, se me excluirdes da sociedade, não só o homem se tornará 
intolerável ao homem, como também, toda vez que olhar para 
dentro de si, não poderá deixar de experimentar o desgosto de 
ser o que é, de se achar aos próprios olhos imundo e disforme, e, 
por conseguinte, de odiar a si mesmo. A natureza, que em mui- 
tas coisas é mais madrasta do que mãe, imprimiu nos homens, 
sobretudo nos mais sensatos, uma fatal inclinação no sentido de 
cada qual não se contentar com o que tem, admirando e alme- 
jando o que não possui: daí o fato de todos os bens, todos os 
prazeres, todas as belezas da vida se corromperem e se reduzi- 
rem a nada. Que adianta um rosto bonito, que é o melhor pre- 
sente que podem fazer os deuses imortais, quando contaminado 
pelo mau cheiro? De que serve a juventude, quando corrompida 
pelo veneno de uma hipocondria senil? Como, finalmente, pode- 
reis agir em todos os deveres da vida, quer no que diz respeito 
aos outros, quer a vós mesmos — como, repito, podereis agir 
com decoro (pois agir com decoro constitui o artifício e a base 
principal de toda ação), se não fordes auxiliados por esse amor- 
próprio que vedes à minha direita e que merecidamente me faz 
as vezes de irmão, não hesitando em tomar sempre o meu parti- 
do em qualquer desavença? Vivendo sob a sua proteção, ficais 
encantados pela excelência do vosso mérito e vos apaixonais por 
vossas eximias qualidades, o que vos proporciona a vantagem de 
alcançardes o supremo grau de loucura. Mais uma vez repito: se 
vos desgostais de vós mesmos, persuadi-vos de que nada pode- 


ELOGIO DA LOUCURA 39 


reis fazer de belo, de gracioso, de decente. Roubada à vida essa 
alma, languesce o orador em sua declamação, inspira piedade o 
músico com suas notas e seu compasso, ver-se-àã o cômico vaia- 
do em seu papel, provocarão o riso o poeta e as suas musas, O 


melhor pintor não conquistará senão críticas e desprezo, morre- 
rã de fome o médico com todas as suas receitas, em suma 
Nereu3 4 aparecerá como Tersites, Faão como Nestor, Minerva 
como uma porca, o eloquente como um menino, o civilizado 
como um bronco. Portanto, é necessário que cada qual lisonjeie 
e adule a si mesmo, fazendo a si mesmo uma boa coleção de elo- 
gios, em lugar de ambicionar os de outrem. Finalmente, a felici- 
dade consiste, sobretudo, em querer ser o que se é. Ora, só o di- 
vino amor-próprio pode conceder tamanho bem. Em virtude do 
amor-próprio, cada qual estã contente com seu aspecto, com seu 
talento, com sua família, com seu emprego, com sua profissão, 
com seu país, de forma que nem os irlandeses desejariam ser ita- 
lianos, nem os trácios, atenienses, nem os citas, habitantes das 
ilhas Fortunadas. Oh! surpreendente providência da natureza! 


Em meio a uma infinita variedade de coisas, ela soube pór tudo 
no mesmo nível. E, se não se mostrou avara na concessão de 
dons aos seus filhos, mais pródiga se revelou ainda ao conceder- 
lhes o amor-próprio. Que direi dos seus dons? É uma pergunta 
tola. Com efeito, não será o amor-próprio o maior de todos os 
bens? 

Mas, para vos mostrar que tudo quanto entre os homens exis- 
te de célebre, estupendo, glorioso, é tudo obra minha, quero 
começar pela guerra. Não se pode negar que essa grande arte 
34 Segundo Homero, Nereu era o mais belo dentre os que assediavam Tróia, e Tersites o 


mais disforme. — Faão foi rejuvenescido por Vênus, o que fez Safo apaixonar-se perdida- 
mente por ele. — Nestor viveu três séculos. 


40 ERASMO 


seja a fonte e o fruto das mais estrepitosas ações. No entanto, 
que coisa se poderia imaginar de mais estúpido que a guerra? 
Dois exércitos se batem (sabe Deus por que motivo) e da sua 
animosidade obtêm muito mais prejuizo do que vantagem. Os 
que morrem inutilmente na guerra são incontáveis como os 
megareses? *. Além disso, dizei-me: que serviço poderiam pres- 
tar os sábios, quando os exércitos se estendem em ordem de 
combate e reboam no espaço o rouco som das cornetas e o rufar 
dos tambores, ao passo que eles, definhados pelo estudo e pela 
meditação, arrastam com dificuldade uma vida que se tornou 
enferma pelo pouco sangue, frio e sutil, que lhes circula nas 
veias? 8? São necessários homens troncudos e grosseiros, robus- 
tos e audazes, mas de muito pouco talento, sim, são necessárias 
justamente semelhantes máquinas para o mister das armas. 
Quem poderá conter o riso ao ver Demóstenes fardado, para 
que, seguindo o sábio conselho de Arquíloco? 7, mal aviste ini- 
migo, jogue fora o escudo e se ponha a correr sem parar, pouco 
lhe importando que se revele, assim, um soldado tão covarde 
quanto excelente orador? 

Podereis dizer-me que a guerra exige grande prudência. Con- 
cordo convosco, mas somente quanto aos generais e feita a res- 
salva de que se trata apenas de uma prudência toda especial, 
relativa ao mister das armas e que nenhuma relação tem com a 
sabedoria filosófica. É por isso que os parasitas, os proxenetas, 
os ladrões, Os sicários, os boçais, os estúpidos, os falidos e, em 
geral, toda a escória social podem aspirar muito mais à imortali- 


35 Provérbio de Teócrito, inspirado pela resposta do Oráculo, segundo a qual os megare- 
ses eram incontáveis. 

36 Diz Aristóteles que a efervescência e a densidade do sangue é que produzem a força, 
a audácia e a estupidez dos homens; ao contrário, a sutileza e a frieza produzem a fraque- 
za, a pusilanimidade e o talento. 

37 Os espartanos baniram Arquiloco, por ele se gabar, convencido do seu “mérito”, de ter 
abandonado o escudo para fugir mais depressa. 


ELOGIO DA LOUCURA 41 


dade da guerra do que os homens que vivem dia e noite absorvi- 
dos na contemplação. Quereis um grande exemplo da inutilidade 
desses filósofos? Tomai o incomparável Sócrates, declarado 
pelo oráculo de Apolo como o primeiro e único sábio. Estúpida 
declaração ! Mas, não importa: não sabendo eu o que tenha esse 
filósofo empreendido em benefício público, deveis deixá-la aban- 
donada ao escárnio universal. É que esse homem não era de todo 
louco, tendo embora recusado constantemente o título de sábio e 
respondido que semelhante título só era conveniente à divindade. 
Era também de opinião que qualquer que desejasse passar por 
sábio devia abster-se totalmente do regime da república. Se, 
porém, tivesse acrescentado que quem deseja ser tido em conta 
de homem deve abster-se de tudo o que se chama sabedoria, 
então eu teria concebido a seu respeito alguma opinião favorá- 
vel. Mas, afinal de contas, por que é que esse grande homem foi 
acusado perante os magistrados? Por que foi ele condenado a 
beber cicuta? Não teria sido, talvez a sua sabedoria a causa de 
todos os seus males e, finalmente, de sua morte? Tendo passado 
toda a vida a raciocinar em torno das nuvens e das idéias, 
ocupando-se em medir o pé de uma pulga e se perdendo em 
admirar o zumbido do pernilongo, descuidou-se esse filósofo do 
estudo e do conhecimento dos homens, bem como da arte suma- 
mente necessária de se adaptar a eles. Aí tendes, nesse retrato, O 
que também diz respeito a múitos dos nossos. Platão, que foi 
discípulo de Sócrates, ao ver o mestre ameaçado do último supli- 
cio, empenhou-se em tratar a sua causa como valente defensor, 
abriu a boca para realizar o seu digno papel, mas, perturbado 
pelo barulho da assembléia, perdeu-se na metade do primeiro 
periodo. Que direi de Teofrasto, discípulo de Aristóteles, que 


mereceu tal nome por sua eloqiência? Ao pretender falar ao 


42 ERASMO 


povo, perdeu a voz, de tal forma que se diria “ter visto o lobo”. 
Pergunto, agora, se esses homens seriam capazes de encorajar os 
soldados. Isócrates, que sabia compor tão belas orações, dese- 
jou, acaso, falar em público? O próprio Cícero, pai da 
eloquência romana, costumava tremer e gaguejar como um me- 
nino no início de suas orações. É verdade que Fábio interpreta 
essa timidez como o traço distintivo do orador penetrante e que 
conhece o perigo a que se acha exposto; mas esse simples fato 
não será a confissão de que a filosofia é absolutamente incompa- 
tível com os negócios públicos? Como, pois, poderiam esses sá- 
bios sustentar o ferro e o fogo da guerra, se morrem de medo 
toda vez que não se trata de combater apenas com a língua? 

E, depois de tudo quanto dissemos, será possivel decantar a 
célebre máxima de Platão, segundo a qual “as repúblicas seriam 
felizes se governadas pelos filósofos ou se os principes filosofas- 
sem”? Tenho a honra de vos dizer que a coisa é justamente o 
oposto. Se consultardes os historiadores, verificareis, sem dúvi- 
da, que os príncipes mais nocivos à república foram os que ama- 
ram as letras e a filosofia. Parece-me que os dois Catões?*º bas- 
tam como prova do que afirmo: um perturbou a tranquilidade de 
Roma com numerosas delegações estúpidas, e o outro, por ter 
querido defender com excessiva sabedoria os interesses da repú- 
blica, destruindo pela base a liberdade do povo romano. Acres- 
centai a estes os Brutos*º, os Cássios, os Gracos e o próprio Ci- 
cero, que não causou menor dano à república de Roma do que 
38 Catão, o Censor, acusado quarenta vezes, foi sempre absolvido. Apesar disso, foi o 
autor de mais de setenta condenações. — Catão de Útica foi obstinado opositor de César. 
3º Bruto e Cássio foram chamados “os últimos romanos”. Depois de matarem César, 
foram vencidos e se suicidaram. — Tibério e Caio Graco, ambos eloguentes, ambos sedi- 


ciosos, acabaram morrendo num conflito. — Cicero combateu Marco Antônio e Demós- 
tenes adversou Filipe. 


ELOGIO DA LOUCURA 43 


Demóstenes à de Atenas *º. Quero lembrar que Antonino foi um 
bom principe, embora haja fortes indícios em contrário e justa- 
mente porque, tendo sido excessivamente filósofo, acabou 
tornando-se importuno e odioso aos cidadãos; mas, ao lembrar 
que foi bom, devo recordar, sem me contradizer, que foi ainda 
mais nocivo ao império, por ter deixado como sucessor o seu 
filho Cômodo, do que o favoreceu com sua administração. Os 
homens que se consagram ao estudo da ciência são, em geral, 
infelicissimos em tudo, sobretudo com os filhos. Suponho que 
isso provenha de uma precaução da natureza, que dessa forma 
procura impedir que a peste da sabedoria se difunda em excesso 
entre os mortais. O filho de Cícero degenerou, e, quanto aos dois 
filhos do sábio Sócrates, mais se pareciam com a mãe do que 
com o pai, isto é, como foi acertadamente interpretado por 
alguém, eram ambos idiotas. 

Isso não seria nada se esses filósofos só fossem incapazes de 
exercer os cargos e empregos públicos; o pior, porém, é que 
estão longe de ser melhores para as funções e os deveres da vida. 
Convidai um sábio para um banquete, e vereis que ou conser- 
varã um profundo silêncio ou interromperá os demais convida- 
dos com frivolas e importunas perguntas. Convidai-o para um 
baile, e dançará com a agilidade de um camelo. Levai-o a um 
espetáculo, e bastará o seu aspecto para impedir que o povo se 
divirta. Por se ter recusado obstinadamente a abandonar sua 
imponente gravidade, é que o sábio Catão *'! foi constrangido a 
retirar-se. Entra o sábio em alguma palestra alegre? Logo todos 


so Cicero levou Antônio a destruir a república romana, e Demóstenes, os atenienses a 
fazer a guerra contra Filipe, com funestos resultados. 

“1 Estando Catão presente aos jogos florais, não quiseram os atores iniciá-los, porque as 
mulheres dançavam nuas e os homens formavam grupos lascivos. Exigiram-lhe, então, que 
deixasse o seu ar de gravidade ou se retirasse. Catão tomou o último partido. 


44 ERASMO 


se calam, como se tivessem visto o lobo. Trata-se, porém, de 
comprar, de vender, de concluir um contrato, em suma, de fazer 
uma dessas coisas que diariamente sucedem a cada um? Toma- 
reis o sábio mais por uma estátua do que por um homem, a tal 
ponto se mostra ele embaraçado em cada negócio. Assim, o filó- 
sofo não é bom, nem para si, nem para o seu país, nem para os 
seus. Mostrando-se sempre novo no mundo, em oposição às opi- 
niões e aos costumes da universalidade dos cidadãos, atrai O 
ódio de todos com sua diferença de sentimentos e de maneiras. 

Tudo o que fazem os homens está cheio de loucura. São lou- 
cos tratando com loucos. Por conseguinte, se houver uma única 
cabeça que pretenda opor obstáculo à torrente da multidão, só 
lhe posso dar um conselho: que, a exemplo de Timão 42, se retire 
para um deserto, a fim de aí gozar à vontade dos frutos de sua 
sabedoria. 


Mas, voltando ao assunto: que virtude, que poder já reuniu, 
no recinto de uma cidade, homens naturalmente rudes, indômi- 


tos e selvagens? Quem já pôde humanizar esses ferozes animais? 
A adulação. Nesse sentido é que se devem entender a fábula de 


Anfião “3 e a citara de Orfeu. Quem reanimou e reuniu a plebe 
romana, quando ameaçava dissolver-se? Foi, acaso, uma oração 


filosófica? Decerto que não: foi um ridículo, um pueril apólogo 
sobre a revolta dos membros contra o estômago **. Temisto- 


“2 Escandalizado com os costumes dos seus concidadãos, esse filósofo se retirou para um 
deserto, rompendo toda a ligação com os homens. 

“3 Segundo a lenda, quando Anfião cantava, as pedras se transformavam em muralha. — 
Com sua citara, Orfeu fazia correrem atrás de si as pedras, as plantas e os animais. 

** Achando-se o povo romano cheio de dívidas e oprimido pela crueldade dos patrícios, 
os plebeus fugiram de Roma e foram acampar no Monte Sacro. O Senado enviou-lhes, 
então, Menênio Agripa, que, como orador, devia induzi-los a voltar. Menênio conseguiu-o 
com o seguinte apólogo: “Os membros — disse ele — insurgiram-se, uma vez, contra o 
estômago, acusando-o de explorar o seu trabalho, sem nada fazer para eles. Em seguida, 
recusaram-se a lhe prestar o habitual auxílio. E logo cairam numa fraqueza mortal, reco- 
nhecendo então o seu erro”. 


ELOGIO DA LOUCURA 45 


cles* * produziu o mesmo efeito com o seu apólogo da raposa e 
o ouriço. Empregue, pois, o sábio os mais tolos conceitos da filo- 
sofia, e jamais triunfará como um Sertório * * com sua imagi- 
nária corça ou o engraçado ardil da cauda dos dois cavalos. Não 
alcançará nunca o seu objetivo como o alcançaram os dois cães 
do célebre legislador de Esparta * 7. Já não falo de Minos nem de 
Numa*&, que por meio de fabulosas invenções souberam tirar 
proveito da ignorância popular. É sempre com semelhantes 
puerilidades que se faz mover a grande e estúpida besta que se 


chama povo. 
Dizei-me se houve uma única cidade que tenha adotado as leis 


de Platão e de Aristóteles, ou as máximas de Sócrates*º. 
Respondei-me: que motivo levou os Décios, pai e filho, a se 
consagrarem aos deuses infernais? Que ganhou Cúrcio precipi- 
tando-se na voragem *º? Tudo foi obra da glória, dessa dulcis- 


45 Estando o povo ateniense indignado com a avareza dos magistrados, Temistocles con- 
tou que uma raposa picada pelas moscas agradeceu ao ouriço que se ofereceu para coçá- 
la, dizendo-lhe que o remédio seria pior do que o mal. 

“6 Plutarco, na vida de Sertório, conta que esse general enganou os espanhóis declaran- 
do-lhes que Diana lhe dera de presente uma corça muito bonita que lhe revelava todas as 
coisas. — O mesmo Sertório, na guerra contra Pompeu, quis mostrar a um bando de bár- 
baros que vale mais o engenho do que a força. Mandou vir dois cavalos, um velho e muito 
magro, e o outro fogoso; depois, mandou que um homem robusto arrancasse a cauda do 
primeiro, mas o homem, por mais força que empregasse, não o conseguiu. Então, mandou 
que um homem fraco arrancasse, fio por fio, a cauda do cavalo fogoso. E num instante a 
ordem foi executada. 

47 Licurgo, para mostrar aos lacedemônios a força da educação, pegou dois cães da 
mesma raça, um muito habituado a caçar e o outro amansado em casa. Em seguida, tendo 
posto diante de ambos uma panela cheia de comida e deixado em liberdade uma lebre o 
primeiro saiu em perseguição da lebre e o segundo dirigiu-se para a panela. 

*8 Minos, rei de Creta, a fim de tornar mais venerada sua autoridade, fez espalhar que, de 
nove em nove anos, Júpiter, seu pai, lhe indicava as leis que devia criar para o povo. 
Numa, também, inventou que tinha conferências noturnas com a deusa Egéria, que lhe 
aconselhava a instituição dos sacrifícios e das leis. 

“º São máximas de Sócrates: É melhor sofrer uma injúria do que fazê-la; a morte não é 
um mal; a filosofia consiste em meditar na morte, etc. 

Sº Surgiu uma voragem no Foro de Roma e, consultado o oráculo, este respondeu que a 
mesma só se fecharia se se jogasse dentro dela tudo quanto o povo romano tinha de mais 
precioso. Cúrcio precipitou-se, então, no abismo, com suas armas e seu cavalo, certo de 
que o povo romano nada possuía de mais precioso que as suas armas e a sua bravura. 


46 ERASMO 


sima sereia que, por isso, foi muito condenada por nossos sá- 
bios. É por isso que eles exclamam: — Pode haver maior 
loucura que a de um candidato que adula suplicantemente o 
povo para conquistar honras e que compra o seu favor à custa 
de liberalidade? que a daquele que recebe servil e humildemente 
os aplausos dos mentecaptos? daquele que fica lisonjeado com 
as aclamações populares? daquele que se deixa carregar em 
triunfo, como uma estátua, para ser visto pelo povo, ou que é efi- 
giado em bronze no foro? A todas essas loucuras, acrescentai a 
da adoção dos nomes e sobrenomes; acrescentai as honras divi- 
nas prestadas a um homem sem mérito algum; acrescentai, final- 
mente, as cerimônias públicas levadas a efeito para colocar no 
número dos deuses os mais celerados tiranos*!. Quem será 
capaz de negar que não há coisa mais tola? Não bastaria um 
Demócrito para rir bastante disso. Mas não será também verda- 
de que a Loucura foi a autora de todas as famosas proezas dos 
valorosos heróis que tantos literatos eloquentes elevaram as 
estrelas? É a Loucura que forma as cidades; graças a ela é que 


subsistem os governos, a religião, os conselhos, os tribunais; e é 
mesmo lícito asseverar que a vida humana não passa, afinal, de 
uma espécie de divertimento da Loucura. 

Mas passemos, agora, a falar das artes. Quem anima os ho- 
mens a descobrir, a transmitir aos seus pósteros tantas produ- 
ções, ao parecer excelentes, se não a sede de glória? Acharam 
esses homens, na verdade bastante tolos, que não deviam poupar 
nem velas, nem suor, nem esforços de fadiga para conquistar 


** Os romanos costumavam divinizar os imperadores defuntos enchendo de palha e de 


perfumes uma alta torre, à qual ficava presa uma águia; esta, libertada pelas chamas, 
levantava vôo, enquanto um perfume suavíssimo se desprendia do braseiro. O povo acredi- 
tava que se tratasse da alma do príncipe subindo aos céus. 


ELOGIO DA LOUCURA 47 


não sei que imortalidade, a quai não passa, em última análise, de 
uma belíssima quimera. Deveis, pois, à Loucura todos os bens 
que já se introduziram no mundo, todos esses bens que estais 
gozando e que tanto contribuem para a felicidade da vida. 

Pois bem, que direis, senhores, se, depois de vos ter provado 
que a mim se devem todos os louvores atribuídos à força e ao 
engenho humanos, eu vos provar que a mim também pertencem 
os que recebe a prudência? — Essa é boa! — dirá, talvez, 
alguém. — Pretendeis misturar o fogo com a água, pois a Lou- 
cura e a Prudência não são menos opostas que esses dois ele- 
mentos contrários. — Não obstante sentir-me-ei lisonjeada por 
vos convencer disso, desde que continueis a prestar-me vossa 
gentil atenção. 

Se a prudência consiste no uso comedido das coisas, eu dese- 
jaria saber qual dos dois merece mais ser honrado com o titulo 
de prudente: o sábio, que, parte por modéstia, parte por medo, 
nada realiza, ou o louco, que nem o pudor (pois não o conhece) 
nem o perigo (porque não o vê) podem demover de qualquer 
empreendimento. O sábio absorve-se no estudo dos autores anti- 
gos; mas que proveito tira ele dessa constante leitura? Raros 
conceitos espirituosos, alguns pensamentos requintados, algu- 
mas simples puerilidades — eis todo o fruto de sua fadiga. O 
louco, ao contrário, tomando a iniciativa de tudo, arrostando 
todos os perigos, parece-me alcançar a verdadeira prudência. 
Homero, embora cego, enxergava muito bem essas verdades: “O 
tolo — disse ele — aprende à própria custa e só abre os olhos 
depois do fato”. Duas coisas, sobretudo, impedem que o homem 
saiba ao certo o que deve fazer: uma é a vergonha, que cega a 
inteligência e arrefece a coragem; a outra é o medo, que, indi- 
cando o perigo, obriga a preferir a inércia à ação. Ora, é próprio 


48 ERASMO 


da Loucura dirimir todas essas dificuldades. Raros são os que 
sabem que, para fazer fortuna, é preciso não ter vergonha de 
nada e arriscar tudo. Quero observar-vos, além disso, que os que 
preferem a prudência fundada no julgamento das coisas estão 
muito longe de possuírem a verdadeira prudência. 

Todas as coisas humanas têm dois aspectos, à maneira dos 
Silenos de Alcibíades*2, que tinham duas caras completamente 
opostas. Por isso é que, muitas vezes, o que à primeira vista pa- 
rece ser a morte, na realidade, observado com atenção, é a vida. 
E assim, muitas vezes, o que parece ser a vida é a morte; o que 


parece belo é disforme; o que parece rico é pobre; o que parece 
infame é glorioso; o que parece douto é ignorante; o que parece 
robusto é fraco; o que parece nobre é ignóbil; o que parece ale- 
gre é triste; o que parece favorável é contrário; o que parece 
amigo é inimigo; o que parece salutar é nocivo; em suma, virado 
o Sileno, logo muda a cena. Estarei falando muito filosofica- 
mente? Pois vou explicar-me com maior clareza. 


Todos vós estais convencidos, por exemplo, de que um rei, 
além de muito rico, é o senhor dos seus súditos. Mas, se ele tiver 
no peito um coração brutal, se for insaciável na sua cobiça, se 
nunca se mostrar satisfeito com o que possui, não concordareis 
comigo que é miserabilissimo? Se ele se deixar transportar por 
seus vícios e por suas paixões, não se tornará um dos escravos 
mais vis? O mesmo se poderia dizer de tudo o mais. Basta, 
porém, esse exemplo. — E com que fim — podeis perguntar-me 
2 Os Silenos de Alcibiades eram velhos Sátiros. Chamavam-se Silenos porque se balan- 
çavam em torno da moenda. Também se chamavam assim os que espremiam as uvas. 
Conhecido por esse nome foi o preceptor de Baco. Chamavam-se ainda Silenos certas está- 
tuas ridículas exteriormente, mas que internamente encerravam imagens divinas. Alcibia- 


des, espirituosamente, comparava Sócrates a essas estátuas, por ser ele deselegante e gros- 
seiro exteriormente, mas encerrando uma alma divina. 


ELOGIO DA LOUCURA 49 


-— nos dizeis tudo isso? — Um pouco de paciência, e vereis 
aonde quero chegar. Se alguém se aproximasse de um cômico 
mascarado, no instante em que estivesse desempenhando o seu 
papel, e tentasse arrancar-lhe a máscara para que os especta- 
dores lhe vissem o rosto, não perturbaria assim toda a cena? 
Não mereceria ser expulso a pedradas, como um estúpido e petu- 
lante? No entanto, os cômicos mascarados tornariam a apare- 
cer; ver-se-ia que a mulher era um homem, a criança um velho, 
o rei um infeliz e Deus um sujeito a-toa. Querer, porém, acabar 
com essa ilusão importaria em perturbar inteiramente a cena, 
pois os olhos dos espectadores se divertiam justamente com a 
troca das roupas e das fisionomias. Vamos à aplicação: que é, 
afinal, a vida humana? Uma comédia. Cada qual aparece dife- 
rente de si mesmo; cada qual representa o seu papel sempre mas- 
carado, pelo menos enquanto o chefe dos comediantes não o faz 
descer do palco. O mesmo ator aparece sob várias figuras, e o 
que estava sentado no trono, soberbamente vestido, surge, em 
seguida, disfarçado em escravo, coberto por miseráveis andra- 
jos. Para dizer a verdade, tudo neste mundo não passa de uma 
sombra e de uma aparência, mas o fato é que esta grande e longa 
comédia não pode ser representada de outra forma. 

Prossigamos. Se algum sábio caído do céu surgisse entre nós 
e se pusesse a gritar: “Não! Aquele que venerais como “Vosso 
Deus e Senhor” º*3 não é sequer um homem, não passando de um 
animal dominado pelo impulso do instinto, de um escravo dos 
mais abjetos, pois serve a tantos vis tiranos quantas são as suas 
83 “Vosso Deus e Senhor”, eram títulos que se atributa o imperador Domiciano. — Mar- 
cial diz não haver animai pior do que um príncipe perverso. — Tendo Diógenes subido, 
certa vez, a uma tribuna, e como, para arengar, repetisse: “Homens, escutai!”, logo uma 


grande multidão se formou em torno de sua pessoa, perguntando-lhe todos o que queria. E 
ele respondeu: “Dirigi-me a homens, e não a vós, que de humanos só tendes a figura”. 


50 ERASMO 


paixões” — se esse sábio, dirigindo-se a alguém que chorasse a 
morte do pai, O exortasse a rir, dizendo-lhe que esta vida não 
passa, na realidade, de uma contínua morte e que, por conse- 
guinte, seu pai só fez cessar de morrer; se, enfurecendo-se com 
algum vaidoso soberbo de sua genealogia, o tratasse de ignóbil e 
de bastardo por estar totalmente afastado da virtude, que é a 
única e exclusiva fonte da verdadeira nobreza; e se dessa manei- 
ra o nosso filósofo fosse falando de todas as outras coisas huma- 
nas, pergunto eu que resultado obteria ele de suas declamações. 
Passaria, decerto, para todos, por louco furioso. Portanto, ficai 
certos de que, assim como não há maior estupidez do que querer 
passar por sábio fora do tempo, assim também não há nada mais 
ridículo e imprudente do que uma prudência mal compreendida 
e inoportuna. Na verdade, nós nos enganamos redondamente 
quando queremos distinguir-nos no gênero humano, recusando- 
nos a nos adaptar aos tempos. Nunca se deveria esquecer esta lei 
que os gregos estabeleceram para os seus banquetes: Bebei e ide- 
vos embora* *. O contrário seria pretender que a comédia dei- 
xasse de ser comédia. Além disso, se a natureza vos fez homens, 
a verdadeira prudência exige que não vos eleveis acima da con- 
dição humana. Em poucas palavras, de duas uma: ou dissimular 
intencionalmente com os seus semelhantes, ou correr ingenua- 
mente o risco de se enganar com eles. E não será esta — inda- 
gam os sábios — outra espécie de loucura? — Quem o nega? 
Que me concedam, porém, que é essa a única maneira de cada 


qual fazer a sua pessoa aparecer na comédia do mundo. 
Quanto ao resto... Deuses imortais! Devo falar? Devo 


calar-me? E por que devo calar-me, se tudo o que quero dizer é 
s* O sentido moral desse provérbio dos gregos é que é necessário adaptar-se as pessoas 


com as quais se convive, ou então separar-se delas. Também Cicero disse, no mesmo senti- 
do: “Se vives em Roma, vive de acordo com os costumes romanos”. 


ELOGIO DA LOUCURA 51 


mais verdadeiro do que a própria verdade? Ajudai-me, porém, 
em assunto de tão relevante importância, a me dirigir as Musas 
e pedir-lhes que me auxiliem, dispondo-se a vir de seu Helicão 
até a mim, tanto mais quanto os poetas tantas vezes cometem a 
indiscrição de fazê-las descer por meras frioleiras. Vinde, pois, 
por um instante, ó filhas de Júpiter, pois quero provar que essa 
sabedoria tão gabada,e que enfaticamente se chama o baluarte 
da felicidade, só é acessivel aos que são orientados pela 
Loucura. 

Antes de mais nada, sustento que, em geral, as paixões são 
reguladas pela Loucura. Com efeito, que é que distingue o sábio 
do louco? Não será, talvez, o fato de o louco se guiar em tudo 
pelas paixões, e o sábio pelo raciocínio? É por isso que os estói- 
cos afastam do sábio toda e qualquer perturbação de ânimo, 
considerando-a um verdadeiro mal. Aliás, se é que nos merecem 
fé os peripatéticos, as paixões fazem as vezes de pedagogos aos 
que se encaminham para o porto da sabedoria: são como estimu- 
los e incentivos para a satisfação dos deveres da vida e para uma 
conduta virtuosa. É verdade que Sêneca, duas vezes estóico, 
isenta o seu sábio de toda sorte de paixões. Oh! bela obra- 
prima! Decerto, esse sábio não é mais homem, mas uma espécie 
de deus que nunca existiu. Falemos mais claramente: o que ele 
fez foi uma fria estátua de mármore, privada de todo senso 
humano. 

Que os senhores estóicos apreciem e amem à vontade o seu 
sábio e vão passar a vida na cidade de Platão º º*, ou, se acharem 
melhor, na região das idéias, ou nos jardins de Tantalo º* º. Que 


58 Esse filósofo escreveu o plano de uma república, mas ninguém quis adotá-lo. Luciano 
ridiculariza-o por esse fato, dizendo: “Platão é o único habitante de sua cidade”. 

56 “Nos Jardins de Tantalo”: serviam-se os gregos desse provérbio para significar um 
lugar inexistente. 


52 ERASMO 


espécie de homem é um estóico? Quem poderá deixar de evitá-lo 
como a um monstro, de temê-lo como a um fantasma? Eis o 
retrato de um estóico: surdo à voz dos sentidos, não sente paixão 
alguma; o amor e a piedade não impressionam absolutamente o 
seu coração duro como o diamante; nada lhe escapa, nunca se 
perde, pois tem uma vista de lince; tudo pesa com a máxima exa- 
tidão, nada perdoa; encontra em si mesmo toda a felicidade e se 
julga o único rico da terra, o único sábio, o único livre, numa 
palavra, pensa que só ele é tudo, e o mais interessante é que é o 
único a se julgar assim. Amigos? É a sua última preocupação, 
pois não possui nenhum. Sem nenhum escrúpulo, chega a insul- 
tar os deuses e a condenar como verdadeira loucura tudo o que 
se faz no mundo, ridicularizando todas as coisas. 

Vede o belo quadro desse animal que nos apresentam como o 
modelo acabado da sabedoria. Dizei-me, por favor: se a questão 
pudesse ser posta a votos, que cidade desejaria semelhante 
magistrado? Que exército reclamaria um tal general? Quem o 
convidaria à sua mesa? Estou igualmente convencida de que não 
acharia, sequer, uma mulher ou servo que quisessem e pudessem 
suportá-lo. E quem, ao contrário, não preferiria um homem 
qualquer, tirado da massa dos homens estúpidos, que, embora 
estúpido, soubesse mandar ou obedecer aos estúpidos, fazendo- 
se amar por todos; que, sobretudo, fosse complacente para com 
a mulher, bom para os amigos, alegre na mesa, sociável com 
todos com quem convivesse; que finalmente, não se achasse 
estranho a tudo o que é próprio da humanidade? Mas, para falar 
a verdade, chego a ter nojo de falar dessa espécie de sábios. 
Passo, por isso, a tratar dos outros bens da vida. 


ELOGIO DA LOUCURA 53 


Quando se reflete atentamente sobre o gênero humano, e 
quando se observam como de uma alta torre (justamente a 
maneira pela qual Júpiter costuma proceder, segundo dizem os 
poetas) todas as calamidades a que está sujeita a vida dos mor- 
tais, não se pode deixar de ficar vivamente comovido. Santo 
Deus! Que é, afinal, a vida humana? Como é miserável, como é 
sórdido o nascimento! Como é penosa a educação! A quantos 
males estã exposta a infância! Como sua à juventude! Como é 
grave a velhice! Como é dura a necessidade da morte ! Percorra- 
mos, ainda uma vez, esse deplorável caminho. Que horrível e 
variada multiplicidade de males! Quantos desastres, quantos 
incômodos se encontram na vida! Enfim não há prazer que não 
tenha o amargor de muito fel. Quem poderia descrever a infinita 
série de males que o homem causa ao homem, como sejam a 
pobreza, a prisão, a infâmia, a desonra, os tormentos, a inveja, 
as traições, as injúrias, os conflitos, as fraudes, etc.? Eu não 
saberia dizer-vos que delito teria o homem cometido para mere- 
cer tão grande quantidade de males, nem que deus furioso o teria 
constrangido a nascer em tão horrível vale de misérias. Assim, 
pois, quem quer que examine a fundo a miserabilíssima condi- 
ção do gênero humano, não poderá, decerto, deixar de aprovar o 
exemplo das virgens de Mileto *7, embora seja um exemplo 


digno de toda a compaixão. 
Quais foram os mais célebres desgostosos da vida que procu- 


57 Conta Aulo Gélio que as virgens de Mileto foram tomadas, certa vez, de um furioso 
amor que as levou ao suicídio. 


54 ERASMO 


raram espontaneamente a morte? Não foram, porventura, os 
amigos mais próximos da sabedoria? Para não falar de Dióge- 
nes, Xenócrates, Catão, Cássio, Bruto, lembro apenas o famoso 
Quirão *8, que preferiu a morte à imortalidade. Já sei que logo 
compreendereis quanto o mundo duraria pouco, se a sabedoria 
fosse comum entre os mortais. Sou mesmo de opinião que, em 
breve. haveria necessidade de uma nova argila e de um novo 
Prometeu *º. Mas também nesse caso, sou eu quem providencia, 
mantendo os homens na ignorância, na irreflexão, no esqueci- 
mento dos males passados e na esperança de um futuro melhor. 
Misturando as minhas doçuras com as da volúpia, eu amenizo o 
rigor do seu destino. Amam a vida não só quase todos os 
homens, como até aqueles cujo fio da existência está prestes a 
ser cortado pela morte, aqueles que devem deixar a vida depois 
de um bom número de anos. Eles não mostram nenhuma pressa 
de passar para o número dos mortos. Quanto mais motivos têm 
os homens para viver contra a própria vontade, tanto menos se 
enojam da vida, evidenciando que não acham excessivamente 
longos os seus dias. São um efeito da minha bondade esses ve- 
lhos que vedes alcançar a nestórea decrepitude e que de humano 
só possuem a figura. Por isso é que são gagos, delirantes, 
desdentados, encanecidos, calvos, ou, para descrevê-los melhor, 
com as palavras de Aristófanes, enrugados, corcundas, sem ne- 
nhum resto de virilidade. E, não obstante, amam com transporte 
a vida. Não se limitam esses velhotes insensatos aos prazeres da 
existência, mas se esforçam ainda por imitar, o quanto podem, a 


58 Quirão, preceptor de Aquiles, recusou a imortalidade que lhe ofereceram os deuses 
como prêmio por sua probidade, a fim de evitar o tédio que sentiria com a reprodução con- 
tinua das mesmas coisas. 

5º Diz a lenda que Prometeu fez o corpo humano com argila e o animou com o fogo rou- 
bado do céu. 


ELOGIO DA LOUCURA 55 


Juventude: um enegrece os cabelos brancos; outro esconde com 
uma cabeleira a cabeça calva; outro põe dentes tomados de 


empréstimo de algum porco; outro se apaixona-loucamente por 
uma moça e faz por ela loucuras que envergonhariam um rapa- 


zinho. Estamos tão habituados a ver um homem todo curvado 
ao peso dos anos e que já enxerga a terra em que está para des- 
cer, a vê-lo, repito, casar-se com uma mocinha sem dote, e 
casar-se, certamente, mais para o de outrem do que para o pró- 


prio uso, que isso se torna quase um motivo de louvor. 
Eis, porém, um quadro ainda mais divertido: aquelas velhas 


apaixonadas, aqueles cadáveres semivivos que parecem ter saido 
do Érebo e já estão fedendo a carniça, ainda sentem arder o 
coração. Lascivas como cadelas no cio, só respiram uma porca 
sensualidade e dizem descaradamente que sem volúpia a vida 
não vale nada. Essas velhas cabras ainda fazem o amor e, quan- 
do encontram algum Faão*º, costumam remunerar generosa- 
mente a repugnância que causam. Então, mais do que nunca, se 
esmeram na pintura do rosto, passam a vida diante do espelho, 
arrancam fios brancos de barba, ostentam dois seios flácidos e 
enrugados, cantam com voz rouquenha e hesitante para desper- 
tar a lânguida concupiscência, bebem à grande, intrometem-se 
nas danças das moças, escrevem cartas amorosas — eis os 
meios que essas velhas raposas empregam para dar coragem aos 
seus custosos campeões. Enquanto isso, a sociedade exclama: 
— Que velhas malucas! Que velhas malucas! — Mas se a 
sociedade tem razão, elas se riem e, imersas nos prazeres, apro- 
veitam a felicidade que lhes proporciono. Eu desejaria que esses 
censores indiscretos soubessem dizer-me o que será mais estúpi- 
do: viver alegre e satisfeito, ou eternamente desesperado até se 


so Faão foi loucamente amado por Safo. que por ele não era correspondida. 


56 ERASMO 


enforcar com uma corda. Poderão dizer-me que é uma verda- 
deira infâmia a vida desses velhos e dessas velhas. Não o nego; 
mas, que importa isso aos meus loucos? Ou são inteiramente 
insensíveis à desonra, ou então, quando a sentem, sufocam facil- 
mente o remorso. Os meus bons e fiéis súditos têm uma filosofia 
especial, que os faz distinguir muito bem os males imaginários 
dos males reais. Cai-vos uma pedra na cabeça? Oh! isso sim, é 
na realidade um mal! Mas a desonra, a infâmia, as censuras, as 
maldições só nos fazem mal quando queremos sentir: desde que 
não pensemos nisso, deixam de ser um mal. Que mal pode fazer 
o que murmura a sociedade, desde que vós intimamente vos 
aplaudais? Ora, somente eu tenho a virtude de sublimar os ho- 
mens a esse alto grau de perfeição, e é esse um dos meus maiores 
predicados. Parece-me, contudo, ouvir alguns filósofos dizerem 
que uma das maiores desgraças para um homem consiste em 
ficar louco, em viver no erro, na ilusão e na ignorância. Oh! 
como estão redondamente enganados! Respondo-lhes, ao 
contrário, que é justamente nisso que consiste ser homem. 
Confesso-vos que não sei explicar como podem tratar de infeli- 
zes os meus loucos, sendo a loucura, como é, patrimônio univer- 
sal da humanidade, e quando todos os mortais nascem, educam- 
se e se conformam com ela. 

Parece-me bastante ridículo lastimar um ser que se acha no 
seu estado normal. Considerareis deplorável o fato de o homem 
não ter asas para voar como os pássaros, ou quatro pês como os 
quadrúpedes, ou a fronte armada de chifres como o touro? 
Lamentareis a sorte de um belo cavalo, pelo fato de não ter 
aprendido gramática ou de não comer bem? Deplorareis um 
touro, pelo fato de não ser adestrado na palestra? Portanto, 
assim como o cavalo não é infeliz por ignorar a gramática, 


ELOGIO DA LOUCURA 57 


assim também não o é o louco, pois a loucura é natural no 
homem. Mas os sutis disputadores meus antagonistas conti- 
nuam a perseguir-me com novos sofismas. Dentre todos os ani- 
mais — dizem eles — só o homem goza do privilégio de apren- 
der as artes e as ciências, a fim de suprir com os seus 
conhecimentos às lacunas da natureza. Como se houvesse som- 
bra de verdade em que a natureza, tão previdente e vigilante 
quanto ao pernilongo e até quanto às ervas ou às florzinhas do 
campo, fosse esquecer-se unicamente do homem, deixando de 
lhe fornecer tudo aquilo de que precisa! Oh! que absurdo ! Não! 
As ciências e as artes que tanto decantais não são obra da natu- 
reza: foi um certo gênio chamado Teuto*', grande inimigo do 
gênero humano, que, por cúmulo da desventura dos homens, as 
inventou. Eis por que, muito longe de contribuirem para essa 
felicidade que se pretende apresentar como razão de sua desco- 
berta, as ciências são, ao contrário, extremamente nocivas. 
Tinha decerto bom faro aquele sábio e prudente reiº2? que, com 
tanta finura, segundo Platão, reprovou a invenção do alfabeto. 
Digamos, pois, francamente, que a ciência e a indústria se 
introduziram no mundo com todas as outras pestes da vida 
humana, tendo sido inventadas pelos mesmos espíritos que 
deram origem a todos os males, isto é, pelos demônios, que por 


61 A respeito de Teuto, diz Sócrates a Platão: “Ouvi dizer que, perto de Neucrates, no 
Egito, houve um dos primeiros deuses a quem era consagrado o pássaro chamado Íbis. 
Esse demônio ou deus chamava-se Teuto e foi o inventor dos números, da geometria, da 
astrologia, dos jogos de azar, do alfabeto. Tâmus reinava, naquele tempo, sobre todo o 
Egito e residia numa poderosa cidade que os gregos chamavam de Tebas do Egito. Ora, 
tendo ido Teuto procurar esse monarca, a fim de lhe mostrar as suas invenções, disse-lhe 
este que era preciso comunicá-lo aos egípcios”. 

e2 Segundo Platão. Na mesma passagem acima citada, lê-se que, tendo o Rei Tamus per- 
guntado a Teuto qual era a vantagem de suas letras alfabéticas, este último respondeu: 
“Servem para despertar a memória”. Ao que replicou o rei: “Pois a mim me parece justa- 
mente o contrário, porque os homens, servindo-se desses caracteres, porão tudo no papel 
e não conservarão nada na memória”. 


58 ERASMO 


sinal tiraram da ciência o seu nome 83. Nada disso se conhecia 
no século de ouro, em que, sem método, sem regra, sem instru- 
ção, os homens viviam felizes, guiados pela Natureza e pelo pró- 
prio instinto. Com efeito, que utilidade teria, naquele tempo, a 
gramática? Havia apenas a linguagem, e, ainda assim, só era fa- 
lada para exprimir o pensamento. Não havia necessidade de ló- 
gica, porque, tendo todos os mesmos raciocinios, as divergências 
de opinião não provocavam discussão alguma. Não se conhecia 
a retórica naquela idade pacífica, em que não havia nem proces- 
sos, nem conflitos, nem discursos. Nessa época, os legisladores 
eram inúteis, porque, reinando os bons costumes, não havia 
necessidade de leis º 4. Além disso, aqueles mortais eram religio- 
sissimos, motivo por que não ansiavam por investigar com im- 
pia curiosidade os segredos da natureza. Convencidos de que a 
um pequeno inseto como o homem não é lícito ultrapassar os 
estreitos limites de sua capacidade, não quebravam a cabeça 
com a pesquisa das dimensões, dos movimentos, dos efeitos, das 
origens ocultas dos astros. Também não lhes passava pela 
imaginação a impertinente idéia de querer saber o que se acha 
além dos céus. 

Mas, aos poucos, foi desaparecendo a inocência do século de 
ouro, de forma que os maus gênios, como já disse, logo desco- 
briram as artes, mas ainda em pequeno número e muito pouco 
exercitadas. Em seguida, a superstição dos caldeusº * e a ociosa 
leviandade dos gregos criaram mil outras, todas muito oportu- 


8º Os gregos davam aos sábios o nome de demônios, por causa de uma antiga palavra 
que significa “sei, aprendo "e da qual pensam os gramáticos se derive o nome de demônio. 
8* Diz Tácito que a quantidade das leis é a prova de um mau governo e da decadência de 
uma nação, porque são os maus costumes que colocam os homens na contingência de 
fazer leis. 

88 Atribui-se aos caldeus a invenção da astrologia e da magia. Erasmo trata-os de supers- 
ticiosos por acreditarem eles que todas as estrelas fossem divindades. 


ELOGIO DA LOUCURA 59 


nas e excelentes para atormentar o espírito. Só a gramática é 
mais do que suficiente para nos aborrecer durante toda a vida. 
De todas essas artes, são tidas em maior apreço as que mais se 
aproximam do bom senso, isto é, da loucura. Mas que vantagem 
proporcionam aos que delas fazem profissão? Morrem de fome 
os teólogos, definham os físicos, caem no ridículo os astrólogos, 
são desprezados os dialéticos. E só o médico faz fortuna. 

A principal vantagem da medicina está em que, quanto mais 
ignorante, ousado e temerário é quem a exerce, tanto mais esti- 
mado é pelos senhores laureados. Além disso, essa profissão, da 
maneira por que muitos a exercem hoje em dia, se reduz a uma 
espécie de adulação, quase como a eloqguência. 

Depois dos médicos, vêm imediatamente os rábulas ou juris- 
consultos. Eu não saberia dizer-vos ao certo se esses supostos fi- 
lhos de Têmis precederam os sequazes de Esculápio: disputam a 
precedência entre si. O que é fora de dúvida é que os filósofos, 
quase que por consenso unânime, ridicularizam os advogados e, 
com muita propriedade, qualificam essa profissão de ciência de 
burro. Mas, burros ou não, serão sempre eles os intérpretes das 
leis e os reguladores de todos os negócios. Ao passo que esses 
senhores estendem os seus latifúndios, o pobre teólogo, depois de 
ter revistado todas as arcas da divindade, é obrigado a comer 
favas € a viver numa eterna guerra com os insetos nojentos. 

De tudo quanto dissemos acerca das disciplinas, pode-se con- 
cluir que as artes mais vantajosas são as que mais se relacionam 
com a loucura. Por conseguinte, são perfeitamente felizes os ho- 
mens que, sem ter qualquer relação com as ciências especula- 
tivas e práticas, têm como único guia a natureza, a qual não pos- 
sui nenhum defeito e nunca deixa que se percam os que seguem 
fiel e exatamente os seus passos, sem a pretensão de sair dos 


60 ERASMO 


limites da condição humana. A natureza é inimiga de todo artifi- 
cio, e, de fato, vemos crescer mais felizes as coisas não contami- 
nadas por nenhuma arte. 

Permiti que me detenha um pouco sobre o mesmo argumento. 
Não será verdade que, entre tantas espécies de animais, os que 
vivem mais felizes são os que não têm nenhuma disciplina e que 
só a natureza reconhecem como mestra? Quem será mais feliz e 
admirável do que as abelhas? No entanto, nem sequer possuem 
todos os sentidos do corpo. Apesar disso, quando é que a arqui- 
tetura encontrará alguém que as iguale na construção dos edifi- 
cios? Qual foi o filósofo que já instituiu uma república seme- 
lhante? Já o cavalo, por estar mais próximo dos sentimentos do 
homem, e sendo por este dominado, participa consideravelmente 
das calamidades humanas. Acontece, muitas vezes, que esse ani- 
mal doméstico, em lugar de fugir da batalha, se atira ao perigo, 
e, na ambição da vitória, um golpe mortal estende-o por terra, 
obrigando-o a comer poeira junto com o cavaleiro. Já não falo 
das cruéis mordeduras, das esporadas agudas, da prisão que é a 
estrebaria, das rédeas, do pesado cavaleiro, em suma, de toda a 
trágica escravidão a que ele, a exemplo do homem, se sujeitou 
espontaneamente, na ânsia excessiva de se vingar do veado, seu 
inimigo. Bem mais desejável é a vida das moscas e dos pássaros, 
por nascerem livres e tomar a natureza o encargo de nutri-los. 
Seriam mesmo perfeitamente felizes e tranqlilos se não deves- 
sem temer as insídias dos homens. Não imaginais quanto per- 
dem os pássaros da sua primitiva beleza, quando aprendém, nas 
gaiolas, os nossos cantos. E assim é verdade, sob todos os aspec- 
tos, que as produções da natureza ultrapassam de muito as da 
arte. 

Por tudo isso, nunca terei louvado bastante a Pitágoras por se 


ELOGIO DA LOUCURA 61 


ter transformado em galo. Esse filósofo, em virtude "da" metem- 
psicose, passou por todos os estados: filósofo, homem, mulher, 
rei, confidente, peixe, cavalo, rã e creio até que esponja. E, de- 
pois de todas essas transmigrações, declarou que o homem era o 
mais infeliz de todos os animais, pois todos os outros estão satis- 
feitos de ficar nos limites prefixados pela natureza, enquanto só 
o homem se esforça por ultrapassá-los. Além disso, Pitágoras 
costumava antepor os tolos aos sábios e aos grandes. Tal era, 
também, a opinião de Grilo, um dos companheiros do sensato 
Ulisses, o qual, tendo sido transformado em porco pela bruxa 
Circe, preferia grunhir tranquilo e à vontade num chiqueiro a 
andar na pista de novos perigos e novas aventuras com o seu 
general. Parece-me, também, que o próprio Homero, o célebre 
pai da mitologia, não diverge dessa opinião, pois que, em geral, 
considera miseráveis todos os mortais e diz que a morte os cerca 
por toda parte. Nem mesmo Ulisses, o seu famoso herói e mode- 
lo de sabedoria, constitui para ele uma exceção, pois chega a lhe 
aplicar, várias vezes, o epiteto de infeliz. No entanto, não diz o 
mesmo de Páris, de Ajax e de Aquiles, que eram loucos. Pelo 
contrário: como Ulisses fosse engenhoso e astuto e seguisse os 
conselhos de Minerva, preferindo-os a tudo mais, Homero deplo- 
rou a infelicidade desse rei de Ítaca. 

Voltando, pois, ao meu assunto, afirmo que os que se aplicam 
ao estudo das ciências estão muito longe da felicidade e são 
duplamente loucos, porque, esquecendo-se de sua condição natu- 
ral e querendo viver como outros tantos deuses, fazem à nature- 
za, com as máquinas de arte, uma guerra de gigantes. De tudo 
isso infiro que os verdadeiros felizardos são os que mais se apro- 
ximam da índole e da estupidez dos brutos, sem empreenderem 
nada que esteja acima das forças humanas. 


62 ERASMO 


Pois bem! Tratemos de defender esse argumento, não com os 
entimemas dos estóicos, mas com um exemplo palmar. Deuses 
imortais, Julgai-o! Quem no mundo viverá mais feliz do que os 
vulgarmente chamados bobos, tolos, insensatos e imbecis? Ah! 
como acho bonitos esses nomes! Quero dizer-vos uma coisa 
que, à primeira vista, talvez tomeis por extravagante e absurda. 
Mas, que importa? Apesar disso, não quero deixar de vo-la 
dizer, tanto mais quanto é superior a qualquer outra verdade. 

Respondei-me: é ou não exato que os homens que se julgam 
privados de entendimento nenhum medo têm da morte? E esse 
medo — por Baco! — não é um mal indiferente! Além disso, 
estão isentos dos terríveis remorsos da consciência; não temendo 
nem fantasmas nem trevas, não são atormentados pela perpétua 
perspectiva dos males; não são enganados pela vã esperança de 
futuros bens. Em suma, os seus dias não são envenenados pela 
infinita série de cuidados a que está sujeita a vida. A desonra, o 
temor, a ambição, a inveja, o amor, a amizade são, coisas inteira- 
mente estranhas para eles, pois gozam da incomparável vanta- 
gem de só na forma diferirem dos animais. Mas isso não basta, 
pois que, segundo a opinião dos teólogos, chegam a ser impecá- 
veis. Isso posto, tornai a consultat ainda uma vez o vosso inti- 
mo, ó insensatos partidários da sabedoria! Ponderai, examinai 
atentamente quantas aflições do espirito vos atormentam dia e 
noite; reuni em bloco, sob os vossos olhos, todos os diversos 
males da vida; e julgai, finalmente, por vós mesmos, quanto é 
grande a felicidade que proporciono aos meus insensatos. Não 
gozam eles apenas de um continuo prazer, rindo, jogando e can- 
tando, mas me parece, além disso, que a alegria, o prazer, a cha- 
cota, O riso seguem-lhes os passos por toda parte. Dir-se-ia que 
os deuses tiveram a bondade de misturá-los com os homens para 


ELOGIO DA LOUCURA 63 


edulcorar a tristeza da vida humana. Eu desejaria que notásseis 
ainda um privilégio que honra muitíssimo os meus súditos. 
Diversa é a disposição do coração humano de indivíduo para 
individuo; mas, quanto aos meus loucos, todos os homens os tra- 
tam como se fossem de casa. Desejam-nos com transporte, abra- 
çam-nos, lisonjeiam-nos, alimentam-nos, socorrem-nos em suas 
necessidades, em suma, permitem-lhes dizer e fazer todo mal que 
lhes aprouver. Não só não se encontra ninguém que se atreva a 
contrariá-los, como parece que até as próprias feras, por um 
natural sentimento da sua inocência, contém diante deles a sua 
inata ferocidade. São sagrados para os deuses, para mim sobre- 
tudo, motivo por que é muito justo que todos usem para com 
eles do mesmo respeito. 

Que diremos, em seguida, de tantas outras prerrogativas de 
que gozam os meus sequazes? Os maiores monarcas de tal 
forma concentram neles as suas delícias, que muitos não podem 
nem jantar, nem passear, nem ficar longe deles por uma hora 
sequer. Que diferença não ácharão, pois, entre os seus bobos e os 
sábios melancólicos, dos quais talvez mantenham um para lhes 
fazer as honras? E uma tal diferença nada tem de misterioso 
nem de surpreendente, porque os sábios, em geral, só sabem 
dizer coisas melancólicas e, às vezes, confiando no próprio 
saber, permitem-se ofender os delicados ouvidos com pungentes 
verdades. Os meus loucos, ao contrário, têm uma vida total- 
mente oposta e observam, para com os príncipes, todas as 
maneiras que mais costumam agradar, divertindo os outros com 
mil chacotas e bobagens, com ditos satíricos, com caretas e dis- 
parates de fazer qualquer pessoa rebentar de riso. Notai, de pas- 
sagem, o privilégio que têm os bobos de poder falar com toda a 
sinceridade e franqueza. Haverá coisa mais louvável do que a 


64 ERASMO 


verdade? Se bem que, com Platão, o provérbio de Alcibiades 
diga que a verdade se encontra no vinho e nas crianças, contudo 
é a mim, particularmente, que convém esse elogio, porque, 
segundo o testemunho de Eurípides, tudo o que o tolo encerra no 
coração, ele o traz também impresso na cabeça e o manifesta 
nas palavras. Mas os sábios, segundo o mesmo Eurípides, têm 
duas linguas, uma para dizer o que pensam e a outra para falar 
conforme as circunstâncias: quando o querem, têm talento para 
fazer o preto aparecer como branco e o branco como preto, 
soprando com a mesma boca o calor e o frio* º e exprimindo 
com palavras exatamente o contrário do que sentem no peito. 
Não posso deixar, aqui, de lastimar a sorte dos príncipes. Oh! 
como são infelizes! Inacessíveis à verdade, só contam com a 
amizade dos aduladores. Mas ponderará alguém que eles não 
devem queixar-se senão de si mesmos. Por que será que os prin- 
cipes não gostam de prestar ouvidos à verdade? E por que detes- 
tam a companhia dos filósofos? Ah! bem vejo que isso se deve 
ao medo que têm os príncipes de encontrar, entre os filósofos, 
algum petulante que se atreva a dizer o que é verdadeiro e não o 
que é agradável! Concedo, de bom grado, que a verdade seja 
odiada por todos e muito mais pelos monarcas. Mas é justa- 
mente essa razão o que mais honra os meus loucos. Nem mesmo 
dissimulam os vícios e os defeitos dos reis. Que digo eu? Che- 
gam, muitas vezes, a insultá-los, a injuriá-los, sem que esses 
88 Alusão ao seguinte apólogo de Aniano: No máximo rigor do inverno, um camponês 
cecebeu um sátiro em sua cabana. Ao ver que o camponês soprava os dedos, perguntou-fhe 
o sátiro: “Por que faz assim?” Ao que o outro respondeu: “Para me esquentar com o calor 
do bafo”. Mais tarde, posta a mesa, vendo o sátiro que o camponês soprava uma comida 
muito quente, perguntou-lhe por que fazia o mesmo com a comida. Ao que respondeu o 
camponês: “Para esfriá-la”. Então, O sátiro levantou-se subitamente e lhe disse: “Como?! 


Pela mesma boca, você põe para fora o calor e o frio? Ah! não quero negócio com essa 
gente!” E, assim dizendo, saiu a correr. 


ELOGIO DA LOUCURA 65 


senhores do mundo se ofendam por isso ou se aborreçam. Sabe- 
mos que os príncipes, em lugar de ficarem indignados, riem-se de 
todo coração quando um tolo lhes diz coisas que seriam mais do 
que suficientes para enforcar um filósofo. Só se costuma defen- 
der a verdade quando não se é atingido por ela; ora, só aos lou- 
cos os deuses concederam o privilégio de censurar e moralizar 
sem ofender a ninguém. Quase pela mesma razão é que as 
mulheres gostam dos loucos e dos bobos, e é por isso que esse 
sexo é tão inclinado ao riso e as frivolidades. Além disso, qual- 
quer coisa que façam as senhorinhas com essa espécie de pes- 
soas (e às vezes com toda espécie), parece-lhes uma brincadeira 
ou uma chacota, tão engenhoso e ladino é o belo sexo em colorir 
e mascarar os seus ardis. 

Voltando, pois, à felicidade dos loucos, devo dizer que eles 
levam uma vida muito divertida e depois, sem temer nem sentir 
a morte, voam direitinho para os Campos Elísios, onde as suas 
piedosas e fatigadas almazinhas continuam a divertir-se ainda 
melhor do que antes. Confrontai, agora, a condição de qualquer 
sábio com a de um tolo. Imaginai, figurai um homem venerável, 
verdadeiro modelo de sabedoria, e observai como faz a sua pas- 
sagem pela terra. Constrangido desde a infância a consagrar-se 
ao estudo, passa a flor dos anos nas vigílias, nas aflições, na 
mais assídua fadiga; e, mal sai dessa dura escravidão, acha-se 
ainda mais infeliz do que nunca. Por isso é que, devendo viver 
com economia, com moderação, com tristeza, com severidade, 
ele se torna cruel e pesado a si mesmo, incômodo e insuportável 
aos outros. Pálido, magro, enfermiço, remelento, franco, encane- 
cido, velho antes do tempo, termina uma vida infeliz com a 
morte prematura. Mas que importa ao sábio morrer moço ou 
velho, quando se pode afirmar, com toda a razão, que nunca 


66 ERASMO 


viveu? Com efeito, não se pode falar em viver quando não se 
gozam todos os prazeres da vida. Que vos parece, agora, esse 
belo retrato do sábio? Agrada-vos? 

Mas, já estou esperando que as importunas rãs que são os 
estóicos º? venham atacar-me com novos argumentos. E — 
dirão elas — uma insigne loucura não estará perto do furor, ou 
melhor, não poderá chamar-se um verdadeiro furor? Mas, que 
quer dizer ser furioso? Não significará, talvez, ter a mente 
perturbada? Como me inspiram piedade esses filósofos! O mais 
das vezes, não sabem o que dizem. Pois bem, se mo permitirem 
as musas, quero derrubar, quero destruir também esse paládio. 
Não posso negar que os estóicos sejam argumentadores sutis; 
mas por pouco que queiram ter reputação de bom senso, devem 
distinguir duas espécies de loucura, da mesma maneira por que 
Sócrates, segundo Platão, distinguia duas Vênus ** e dois Cupi- 
dos. Afirmo que nem todas as loucuras tornam igualmente infe- 
liz o homem. Se assim não fosse, Horácio decerto não teria apli- 
cado o epíteto de amável ao furor que invade os poetas e que 
revela o futuro. O citado Platão não teria incluído, entre os prin- 
cipais bens da vida, o furor dos vates, dos adivinhos e dos aman- 
tes, e a Sibila Cumana não teria empregado esse vocábulo para 
exprimir as penas e os trabalhos de Enéias. 

Há, portanto, duas espécies de furor. Um vem do fundo do 
inferno, e são as fúrias que o mandam para a terra. Essas atrozes 
e vingativas divindades tiraram da cabeça uma porção de ser- 
pentes e atiram suas escamas sobre os homens quando querem 
8? Alguns autores antigos chamam os estóicos de rãs, por causa da sua importuna 
loquacidade. 

88 Segundo Pausânias, havia duas Vênus: uma, mais antiga, sem mãe e filha do céu, por 


isso chamada celeste; a outra, filha de Júpiter e Diana, chamada a Vênus comum. E, 
assim, distingue ele o amor vulgar do amor celeste. 


ELOGIO DA LOUCURA 67 


divertir-se em atormentá-los. Têm nisso as suas origens o furor 
da guerra, a devoradora sede do ouro, o infame e abominável 
amor, O parricídio, O incesto, o sacrilégio, o peso de consciência 
e todos os outros flagelos semelhantes de que se servem as fúrias 
para dar aos mortais uma amostra dos suplícios eternos. 

Existe, porém, outro furor inteiramente oposto ao precedente, 
e sou eu quem o proporciona aos homens, que deveriam desejá- 
lo sempre como o maior de todos os bens. Em que pensais que 
consista esse furor ou loucura? Consiste numa certa alienação 
de espirito que afasta do nosso ânimo qualquer preocupação 
incômoda, infundindo-lhe os mais suaves deleites. É justamente 
essa divagação que, como um insigne dom dos supremos deuses, 
deseja Cicero para si quando diz a Ático que não pode mais 
suportar o peso de tantos males *º. Um grego, de cujo nome não 
me recordo, era do mesmo parecer, e a sua história é tão engra- 
çada que eu até quero contá-la. Esse homem era louco de todas 
as formas: desde manhã muito cedo até tarde da noite, ficava 
sentado sozinho no teatro e, imaginando que assistia a uma 
magnifica representação, embora na realidade nada se represen- 
tasse, ria, aplaudia e divertia-se à grande. Fora dessa loucura, ele 
era, em tudo o mais, uma ótima pessoa: complacente e fiel com 
os amigos; terno, cortês, condescendente com a mulher; indul- 
gente com os escravos, não se enfurecendo quando via quebrar- 
se uma garrafa. Seus parentes deram-se ao incômodo de curá-lo 
com heléboro; mal, porém, ele voltou ao estado que impropria- 
mente se chama de bom senso, dirigiu-lhes esta bela e sensata 
apóstrofe: “Meus caros amigos, que fizeram vocês? Pretendem 
es Tendo Ático censurado Cícero pelo fato de se afligir excessivamente com a tirania dos 
triúnviros, dando a muitos a impressão de que perdera o juízo, Cícero respondeu que ainda 


conservava a lucidez, mas que desejava ficar louco para não ser mais tão sensível às cala- 
midades públicas. 


68 ERASMO 


ter-me curado e, no entanto, mataram-me: para mim acabaram- 
se os prazeres: vocês me tiraram uma ilusão que constituía toda 
a minha felicidade”. Tinha sobras de razão esse convalescente, e 
os que, por meio da arte médica, julgaram curá-lo, como de um 
mal, de tão feliz e agradável loucura, mostraram precisar mais 


do que ele de uma boa dose de heléboro. 
Ainda não decidi se se deva ou não chamar indistintamente de 


loucura todo erro de espírito e do senso. É que, em geral, dize- 
mos ser louco todo aquele que, sendo curto de vista, toma um 
burro por jumento, ou que, por ter pouco discernimento, consi- 
dera excelente um mau poema. Ao mesmo tempo, quando um 
homem comete um estranho erro, não só de senso, mas também 
de inteligência, nele persistindo longamente — por exemplo, 
quando, ao escutar o zurro de um burro, julga ouvir uma sinfo- 
nia ou, então, quando, embora pobre e de origem humilde, ima- 
gina ser o rei Creso, da Lídia”º — nesse caso se diz que o 
pobrezinho perdeu o miolo. Mas essa loucura, quando dirigida a 
um objeto de prazer, como costuma acontecer quase sempre, 
bastante agradável se torna tanto para os que a têm como para 
os que são meros espectadores. Assim, essa espécie de loucura é 
bem mais espalhada do que em geral se pensa. Às vezes, é um 
louco que se ri de outro louco, divertindo-se ambos mutuamente. 
Também não é raro ver-se um mais louco rir-se muito de outro 
menos do que ele. Mas na minha opinião o homem é tanto mais 
feliz quanto mais numerosas são as suas modalidades de loucu- 
ra, contanto que não saia da espécie que nos é peculiar e que é 
tão espalhada que eu não saberia dizer se haverá, em todo o gê- 


70 Creso, rei da Lidia, foi o homem mais rico da terra. Tendo um dia perguntado a Sólon 
se não era ele o mais feliz dos mortais, o filósofo respondeu-lhe: “Majestade, vós me pare- 
ceis muito rico, tendes um grande reino; reservo-me, porém, para responder à vossa per- 
gunta quando fordes muito feliz”. 


ELOGIO DA LOUCURA 69 


nero humano, um só indivíduo que seja sempre sábio e não tenha 
também a sua modalidade. Se alguém, ao ver uma abóbora, a 
tomasse por uma mulher, dir-se-ia ser o pobrezinho um louco. A 
razão disso é que semelhante perturbação raras vezes costuma 
aparecer entre nós. Mas quando um marido imbecil adora a 
mulher, julgando-a mais fiel do que Penélope, mesmo que ela lhe 
faça crescer na cabeça um bosque de chifres, e intimamente se 
felicita, bendizendo enormemente o seu destino e dando graças a 
Deus por o ter unido a semelhante Lucrécia — ninguém acha 
que se trate de loucura, porque isso, hoje em dia, é a coisa mais 
natural deste mundo. Nessa categoria, é preciso incluir também 
os que desprezam tudo a não ser a caça, não concebendo maior 
prazer que o de ouvir O rouco som da trompa e os latidos dos 
caes. Creio mesmo que, ao sentirem o cheiro dos excrementos 
caninos, imaginam estar cheirando cinamomo. Trata-se de des- 
pedaçar uma presa? Oh! incomparável delícia! Degolar, esfolar, 
cortar um boi ou um carneiro? Ah! é um mister vil, digno 
somente da ralé! Mas, um bicho do mato? Oh! a honra de cor- 
tar um bicho do mato é reservada unicamente às pessoas de alta 
linhagem! O monteiro-mor, com a cabeça descoberta e de joe- 
lhos, pega o facão sagrado para esse sacrifício (pois Diana se 
ofenderia se se servisse de outro) e, empunhando o ferro com a 
mão direita, corta religiosamente determinados membros do ani- 
mal, fazendo tudo com certa ordem e com cerimônias especiais. 
E, durante a pomposa operação, todo o bando de caçadores 
acerca-se do sacerdote de Diana, observando profundo silêncio e 
mostrando, ao assistir ao espetáculo mil vezes visto, a mesma 
surpresa que teria se fosse a primeira vez. Em seguida, aquele a 
quem cabe a sorte de provar um pedaço da caça julga ter 
conquistado ainda mais nobreza. Por fim, os caçadores, depois 


70 ERASMO 


de levarem a vida perseguindo e comendo caça, não obtêm outro 
resultado do seu assíduo e fatigante exercício senão o de se 
terem transformado também em outros tantos animais selva- 
gens. E, não obstante, intimamente, pensam ter uma vida real. 


Outra espécie de homens semelhantes à que há pouco descrevi 
é constituída por aqueles que se sentem devorados pela mania de 
construir. Uma vez invadidos por essa irrequieta paixão, nunca 
se dão por satisfeitos, sendo a sua preocupação contínua a de 
fazer, edificar, destruir, até que, como Horácio, nessa tarefa de 
mudar o quadrado em redondo e o redondo em quadrado, aca- 
bam por ficar sem casa e sem pão. E com que ficam? Ficam com 
a doce lembrança de terem passado com prazer um grande nú- 
mero de anos. 


Vejamos, agora, os alquimistas, que podem ser considerados 
os loucos por excelência. Têm a cabeça sempre repleta de novos 
e misteriosos segredos. O seu único fim é confundir, misturar, 
modificar a natureza, procurando por terra e por mar não sei 
que quintessência, que na realidade só se encontra em uma qui- 
mérica imaginação. Não julgueis, por isso, que se desgostem 
diante dos insucessos: ao contrário, cheios de louca e lisonjeira 
esperança, nunca se arrependem das despesas nem da fadiga, 
pois são engenhosíssimos em iludir-se a si mesmos e em tornar- 
se vítimas da própria obstinação. Mas qual é, em geral, o seu 
objetivo? Pensando enriquecer-se, gastam tudo, não lhes res- 
tando nem mesmo com que construir um pequeno lar. É verdade 
que esses sonhadores não deixam de ter belíssimos sonhos, ten- 
tando tudo quanto é meio imaginável para incitar os outros a 
correr atrás dessa felicidade. Finalmente, constrangidos pela 
miséria a dar um adeus às suas quiméricas esperanças, acham 
ainda uma grande compensação em se poderem gabar de ao 
menos terem formado tão glorioso e nobre projeto. Mas, ao 


ELOGIO DA LOUCURA 71 


mesmo tempo, censuram a natureza pelo fato de ter dado aos ho- 
mens uma vida demasiado breve para levar a termo empresa de 
tamanha importância. 

Sinto certo escrúpulo em introduzir em nossa sociedade os 
Jogadores de profissão. Mas, decerto que é uma loucura, ofere- 
cendo um espetáculo ridículo os que, de tão apaixonados pelo 
Jogo, sentem bater e saltar o coração dentro do peito, sempre que 


vêem cartas na mesa ou ouvem o barulho dos dados. Então, 
quando a enganosa esperança de recuperar o que perderam faz 
com que percam o resto dos seus bens e quando a sua nau se 
quebra contra o escolho do jogo, escolho não menos fatal que o 
de Maléia”!, ainda se julgam muito felizes por se terem salvo 


nuzinhos em pelo desse naufrágio. E o mais bonito é que essa 
espécie de gente prefere roubar a quem quer que seja, exceto ao 
que a despojou, pelo receio de passar à conta de pouco honesta. 
Que deveria eu dizer desses velhos que, quase cegos de tanta 


idade, chegam a pôr os óculos para jogar e, tendo as mãos ataca- 
das pela gota, pagam a alguém para que jogue os dados por 
eles? São tão loucos pelo jogo, e nele experimentam tão extremo 
prazer, que sou levada a considerá-lo como de minha atribuição. 
Mas, muitas vezes, o jogo se transforma em raiva e furor, e, 
então, me inclino a atribuí-lo mais às fúrias do que a mim. 

Mas eis que se adiantam algumas pessoas, que sem dúvida 
vivem sob as minhas leis: são os que se divertem ouvindo ou 
contando milagres e romanescas invencionices. Não acreditais? 


Pois esse bom gosto proporciona tal prazer que os sábios são 
indignos de experimentá-lo. É preciso, sim, é preciso ter nascido 
sob um particular auspício dos deuses para poder saborear tão 
doces quimeras. E o melhor é que nunca se fartam de ouvir 


7" O promontório de Maléia, na Lacônia, província do Peloponeso, era tão perigoso que 
se costumava dizer: “Quando navegares diante de Maléia, esquece de todo a tua casa”. 


72 ERASMO 


semelhantes patranhas. Os milagres, os espectros, os duendes, os 
fantasmas, o inferno, e mil outras visões dessa natureza, são O 
assunto mais comum das conversas do vulgo ignorante, sendo 
que, quanto mais extraordinárias são essas coisas, com tanto 
maior prazer são elas ouvidas e facilmente acreditadas. E não 
penseis que tais histórias se contem apenas para iludir as horas 
de aborrecimento: tornaram-se, na boca dos monarcas e dos 
pregadores, um meio de tirar proveito da crendice popular. 

A essa espécie podem agregar-se, a justo título, os ridículos e 
originais supersticiosos, os quais, toda vez que têm a sorte de ver 
alguma estátua de madeira ou alguma imagem do seu polifêmico 
São Cristóvão 72, ficam convencidos de que nesse dia não pode- 
rão morrer. Soldados há que, depois de uma pequena prece dian- 
te da imagem de Santa Bárbara, ficam certos de que sairão ilesos 
da batalha. Alguns acreditam que, invocando Santo Erasmo em 
certos dias, com certas orações e à luz de certas lamparinas, seja 
possível fazer uma grande fortuna em pouco tempo 73. E que 
direi do hercúleo São Jorge, que para esses supersticiosos faz as 
vezes de um novo Hipólito 74? Na verdade, não se pode deixar 
de rir diante de sua devoção, que consiste em ornar pomposa- 
mente o cavalo do santo e quase que em prostrar-se diante do 
animal assim enfeitado, para adorá-lo. Fazem questão absoluta 
de conservar o favor e a proteção do cavaleiro por meio de algu- 
ma oferta, sendo inviolável para eles o juramento que fazem pelo 
seu penacho. Mas por que não falar dos que julgam que, em vir- 


72 Alusão ao fato de São Cristóvão ser pintado como um gigante com uma planta na mão 
e metido no meio de um rio até as nádegas, justamente como Virgílio descreve Polifemo na 
Eneida, livro V. 

73 Os marinheiros invocam São Cristóvão, os soldados Santa Bárbara e os avarentos 
Santo Erasmo. 

74 Hipólito: despedaçado pelos cavalos. Tornou-se célebre pela resistência oferecida ao 
amor pecaminoso de Fedra, sua madrasta. 


ELOGIO DA LOUCURA a 


tude dos perdões e das indulgências, não têm nenhuma dívida 
para com a divindade? Com a exatidão de uma clepsidra e da 
mesma maneira por que, matematicamente, sem recear erro de 
cálculo, medem os espaços, os séculos, os anos, os meses, os 
dias — assim também, com essa espécie de falazes remissões 
medem eles as horas do purgatório. Outra espécie de extrava- 
gantes é constituída pelos que, confiando em certos pequenos si- 
nais exteriores de devoção, em certos palanfrórios, em certas 
rezas que algum piedoso impostor inventou para se divertir ou 
por interesse, estão convencidos de que irão gozar uma inalte- 
rável felicidade, conquistar riquezas, obter honras, satisfazer 
determinados prazeres, nutrir-se bem, conservar-se sãos, viver 
longamente e levar uma velhice robusta. E, como se isso não 
bastasse, ainda esperam poder ocupar no paraíso um posto ele- 
vado, sob a condição, porém, de só passarem ao número dos 
beatos tão tarde quanto possível. Pensam, então, chegado o 
tempo de voar por entre as inefáveis e eternas delícias do céu, 
uma vez abandonados pelos bens da terra, a que se aferram de 
todo o coração. 

Persuadidos dos perdões e das indulgências, ao negociante, ao 
militar, ao juiz, basta atirarem a uma bandeja uma pequena 
moeda, para ficarem tão limpôs e tão puros dos seus numerosos 
roubos como quando sairam da pia batismal. Tantos falsos jura- 
mentos, tantas impurezas, tantas bebedeiras, tantas brigas, tan- 
tos assassínios, tantas imposturas, tantas perfidias, tantas trai- 
ções, numa palavra, todos os delitos se redimem com um pouco 
de dinheiro, e de tal maneira se redimem que se julga poder vol- 
tar a cometer de novo toda sorte de más ações. Quem já terá 
visto homens mais tolos, ou melhor, mais felizes do que os devo- 
tos, os quais julgam que entrarão infalivelmente no reino dos 


14 ERASMO 


céus, recitando todos os dias sete versículos, que eu não sei quais 
sejam, dos salmos sagrados? No entanto, foi um demônio quem 
fez tão bela descoberta; mas, um demônio tolo, que tinha mais 
vaidade do que talento, tanto assim que cometeu a imprudência 
de exaltar o seu mágico segredo junto a São Bernardo 7 º, que era 
muito mais esperto do que ele. E todas essas coisas não serão, 
talvez, excelentes loucuras? Ah! como isso é verdadeiro ! Até eu, 
que sou a Loucura, não posso deixar de sentir vergonha. No 
entanto, não é o público o único a aprovar tão completas extra- 
vagâncias. Sustentam a sua prática, dando o exemplo, os pró- 
prios professores de teologia. E, já que viajo por esses mares, 
convém continuar a navegar. Digamos, assim, algumas palavras 


sobre a invocação dos santos. É curioso verificar que cada país 
se gaba de ter no céu um protetor, um anjo tutelar, de forma que, . 
num mesmo povo, entre esses grandes e poderosos senhores da 
corte celeste, se encontrem as diversas incumbências do proteto- . 


rado. Um cura dor de dentes, outro assiste ao parto das mulhe- 
res; aquele faz achar os objetos perdidos, este vela pela segu- 
rança e prosperidade do gado; um salva os náufragos, outro 
confere a vitória nos combates. Suprimo o resto, porque será um 
nunca mais acabar. 

Além desses, existem outros santos que gozam de um crédito 
e um poder universais, encontrando-se entre estes, em primeiro 
lugar, a mãe de Deus, a quem o vulgo atribui poder maior que o 
do seu próprio filho. Ora, as graças que os homens pedem aos 
santos não serão, talvez, insinuadas também pela Loucura? 
78 Conta-se que o diabo, encontrando um dia São Bernardo, gabou-se de saber sete versí- 
culos dos salmos que, recitados diariamente, levariam na certa ao paraíso. O santo teve 
curiosidade de saber quais eram os versículos, mas o diabo não quis revelá-los. “Zombarei 
de ti — disse-lhe então o santo — pois vou recitar diariamente o Saltério, de forma que 


assim recitarei também os sete versículos”. E o diabo, com receio de se tornar causa de tão 
grande devoção, acabou revelando o segredo. 


ELOGIO DA LOUCURA in) 


Dizei-me se, entre tantos votos religiosos de reconhecimento que 
vedes cobrindo por completo as paredes e as abóbadas das igre- 
jas, já vistes pendurado um único de reconhecimento por cura 
milagrosa de loucura. Decerto que não: os homens não costu- 
mam importunar os santos para obter uma graça dessa natureza. 
Dai resulta que, por maior que seja a sua devoção, nunca se tor- 
nam nem um pouquinho mais sábios. Eis por que, enquanto se 
vêem, suspensos dos altares, votos relativos a toda sorte de gra- 
ças recebidas, nenhum se encontra, todavia, que se refira a um 
caso de curado de loucura. Aquele pendurou um voto por se ter 
salvo a nado quando julgava naufragar; este, porque não morreu 
de um grave ferimento recebido numa briga; um outro, porque, 
enquanto os outros caiam prisioneiros do inimigo, conseguiu 
subtrair-se ao perigo, graças a uma feliz e valorosa fuga; aquele 
outro, porque tendo sido condenado à forca como prêmio as 
suas boas ações, caiu do laço, graças a algum santo dos lará- 
pios, a fim de que, pior do que antes e em virtude da caridade do 
próximo, voltasse a roubar os que tivessem a bolsa muito cheia 
de dinheiro; um outro, por ter recuperado a liberdade rompendo 
as grades da prisão; outro por se ter restabelecido facilmente de 
uma febre muito grave, com grande mágoa do médico, que espe- 
rava fazer uma cura mais longa e mais lucrativa; este, porque, 
em lugar da morte, encontrou remédio no veneno que lhe fora 
dado, enquanto sua mulher, que já suspirava pelo momento da 
libertação, ficou na maior amargura por ter falhado o golpe; 
outro, porque, tendo caído com seu carro, não teve receio algum 
e pôde reconduzir à casa, sãos e salvos, os cavalos; aquele, por- 
que, tendo ficado soterrado num desabamento, conseguiu sal- 
var-se sem nada sofrer; outro, finalmente, porque, tendo sido 
pilhado em flagrante pelo marido de sua bela, saiu da enrascada 
com a maior desenvoltura. 


76 ERASMO 


Ora, bem vedes que ninguém deu graças a Deus, ou à Virgem, 
ou a qualquer santo, por ter recuperado o juízo. A loucura tem 
tantos atrativos para os homens, que, de todos os males, é ela o 
único que se estima como um bem. Mas, por que engolfar-me 
nesse oceano de superstições? 


Se eu tivesse cem línguas e cem bocas, 
E férrea voz, em vão de tantos tolos 
As espécies contar eu poderia, 

E de tanta tolice os vários nomes. 


(Virgílio, Eneida, livro VI, e 
Homero, Ilíada, cantos VI.) 


De tal maneira está a vida de cada cristão repleta de seme- 
lhantes desejos! Bem sei que os sacerdotes não são tão cegos 
que não compreendam deformidades tão vergonhosas; mas é 
que, em lugar de purgar o campo do Senhor, eles se empenham 
em semeá-lo e cultivá-lo de ervas daninhas, com toda a diligên- 
cia, certos como estão de que estas costumam aumentar-lhes as 
ganhuças. Suponha-se que, em meio a todos esses prejuízos, sur- 
gisse um odioso moralista que, em tom apostólico, fizesse esta 
patética, mas verdadeira exortação: “Não basta ter devoção por 
São Cristóvão: é preciso, também, viver segundo a lei divina, 
para não chegar a um mau fim. Não basta oferecer uma pequena 
moeda para obter perdões e indulgências: é preciso, ainda, odiar 
o mal, chorar, velar, rezar, jejuar, numa palavra, mudar de vida, 
praticando constantemente o Evangelho. Confiais em algum 
santo? Pois segui os seus exemplos, vivei como ele viveu, e assim 
merecereis a graça do vosso santo protetor”. Aqui entre nós: 


ELOGIO DA LOUCURA 77 


esse moralista não andaria mal falando dessa forma, mas, ao 
mesmo tempo, tiraria os homens de um estado de felicidade, 
para lançá-los na miséria e na dor. 

Uma palavrinha acerca de uma espécie de doidos, porque 
seria um grande mal não os pór igualmente em cena, quando 
honram tanto o meu império. Quero referir-me aos ricos que, 
vendo chegar o fim dos seus dias, providenciam grandiosos 
preparativos para uma passagem magnífica ao túmulo. É com 
grande prazer que sg observa como esses moribundos se aplicam 
seriamente às suas pompas fúnebres. Estabelecem, artigo por 
artigo, quantos círios e quantas velas devem arder nos seus fune- 
rais, quantas pessoas vestidas de luto, quantos músicos, quantos 
carpidores devem acompanhar o féretro, como se, depois de 
mortos, ainda pudessem conservar alguma consciência para 
gozar o espetáculo, ou soubessem ao certo que os mortos costu- 
mam ficar envergonhados quando os seus cadáveres não são 
sepultados com a magnificência exigida por seu próprio estado. 
Finalmente, parece que esses ricos consideram a morte como um 
cargo de edil, que os obrigue a ordenar festas populares e 
banquetes. 

Embora seja fecundissimo o meu assunto, e eu forçada a tra- 
tá-lo superficialmente, não poderei, contudo, silenciar sobre 
esses grandes panegiristas, esses vaidosos apreciadores da pró- 
pria nobreza. Não é raro encontrar, entre estes, os que, com 
ânimo abjeto e vilissimas e plebéias inclinações, vos pasmem à 
força de repetir: “Sou um fidalgo”. Convém provar a antigui- 
dade de suas estirpes? Um descende do piedoso Enéias; outro 
remonta ao primeiro cônsul de Roma; este procede, em linha 
reta, do rei Artur. Além disso, mostram as estátuas e os retratos 
dos antepassados: enumeram os bisavós e os tataravós; recor- 


a ERASMO 


dam os antigos sobrenomes e os feitos dos seus maiores. 
Enquanto isso, pouco diferem eles de uma estátua muda, e eu os 
diria mesmo quase inferiores às próprias figuras que vão mos- 
trando. Esses idiotas fazem um alto conceito de si mesmos e 
estão sempre cheios da estéril idéia de sua ascendência. O que é 
fato, porém, é que imbuídos dessa quimera, levam uma vida con- 
tente e feliz. Ora, o que contribui, em grande parte, para que em 
tão boa conta se tenha esse belo fantasma de nobreza, é justa- 
mente o respeito que o vulgo insano demonstra por eles, pare- 
cendo até enxergar nesse gênero de bestas, nesses nobres sem 
mérito, outras tantas divindades. 

Mas, ao tratar do amor-próprio, por que hei de me restringir a 
uma ou duas espécies apenas de loucura? Quantos meios 
surpreendentes não possuirá o meu caro amor-próprio, que 
vedes aqui presente, para impedir que o homem fique desgostoso 
de si mesmo? Olhai aquele rosto: não há macaco mais feio, nem 
mais disforme; no entanto, julga-se um lindo rapaz. E, perto 
dele, o outro que traça duas ou três linhas com exatidão, à força 
de compasso ! Intimamente, já se aplaude, julgando-se um Eucli- 
des. E aquele que está cantando, ainda pior que um galo? Não 
importa: pensa ter uma voz paradisíaca. Todavia, há também 
outra espécie de loucura verdaderramente agradável: alguns pos- 
suem um numeroso bando de criados, cada qual com uma boa 
qualidade, e julgam que essas boas qualidades lhes sejam pecu- 
liares. Tal era, segundo Sêneca, aquele rico duplamente feliz que, 
ao pretender contar alguma história, tinha sempre ao redor os 
escravos, que lhe auxiliavam a memória, sugerindo-lhe os voca- 
bulos adequados, mesmo os mais comuns. Esse senhor era, além 
disso, tão fraco que bastava um pequeno sopro de vento para 
levá-lo ao chão: isso, contudo, não impedia que estivesse sempre 


ELOGIO DA LOUCURA 79 


disposto a bater-se a socos, fiando-se na força dos escravos, 
como se esta fosse sua. 

É inútil passar aqui em revista os que professam as artes, por- 
que com razão podem ser considerados os prediletos, os favori- 
tos do meu amor-próprio. Em geral, essas pessoas estão de tal 
forma fanatizadas por seu pequeno mérito que prefeririam ceder 
uma parte do seu patrimônio a confessar-se ineptas. Os cômicos, 
os músicos, os oradores, os poetas — eis aí, eis os melhores ami- 
gos do amor-próprio ! Quanto mais ignorantes, tanto mais per- 
feitos se julgam em sua arte, e, assim prevenidos em benefício 
próprio, aproveitam todas as ocasiões para celebrar os próprios 
louvores. Mas não penseis que não encontrem quem os aplauda, 
pois toda tolice, por mais grosseira que seja, sempre encontra 
sequazes. Mas, ainda é pouco: quanto mais contrária ao bom 
senso é uma coisa, tanto maior é o número dos seus admirado- 
res, e constantemente se vê que tudo o que mais se opõe à razão 
é justamente o que se adota com maior avidez. Perguntar-me-eis 
por quê? Pois já não vos disse mil vezes? É porque quase todos 
os homens são malucos. A ignorância tem, pois, dois grandes 
privilégios: um, que consiste em estar de perfeito acordo com o 
amor-próprio, e outro, que consiste em trazer em si a maior 
parte do gênero humano. Por conseguinte, seríeis duas vezes 
ingênuos se quisésseis elevar-vos acima do nível comum, com 
toda a vossa ciência filosófica. Que pensais que obteríeis com 
isso? Podeis estar certos de que, além de vos custar muito caro 
semelhante propósito, chegarieis ao ponto de não saberdes tole- 
rar mais ninguém e de não poderdes por mais ninguém ser tole- 
rados. Resultaria, enfim, que ninguém seria capaz de apreciar o 
vosso gênio e de penetrar os vossos sentimentos. 

Parece-me de novo oportuno fazer outra reflexão sobre o 


dO ERASMO 


amor-próprio. Façamo-la juntos. Todo homem, ao nascer, rece- 
be o seu amor-próprio como um dom da natureza. Mas essa mãe 
comum não se limitou apenas ao homem, pois fez o mesmo pre- 
sente à sociedade, de maneira que não se acha uma única nação, 
uma única cidade que não tenha o seu gosto particular. Os ingle- 
ses, por exemplo, amam com transporte a beleza, a música e os 
banquetes lautos; os escoceses dão grande valor à nobreza e, 
sobretudo, à que deriva do sangue do seu rei, gabando-se, além 
disso, de serem raciocinadores sutis; os franceses atribuem-se a 
polidez e a civilidade, sendo que sobretudo os parisienses gabam 
a sua teologia; os italianos decantam a sua literatura e sua 
eloquência. Em suma, cada nação se compraz em ser a única 
verdadeiramente civilizada e sem sombra de barbarismo. Pode 
dizer-se que os romanos são os mais enfatuados desse gênero de 
felicidade: Roma moderna sonha ainda participar da grandeza 
de Roma antiga. Os venezianos são felizes pela alta opinião que 
têm da própria nobreza. Vangloriam-se os gregos de terem sido 
os inventores das artes e das ciências, além de serem os descen- 
dentes dos famosos heróis que em seu tempo tanto estrépito fize- 
ram no mundo. Os turcos e todos os outros povos semelhantes, 
que não passam afinal de um ajuntamento de bárbaros, se jac- 
tam de serem os únicos que vivem no seio da verdadeira religião, 
ridicularizando as superstições e a idolatria dos cristãos. E que 
direi dos judeus? Estes vivem satisfeitissimos, à espera do seu 
Messias, e, muito longe de impacientar-se pela enorme demora, 
obstinam-se cada vez mais em esperá-lo, achando que não 
podem em absoluto estar enganados, apoiados como se encon- 
tram nas promessas do seu Moisés. Os espanhóis reservam para 
si toda a glória da guerra. Finalmente, os alemães se pavoneiam 
por sua natureza gigantesca e por sua habilidade na ciência da 
magia. 


ELOGIO DA LOUCURA 81 


Mas, vamos! Liquidemos logo o assunto, que seria intermi- 
nável. Estais vendo, agora, se não me engano, como o amor-pró- 
prio difunde por toda parte grandes alegrias, quer nos indivi- 
duos, quer nas nações. Ao lado do amor-próprio, acha-se sempre 
a sua boa irmã — a adulação. Isto posto, respondei-me: em que 
consiste o amor-próprio? Não consistirá, porventura, em agra- 
dar, em satisfazer, em adular a si mesmo? Pois bem: quando 
procedeis dessa forma em relação aos outros, isso se chama adu- 
lação. Hoje em dia, tem essa pobre adulação a desgraça de estar 
muito desacreditada: mas, por quem? Por todas as pessoas que 
se ofendem mais com as palavras do que com os fatos. Acredi- 
ta-se que a adulação não possa coadunar-se com a boa fé. Idéia 
falsa! Pois os próprios animais não nos mostram o contrário? 
Em vão se procuraria animal mais cortesão e adulador do que o 
cão, e, não obstante, quem pode vangloriar-se de ser mais fiel do 
que ele? O esquilo domesticado procura sempre brincar: será 
ele, por isso, menos amigo do homem? Se a adulação excluísse a 
boa fé, seria preciso concluir, então, que os ferozes leões, os ti- 
gres cruéis e os irrequietos leopardos devem ser afeiçoados à 
espécie humana. Não ignoro que há péssima adulação, da qual 
costumam servir-se os maliciosos e os caçadores para arruinar e 
ridicularizar miseros tolos e vaidosos. Não é essa, porém, a 
minha adulação predileta, e praza a Deus que não a conheça 
nunca! Provém a minha da doçura, da bondade, da inteireza de 
coração, e tanto se avizinha da virtude como se distancia de um 
carater rude, insociável e importuno, que, como diz Horácio, 
desgosta e afasta. A minha adulação reanima os espiritos abati- 
dos, alegra os melancólicos, estimula os poltrões, desperta os 
estúpidos, restabelece os enfermos, acalma os furibundos, forma 
e mantém os amores. A minha adulação incita as crianças ao 
trabalho e ao estudo, e consola os velhos. Sob o manto do lou- 


82 ERASMO 


vor, censura e instrui os monarcas, sem ultrajá-los. Enfim, 
minha adulação faz com que os homens, como outros tantos 
Narcisos 7 º, se apaixonem por si mesmos, dando origem à prin- 
cipal felicidade da vida. 

Quem já viu ação mais delicada e mais grata que a praticada 
por dois bons e honestos burros que se coçam mutuamente? É a 
esse mútuo auxílio que se dirige em grande parte a eloquência, 
muito a medicina e ainda mais a poesia. Devo acrescentar que 
essa adulação é o mel, o condimento de toda a sociedade huma- 
na. Dizem os sábios que é um grande mal estar enganado; eu, ao 
contrário, sustento que não estar é o maior de todos os males. É 
uma grande extravagância querer fazer consistir a felicidade do 
homem .na realidade das coisas, quando essa realidade depende 
exclusivamente da opinião que dela se tem. Tudo na vida é tão 
obscuro, tão diverso, tão oposto, que não podemos certificar-nos 
de nenhuma verdade. Tal era justamente o princípio dos meus 
acadêmicos, que se mostravam nisso menos orgulhosos que 
todos os outros filósofos. Porque, se há verdades que, tendo sido 
bem demonstradas, não deixam lugar às dúvidas, quantas não 
serão — pergunto — as que perturbam a tranquilidade e os pra- 
zeres da vida? Os homens, enfim, querem ser enganados e estão 
sempre prontos a deixar o verdadeiro para correr atrás do falso. 
Quereis disso uma prova sensível e incontrastável? Ide assistir a 
um sermão, e vereis que, quando o cacarejador (oh! que injúria! 
enganei-me, desculpai-me) queria dizer, quando o pregador 
aborda o assunto com seriedade e apoiado em argumentos, o 
auditório dorme, boceja, tosse, assoa o nariz, relaxa o corpo, 
inteiramente enjoado. Se, porém, o orador, como quase sempre é 


78 Narciso, filho do rio Cefiso e de Leriope, foi um jovem de grande beleza que, vaidoso 
de si mesmo, se amou com tanto transporte que acabou morrendo de fraqueza. 


ELOGIO DA LOUCURA 83 


o caso, conta uma velha fábula ou um milagre da lenda, então o 
auditório logo se agita, os dorminhocos despertam, todos os 
ouvintes levantam a cabeça, arregalam os olhos, prestam aten- 
ção. Nunca observastes que, ao celebrar-se numa igreja a festa 
de um santo poético ou romântico — por exemplo, de um São 
Jorge, de um São Cristóvão, de uma Santa Bárbara — em geral 
se costuma consagrar-lhe uma pompa e uma devoção bem maio- 
res que a que se consagra a São Pedro e São Paulo, e ao próprio 
Nosso Senhor? Mas não é este o lugar apropriado para tal 
questão. 

Voltemos ao nosso assunto. Quanto não custa conquistar a 
felicidade de opinião! Que os que pretendem repor a felicidade 
no gozo das coisas tenham a bondade de observar quais e quan- 
tos são os sofrimentos que costumam causar mesmo os objetos 
menos importantes. Para fazermos um juízo a respeito, basta- 
nos lembrar as dificuldades que oferece o estudo da gramática. 
À opinião, ao contrário, é concebida sem esforço, insinua-se por 
si mesma no coração e contribui também, talvez mais do que a 
evidência e a realidade das coisas, para a felicidade da vida. Se 
um esfomeado come carne podre, cujo fedor obrigaria um outro 
a tapar o nariz, se ele a come com tanto gosto como se se tra- 
tasse do alimento mais fino, eu vos pergunto se por isso deve ser 
considerado menos feliz. Ao contrário, se um enfastiado comes- 
se excelentes iguarias e, em lugar do seu gosto, sentisse náuseas, 
onde estaria, nesse caso, a sua felicidade? Para um homem que 
tem uma mulher feiissima, mas na qual vê perfeitamente a sua 
bela, não é o mesmo que se tivesse desposado uma Vênus? O 
tolo que possui um mau e miserabilíssimo quadro, mas acredita 
possuir uma pintura de Zêuxis ou de Apeles, não se cansando de 
contemplá-lo e admirá-lo, não será incomparavelmente mais 


84 ERASMO 


feliz do que o que, tendo comprado por elevado preço um qua- 
dro desses excelentes pintores, não experimente igual prazer ao 
contemplar as suas obras? 

De um homem que tem a honra de trazer o meu nome, eu sei 
que, pouco depois das núpcias, deu de presente à sua mulher bri- 
lhantes falsos. Sendo ele um engraçado tratante, convenceu a 
mulher de que as pedras eram preciosas, tendo lhe custado uma 
grande soma. Ora, nada faltava ao prazer da esposa. Ela gostava 
de se enfeitar com aqueles pedaços de vidro e não se cansava de 
admirá-los, satisfeitissima de possuir o imaginário tesouro, 
como se este fosse real. Ao mesmo tempo, o marido poupara 
uma despesa apreciável e estava contente com o engano da 
mulher, que lhe agradecia da mesma forma por que o teria feito 
se ele lhe tivesse dado um magnífico presente. 

Merecem ser incluídos nessa categoria os habitantes da caver- 
na de Platão 7 7. Ao verem, os tolos, as sombras e as aparências 
de diversas coisas, admiram-nas e nada mais procuram, dando- 
se por satisfeitos. Já os filósofos, por estarem fora da caverna, 
não só observam os mesmos objetos como lhes investigam os 
mistérios. Não terão uns e outros o mesmo prazer? Se o remen- 
dao Micilo 78, de que fala Luciano, tivesse podido passar o resto 
dos seus dias no belíssimo sonho em que se embalava quando o 
despertaram, poderia ele desejar felicidade maior? 


77 Dizia Platão que eram leigos e sonhadores os que menosprezavam as idéias divinas e 
as coisas espirituais com o fim de se entregarem totalmente aos prazeres do corpo. “Esses 
homens — disse o filósofo -— são escravos de si mesmos e têm por domicilio uma 
caverna”. 

78 Segundo Luciano, não passava Micilo de um pobre remendão. Tendo este, certa vez, 
ceado admiravelmente em casa de um vizinho abastado, sonhou que tinha ficado rico e, 
depois. carregado às costas, ia gozar todos os bens da opulência. Como, porém, um galo 
o despertasse com seu canto, ele teve tal decepção e ficou tão furioso que pouco faltou 
para matar O importuno cantor. 


ELOGIO DA LOUCURA a 


Não haveria, pois, diferença alguma entre os sábios e os lou- 
cos, se não fossem mais felizes estes últimos. Sim, porque estes o 
são por dois motivos: o primeiro é que a felicidade dos loucos 
não custa nada, bastando um pouquinho de persuasão para for- 
má-la; o segundo é que os meus loucos são felizes mesmo quan- 
do estão juntos com muitos outros. Ora, é impossível gozar um 
bem quando se está sozinho. 

Os sábios são em número tão escasso que nem vale a pena 
falar deles, e eu desejaria saber mesmo se é possível descobrir 
algum. No curso de tantos séculos, a Grécia se vangloria de ter 
produzido apenas sete sábios. É na verdade maravilhoso! O gê- 
nero humano deve mesmo muito a essa felicidade da Grécia! 
Foram mesmo sete? Pois pedi a Deus que não vos venha o dese- 
jo de anatomizá-los cuidadosamente, porque, de contrário 
(juro-vos por Hércules, arrebento-vos a cabeça), não encontra- 
rieis, decerto, nem a metade de um filósofo e talvez nem mesmo 
um terço. 

Quero louvar-me ainda num outro fato. Entre os numerosos 
méritos que os poetas costumam atribuir a Baco, o que se man- 
tém e é realmente o primeiro é o que consiste em tirar e dissipar 
do ânimo dos mortais as aflições, as inquietações e a tristeza, 
perversas filhas da razão: mas, por pouco tempo, porque, depois 
de algumas horas de sono, voltam a atormentar-nos imediata- 
mente e, como se costuma dizer, a todo o galope. Não serã isso 
inteiramente o oposto do bem que proporciono aos mortais? Eu 
os embriago, mas também lhes tiro a razão. Minha embriaguez 
é muito diferente da de Baco: enche a alma de alegria, de tripú- 
dio e de delícias, dura até ao fim da vida e não custa dinheiro 
nem dá remorsos. 

Os homens me devem ser particularmente gratos, pois nao 


86 — ERASMO 


permito que haja entre eles algum que não sinta mais ou menos 
os defeitos da minha beneficência. Nenhuma das outras divinda- 
des reparte igualmente, entre os mortais, os seus favores. Não 
cresce por toda parte aquele vinho generoso e saboroso que afas- 
ta as aflições importunas e enche até o ânimo mais melancólico 
de alegria, de coragem e de esperanças. Vênus raramente conce- 
de o dom da beleza; Mercúrio dá a poucos a eloquência e Hércu- 
les é parco dispensar das riquezas; o homérico Júpiter na cabeça 
de muito poucos põe a coroa; Marte frequentemente recusa aos 
dois exércitos o seu auxílio; Apolo costuma dar respostas 
desagradáveis aos que consultam o seu oráculo; o filho de Satur- 
no constantemente lança suas setas; Febo às vezes manda a 
peste e Netuno mata mais pessoas do que salva. Quanto às hor- 
ríveis divindades chamadas Véjoves”?º, como seriam Plutão, a 
Discórdia, o Castigo, a Febre, e outras tantas que deveriam 
antes chamar-se carniceiras que divindades, não merecem em 
absoluto que eu me dé ao trabalho de lhes fazer alusão. 

Portanto, a verdade é que os outros deuses não são bons e 
benéficos para todos os mortais, sendo a Loucura a única deusa 
que cumula de favores todo o gênero humano. E o admirável é 
que a minha generosidade não é manchada por nenhum interes- 
se. Sou a única que não exige nem votos nem ofertas. Minha 
divindade não se ofende nem ordena vitimas de expiação, quan- 
do omitida alguma cerimônia do meu culto. Não ponho em 
desordem o céu e a terra para vingar-me de alguém que, tendo 
convidado todos os outros deuses, só a mim tenha esquecido em 
casa, deixando-me à margem do odor e da fumaça das vitimas 
7º Divindade infernal na mitologia romana. Erasmo emprega o nome na acepção coletiva 


de divindades infernais às quais os romanos sacrificavam sem esperar outra ajuda a não 
ser a de não criar obstáculo aos seus projetos e desejos. (N. do E.) 


ELOGIO DA LOUCURA 87 


sacrificadas. Para confusão e vergonha dos outros deuses, deve- 
rei eu mesma dizer que se mostram tão incontentáveis e capri- 
chosos que seria um mal absolutamente menor deixá-los em 
abandono do que adorá-los. Com eles se deveria fazer o que se 
costuma praticar com as pessoas intratáveis e inclinadas ao mal, 
isto é, cortar com eles toda correspondência, uma vez que tão 
caro é o preço de sua amizade. 

E quem acreditaria, agora, que essa minha conduta devesse 
provocar desprezo? Até agora, é voz geral, ninguém pensou em 
prestar à Loucura honras divinas; ninguém lhe consagrou um 
templo; ninguém a nutriu com vapores das vítimas. Para falar- 
vos com franqueza, e creio que já o disse, tamanha ingratidão 
me causa grande surpresa; mas pouco me importa isso e, de 
acordo com a minha natural facilidade, não levo a coisa a mal. 
Eu cheiraria à sabedoria e seria indigna de ser Loucura se recla- 
masse essas honras divinas. Que é que se me ofereceria sobre os 
altares? Um pouco de incenso, um pouco de farinha, um bode, 
um porco. Poderia eu permitir que se degolassem esses inocentes 
animais para deleitar-me o olfato? Oh! que ridículas bagatelas! 
Tenho um culto, sim, um culto que abrange o mundo inteiro e 
que todos os mortais me prestam, e os próprios teólogos o con- 
solidam pelo exemplo. Não tenho a bárbara e cruel ambição de 
Diana, que vê com prazer as vítimas humanas, mas creio, ao 
contrário, ser religiosamente servida e venerada quando me vejo 
esculpida em cada coração e representada pelos costumes e 
conduta. 

A propósito de culto, o que os cristãos prestam aos santos 
consiste quase todo em amá-los e imitá-los. Oh! como são 
numerosos os que, em pleno meio-dia, acendem velas aos pés da 
Virgem Mãe de Deus! Mas não se acha quase nenhum que siga 


88 ERASMO 


os seus exemplos de castidade, de modéstia, de zelo pela causa 
da salvação. No entanto, a imitação das suas virtudes seria O 
único culto capaz de assegurar o céu aos devotos. 

De resto, por que hei de exigir um templo, se possuo um tão 
vasto e tão belo, que é a terra inteira? Não me faltam ministros, 
nem sacerdotes, salvo nos lugares onde não existe nenhum 
homem. Eu não desejaria que me julgásseis tão idiota ao ponto 
de me preocupar com estátuas e imagens: tais figuras seriam de 
resultados bem funestos para o nosso culto, pois que muitas 
vezes sucede que os devotos estúpidos e materiais tomam a ima- 
gem pelo santo, e, nesse caso, a nossa sorte seria a mesma dos 
que são suplantados por seus vigários. Todos os mortais são 
estátuas a mim erigidas, imagens vivas da minha pessoa, mesmo 
contra a própria vontade. Consinto, pois, de bom grado, que os 
outros deuses tenham templos, um num canto da terra, outro em 
outro, e sejam festejados apenas em certos dias do ano. Adore-se 
Febo em Rodes, Vênus em Chipre, Juno em Argos, Minerva em 
Atenas, Júpiter no Monte Olimpo, Netuno em Taranto, Priapo 
em Lâmpsaco. Quanto à minha condição divina, será sempre 
mais gloriosa que a deles, enquanto a terra for meu templo e 
todos os mortais as minhas vítimas. 

Poderá, talvez, parecer a alguém que eu esteja pregando impu- 
dentes mentiras. Quero, porém, mostrar-vos que tudo isso é a 
pura verdade. Reflitamos um pouco sobre a vida humana, e se 
eu não vos demonstrar que sou a deusa à qual todos os homens 
são mais gratos e que eles mais estimam, desde o cetro ao bastão 
do pastor, acima de todas as coisas, estou disposta a deixar de 
ser a Loucura. Não quero, contudo, dar-me ao trabalho de per- 
correr todas as condições, pois demasiado longa seria a carreira. 
Limitar-me-ei, assim, a indicar as principais, das quais facil- 
mente se poderá inferir o resto. 


ELOGIO DA LOUCURA 89 


A começar pelo vulgo, ou seja a gentinha, não há dúvida de 
que todo ele me pertence, pois tão fecundo é em toda sorte de 
loucuras, tal é o número das que descobre diariamente, que mil 
Demócritos seriam poucos para rir-se bastante, sendo que esses 
mil Demócritos ainda precisariam de outro Demócrito para rir- 
se deles. É incrível dizer-se quanto esses grosseiros homenzinhos 
servem diariamente de divertimento, de riso e de chacota aos 
deuses. Para vos convencerdes disso, convém dizer-vos uma 
coisa. Os deuses são sóbrios até à hora do almoço, empregando 
essas horas matinais em contenciosas deliberações e em escutar 
as preces dos mortais. Terminada a refeição, ao sentirem subir à 
cabeça os vapores do néctar sorvido a largos goles, não sabem 
mais aplicar-se a assuntos de alguma importância. Que pensais 
que eles fazem, então, para restaurar o cérebro? Reúnem-se 
todos na parte mais elevada do céu e, sentados lã em cima, 
olham para baixo, divertindo-se à grande com o espetáculo das 
várias ações humanas. Deuses imortais! Que bela e ridícula 
comédia não resultará de todos os movimentos dos loucos? Bem 
posso dizê-lo, pois que às vezes participo desse divertimento das 
divindades poéticas. 

Um se apaixona perdidamente por uma mulherzinha, e, quan- 
to menos correspondido, tanto mais acesa se torna sua paixão 
amorosa; outro casa-se com o dote e não com a moça; outro 
prostitui a própria mulher, vendendo-a ao primeiro que encon- 
tra; outro, finalmente, agitado pelo deriônio do ciúme, espia 
como um Argos a conduta da esposa. E que coisas estranhas 
não se dizem e fazem quando morre um parente próximo? Che- 


90 ERASMO 


ga-se ao ponto de pagar a pessoas que finjam chorar e gesticu- 
lem como cômicos. Quanto maior é a alegria experimentada 
pelo coração, tanto maior é a tristeza que o rosto aparenta, o que 
deu origem ao provérbio grego: Chorar na sepultura da madras- 
ta. Este tira o quanto pode, seja de onde for, e dá tudo de pre- 
sente à própria barriga, com o risco de morrer de fome depois de 
satisfeita a gulodice; aquele põe toda a sua felicidade no ócio e 
no sono; há alguns que, preocupados sempre com os negócios 
alheios, descuram inteiramente dos próprios interesses; vêem-se 
os que contraem dívidas para pagar as dos outros e, quando se 
Julgam ricos, verificam que estão falidos; há os que, vivendo 
pobremente, não conhecem outra felicidade senão a de enrique- 
cer os seus herdeiros; outros, ávidos de riquezas, percorrem os 
mares em busca de um ganho incerto, confiando às ondas e aos 
ventos uma vida que nenhum ouro do mundo poderia resgatar; 
outros, sedentos de sangue, preferem tentar a sorte no meio dos 
perigos e dos horrores da guerra a passar seus dias, cômoda e 
tranquilamente, no seio da família; enfim, gabam-se de uma 
gorda herança, quando conseguem apoderar-se do ânimo de 
algum velho que está para morrer sem herdeiros, ou quando têm 
a fortuna de cativar a graça e o favor de uma rica velhota. Mas, 
depois, como se riem os deuses, ao verem esses pescadores de 
dinheiro nas próprias redes! 

Os negociantes, sobretudo, são os mais sórdidos e estúpidos 
atores da vida humana: não há coisa mais vil do que a sua 
profissão, e, como coroamento da obra, exercem-na da maneira 
mais porca. São, em geral, perjuros, mentirosos, ladrões, trapa- 
ceiros, impostores. No entanto, devido à sua riqueza, são tidos 
em grande consideração e chegam a encontrar frades adulado- 
res, particularmente entre os mendicantes, que lhes fazem humil- 


ELOGIO DA LOUCURA 91 


demente a corte e publicamente lhes dão o nome de veneráveis, 
a fim de lhes abiscoitar uma parte dos mal adquiridos tesouros. 
Veêem-se, também, alguns sequazes de Pitágoras, que adotando a 
opinião desse filósofo, segundo a qual todos os bens são comuns, 
usurpam conscientemente tudo o que podem, como se conse- 
guissem uma herança legítima. Outros, imaginando-se ricos, 
arquitetam belíssimas quimeras de fortuna e vivem felizes nas 
suas esperanças. Alguns querem passar por ricos, embora às 
vezes chegue a lhes faltar o necessário. Um apressa-se a esbanjar 
todos os seus bens, enquanto outro está sempre preocupado em 
acumular, por meios lícitos e ilícitos, tudo o que pode. Há os 
que anseiam por obter um cargo, e os que, acima de tudo, prefe- 
rem viver ociosamente sentados a um canto do lar. Enfurecem-se 
as partes com a demora do processo, parecendo apostar qual das 
duas tem mais a possibilidade de enriquecer um juiz venal e um 

, advogado prevaricador, cujo intuito não é senão prolongar a 
demanda, que só para eles traz vantagens. Uns vivem tentando 
renovar, outros meditam grandes empresas. Alguns empreendem 
uma romaria a Jerusalém, a Roma, a São Tiago, onde não têm 
nada que fazer, enquanto deixam abandonados em casa a mu- 
lher e os filhos, que tanto necessitam de sua presença. 

Se, finalmente, pudésseis observar, do mundo da lua, como o 
fez Menipo, as inúmeras agitações dos mortais, decerto acredita- 
rieis estar vendo uma densa nuvem de moscas ou de pernilongos 
brigando, insidiando-se, guerreando-se, invejando-se, espolian- 
do-se, enganando-se, fornicando-se, nascendo, envelhecendo, 
morrendo. Não podeis sequer imaginar os horrores e as revolu- 
ções com que enche a terra esse animalzinho, tão pequeno e de 
tão pouca duração, que vulgarmente se chama homem. 

Quantas vezes um rápido turbilhão guerreiro ou pestifero 


92 ERASMO 


basta para subtrair e dizimar num momento muitos milhares de 
homens! Mas eu própria seria profundamente estúpida e merece- 
ria que Demócrito se risse de mim a valer, se pretendesse descre- 
ver todas as extravagâncias e loucuras do vulgo. Passemos, pois, 
a falar dos que conservam, entre os homens, uma aparência de 
sabedoria e possuem, como dizem eles, esse ramo de louro de 
Virgílio. 

Entre esses, ocupam o primeiro posto os gramáticos, ou sejam 
os pedantes. Essa espécie de homens seria decerto a mais miserá- 
vel, a mais aflita, a mais malquista pelos deuses, se eu não tives- 
se o cuidado de mitigar os incômodos de tal profissão com gêne- 
ros especiais de loucura. Não estão eles sujeitos apenas às cinco 
pragas e flagelos do epigrama grego, mas ainda a seiscentos 
outros. Sempre famélicos e sujos nas suas escolas, ou melhor, 
nas suas cadeias ou lugares de suplícios e de tormentos, no meio 
de um rebanho de meninos, envelhecem de fadiga, tornam-se 
surdos com o barulho, ficam tísicos com o fedor e a imundiície. 
No entanto, quem o diria? Graças a mim, os pedantes se julgam 
os primeiros homens do mundo. Não podeis imaginar o prazer 
que experimentam fazendo tremer os seus tímidos: súditos com 
um ar ameaçador e uma voz altissonante. Armados de chicote, 
de vara, de correia, não fazem senão decidir o castigo, sendo ao 
mesmo tempo partes, juízes e carrascos. Parecem-se mesmo com 
o burro da fábula, o qual, por ter às costas uma pele de leão, jul- 
gava-se tão valoroso como este. A sua imundície afigura-se-lhes 
asseio; o fedor serve-lhes de perfume; e, acreditando-se reis em 
meio à sua miserabilíssima escravidão, não desejariam trocar as 
próprias tiranias pelas de Fálaris ou de Dionísio8º. O que sobre- 


8º Fálaris, como vimos na nota 13, era um tirano crudelíssimo de Agrigento. — Dionií- 
sio, famoso tirano de Siracusa, foi expulso do reino por seus próprios súditos, em virtude 
das grandes crueldades que cometera. Ao chegar a Corinto, a fim de exercer o mister de 
mestre-escola, disse: “Também isto é reinar” 


ELOGIO DA LOUCURA 93 


tudo contribui para torná-los felizes é a idéia que fazem da pró- 
pria erudição. Embora não façam senão meter palavras insignifi- 
cantes e insulsas frivolidades na cabeça das crianças confiadas 
aos seus cuidados — santo Deus! — consideram um nada dian- 
te deles os Palêmones e os Donatos*!. Nem mesmo sei com que 
meios conseguem lisonjear as estúpidas mães e os idiotas pais 
dos alunos, ao ponto de serem realmente considerados como os 
ilustres homens que eles próprios se inculcam. Acrescentemos a 
isso outro gênero de prazer por eles experimentado toda vez que 
conseguem descobrir, num velho papelucho todo sujo e comido 
de traças, o nome da mãe de Anquises ou alguma palavra geral- 
mente desconhecida — bubsequam, por exemplo, bovinatorem, 
manticulatorem*? — ou quando têm a sorte de encontrar um 
pedaço de lápide antiga, na qual se encontrem caracteres trunca- 
dos. Ah! por Júpiter imortal! que tripúdio, que triunfo, que 
aplausos! Não foi certamente maior a alegria de Cipião ao sub- 
jugar a África, nem a de Dario ao conquistar a Babilônia. É 
indizível a alegria experimentada por esses pedantes, quando, ao 
lerem de porta em porta os seus versos gelados e insulsos, encon- 
tram por acaso algum admirador. Logo se julgam novos Virgi- 
lios e não sei se se gabam de que a alma de Marão lhes tenha 
passado pelo cérebro. Oh ! como é bonito vê-los trocar, entre si, 
elogio por elogio, admiração por admiração, lisonja por lisonja! 
Se acontece que um homem da arte erra em alguma sintaxe e 
outro mais penetrante do que ele o percebe — santo Deus! — 
que cenas, que discussões, que injúrias, que invectivas! 

A propósito de gramática, quero contar-vos uma bonita histó- 
ria: a história é verídica e, se eu estiver mentindo, quero ter 
81 Palêmones e Donato, dois famosos gramáticos. 


82 Palavras rebuscadas para designar, respectivamente, boiadeiro, tergiversador, ladrão. 
(N. do E.) 


94 ERASMO 


todos os gramáticos contra mim (vede só que terrível declara- 
ção !). Conheço um homem de sessenta anos que conhece perfei- 
tamente o grego, o latim, as matemáticas, a filosofia, a medicina. 
Pois seríeis capazes de adivinhar com que se preocupa esse sábio 
universal, há uns vinte anos? Tendo abandonado todos os estu- 
dos, dedica-se exclusivamente à gramática, pondo o cérebro num 
tormento contínuo. Só ama a vida para ter tempo de dirimir 
algumas dificuldades dessa importante arte, e morreria satisfeito 
se descobrisse um método seguro de distinguir bem as oito par- 
tes do discurso, coisa que, a seu ver, não conseguiram com per- 
feição nem os gregos nem os latinos. Bem vedes que é uma ques- 
tão de suma importância para o gênero humano. Com efeito, 
não é mesmo uma miséria estar sempre correndo o risco de 
tomar uma conjunção por advérbio? Um tal equivoco mereceria 
uma guerra cruenta. 

Quero, agora, observar-vos que há mais gramáticas do que 
gramáticos: só Aldo, um dos meus favoritos nesse gênero, publi- 
cou cinco. Pois bem: o meu cabeçudo estuda-as todas, mesmo 
quando escritas num estilo bárbaro e insuportável; analisa-as 
todas, da primeira até à última, causando profunda inveja aos 
que escrevem tão mal sobre o assunto e torturado sempre pela 
dúvida de que possam roubar-lhe a glória e o fruto de suas lon- 
gas fadigas. Que vos parece esse ridículo sábio? Devemos cha- 
má-lo de louco ou delirante? Chamai-o do que quiserdes, desde 
que concordeis em que é graças a mim que esse animal sobrecar- 
regado de misérias anda sempre tão satisfeito, tão orgulhoso de 
si mesmo e da sua sorte, a qual ele não trocaria pela dos mais 
ricos e poderosos reis da terra. 

Já os poetas não me devem tanto, não porque não sejam igual- 
mente loucos, mas porque têm o direito de ser membros ex pro- 


ELOGIO DA LOUCURA 95 


fesso do meu partido. Há muito tempo que se diz que “os poetas 
e os pintores formam uma nação livre”. Os poetas fazem consis- 
tir toda a sua arte em impingir lorotas e fábulas ridículas para 
deleitar os ouvidos dos tolos. Isso não impede que, apoiados nes- 
sas ridicularias, se gabem de obter uma divina imortalidade e 
ainda a prometam aos outros. O amor-próprio e a adulação são 
os seus conselheiros indivisíveis, e eu não tenho adoradores mais 
fiéis nem mais constantes do que eles. 

Os oradores também pertencem a minha seita. Devo, porém, 
confessar-vos que não são os meus súditos mais fiéis, pois se 
assemelham, até certo ponto, aos filósofos. Apesar disso, além 
de serem igualmente cheios de amor-próprio e de vaidade, não 
deixam de ser fecundos em frivolidades, sendo que os mais céle- 
bres chegaram a escrever a sério extensos tratados sobre a 
maneira de pilheriar. O autor, pouco importa o nome, que dedi- 
cou a Herênio a arte de dizer, inclui a loucura entre várias espé- 
cies de facécias. O próprio Quintiliano, esse príncipe dos retóri- 
cos, compôs sobre o riso um capítulo mais volumoso do que a 
Ilíada, de Homero. Segundo esses escritores, a loucura tem uma 
força maior do que a razão, porque, muitas vezes, aquilo que 
não se pode conseguir com nenhum argumento se obtém com 
uma chacota. Finalmente, eu não desejaria ser a Loucura, se a 
arte de provocar o riso com gostosas piadas não fosse exclusiva- 
mente minha. 

Outra espécie de pessoas mais ou menos da mesma laia é 
constituída pelos que ambicionam uma fama imortal publicando 
livros. Todos esses escritores têm parentesco comigo, sobretudo 
os que só publicam coisas insipidas. Quanto aos autores que só 
escrevem para poucos, isto é, para pessoas de fino gosto e pers- 
picazes, que não recusam o juízo de Pérsio e de Lélio, confesso- 


96 ERASMO 


vos ingenuamente que merecem mais compaixão do que inveja. 
Imersos numa contínua meditação, pensam, tornam a pensar, 
acrescentam, emendam, cortam, tornam a pôr, burilam, refun- 
dem, fazem, riscam, consultam, e nesse trabalho levam as vezes 
nove e dez anos, de acordo com o preceito de Horácio, antes do 
manuscrito ser impresso. Oh! como me causam piedade tais 


escritores! Nunca estando satisfeitos com o seu trabalho, que 
recompensa podem esperar? Ai de mim! um pouco de incenso, 
um reduzido número de leitores, um louvor incerto. Mas respon- 


deiime francamente: compensarão essas tênues bagatelas o 
sacrifício do sono, mais doce do que tudo, da tranquilidade, dos 
prazeres, numa palavra, de todas as doçuras da vida? É preciso 
acrescentar ainda que esses sonhadores que andam em busca de 
imortalidade arruínam a saúde, tornam-se pálidos, magros, 
remelentos e, às vezes, até cegos. São sempre miseráveis, inveja- 
dos, não têm prazer algum e, como resultado, só conseguem 


apressar a velhice e a própria morte. Malgrado tudo isso, O 
nosso sábio considera suficiente, como remédio a tantos males, a 
aprovação de um ou dois remelentos da sua espécie. 

Mas. falemos, agora, de um autor que escreva sob os meus 
auspícios e do qual seja eu a Minerva. Não conhecendo a medi- 
tação, nem a tortura do cérebro, nem as vigílias, escreve tudo o 


que sonha, tudo o que lhe vem à cabeça. Tudo lhe parece 
surpreendente e divino. A pena mal pode acompanhar a veloci- 
dade da imaginação e dos pensamentos. Não despendendo mais 
do que um pouco de papel, escreve um mundo de disparates e de 
impertinências convencido de que, publicando bobagens, gran- 
jeará mais facilmente os aplausos da maioria, isto é, de todos os 
tolos e de todos os ignorantes. E quem poderá negar que esse 
homem seja verdadeiramente feliz? Responder-me-eis que, assim 


ELOGIO DA LOUCURA 97 


parecendo, é preciso renunciar completamente à esperança de 
ser aplaudido pelos verdadeiros doutos! Bolas! que grande 
sacrifício! Raramente sucede que esses críticos sábios e requin- 
tados dêem importância ao meu autor. Mas, mesmo admitindo 
que todos eles o lessem, seria, igualmente, dispensável o seu 
sufrágio para secundar o dos tolos e ignorantes, que representam 
a opinião de quase todo o gênero humano. Poreis em dúvida essa 
verdade? 

Compreendem-na ainda melhor os plagiários*? que com suas 
facilidades se apropriam das obras alheias, gozando da glória 
que aqueles dos quais eles a roubaram conseguiram com imensa 
dificuldade. Não ignoram esses impudentes que, mais dia menos 
dia, será descoberto o furto, mas em compensação esperam 
aproveitar-se dele por algum tempo. É um prazer doido ver 
como se pavoneiam quando elogiados; quando, ao passar por 
um lugar, são apontados e ouvem dizer: — Olhe, aquele ali é um 
homem verdadeiramente admirável; quando vêem seus livros 
bem juntinhos e bem expostos na loja de algum livreiro. Seus 
nomes são lidos no alto de cada página, e são no mínimo três, 
todos estrangeiros, parecendo caracteres mágicos. Esses nomes 
— por Júpiter imortal! — não têm significação alguma, mas 
não deixam, em substância, de ser verdadeiros nomes! Conside- 
rando-se, além disso, toda a vastidão da terra, pode dizer-se que 
pouquíssimos são que os louvam, não sendo muito diverso do 
dos ignorantes o gosto dos sábios. Costuma também acontecer, 
frequentemente, que esses nomes são inventados e tomados de 
empréstimo aos antigos. Há, por exemplo, os que gostam de se 
chamar Telêmaco; outros, Esténelo; outros, Laerte; outros, Poli- 
crates; outros, Trasimaco, etc. Os nossos plagiários sentem-se 


83 Plagiários eram os que roubavam as crianças e os escravos. A palavra tem, hoje, um 
sentido análogo, referindo-se aos que roubam idéias alheias. 


98 ERASMO 


orgulhosos de fazer reviver esses nomes mortos e adotá-los, mas 
fariam bem, igualmente, se se chamassem camaleões, abóboras, 
etc., e, segundo o uso de alguns filósofos, dessem aos seus livros 
os títulos de 4 ou B. É engraçadíssimo ver essas azêmolas incen- 
sarem-se entre si nas letras, nas poesias e nos elogios. — Ven- 
cestes, Alceu? *4 — diz um. — E vós, Calimaco? * — responde o 
outro — eclipsastes o orador romano. — E vós superastes o di- 
vino Platão. — Às vezes, esses generosos campeões injuriam-se 


reciprocamente, a fim de aumentarem pela emulação a própria 
fama. Enquanto isso, o público fica suspenso, sem saber que par- 
tido tomar durante a polêmica. Mas, em geral, acontece que os 
bravos antagonistas fazem prodígios, merecendo ambos os lou- 


ros da vitória e as honras do triunfo. No entanto, vós sábios, vos 
rides dessas belas coisinhas e as considerais como verdadeiras 
loucuras. E quem poderá dizer que não tendes razão? Não po- 
deis mesmo negar que somente eu faço a felicidade dos maus 
escritores e dos plagiários, que decerto não trocariam os seus 
triunfos pelos dos Alexandres ou dos Cipiões. Mas acreditarão 
esses doutos que eu vejo rir tão gostosamente, zombando da lou- 
cura alheia, que não me devem também alguma obrigação? Se 
assim é, fiquem certos de que ou são cegos ou miseravelmente 
ingratos. Passemos, pois, em revista as profissões dos doutos. 
Pretendem os advogados levar a palma sobre todos os erudi- 
tos e fazem um grande conceito da sua arte. Ora, para vos ser 
franca, a sua profissão é, em última análise, um verdadeira tra- 
84 Alceu de Mitilene, um dos maiores poetas líricos da antiguidade. Inimigo figadal de Pí- 
taco, de Periandro e de outros tiranos. Inventor dos versos alcaicos. 
88 Calímaco, célebre poeta grego, nascido em Cirene. Segundo Quintiliano, era ele consi- 


derado, entre os gregos, como príncipe dos poetas elegiacos. Catulo imitou-o. Afirmava 
Calimaco que um grande livro é um grande mal. 


ELOGIO DA LOUCURA 99 


balho de Sísifo* º. Com efeito, eles fazem uma porção de leis que 
não chegam a conclusão alguma. Que são o digesto, as pandec- 
tas, o código? Um amontoado de comentários, de glosas, de 
citações. Com toda essa mixórdia, fazem crer ao vulgo que, de 
todas as ciências, a sua é a que requer o mais sublime e labo- 
rioso engenho. E, como sempre se acha mais belo o que é mais 
difícil, resulta que os tolos têm em alto conceito essa ciência. 

Podemos unir a esses, com toda a honra, os dialéticos e os 
sofistas, que fazem mais barulho do que todo o bronze dodô- 
nio* 7, sendo que cada um deles poderia superar em tagarelice. 
mais de vinte mulheres, mesmo dentre as que costumam distin- 
guir-se pelo falatório. Não obstante, ainda seria de desejar que 
não tivessem outro defeito a não ser o de falar demais; mas, por 
désgraça nossa, são sempre discussões de /ana caprina, e, à força 
de discutir para sustentar a verdade (como pretendem eles), per- 
dem de vista, o mais das vezes, a própria verdade. Esses eternos 
discutidores estão sempre contentes consigo mesmos e, armados 
de três ou quatro silogismos, sempre dispostos a desafiar para a 
controvérsia quem quer que seja e sobre qualquer argumento. A 
obstinação serve-lhes de espada invencível, pois não cedem 
nunca, ainda mesmo que tivessem de medir-se com um 
Estentor*8. 

Seguem-se-lhes, imediatamente, os veneráveis filósofos, res- 
peitáveis pela barba e pela túnica. Gabam-se de ser os únicos sá- 
86 Sísifo, segundo os poetas, foi condenado a fazer rolar uma enorme pedra, sem parar, 
até ao cume de uma montanha. Mal, porém, chegava ao termo do seu trabalho, a pedra ro- 
lava para baixo. 

87 No templo de Dodona, havia um lugar dedicado a Júpiter, no qual se achavam vários 
vasos dispostos de maneira tal que, ao se bater no primeiro, o som se propagava até ao úl- 
timo, produzindo um barulho insuportável. 


88 Diz Homero que Estentor tinha uma voz tão forte que equivalia à de cinquenta pessoas 
falando ao mesmo tempo. 


100 ERASMO 


bios e acreditam que todos os outros homens não passem de 
sombras móveis. Rasguemos esse véu de orgulho e de presunção, 
e vejamos o que são os filósofos. Não passam, também, de ridi- 
culos loucos: quem poderá conter o riso ao ouvi-los sustentar 
seriamente a infinidade dos mundos? O sol, a lua, as estrelas, 
todos esses globos são por eles conhecidos tão bem como se os 
tivessem medido palmo a palmo ou com um fio. Sem duvidar de 
nada, eles vos dizem a causa do trovão, dos ventos, dos eclipses 
e de todos os outros mistérios físicos. Na verdade, ao ouvi-los 
falar com tanta convicção, qualquer os julgaria membros do 
grande conselho dos deuses ou testemunhas oculares da natu- 
reza quando tudo saiu do nada. Mas, a despeito disso, a nature- 
za, essa hábil produtora do universo, parece zombar das suas 
conjecturas. Basta, com efeito, refletir-se sobre a estranha diver- 
sidade dos seus sistemas, para se dever confessar que eles não 
têm nenhuma idéia segura, pois que, enquanto se gabam de saber 
tudo, não estão de acordo em nada. Os filósofos nem ao menos 
se conhecem, porquanto, ao tentarem elevar-se às mais sublimes 
especulações, caem num buraco com que não contavam e que- 
bram a cabeça contra uma pedra. Estragando a vista na contem- 
plação meticulosa da natureza e com o espírito sempre distante, 
vangloriam-se de distinguir as idéias, os universais, as formas 
separadas, as matérias-primas, os quid, os esse, em suma, todos 
os objetos que, de tão pequenos, só poderiam distinguir-se, se 
não me engano, com olhos de lince. 

Em nenhuma outra ciência se despreza tanto o vulgo profano 
como nas matemáticas, que consistem em triângulos, quadrados, 
circulos e outras figuras geométricas semelhantes, que se sobre- 
poem umas às outras, confundindo tudo como um labirinto. Por 
fim, atordoam os idiotas com diversas letras dispostas como um 


ELOGIO DA LOUCURA 101 


exército em ordem de batalha e subdivididas em várias 
companhias. 

Mas, não esqueçamos os astrólogos, aos quais o céu serve de 
biblioteca e os astros servem de livros. Graças a esse estudo, 
compreendem tudo muito bem e revelam o futuro, predizendo 
maiores prodígios do que os magos. E o mais bonito é que ainda 
têm a fortuna de encontrar crédulos. 

Talvez fosse melhor não falar dos teólogos, tão delicada é 
essa matéria e tão grande é o perigo de tocar em semelhante 
corda. Esses intérpretes das coisas divinas estão sempre prontos 
a acender-se como a pólvora, têm um olhar terrivelmente severo 
e, numa palavra, são inimigos muito perigosos. Se acaso incor- 
reis na sua indignação, lançam-se contra vós como ursos furi- 
bundos, mordem-vos e não vos largam senão depois de vos 
terem obrigado a fazer a vossa palinódia com uma série infinita 
de conclusões; mas, se recusais retratar-vos, condenam-vos logo 
como hereges. E, mostrando essa cólera, chamando de herege, 
de ateu, conseguem fazer tremer os que não concordam com 
eles. Embora não haja ninguém que, tanto como eles, dissimule 
os meus favores, não é menos verdadeiro que me devem muito. 
Eis por que impus ao meu amor-próprio favorecê-los mais do 
que a todos os outros mortais, e de fato são eles os meus maiores 
prediletos. É por isso que, do alto da sua elevação e à maneira de 
tantos anjos que habitam o terceiro céu, consideram o resto dos 
homens como outros tantos animais bajuladores e têm piedade 
deles. Cercados de uma série de magistrais definições, conclu- 
sões, corolários, proposições explícitas, em suma, de tudo o que 
compõe a malícia da escola sacra, usam de tantos subterfúgios 
que o próprio Vulcano não conseguiria embrulhá-los, mesmo 
empregando a rede de que se serve para mostrar aos deuses os 


102 ERASMO 


seus cornos nascentes. Não há nó que esses senhores não saibam 
desfazer de um golpe com a mais que tenédia bipene do distin- 
guo: bipene formada de todos os novos vocábulos sonoros e 
empolados que nasceram no seio da sutileza escolástica. 

Observemos os nossos oráculos em meio as suas mais subli- 
mes funções; observemo-los, repito, a interpretar a seu talante os 
ocultos mistérios da salvação e por que motivo foi criado e orde- 
nado o mundo. Trata-se de saber por que canais passou à poste- 
ridade a mancha do pecado original? Trata-se da Encarnação e 
da Eucaristia? Ah! tais mistérios são muito batidos e dignos 
apenas de teólogos noviços! Eis as questões dignas dos grandes 
mestres, dos mestres iluminados, como dizem eles, os quais, ao 
tratar desses argumentos, se agitam e tomam fôlego: — Houve 
algum instante na geração divina? — Jesus Cristo tem muitas 
filiações? — É possível esta proposição: — Deus Pai odeia o 
seu Filho? — Ter-se-ia Deus unido pessoalmente a uma mulher, 
ao diabo, a um burro, a uma abóbora, a uma pedra? — No caso 
de Deus se ter unido à natureza de uma abóbora, como fez com 
a natureza humana, de que maneira essa beata e divina abóbora 
teria pregado, feito milagres e sido crucificada? — Como teria 
ela consagrado São Pedro, se este tivesse dito missa quando o 
corpo de Jesus Cristo estava pregado na cruz? — Poder-se-ia 
dizer, então, que o Salvador era um verdadeiro homem? — Será 
permitido comer e beber depois da ressurreição? (Essa dúvida 
existe no íntimo dos nossos reverendos, que muito satisfeitos 
ficariam com uma resposta a essa pergunta). 

Mas não consiste somente nisso o armazém teológico; hã 
ainda inúmeras outras argúcias, não menos frívolas e sutis do 
que as supracitadas. Tais são, por exemplo, o instante da gera- 
ção divina, as noções, as relações, as formalidades, os quid, os 


ELOGIO DA LOUCURA 103 


ecce, e tantas outras quimeras de natureza semelhante. Duvido 
que alguém seja capaz de descobri-las, a não ser que tenha uma 
vista tão penetrante que lhe permita distinguir, através de densas 
nuvens, objetos inexistentes. 

Acrescentemos a tudo isso a sua moral estranha e contradi- 
tória, diante da qual são um nada os paradoxos estóicos. Susten- 
tam, por exemplo, que consertar o sapato de um pobre em dia de 
domingo é um pecado maior do que estrangular mil pessoas; que 
seria preferível deixar cair o mundo no nada de onde veio a pro- 
ferir a menor mentira,etc. Além disso, contribuem para sutilizar 
ainda mais essas sutilíssimas sutilezas todos os diversos subter- 
fúgios dos escolásticos; e assim é que seria menos dificil sair de 
um labirinto do que desembaraçar-se do embrulho dos realistas, 
dos noministas, dos tomistas, dos albertistas, dos occanistas, dos 
escotistas — ai de mim! já me falta a respiração, e, contudo, só 
citei as principais seitas da escola, não falando de muitíssimas 
outras. Em todas essas facções, são tantas as erudições e tantas 
as dificuldades, que, se os próprios apóstolos descessem a terra 
e fossem obrigados a discutir com os teólogos modernos sobre 
essas sublimes matérias, sou de opinião que teriam necessidade 
de um novo espírito totalmente diverso daquele que, em seu 
tempo, lhes dava a possibilidade de falar. São Paulo tinha fé, 
mas não deu uma definição da fé bastante magistral quando 
disse: A fé é a substância da coisa esperada e o argumento da 
que não aparece. No mesmo apóstolo ardia o fogo da caridade, 
mas ele não se mostrou bom lógico ao omitir a definição e a 
divisão dessa virtude no capítulo XIII da sua Primeira Epístola 
aos Corintios. Os apóstolos consagravam com devoção e com 
piedade o sacramento da Eucaristia: se tivessem, porém, de 
explicar como Deus pode passar de um lugar para outro por 


104 ERASMO 


meio da consagração; como se dá a transubstanciação; como 
um mesmo corpo pode encontrar-se ao mesmo tempo em vários 
lugares; que diferença existe entre o corpo de Jesus Cristo no 
céu, na cruz e na Eucaristia; em que momento se verifica a 
transubstanciação, de vez que a fórmula sacramental, como 
dizem eles, sendo composta de sílabas e de palavras, só pode ser 
pronunciada sucessivamente — creio eu que, se esses primeiros 
teólogos do cristianismo tivessem de dirimir tais dificuldades, te- 
riam necessidade da agudeza dos escotistas, que são verdadeiros 
Mercúrios na arte de argumentar e definir. Tiveram os apósto- 
los, é verdade, a sorte de conviver com a mae de Jesus, mas ne- 
nhum deles a conheceu tão bem como os nossos teólogos, que 
provaçam geometricamente ter sido a Virgem fecunda preser- 
vada da mancha do pecado original. São Pedro recebeu as cha- 
ves das próprias mãos do Homem-Deus, sendo de supor-se que 
este não tivesse tido a intenção de colocá-las em mãs mãos; mas, 
não sei se o beato pescador conhecia bem o significado daquelas 
místicas chaves. Nós, porém, sabemos, com certeza, que ele 
nunca perguntou a Deus, seu mestre, como poderia um grosseiro 
e ignorante pescador ter as chaves da ciência. Os apóstolos bati- 
zavam continuamente mas apesar disso nunca ensinaram a 
causa formal, material, eficiente e final do batismo, nem fizeram 
menção do caráter delével e indelével do mesmo. Esses fundado- 
res da religião cristã adoravam a Deus, mas a sua adoração 
apoiava-se neste princípio fundamental do Evangelho: Deus é 
um espírito puro e é preciso adorá-lo em espírito e verdade. 
Parece, igualmente, não ter sido revelado aos apóstolos que o 
culto, nas escolas chamado latria, possa prestar-se tanto a Jesus 
Cristo em pessoa como às suas imagens rabiscadas na parede 
com carvão, bastando que representem o Filho de Deus dando a 


ELOGIO DA LOUCURA 105 


bênção com os dois dedos, índice e médio, da mão direita levan- 
tada, e com a cabeça ornada por uma longa cabeleira e um tri- 
plice circulo de raios. Mas como poderiam os apóstolos possuir 
tão grande e salutar erudição? Eles não encaneceram no fati- 
gante estudo das ciências físicas e metafísicas de Aristóteles e 
dos escotistas. Os apóstolos costumam falar da graça, mas não 
distinguem a graça gratuita da graça gratificante; exortam as 
boas obras, mas não distinguem a obra operante da obra opera- 
da; inculcam a caridade, mas não separam a infusa da adquiri- 
da, além de não explicarem se essa amável e divina virtude é 
substância ou acidente, criada ou incriada; detestam o pecado, 
mas eu quisera morrer se eles já foram capazes de definir cienti- 
ficamente o que chamamos de pecado, a não ser que tenham 
sido inspirados pelo espirito dos escotistas. Se São Paulo, pelo 
qual devemos julgar todos os outros apóstolos, tivesse tido uma 
boa teoria do pecado, teria ele condenado com tanta insistência 
as polêmicas, as contendas, as querelas, as discussões em torno 
de palavras? Digamos, pois, com franqueza, que São Paulo não 
conhecia as argúcias e as qualidades espirituais que distinguem 
os modernos, tanto mais quanto as controvérsias surgidas na 
primitiva Igreja não passavam de pueris mesquinharias diante 
do refinamento dos nossos mestres, que, em matéria de sutileza, 
ultrapassaram de muito o próprio sofista Crisipo8º. — Faça- 
mos, porém, justiça à sua modéstia, pois não condenam o que os 
apóstolos escreveram com pouco acerto e precisão, mas se limi- 
tam a interpretá-lo de modo favorável, para usar de certa consi- 
deração para com a venerável antiguidade e para com o aposto- 
lado. Não seria, aliás, razoável pretender que os apóstolos 


8s Crisipo foi discípulo de Cleanto, sucedendo-lhe como orientador da escola dos 
estóicos. 


106 ERASMO 


tratassem dessas dificeis matérias, quando o seu divino mestre 


nunca lhes disse uma palavra a respeito. 
Já não têm a mesma consideração para com os Crisóstomos, 


os Basílios, os Jerônimos, os Padres da Igreja, não encontrando 
dificuldade em pôr em certas passagens de suas obras: Isto não 
foi recebido. É preciso considerar que esses antigos doutores de- 
viam refutar os filósofos pagãos e, naturalmente, os obstinadis- 
simos judeus: faziam-no, porém, mais pelo exemplo e pelos mila- 
gres do que com argumentos, tanto mais quanto os primitivos 
inimigos do cristianismo eram de gênio tão limitado que nunca 
poderiam conceber um único princípio de Escoto. Mas, adian- 
tem-se agora, se quiserem; e os incrédulos, os pagãos, os judeus, 
os hereges, todos, sem exceção, deverão converter-se e ceder à 
força das ínfimas sutilezas dos teólogos modernos. É preciso ser 
estúpido ou impudente para não conhecer o valor das suas argu- 
cias ou desprezá-las. Acho prudente aconselhar a rendição ao 
primeiro assalto ou a aceitação do desafio quando houver igual- 
dade de armas. Mas, nesse caso, seria o mesmo que lançar um 
mago contra um mago, ou empregar uma espada encantada con- 
tra outra espada encantada. Seria, em suma, o mesmo que tecer 
o pano de Penélope*º. 

A propósito de combate, parece-me que os cristãos deveriam 
mudar as suas tropas na guerra movida contra os infiéis. Se em 
lugar da grosseira e material soldadesca, que há tanto tempo 
empregam inutilmente nas cruzadas, expedissem, contra os tur- 
cos e os sarracenos, os clamorosos escotistas, os obstinados 
occamistas,os invencíveis albertistas e toda a milícia dos sofis- 
tas, quem poderia resistir ao assalto dessas tropas coligadas? 
9º Segundo Homero, Penélope desmanchava à noite o pano tecido de dia, a fim de frus- 


trar as esperanças dos Proces na ausência de Ulisses. Penélope prometera aos Proces que 
se casaria logo que o pano estivesse terminado. 


ELOGIO DA LOUCURA 107 


Bem ridícula seria, a meu ver, uma tal batalha, e inteiramente 
nova a vitória. Quem seria tão frio ao ponto de não acender-se 
ao fogo das disputas? Quem seria tão poltrão ao ponto de não 
acorrer aos golpes dessas esporas? Quem pode gabar-se de ter 
tão boa vista que não se perturbe com o esplendor dessas 
sutilezas? 

Pensais que eu esteja brincando? Não vos iludais.Um tal exér- 
cito seria ainda menos numeroso do que se supõe, porque, 
entre os próprios teólogos, existem homens de uma doutrina sóli- 
da e judiciosa, aos quais causam náuseas essas frívolas e imper- 


tinentes argúcias, e os hã ainda de uma consciência tão reta que 
experimentam por elas horror, como que por uma espécie de 
sacrilégio. — Que horrível heresia! — exclamam eles. — Em» 
lugar de adorarem a impenetrável obscuridade dos nossos misté- 
rios (que justamente por isso são mistérios), pretendem explicá- 
los. E de que maneira? Com uma linguagem imunda e argumen- 
tos não menos profanos que os do gentios. Arrogam-se 


insolentemente o direito de definir e discutir verdades incom- 
preensíveis, profanando assim a majestade da teologia com as 
palavras e sentenças mais insulsas e triviais. 


No entanto, esses insignificantes faladores envaidecem-se com 
sua vazia erudição e experimentam tanto prazer em ocupar-se 
dia e noite com essas suavíssimas nênias que nem tempo lhes 
sobra para ler ao menos uma vez o Evangelho e as cartas de São 
Paulo. E o mais bonito é que, enquanto assim cacarejam em 
suas escolas, imaginam-se os defensores da Igreja, que cairia na 
certa, se cessassem um momento de sustentá-la com a força dos 
seus silogismos, exatamente como Atlante, segundo os poetas, 
sustenta o céu com as costas. 

* Contam ainda os nossos discutidores com outro grande moti- 


108 ERASMO 


vo de felicidade. As Escrituras são, em suas mãos, como um pe- 
daço de cera, pois costumam dar-lhes a forma e o significado 
que mais correspondam ao seu gênio. Pretendem que as suas 
decisões acerca das Sagradas Escrituras, uma vez aceitas por al- 
guns outros escolásticos, devam ser mais respeitadas do que as 
leis de Sólon e antepostas aos decretos dos papas. Erigem-se em 
censores do mundo e, se alguém se afasta um pouquinho das 
suas conclusões, diretas ou indiretas, obrigam-no logo a se retra- 
tar, sentenciando como oráculos: Essa proposição é escanda- 
losa, esta aqui é temerária, aquela cheira à heresia, aquela outra 
soa mal. Dessa forma, nem o Evangelho, nem o batismo, nem 
Paulo, nem Pedro, nem Jerônimo, nem Agostinho, nem o pró- 
prio Tomás de Aquino, embora aristotélico fanático, saberiam 
fazer um ortodoxo sem o beneplácito desses bacharéis, tão 
necessária é a sua sutileza para bem decidir da ortodoxia. Quem 
teria suspeitado que não fosse cristão alguém que sustentasse 
serem igualmente boas as duas proposições: Sócrates, corres e 
Sócrates corre, se os teólogos de Oxford não tivessem querido 
fazer sabe-lo, fulminando as duas proposições condenáveis? 
Como se teria purgado a Igreja de tantos erros, se não tivesse 
podido distingui-los antes de ter sido aplicado o grande sigilo da 
universidade às proposições condenadas? 

Não considerareis felicissimas essas pessoas? Mas prossi- 
gamos ainda um pouco. Quantas lindas lorotas não vão esses 
doutores impingindo a respeito do inferno? Conhecem tão bem 
todos os seus apartamentos, falam com tanta franqueza da natu- 
reza e dos vários graus do fogo eterno, e das diversas incumbên- 
cias dos demônios, discorrem, finalmente, com tanta precisão 
sobre a república dos danados, que parecem já ter sido cidadãos 
da mesma durante muitos anos. Além disso, quando julgam 


ELOGIO DA LOUCURA 109 


conveniente, não se poupam ao trabalho de criar ainda novos 
mundos, como o mostraram formando o décimo céu, por eles 
denominado empíreo e fabricado expressamente para os beatos, 
sendo mais do que justo que as almas glorificadas tivessem uma 
vasta e deliciosa morada para aí gozarem de todo o conforto, 
divertindo-se juntas e até jogando a péla quando tivessem 
vontade. 

Os nossos finos pensadores têm a cabeça tão cheia, tão agita- 
da por essas bobagens, que decerto não estava mais cheia a ca- 
beça de Júpiter quando, ao querer parir Minerva, implorou o 
socorro do machado de Vulcano. Não vos admireis, pois, ao vê- 
los aparecer nas defesas públicas com a cabeça cuidadosamente 
cingida com tantas faixas, pois não fazem senão procurar impe- 
dir, por meio desses respeitáveis liames, que ela arrebente de 
todos os lados em virtude da porção de ciência de que o seu cére- 
bro se acha sobrecarregado. Não posso deixar de rir (podeis, 
agora, ver se não se trata de um grande argumento, pois que a 
Loucura raramente ri), não posso deixar de rir ao escutar essas 
célebres personagens, que nem sequer falam, mas balbuciam. Só 
se reputam teólogos quando perfeitos senhores de sua bárbara e 
porca linguagem, que só pode ser entendida pelos da arte; 
gabam-se disso, chamando-lhe agudeza e dizendo com arro- 
gância que não falam para o vulgo profano; e acrescentam que a 
dignidade das santas escrituras não permite subordiná-las às re- 
gras gramaticais. Admiremos a majestade dos teólogos ! Somen- 
te a eles é permitido falar incorretamente e, quando muito, se 
concede que o vulgo lhes dispute essa prerrogativa. Finalmente, 
os teólogos se colocam imediatamente depois dos deuses e quan- 
do, por uma espécie de religiosa veneração, se ouvem chamar 
nossos mestres, imaginam ver nesse título alguma coisa daquele 


LO ERASMO 


inefável nome composto de seis letras e tão adorado pelos 
judeus. Nessa presunção, querem que se escreva MESTRE 
NOSSO, com letras maiúsculas, sendo esse título tão misterioso 
que, se em latim se modificasse a ordem das duas palavras e se 
pusesse o Nosso antes do Mestre, tudo estaria perdido, ou pelo 
menos sofreria um grande vexame a majestade do nome 
teológico. 

Depois desses, segue-se imediatamente a espécie melhor do 
gênero animal, isto é, os que vulgarmente se chamam monges ou 
religiosos. Seria, porém, abusar grosseiramente dos termos 
chamá-los, ainda hoje, por tais nomes. Com efeito, por via de 
regra, não há pessoas mais irreligiosas do que essas e, como a 
palavra monge significa solitário, parece-me não se poder apli- 
cá-la mais ironicamente às pessoas que se encontram em toda 
parte, acotovelando-se a cada passo. Sem o meu socorro, que 
seria desses pobres porcos dos deuses? São de tal forma odiados 
que, quando por acaso são vistos, costuma-se tomá-los por aves 
de mau agouro. Isso não impede que cuidem escrupulosamente 
da sua conservação e se considerem personagens de alta impor- 
tância. A sua principal devoção consiste em não fazer nada, che- 
gando ao ponto de nem ler. Sem dar-se ao trabalho de entender 
os salmos, já se julgam demasiado doutos quando lhes conhe- 
cem o número, e, quando os cantam em coro, imaginam enlevar 
o céu com a asnática melodia. Entre esse variegado rebanho, al- 
guns se encontram que se gabam da própria imundície e da pró- 
pria mendicidade, indo de casa em casa esmolar, mas com uma 
fisionomia tão descarada que parecem mais exigir um crédito do 
que pedir a esmola. Albergues, botequins, carros, diligências, 
todos, em suma, são por eles importunados, com grande prejuizo 
dos verdadeiros necessitados. É dessa forma que pretendem ser, 


ELOGIO DA LOUCURA Ha 


como dizem eles, os nossos apóstolos, com toda a sua imundície, 
toda a sua ignorância, toda a sua grosseria, todo o seu descara- 
mento. Nada mais ridículo do que a ordem exata e precisa que 
observam em todos os seus atos: tudo é feito por eles a com- 
passo e a medida. Os sapatos devem ter tantos nós, o cíngulo 
deve ser de tal cor, a roupa composta de tantas peças, a cinta de 
tal qualidade e de tal largura, o hábito de tal forma e de tal tama- 
nho, a coroinha de tantas polegadas de diâmetro. Além disso, 
devem comer, a tal hora, tal qualidade e tal quantidade de ali- 
mento, dormir somente tantas horas, etc. Ora, todos podem 
compreender muito claramente que é impossível conciliar tão 
precisa uniformidade com a infinita variedade de opiniões e de 
temperamentos. Pois é nessa metódica exterioridade que os mon- 
ges encontram argumento para desprezar os que eles chamam de 
seculares. Muitas vezes, dá causa a sérias contendas entre as 
diferentes ordens, a ponto de essas santas almas que se vanglo- 
riam de professar a caridade apostólica se destruírem mutua- 
mente. E por quê? Por causa de um cíngulo diverso ou da cor 
mais carregada da roupa. 

Alguns desses reverendos mostram, contudo, o hábito de peni- 
tência, mas evitam que se veja a finíssima camisa que trazem por 
baixo; outros, ao contrário, trazem externamente a camisa, e a 
roupa de lã sobre a pele. Os mais ridículos, a meu ver, são os que 
se horrorizam ao verem dinheiro, como se se tratasse de uma 
serpente, mas não dispensam o vinho nem as mulheres. Não 
podeis, enfim, imaginar quanto se esforçam por se distinguirem 
em tudo uns dos outros. Imitar Jesus Cristo? É o último dos seus 
pensamentos. Muito se ofenderiam se lhes dissésseis que obtive- 
ram isto ou mais aquilo deste ou daquele instituto. Julgais que a 
enorme variedade de sobrenomes e de títulos não deleite muito 


112 ERASMO 


os seus ouvidos? Há os que se gabam de chamar-se francisca- 
nos, tronco que se subdivide nos seguintes ramos: os reforma- 
dos, os menores observantes, os mínimos, os capuchinhos; ou- 
tros se dizem beneditinos; estes se chamam bernardinos e 
aqueles, de Santa Brígida; outros são de Santo Agostinho; estes 
se denominam guilherminos e aqueles, jacobitas, etc. Como se 
não lhes bastasse o nome de cristãos. Quase todos confiam tanto 
em certas cerimônias e em certas tradiçõezinhas humanas, que 
um só paraíso lhes parece um prêmio muito modesto para os 
seus méritos. No entanto, Jesus Cristo, desprezando todas essas 
macaquices, só julgará os homens pela caridade, que é o pri- 
meiro dos seus mandamentos. Em vão, tremendo no dia do juizo 
final, apresentarão eles a Deus um corpo bem nutrido por tudo 
quanto é peixe; em vão lhe oferecerão o canto dos salmos e os 
inúmeros jejuns; em vão sustentarão que arruinaram a barriga 
com uma única refeição; em vão produzirão uma porção de prá- 
ticas fradescas, capazes de carregar pelo menos sete navios; em 
vão se gabará este de ter passado sessenta anos sem tocar em 
dinheiro, a não ser com dois dedos muito sujos; em vão mostra- 
rá aquele o seu hábito tão sórdido que até um barqueiro se recu- 
saria a vesti-lo; em vão se gabará outro de ter vivido cinquenta 
e cinco anos sempre encerrado em seu claustro, como uma 
esponja; em vão aquele fará ver que perdeu a voz de tanto can- 
tar, e este, que a longa solidão lhe perturbou o cérebro; em vão 
dirá um outro que o perpétuo silêncio entorpeceu-lhe a língua. 
Interrompendo todas essas gabolices (pois do contrário seria um 
nunca mais acabar), Jesus Cristo dirá: — De que país vem essa 
nova raça de judeus? Pois não dei aos homens uma lei única? 
Sim, e somente essa eu reconheço como verdadeiramente minha. 
E esses malandros não dizem sequer uma palavra a respeito? 


ELOGIO DA LOUCURA 113 


Abertamente e sem parábolas, eu prometi, outrora, a herança do 
meu Pai, não às túnicas, nem às oraçõezinhas, nem a inédia, mas 
à observância da caridade. Não, não reconheço pessoas que 
apreciam demais as suas pretensas obras meritórias e querem 
parecer mais santas do que eu próprio. Procurem, se quiserem, 
um céu à parte. Mandem construir um paraiso por aqueles cujas 
frívolas tradições eles preferiram a santidade dos meus preceitos. 
— Qual não será a consternação de todos eles, ao ouvirem tão 
terrível sentença e ao verem que se lhes antepõem os barqueiros 
e os carroceiros? No entanto, a despeito de tudo isso, são sempre 
felizes com suas vãs esperanças, o que, em substância, não é 
senão o efeito da minha bondade para com eles. 

Não posso deixar de vos dar, aqui, um conselho salutar: 
nunca desprezeis essa vaga geração bastarda (os mendigos, 
sobretudo), embora ela viva separada da república. É que os fra- 
des, por meio do canal que se chama a confissão, estão a par de 
todos os mais íntimos segredos das pessoas. Não se pode dizer 
que ignorem ser um delito capital a revelação das coisas ouvidas 
no tribunal da penitência. Isso, porém, não impede que o façam 
em diversas circunstâncias, sobretudo quando, alegres e esquen- 
tados pelo vinho, querem divertir-se contando histórias engraça- 
das. É verdade que, para isso, usam das maiores cautelas, pois 
em geral não citam os nomes das pessoas. Desgraçado daquele 
que irritar esses zangãos da sociedade! A vingança vem pronta 
como um raio do céu. Subitamente, no primeiro discurso ao 
povo, lançam os seus dardos contra o inimigo, tão bem pintado 
pelo padre pregador com suas caridosas invectivas que seria pre- 
ciso ser cego para não saber a quem visam atingir. E o mastim 
só deixará de ladrar quando, a exemplo do que fez Enéias com o 
Cérbero, lhe taparem a boca com fogaças. Já que falamos desses 


114 ERASMO 


bons apóstolos no púlpito, dizei-me se não é verdade que 
abandonaríeis qualquer charlatão, qualquer saltimbanco, para 
ouvir os seus ridículos discursos. Bem poderiam eles chamar-se, 
com toda a honra, os macacos dos retóricos, tal é o prazer que 
experimentam ao imitar as regras estabelecidas pelos retóricos 
sobre a arte de falar. Santo Deus! observai como gesticulam, 


como são mestres em modular a voz, como cantam, como se 
remexem, como ficam senhores do assunto, como fazem retum- 
bar toda a igreja com os seus socos e os seus berros. É no silên- 
cio do claustro que eles apreendem essa veemente maneira de 
evangelizar, que passa de um fradeco a outro como um segredo 
de suma importância. Sendo eu apenas uma divina mulherzinha, 
não me é lícito iniciar-me em tão profundos mistérios, mas não 
quero deixar de vos dizer o que tenho podido anotar por bom 
preço. 

Principiam sempre as suas mixórdias com uma invocação to- 
mada de empréstimo aos poetas, e fazem um exórdio sem rela- 
ção alguma com o assunto que devem abordar. Devem, por 
exemplo, pregar a caridade? Começam pelo rio Nilo. Devem 
pregar sobre o mistério da cruz? Começam pelo Belo, o fabuloso 
dragão da Babilônia”!. Devem pregar o jejum quaresmal? 
Começam pelas doze constelações do zodiaco. Devem pregar a 
fé? Começam pela quadratura do círculo. E assim por diante. Eu 


mesma, que vos falo, já ouvi uma vez um desses pregadores, 
homem de uma loucura consumada (perdoai-me, atrapalho-me 
sempre, queria dizer de uma doutrina consumada). 

Esse homem devia explicar o impenetrável mistério da Trin- 
31 Belo, dragão de Babilônia, cuja história, segundo se supõe, foi introduzida nos escritos 


de Daniel por um certo Teodósio. Com efeito, o texto hebraico não faz a respeito nenhuma 
referência. 


ELOGIO DA LOUCURA 115 


dade, mas, para patentear a sublimidade do seu engenho e para 
contentar os ouvidos dos teólogos, não quis seguir o caminho 
habitual. E que estrada tomou? Era mesmo preciso um homem 
da sua envergadura para fazer a escolha. Começou o discurso 
pelo alfabeto e, depois de ter, com prodigiosa memória, recitado 
exatamente o ABC passou das letras as sílabas, das silabas as 
palavras, das palavras à concordância do sujeito com o verbo e 
do substantivo com o adjetivo. Enquanto isso, todo o auditório 
estava suspenso e não poucos perguntavam, com Horácio, qual 
poderia ser o objetivo de tantas frioleiras. Mas o padre pregador 
tirou logo a dúvida dos ouvintes mostrando que os elementos da 
gramática eram o simbolo e a imagem da sacrossanta Trindade. 
E o mostrou com evidência igual à que mal poderia conseguir 
um geômetra nas suas demonstrações. É preciso confessar, aliás, 
que essa demonstração de sublime eloquência custara uma imen- 
sa fadiga ao nosso non plus ultra dos teólogos, pois empregou 
em sua tarefa nada menos de oito bons meses. O pobre homem, 
porém, ressentiu-se, e os extraordinários esforços feitos por tão 
bela obra-prima tornaram-no mais cego do que uma toupeira, 
consumida que foi por seu espírito toda a agudeza da vista. Mas, 
quem o diria? Muito pouco é o seu desgosto por ter perdido a 
vista, e até lhe parece ter adquirido a glória por bom preço. 

Tive ainda o prazer de escutar outro pregador da mesma têm- 
pera. Era um venerável teólogo de oitenta anos, mas tão corrom- 
pido na teologia que todos o teriam tomado pelo próprio Escoto 
ressuscitado. O bom velho subira ao púlpito para explicar o ado- 
rável mistério do Santíssimo Nome de Jesus. 

Ah! saiu-se às maravilhas! Demonstrou o orador, mas com 
uma sutileza imperceptível, que tudo quanto se podia dizer para 
glorificar o Salvador, tudo se achava nas letras componentes do 


116 ERASMO 


seu augustíssimo nome. Sabeis todos, senhores, a língua latina? 
Se houver alguém que não a saiba, poderá dormir um pouqui- 
nho. Em primeiro lugar, fez observar o velho catedrático que o 
substantivo Jesus só tem em sua declinação três casos diferentes: 
o nominativo, o acusativo e o ablativo. Rara e curiosa doutrina! 
Como lamento a ignorância dos que não podem saboreá-la! 
Mas que significam esses três casos? E isso é coisa que se per- 
gunte? Pois não se vêem neles, claramente expressas, as três 
divinas pessoas da mesma natureza? Mas ainda há outra coisa! 
O primeiro desses três casos, refleti bem, termina em s, Jesus; o 
segundo em m, Jesum; e o terceiro em u, Jesu. Grande mistério, 
meus irmãos ! Essas três letras finais significam que o Salvador 
é ao mesmo tempo o Sumo, o Médio e o Último. Restava, 
porém, resolver uma dificuldade mais espinhosa que todos os 
problemas de matemática e, não obstante, ele o conseguiu de 
forma surpreendente. O velho bajoujo teve a felicidade de sepa- 
rar o vocábulo Jesus em duas partes iguais: Je-su. Mas, que fare- 
mos daquele s, que, tendo perdido o companheiro, está surpreso 
de se achar sozinho? Uni pouco de paciência e logo repararemos 
o mal. Os hebreus, em lugar de s, pronunciam syn: ora, em bom 
escocês, syn quer dizer pecado. Pois bem! — exclamou o prega- 
dor — quem será tão incrédulo ao ponto de negar que o Salva- 
dor tirou os pecados do mundo? 

Com essa explicação tão profunda quanto imprevista, todos 
os ouvintes, sobretudo os teólogos, foram tomados de tal sur- 
presa que pareciam novas Níobesº2, e eu me pus a rir com tanta 
92 Níobe, irmã de Penélope e mulher de Anfião, rei de Tebas. Orgulhosa de sua fecundi- 
dade, pois tinha sete filhos homens e outras tantas mulheres, considerou-se superior a La- 
tona que tinha somente dois: Apolo e Diana. Em virtude desse fato, Apolo e Diana mata- 


ram com suas setas todos os filhos de Níobe, os quais ficaram nove dias insepultos no 
próprio sangue. A dor de Niobe foi tão profunda que ela se transformou num rochedo. 


ELOGIO DA LOUCURA 117 


força que pouco faltou para que me sucedesse o mesmo inconve- 
niente que ao irrequieto Príapo, quando teve a curiosidade, que 
lhe custou caro, de espiar os mistérios noturnos de Canídia e Sá- 
ganaº*. Com efeito quando foi que os oradores gregos e roma- 
nos já se serviram, em suas orações, de uma introdução tão 
desesperada? Esses grandes homens julgavam vicioso o exórdio 
que não tivesse relação alguma com o assunto. A natureza ensi- 
nou tão bem aos homens esse método, que até um tratador de 
porcos, ao precisar contar alguma história, não começará decer- 
to com uma coisa estranha, mas entrará imediatamente no 
assunto. Os nossos doutíssimos frades, ao contrário, acredita- 
riam passar por maus retóricos se o preâmbulo, como dizem 
eles, tivesse a menor conexão com o resto do argumento, não 
pondo os ouvintes na necessidade de perguntar: Aonde irá ele 
chegar por esse caminho? 

Em terceiro lugar, propõem, em forma de narração, algum tre- 
cho do Evangelho, mas superficialmente e de fugida, e, se bem 
que devesse ser esse o seu principal dever, eles o tratam de pas- 
sagem, quase que incidentalmente. Em quarto lugar, como se 
representassem uma nova personagem, levantam uma questão 
teológica, que embora não se coadune muito com o assunto, é 
por eles julgada tão necessária que lhes pareceria um pecado 
contra a arte a não inclusão dessa digressão. É nessas passagens 
que os nossos pregadores franzem soberbamente as teológicas 
sobrancelhas e atordoam os ouvidos do auditório com magni- 
ficos epitetos dedicados aos seus doutores: solenes, sutis, sutilís- 
simos, seráficos, santos, irrefragáveis, etc., etc. É também nessas 
83 Conta Horácio que, tendo Priapo assistido, uma vez, às cerimônias noturnas de Cani- 
dia e de Ságana, que invocavam as Fúrias e as Sombras num jardim, teve tal surpresa que 


deixou escapar um formidável peido. As duas bruxas, assustando-se com o barulho, inter- 
romperam a feitiçaria e saíram a correr a toda pressa. 


118 ERASMO 


passagens que, como uma saraivada, descarregam uma tempes- 
tade de silogismos, de maiores, de menores, de consequências, de 
corolários, de suposições; e, como bons intrujões, impingem 
essas insípidas e insolentes bagatelas da sua escola a uma multi- 


dão de ignorantes. 
Eis-nos chegados, afinal, ao quinto ato da comédia, no qual, 


mais do que nunca, é mister que se mostrem valentes na arte. 
Desentranham então do armazém da sua memória alguma estra- 
nha e portentosa fabulazinha, provavelmente tirada do espelho 
da história ou dos feitos romanos, e a vão remendando e inter- 
pretando no sentido alegórico, tropológico, anagógico, até que, 
dessa maneira, terminam o discurso, o qual, com muita proprie- 
dade, pela surpreendente variedade de suas partes, se poderia 
chamar, com Horácio, de verdadeiramente monstruoso. 
Façamos, agora, em conjunto, o exame dos seus sermões. Os 
nossos reverendos aprenderam, não sei dizer de quem, que a 
introdução do discurso deve ser feita devagar e em voz baixa. 
Em virtude dessa regra, falam tão baixinho no exórdio que sou 
capaz de apostar que nem mesmo eles ouvem o que dizem, como 
se sé dispusessem a falar para não serem entendidos por nin- 
guém. Além disso, ouviram dizer que, para despertar as emo- 
ções, o orador deve empregar, de vez em quando, a veemência 
da exclamação. E assim é que, como fiéis, mas maus observa- 
dores desse preceito, quando todos os julgam muito tranqgúilos, 
eles, de repente e sem nenhuma razão, começam a gritar como 
verdadeiros maníacos. É com toda a sinceridade que vos digo 
que, ao se mostrarem assim mais doidos do que pregadores, bem 
se poderia prescrever-lhes uma boa dose de heléboro, pois bem 
se pode considerar louco aquele que grita por gritar. Ao mesmo 
tempo, convencidos de que o orador deve animar-se com o 


ELOGIO DA LOUCURA 119 


desenvolvimento do discurso, dizem pausadamente os primeiros 
periodos de cada parte, mas, logo depois, sempre sem haver 
razão para isso, levantam a voz com tanta força que, ao termina- 


rem, a impressão é de que vão desmaiar. Finalmente, sabendo 
que as regras da retórica prescrevem que, de vez em quando, se 
despertem os ouvintes com alguma engraçada pilhéria, esfor- 
çam-se os nossos pregadores por motejar, mas — santo Deus! 
— como o conseguem maravilhosamente! Fazem justamente 
como o burro da fábula, ao querer tocar a lira. 

Às vezes, esses cães da Igreja também sabem morder, mas 
sem fazer mal, porque mais parecem beliscar do que ferir. Ao 
afetarem uma grande liberdade apostólica, lançando-se contra 
Os vícios e os maus costumes, é justamente quando revelam 
maior adulação. Pregam como os charlatães, e juraríeis que, em- 
bora conheçam muito mais que os frades o coração humano, 
com estes é que aprenderam a sua arte. Com efeito, é tal a seme- 
lhança das suas declamações que de duas uma: ou os charlatães 
aprenderam retórica com os nossos pregadores, ou os nossos 
pregadores estudaram eloquência com os charlatães. 

Apesar de tudo, nunca faltam os ouvintes, e eu mesma tenho 
cuidado de me incluir entre eles. Há até alguns que os admiram 
como se fossem Ciceros ou Demóstenes. Os que mais concorrem 
para ouvi-los são as mulheres e os negociantes, cujo afeto os 
bons pregadores procuram conquistar. Os negociantes, vendo-se 
adulados e justificados, prestam-lhes de bom grado uma porção 
de benefícios imerecidos, pois encaram tais donativos como uma 
espécie de restituição. Quanto às mulheres, têm elas vários moti- 
vos secretos para amar os religiosos, quando mais não fosse por 
encontrarem neles um bálsamo e um consolo contra os desgos- 
tos e o enjôo do laço conjugal. 


120 ERASMO 


Parece que já demonstrei suficientemente quanto me devem 
essas cabeças encapuzadas que, com vãs devoções, com cerimô- 
nias ridículas, com berros e ameaças, exercem sobre o povo uma 
particular tirania, na ânsia de serem comparados aos Paulos e 
aos Antônios. Mas percebo que já falei muito sobre esses cômi- 
cos ingratos, que sabem tão bem dissimular os meus favores 
como fingir-se sinceramente religiosos. Deixo-os, pois, com 
muito prazer. 

Já é tempo de dizer alguma coisa sobre os príncipes e os gran- 
des, que são justamente o oposto dos velhacos e impostores de 
que acabei de falar, pois me prestam o seu culto sem nenhuma 
reserva e com a franqueza própria do seu estado. Se esses felizes 
semideuses tivessem na cachola meia onça apenas de cérebro, 
que haveria no mundo de mais triste e miserável que a sua condi- 
ção? Quem quer que se desse ao trabalho de refletir atentamente 
sobre os deveres de um bom monarca, bem longe de querer usur- 
par uma coroa com o falso juramento, o parricídio, o liberti- 
cidio, em suma, com os mais execrandos delitos, tremeria ante o 
aspecto de um cargo tão enorme. Com efeito, observemos em 
que consistem as obrigações de um homem que é posto a testa de 
uma nação. Deve dedicar-se dia e noite ao bem público e nunca 
ao seu interesse privado; pensar exclusivamente no que é vanta- 
joso para o povo; ser o primeiro a observar as leis de que é autor 
e depositário, sem desviar-se nunca de nenhuma delas; observar, 
com firmeza e com os próprios olhos, a integridade dos secretá- 
rios e dos magistrados; ter sempre presente que todos têm os 
olhares fixos na sua conduta pública e privada, podendo ele, à 
maneira de um astro salutar, influir beneficamente sobre as coi- 
sas humanas, ou, como um infausto cometa, causar as maiores 
desolações. Não deve esquecer-se nunca de que os vícios e os 


ELOGIO DA LOUCURA 121 


delitos dos súditos são infinitamente menos contagiosos que os 
do senhor, e repetir diariamente, a si mesmo, que o principe se 
acha numa elevação, razão por que, quando dá maus exemplos, 
a sua conduta é uma peste que se comunica rapidamente, fazen- 
do enormes estragos; refletir que a fortuna de um monarca o 
expõe continuamente ao perigo de abandonar o justo caminho; 
resistir aos prazeres, à impureza, à adulação, ao luxo, pois 
nunca estará suficientemente preparado para reprimir tudo o que 
pode seduzi-lo. Deve, finalmente, conservar sempre na memória 
que, além das insídias, dos ódios, dos temores, de todos os males 
a que o principe se acha exposto a cada momento por parte dos 
seus súditos, deverá ele, mais cedo ou mais tarde, apresentar-se 
perante o tribunal do Rei dos reis, no qual lhe serão pedidas con- 
tas exatas de todos os seus menores atos, sendo ele julgado com 
rigor proporcional à extensão do seu domínio. Repito, pois, mais 
uma vez, que, se um príncipe refletisse bem sobre tudo isso, 
como o teria feito se fosse um pouquinho sábio, decerto não 
poderia comer nem dormir tranquilamente um só dia em sua 
vida. Mas não vos arreceeis, pois consegui um remédio para 
isso. Com o favor da minha inspiração, os príncipes descansam 
tranquilos sobre o seu destino e sobre os seus ministros, vivendo 
na ociosidade e só mantendo relações com pessoas que possam 
contribuir para diverti-los de qualquer aflição ou aborrecimento. 
Acham eles que cumprem bastante os deveres de um bom rei 
divertindo-se diariamente nas caçadas, possuindo belíssimos 
cavalos, vendendo em benefício próprio os cargos e os empre- 
gos, servindo-se de expedientes pecuniários para devorar as ener- 
gias do povo e engordar à custa do sangue dos escravos. Não se 
pode negar que usem de cautela na aplicação dos impostos, pois 
alegam sempre titulos de necessidade, pretextos de urgência, e, 


122 ERASMO 


embora essas exações não passem no fundo de mera ladroeira, 
esforçam-se, todavia, por encobri-las com o véu do interesse pú- 
blico, da justiça e da equidade. Dirigem ao povo belas palavras, 
chamando de bons, fiéis, afeiçoadíssimos os seus súditos, e, 
enquanto furtam com uma das mãos, acariciam com a outra, 
prevenindo assim os seus lamentos e acostumando-os, aos pou- 
cos, a suportar o jugo da tirania. Dito isso, quero fazer uma 
suposição: imaginai no trono (coisa que, aliás, acontece frequen- 
temente), imaginai no trono, dizia eu, um homem ignorante das 
leis, quase inimigo do bem público, que só tem em mira o seu 
interesse pessoal, escravo dos prazeres, menosprezador das ciên- 
cias, que despreza a verdade, que não pode escutar uma lingua- 
gem sincera, que tem a felicidade dos escravos como o último 
dos prazeres, que não segue senão suas paixões, que mede cada 
coisa pela própria utilidade. Colocai nesse homem a gargantilha 
de ouro, ornamento que significa o complexo e a união de todas 
as virtudes; colocai-lhe na cabeça a coroa enriquecida de pedras 
preciosas, o que o adverte de estar na obrigação de superar todos 
os outros em toda sorte de heróicas virtudes; ponde-lhe o cetro 
na mão, cetro que é o simbolo da justiça e de uma alma perfeita- 
mente incorrutível; vesti-o, finalmente, com a minha púrpura, 
que denota um vivo amor ao povo e um ardentíssimo zelo por 
sua felicidade. Sou de parecer que, se esse monarca comparasse 
os seus ornamentos reais com a sua viciosa conduta, não pode- 
ria deixar de sentir vergonha e rubor, e estou convencida de que 
teria bastante receio de ser posto a ridículo, com os seus simbó- 


licos enfeites, por algum lépido e sensato glosador. 
Passemos, agora, aos grandes da corte. Não hã escravidão 


mais vil, mais repulsiva, mais desprezível do que aquela a que se 
submete essa ridícula espécie de homens, que, não obstante, cos- 


ELOGIO DA LOUCURA 123 


tuma ganhar para si, de alto a baixo, o resto dos mortais. Conve- 
nhamos, porém, que são modestissimos num único ponto: é que, 
satisfeitos de possuir o ouro, as pedras, a púrpura e todos os ou- 
tros simbolos da sabedoria e da virtude, cedem facilmente aos 
outros o cuidado da sabedoria e da virtude. Para eles, a maior 
felicidade consiste em ter a honra de falar ao rei, de chamá-lo de 
Senhor e Mestre absoluto, de fazer-lhe um breve e estudado 
cumprimento, de poder prodigalizar-lhe os títulos faustosos de 
Vossa Majestade, Vossa Alteza Real, Vossa Serenidade, etc., 
etc. Toda a habilidade dos cortesãos consiste em trajar-se com 
propriedade e magnificência, em andar sempre bem perfumados 
e, sobretudo, em saber adular com delicadeza. Quanto ao espi- 
rito e aos costumes, são verdadeiros Feáciosº 4, verdadeiros 
amantes de Penélope; a esse respeito, sabeis o que diz Home- 
roº 8, e, melhor do que eu, vo-lo repetirá a ninfa Eco. O vil escra- 
vo do monarca, quando não deva fazer a corte ao senhor (pois 
nesse caso se levantaria ao primeiro canto do galo), costuma 
dormir até ao meio-dia, e, mal desperta, o mercenário capelão, 
que já esperava por esse momento, resmunga-lhe às pressas uma 
missa. Em seguida, passa a cuidar do almoço, e daí a pouco, do 
jantar, ao qual sucedem imediatamente os jogos de dados e de 
xadrez, os bobos, as cortesas, os divertimentos inconvenientes e 
todos os outros prazeres chamados passatempos. Esses devotos 
exercícios não se fazem sem uma ou duas merendas; depois, vem 
a ceia, e se passa a noite no meio das garrafas. E assim, sem pen- 
sar que se nasce para morrer, a vida passa rapidamente. As 


34 (Os Feácios, segundo Homero, eram tão estúpidos e materiais que Ulisses conseguia 
deles tudo o que queria. 

95 Homero descreve os amantes de Penélope como homens que só se preocupavam com 
os prazeres do amor e que, depois de comer e beber à grande, só pensavam em cantar e em 
dançar. 


124 ERASMO 


horas, os dias, os meses, Os anos, os lustros transcorrem para 
eles sem nenhum aborrecimento, como um relâmpago. Tenho a 
impressão de sair de um banquete, ao vê-los gabarem-se de suas 
ridicularias. Aquela ninfa se julga mais próxima dos deuses, por 
arrastar atrás de si uma cauda mais longa do que as outras; esse 
fidalgo, por ter recebido do príncipe uma cotovelada no estôma- 
go, ao tentar penetrar na multidão, fica satisfeito e acredita 
haver menor distância entre ele e o soberano; aquele cortesão 
pavoneia-se com a corrente de ouro que lhe pende do pescoço, 
por ser muito mais pesada que a dos outros e servir, assim, não 
só para mostrar opulência como também sua robustez de 
carregador. 

A vida dos príncipes e dos fidalgos leva-me, naturalmente, a 
falar também da dos papas, cardeais e bispos. Faz tanto tempo 
que essa sagrada gente, com surpreendente emulação, imita os 
reis e os sátrapas, que não tenho dúvida alguma em dizer que 
chegou a superá-los. Imaginai, agora, que um bispo, por diverti- 
mento, se pusesse a considerar o seu cortejo e ornamentos ponti- 
ficais. Se um bispo refletisse que a candidez do roquete significa 
uma vida completamente imaculada; que a mitra bicorne, cujas 
extremidades se unem em um nó, denota profundo conhecimento 
do Velho e do Novo Testamento; que as mãos enluvadas expri- 
mem um coração depurado de todo contágio mundano na 
administração dos sacramentos; que a cruz dos sapatos o adver- 
te de que deve velar continuamente pelo rebanho sob a sua guar- 
da; que a cruz prelatícia que lhe pende do peito é sinal de vitória 
completa sobre as paixões humanas — se o nosso prelado, repi- 
to, refletisse sobre todas essas belas coisas e muitas outras que 
eu suprimo, não será verdade que se tornaria magro, pensativo, 
macilento, hipocondriaco? Chegaria a causar piedade! Mas, 


ELOGIO DA LOUCURA 125 


não, não duvideis, eu remediei a tudo. Aconselhei a esses preten- 
sos sucessores dos apóstolos que seguissem um caminho inteira- 
mente oposto, e ninguém jamais soube aproveitar melhor os 
meus conselhos. Com efeito, o principal objetivo dos nossos 
Iustríssimos e Reverendissimos consiste em viver alegremente, 
e, quanto ao rebanho, que dele cuide Jesus Cristo. Aliás, já não 
possuem os arcediagos, os vigários gerais, os confessores, os fra- 
des e mil outros fiéis mastins, que estão sempre em guarda con- 
tra o lobo do inferno? Os bispos chegaram a esquecer que o seu 
nome, tomado ao pé da letra, significa trabalho, zelo, solicitude 
pela redenção das almas. Mas — por Baco! — não se esquecem 
nunca das honrarias e do dinheiro. 

Gabam-se os veneráveis cardeais de descenderem em linha 
reta dos apóstolos, mas eu desejaria que filosofassem um pouco 
sobre os seus hábitos, e fizessem a si mesmos esta apóstrofe: “Se 
eu descendo dos apóstolos, por que não faço, então, o que eles 
fizeram? Não sou senhor, mas simples distribuidor das graças 
espirituais, e muito breve terei de prestar contas da minha 
administração. Que significa esta nívea candidez do meu roque- 
te, se não uma suma pureza de costumes? Que quer dizer esta 
sotaina de púrpura, se não um ardente amor a Deus? Que denota 
esta capa da mesma cor (tão ampla e espaçosa que bastaria para 
cobrir não somente a mula do eminentíssimo, mas até um came- 
Jo junto com o cardeal), se não uma caridade ilimitada e sempre 
pronta a socorrer o próximo, isto é, a instruir, a exortar, a acal- 
mar o furor das guerras, a resistir aos maus princípios, a dar de 
boa vontade o próprio sangue e as riquezas pelo bem da Igreja? 
Para que tantos tesouros? Aqueles que pretendem representar o 
antigo colégio dos apóstolos não deveriam, antes de tudo, imitar 
a sua pobreza?” Afirmo que, se os cardeais fizessem a si mes- 


126 ERASMO 


mos semelhante apóstrofe, refletindo seriamente sobre todos 
esses pontos, de duas uma: ou devolveriam imediatamente o 
chapéu, ou levariam uma vida laboriosa, cheia de desgostos e de 
desejos, justamente como faziam os primeiros apóstolos da 
Igreja. 

Prosternemo-nos, agora, aos pés do Sumo Pontífice, e beije- 
mos-lhe religiosamente as santas pantufas. Os papas dizem-se 
vigários de Jesus Cristo, mas, se procurassem conformar-se à 
vida de Deus seu mestre; se sofressem pacientemente os seus 
padecimentos e a sua cruz, mostrando o mesmo desprezo pelo 
mundo; se refletissem seriamente sobre o belo nome de papa, 
isto é, de pai, e sobre o santíssimo epiteto com que são honrados 
— quem seria mais infeliz do que eles? Quem desejaria com- 
prar, com todos os haveres, esse cargo eminente, ou quem, uma 
vez elevado ao mesmo, desejaria, para sustentar-se nele, empre- 
gar a espada, os venenos e toda sorte de violências? Ai! quantos 
bens perderiam eles se a sabedoria se apoderasse por um instante 
do seu ânimo! A sabedoria?! Bastaria que tivessem um grãozi- 
nho apenas daquele sal de que fala o Salvador. Perderiam, então, 
aquelas imensas riquezas, aquelas honras divinas, aquele vasto 
domínio, aquele gordo patrimônio, aquelas faustosas vitórias, 
todos aqueles cargos, aquelas dignidades e aqueles ofícios de que 
participam; todos aqueles impostos que percebem, quer nos pró- 
prios Estados, quer nos alheios; o fruto de todos aqueles favores 
e de todas aquelas indulgências, com as quais vão traficando tão 
vantajosamente: aquela numerosa corte de cavalos, de mulas, de 
servos; aquelas delícias e aqueles prazeres de que gozam conti- 
nuamente. Observai, observai quantas coisas precisariam perder, 
sendo que isso é apenas uma sombra da felicidade pontifícia. 
Todos esses bens seriam logo sucedidos pelas vigílias, pelos 


ELOGIO DA LOUCURA 127 


Jejuns, pelas lágrimas, pelas preces, pelos sermões, pelas medita- 
ções, pelos suspiros e mil outros trabalhos de natureza seme- 
lhante. Acrescentemos ainda que tantos escritores, tantos copis- 
tas, tantos notários, tantos advogados, tantos promotores, tantos 
secretários, tantos banqueiros, tantos escudeiros, tantos palafre- 
neiros, tantos rufiões (silêncio neste ponto, pois é preciso respei- 
tar os ouvidos castos), em suma, toda aquela prodigiosa turba de 
pessoas de toda classe, que arruínam (que honram, queria eu 
dizer) a sé de Roma — sim, digamos também que toda essa 
turba só poderia esperar morrer de fome. Seria o mais bárbaro, 
o mais abominável, c mais detestável de todos os delitos querer 
reduzir à sacola e ao bastão os supremos monarcas da Igreja, os 
verdadeiros luminares do mundo. Dizem eles que a Pedro e a 
Paulo competia- viver de esmolas, ficando com todo o peso do 
pontificado, mas eles podem comodamente sustentá-lo, reservan- 
do-se eles, para si, somente o que no mesmo existe de esplêndido 
e de agradável. Agora, pergunto: não fazem muito bem? 

Graças a mim, por conseguinte, é que nunca houve alguém 
que mais vivesse no ócio e na moleza do que um papa. Como as 
funções episcopais” * consistem em ornamentos misteriosos e 
quase teatrais, em cerimônias, em títulos faustosos de beatis- 
simo, reverendíssimo, santíssimo, em bênçãos e maldições, jul- 
gam eles que já fazem bastante a vontade de Jesus Cristo, sem 
suspeitarem o que lhes poderá este dizer-lhes um dia. Agora não 
é mais necessário fazer milagres; instruir o povo dá muito traba- 
lho; ensinar as escrituras cheira à escolástica; para pregar, seria 
preciso tempo; chorar convém somente às mulheres; ser pobre, 
oh! que coisa feia! deixar-se vencer é vergonhoso demais e 
indigno de um homem que mal admite que lhe beijem o beatis- 


º6 Antigamente, todos os bispos se chamavam papas. 


128 ERASMO 


simo pé os reis mais poderosos; finalmente, morrer, oh! é a mais 
amarga de todas as coisas! ser crucificado — irra! — é uma 
infamia horrível! 

Assim, pois, as armas dos papas não consistem todas naque- 
las doces bênçãos de que fala São Paulo º7 e das quais são eles 
tão avaros. Consistem elas em interdições, suspensões, grava- 
mes, anátemas, pinturas vingadoras *º e naquele terribilíssimo 
castigo pelo qual um beatíssimo padre pode mandar à vontade 
qualquer alma para o inferno. Os nossos Santíssimos Pais em 
Cristo e os seus vigários gerais nunca empregam com maior zelo 
esse espantoso castigo do que no caso daqueles que, à instigação 
do demônio, tentam diminuir ou danificar o patrimônio de São 
Pedro. Dizia este bom apóstolo ao seu Mestre: — Deixamos 
tudo para seguir-te. — Compreendereis que grande sacrifício fez 
o pobre pescador! Foi a fortuna o que ele conseguiu em virtude 
dessa renúncia; é por isso que Sua Santidade glorificada possui 
terras, cidades, domínios, e percebe impostos e taxas. E é sobre- 
tudo para defender e conservar essa rica aquisição que os ponti- 
fices romanos costumam condenar as almas. É verdade que nem 
ao menos poupam os corpos, e, inflamados pelo zelo de Jesus 
Cristo, desfraldam a bandeira de Marte e, sem piedade, empre- 
gam o ferro e o fogo para sustentar as suas razões. Bem vedes 
que não se pode fazer semelhante guerra sem derramar o sangue 
cristão. — Mas, que importa? — respondem os papas. — Esta- 
mos defendendo apostolicamente a causa da Igreja e só depore- 
mos as armas quando tivermos vingado a esposa de Jesus Cristo 


º? De que fala São Paulo na epistola aos romanos, cap. XVI. 

º8 Em Roma, costumava-se expor ao povo o retrato do excomungado pintado num pano 
e representado da forma seguinte: sentado, com uma cara satânica, tendo um demônio de 
cada lado, os quais lhe punham na cabeça uma coroa de fogo, enquanto outro demônio o 
segurava pela túnica e lhe queimava os pés. 


ELOGIO DA LOUCURA 129 


contra os seus inimigos. — Eu desejaria saber, porém, se haverá 
para a Igreja inimigos mais perniciosos do que esses ímpios 
pontífices, os quais, em lugar de pregar Jesus Cristo, deixam no 
esquecimento o seu nome e o poem de lado com leis lucrativas, 
alteram a sua doutrina com interpretações forçadas e, final- 
mente, o destroem com exemplos pestilentos. 

Além disso, assim como a Igreja cristã foi fundada com san- 
gue, confirmada com sangue, dilatada com sangue, assim tam- 
bém os papas a governam com sangue, como se nunca Jesus 
Cristo tivesse existido para protegê-la e sustentá-la. A guerra é, 
por natureza, tão cruel, que muito mais conviria às feras do que 
aos homens; tão insensata que os poetas a atribuíram as fúrias 
do inferno; tão pestilenta que corrompe todos os costumes; tão 
iníqua que a fazem melhor perversos ladrões do que homens pro- 
bos e virtuosos; finalmente, tão ímpia que nenhuma relação pos- 
sui com Jesus Cristo nem com sua moral. Isso não impede que 
alguns pontífices abandonem todas as funções pastorais para 
consagrar-se inteiramente a esse flagelo da humanidade. Entre 
esses papas guerreiros, encontram-se até velhos ºº que agem 
com todo o vigor da juventude, que nenhuma consideração têm 
pelo dinheiro, que suportam corajosamente a fadiga e não têm o 
menor escrúpulo em fazer subverter as leis, a religião e a huma- 
nidade. Mas não faltam eruditos aduladores para dar a esse 
manifestissimo delírio o nome de zelo, piedade, valor. E acham 
razões para provar que desembainhar a espada e cravá-la no 
coração de um irmão não é absolutamente infringir o grande 
mandamento da caridade para com o próximo. Na verdade, 
ainda não sei se os papas, em matéria de guerra, seguiram o 


99 Trata-se, muito provavelmente, de uma alusão a Júlio II, papa cujo fanatismo guer- 
reiro tantos males causou à humanidade. 


130 ERASMO 


exemplo de alguns bispos da Alemanha, ou se estes bispos é que 
se julgaram autorizados, pela conduta dos papas, a empreender 
a guerra. O que é certo é que os prelados alemães agem com 
maior liberdade, porque, desprezando inteiramente o serviço 
divino, as bênçãos e todas as outras cerimônias do bispado, 
como verdadeiros sátrapas só respiram a guerra, chegando a 
sustentar que é dever de um bispo entregar a alma a Deus para 
defender a honra da sua dignidade. Os padres também estão, em 
geral, animados pelo mesmo espírito, não querendo de modo 
" algum degenerar da santidade dos prelados. Assim, não podeis 
imaginar com que coragem empunham as armas toda a vez que 
se trata dos seus dízimos: espadas, fuzis, pedras, nada lhes esca- 
pa. Esses ministros do altar não cabem em si de alegria quando 
descobrem, nas obras dos antigos, alguma passagem com que 
possam aterrar as consciências e provar ao vulgo que lhes deve 
ainda muito mais do que os dizimos. Não há mais perigo de que 
lhes entre na cabeça o que leram em muitíssimos lugares sobre 
os seus deveres para com o povo. Deveriam ao menos lembrar- 
se de que a tonsura significa a obrigação de viverem livres de 
qualquer paixão humana, para se consagrarem totalmente às 
coisas do céu. Muito longe de fazerem tais reflexões, incidem em 
toda sorte de volúpia e julgam cumprir plenamente os seus deve- 
res e a obrigação de praticar o bem, como dizem eles, quando 
murmuram, às pressas e entre os dentes, o ofício divino. Santo 
Deus! aposto que não há nenhuma divindade que queira escutá- 
los e, muito menos, que possa compreendê-los. Nenhuma divin- 
dade?! Estou convencida de que nem eles próprios se entendem 
entre si quando ornejam em coro. Mas tanto os sacerdotes como 
os profanos sabem muito bem quais são os seus direitos e os 
seus emolumentos. O que é incômodo os senhores padres costu- 


ELOGIO DA LOUCURA 131 


mam, prudentemente, descarregar sobre as costas alheias, numa 
devolução recíproca, como na péla. Os eclesiásticos costumam 
proceder mais ou menos como os príncipes seculares: assim 
como estes abandonam as rédeas do governo nas mãos dos 
primeiros-ministros, que confiam a administração do Estado aos 
numerosos subalternos que se acham sob as suas ordens, assim 
também os ministros dos santuários costumam, modestamente, 
descarregar sobre o povo o peso da devoção e da piedade, e o 
povo, por sua vez, passa-o aos que denomina pessoas religiosas, 
como se não tivesse nenhuma relação com a Igreja e não tivesse 
feito nenhum voto no batismo. Em seguida, os padres, como se 
fossem iniciados no mundo e não em Cristo, dizem-se seculares 
e deixam aos regulares o pesado encargo da piedade; os regula- 
res Julgam-na especialmente destinada aos monges; os monges 
relaxados atribuem-na aos reformados; finalmente, todos se 
poem de acordo e pretendem que a devoção pertença aos mendi- 
cantes, que acabam por enviar a péla aos cartuxos, em cujo reti- 
ro se pode afirmar, efetivamente, que a piedade está sepultada, 
de tal forma se esforçam eles por viverem escondidos do mundo. 
Conduta semelhante têm os generais da milícia clerical. Os 
papas, sempre ativos e incansáveis em sua tarefa de receber 
dinheiro, descarregam sobre os bispos tudo o que há de incó- 
modo no apostolado; os bispos sobre os párocos; os párocos 
sobre os vigários; Os vigários sobre os frades mendicantes; e os 
mendicantes, finalmente, enviam as ovelhas aos pastores espiri- 
tuais, que sabem tosquiá-las e tirar-lhes proveito da la. 

Mas, até onde me levou o assunto? O meu propósito não é 
investigar e satirizar a vida dos prelados e dos padres, mas fazer 
o meu elogio: que ninguém pense que, ao louvar os maus prínci- 
pes, queira eu censurar os bons. Por conseguinte, só vos dei uma 


132 ERASMO 


idéia superficial de todas as condições para vos demonstrar, à 
evidência, que nenhum homem pode viver feliz sem ser iniciado 
nos meus mistérios e sem participar dos meus favores. Invoco o 
testemunho da Fortuna, essa deusa da felicidade e da desgraça 
que, embora caprichosa ao extremo, tem sempre o prazer de 
secundar as minhas intenções. Com efeito, exatamente como eu, 
não será ela inimiga capital dos sábios? Em compensação, con- 
fere seus bens aos loucos e, por fim, ao vê-los dormindo, derra- 
ma-lhes no seio os seus tesouros. Decerto já ouvistes falar de um 
certo Timóteo, capitão ateniense, cuja fortuna foi tal que, mesmo 
dormindo, conquistou e saqueou cidades. Quando, porém, come- 
çou a atribuir tanta fortuna ao próprio mérito, foi abandonado 
pela deusa e caiu na maior miséria. Pois não se costuma dizer 
que os tolos são felizes e que até o mal se converte para eles num 
bem? No entanto, é justamente o contrário o que costuma suce- 
der aos sábios. Já diz o provérbio: Quem, como Hércules, nas- 
ceu no quarto dia da lua, só pode esperar sofrimentos: montado 
no cavalo de Sejano, quebrará a perna; tendo dinheiro de Tolo- 
sa, pouco proveito terá. Mas deixemos os provérbios, pois pode 
parecer que me apropriei de todos os comentários do meu 
Erasmo. 

Volto, pois, ao meu assunto, e digo que a Fortuna só ama as 
pessoas que não pensam em nada, gostando de beneficiar os 
aturdidos e os temerários, isto é, os que dizem como César no 
Rubicão: Alea jacta est. A sabedoria só pode inspirar temor, O 
que faz com que a condição de um verdadeiro filósofo chegue a 
causar piedade aos homens de bom senso. Com o cérebro reple- 
to de belíssimas e sólidas especulações, quer físicas, quer morais, 
sente o estômago doer de fome e nem sequer sabe onde encontrar 
o necessário. Além disso, é abandonado, desprezado, odiado, 


ELOGIO DA LOUCURA 133 


evitado por todos, enquanto os tolos, verificando que o precioso 
metal que os anima constitui o móvel maior da sociedade civili- 
zada, são elevados aos empregos públicos e em tudo favorecidos 
pela fortuna. Eis por que os que se consideram felizes quando 
acolhidos pelos grandes e quando conversam com esses deuses 
queridos, que são os meus escravos diletos, não têm necessidade 
alguma da sabedoria, que é a coisa mais detestada nas cortes e 
nos paços. Quereis enriquecer-vos no comércio? Renunciai à 
sabedoria, porque, do contrário, como poderíeis fazer um falso 
juramento sem vos sentirdes dilacerar por um horrível remorso? 
Como poderíeis deixar de enrubecer quando surpreendidos 
numa mentira? Como sufocarieis os ásperos e tormentosos 
escrúpulos que sentem os sábios pelo furto e pela usura? Como 
poderíeis deixar de travar convosco uma contínua guerra ínti- 
ma? Ambicionais as dignidades e os bens eclesiásticos? Um 
burro e um búfalo poderiam consegui-los mais facilmente que 
um filósofo. Amais a volúpia? As mulheres que a têm como 
principal escopo procuram os tolos e fogem dos sábios como dos 
escorpiões. Quem, finalmente, deseje gozar os prazeres da vida, 
deve cortar qualquer relação com os sábios e preferir tratar com 
a escória popular. Em suma, para resumir tudo numa única 
idéia, voltai-vos para todos os lados, e vereis que os papas, os 
principes, os juízes, os magistrados, os amigos, OS inimigos, os 
grandes, os pequenos, todos, sem exceção, agem em virtude do 
ouro sonante. E, como o filósofo, fora do estritamente necessá- 
rio, considera como esterco esse metal, não é de admirar que 
todos desprezem a sua intimidade. 


134 ERASMO 


Mas, embora o meu elogio seja uma fonte inesgotável, não é 
justo abusar da vossa paciência entretendo-vos ainda mais com 
esta minha declamação, razão por que vos livrarei logo da fadi- 
ga de vossa atenção. Apenas vos peço um pequeno favor, neces- 
sário à minha glória. Talvez haja aqui presentes (uma vez que os 
maus costumam imiscuir-se sempre entre os bons) alguns sábios 
que digam ser eu bela somente aos meus próprios olhos, e não 
faltarão senhores legistas que aleguem o fato de eu não haver ci- 
tado nenhum texto em meu favor. Citemos, pois, como fazem 
eles, a torto e a direito. 

Antes de mais nada, não se pode pôr em dúvida o conhecido 
provérbio que diz: Quando falta a coisa, é preciso representá-la, 
o que é inteiramente confirmado por esta sentença que se costu- 
ma ensinar até aos meninos: Procura-se muita sabedoria para se 
poder passar por louco. Julgai, pois, se a loucura deve ou não ser 
incluída entre os maiores bens, quando os próprios sábios tribu- 
tavam louvores à sua imagem e à sua sombra falaz. Mas Horá- 
cio, que a si mesmo se chama o lúcido e bem nutrido porco de 
Epicuro, exprime a coisa com maior naturalidade, quando acon- 
selha a temperar a loucura com a sabedoria. Ele desejaria, é 
certo, que essa loucura fosse de curta duração, mas, a esse res- 
peito, revela, a meu ver, pouco critério. O mesmo poeta diz nas 
suas Odes: É um grande prazer ser louco quando se deseja sé-lo. 
Em outro lugar, diz preferir parecer estranho e ignorante a pare- 
cer sábio e furioso. Homero, que por toda a parte louva muitis- 
simo o seu Telêmaco, não deixa de o chamar várias vezes de me- 
nino tolo; e os trágicos gostam de dar aos jovens o epiteto de 
tolo e imprudente, como um epíteto de bom augúrio. Qual é o 
argumento da divina Ilíada? Não serão, talvez, os furores e as 
loucuras dos reis e dos povos? Cícero nunca se orientou tão 


ELOGIO DA LOUCURA 135 


bem, por mim, como quando disse: Todas as coisas estão cheias 
de loucura. Ora, convireis que, quanto mais extenso é um bem, 
tanto mais excelente é ele. 

Mas é possível que os autores citados tenham pouca autori- 
dade para os cristãos. Pois bem: apoiarei, se julgais conveniente, 
ou, para exprimir-me teologicamente, fundarei o meu elogio no 
testemunho das sagradas escrituras. Permiti que o faça, senhores 
nossos mestres, é o que vos peço humildemente. A empresa é 
bastante difícil e exigiria pelo menos uma boa invocação às 
musas; mas, por outro lado, seria uma indiscrição fazer descer 
pela segunda vez, do monte Helicão, essas nove virgenzinhas, 
pois bem vedes que o caminho é muito longo. Além disso, a 
matéria que devo abordar nada tem a ver com Apolo. Portanto, 
seria melhor que, dispondo-me eu a me arvorar em teóloga e a 
correr sobre os espinhos teologais, se dignasse o espírito de Es- 
coto a passar da sua Sorbonne para o meu ânimo. Ah! queira 
Deus que esse beato espírito, mais pungente que o ouriço e mais 
agudo que o porco-espinho, inflame a minha mente! Depois, 
quando eu tiver acabado, que voe por onde mais lhe agradar, 
inclusive entre os corvos. Praza igualmente aos céus que me seja 
permitido mudar de aspecto, vestindo um hábito teologal! Vou, 
porém, experimentar, e, quando me ouvirdes impingir tanta teo- 
logia, não suspeiteis que eu tenha forçado e espoliado as arcas 
dos nossos mestres. Mas, afinal, não me parece surpreendente 
que, tendo mantido por tantos séculos uma estreita amizade com 
os teólogos, tenha eu sido atacada por um pouquinho da sua 
sublime ciência. E por que não poderia acontecer-me tal coisa? 
Não será, talvez, verdade que até o irrequieto Priapo, embora 
sendo um deus de curto entendimento, ao escutar o mestre ler 
grego em voz alta, guardou algumas palavras na memória e as 


136 ERASMO 


reteve como um doutor? E que diríamos do galo de Luciano? 
Como se sabe, depois de ter vivido longo tempo com os homens, 
articulou inesperadamente a lingua e falou como eles. Mas, dito 
isso, comecemos sob os auspícios da Fortuna. 

O Eclesiastes, capítulo primeiro, versículo... versículo... 
esperai um pouco... oh! meu Deus! não me recordo mais, e 
assim também a página, a linha, etc. (pois que, para citar teolo- 
gicamente, é preciso dizer tudo). Mas no Eclesiastes está escrito 
que o número dos loucos é infinito. Ora, esse número infinito 
não abrangerá a todos os homens, com poucas exceções, se é 
que já houve algumas? Mais ingenuamente, porém, o confessa 
Jeremias: Todos os homens — diz ele no capítulo X — torna- 
ram-se loucos a força de sabedoria. E atribui a sabedoria somen- 
te a Deus, deixando aos homens a loucura como predicado. Um 
pouco antes, diz ele: O homem não deve gabar-se da sua sabedo- 
ria. Mas por que dizeis isso, ó santo, ó divino oráculo do futuro? 
É porque (assim me parece ouvi-lo responder) o homem não tem 
nenhuma idéia da sabedoria. Voltemos ao Eclesiastes. Quando 
Salomão, esse grande monarca iluminado do céu, faz aquela 
patética exclamação moral: Vaidade das vaidades, tudo é vaida- 
de! — não vedes, senhores, que, sem gaguejar, ele declara que a 
vida humana, como também eu já vos disse tantas vezes, não é 
outra coisa senão um divertimento da Loucura? E não foi tam- 
bém isso o que Cicero, com grande honra para mim, repetiu 
muito depois, isto é, que tudo está cheio de loucura? E quando o 
citado Eclesiastes diz ainda que o louco muda como a lua e o 
sábio é estável como o sol — que imaginais que isso signifique? 
Não significará, talvez, que todos os homens são loucos e que 
somente a Deus pertence o título de sábio? Com efeito, por lua 
entendem os intérpretes a natureza humana, e por sol a fonte da 


ELOGIO DA LOUCURA 137 


verdadeira luz, que é Deus. Também o Salvador apóia essa ver- 
dade quando diz, no Evangelho, que o epiteto de bom só cabe a 
Deus. Ora, segundo os estóicos, sábio e bom são dois sinônimos; 
portanto, todos os homens, sendo maus, são também, por uma 
conseguência necessária, todos malucos. 

Diz ainda Salomão no capítulo XV: 4 tolice é a alegria do 
tolo, o que significa que, sem a loucura, nada se acha de agradá- 
vel na vida. E em outra passagem: Progredir na ciência é o 
mesmo que progredir na dor, e onde há muito sentimento há 
também muita contrariedade. Não repetirá esse mesmo excelente 
pregador, no capítulo VII, o mesmo pensamento? — A tristeza 
— diz ele — mora no coração do sábio, e a alegria no do tolo. 
Não contente de ter conhecido a fundo a sabedoria, teve ele o de- 
sejo de conhecer também a mim. Pensais que eu esteja grace- 
jando? Ouvi o oráculo, capítulo I: Apliguei-me ao conhecimento 
da prudência e da doutrina, dos erros e da loucura. É preciso 
notar que, nessa passagem, sou citada em último lugar, a fim de 
me ser conferida a honra que mereço, como posso prová-lo. De 
fato, foi o Eclesiastes que o escreveu; ora, na ordem eclesiástica, 
segundo o cerimonial em uso, o primeiro em dignidade é o que 
ocupa o último posto, de acordo com o preceito de Cristo. 

Que a loucura é realmente superior em dignidade à sabedoria 
prova-o, à evidência, o autor do Eclesiastes, seja ele quem for, 
no capitulo XLIV. Mas, meus caros ouvintes, antes de citar essa 
passagem, quero fazer um pacto convosco: juro-vos por Hércu- 
les que nunca mais vos falarei disso, se não responderdes favora- 
velmente às minhas perguntas, a exemplo daqueles que, segundo 
Platão, discutiam com Sócrates. Dou, pois, início à minha 
indução. 

Dizei-me, por favor, o que será melhor ocultar: as coisas raras 


138 ERASMO 


e preciosas, ou as vis e triviais? Como, não respondeis? Por que 
permaneceis imóveis como se não passásseis de estátuas? Mas 
não será o vosso silêncio que me fechará a boca. Os gregos 
responderão por vós e dirão que a bilha se deixa sem receio à 
porta, ao passo que as coisas preciosas se conservam escondi- 
das. Receando, porém, que profaneis essa sentença, rejeitando-a, 
acho conveniente advertir-vos que é de Aristóteles, o deus dos 
nossos mestres. Continuemos: haverá aqui alguém bastante 
louco que, de bom grado, seja capaz de abandonar na rua o seu 


dinheiro e as suas jóias? Não o creio, naturalmente! Todos vós, 
ao contrário, me pareceis, se não me engano, desses homens que 
costumam ocultar muito bem tudo o que possuem de precioso e 
que só se descuidam das coisas que pouco ou nada importa per- 
der. Assim, pois, exigindo a prudência que se escondam as coi- 
sas de valor e que não se deixem expostas senão as coisas de 
pouca entidade, a minha causa venceu, triunfou! O Eclesiastes 


ordena que se manifeste a sabedoria e se oculte a loucura. 
Textualmente: O homem que esconde a própria loucura é me- 
lhor que o que esconde a própria sabedoria. Mas isso não basta. 
As sagradas escrituras atribuem ainda ao louco a candura de 
animo, da qual não é suscetível ó sábio, embora se julgue sempre 
melhor do que os outros. É, pelo menos, como interpreto a 
seguinte passagem do Eclesiastes, capítulo X: Ao passear, o 
louco supõe que todos os que encontra sejam loucos como ele. 
Quem pode deixar de admirar essa candura e essa sinceridade? 
Naturalmente, todos os homens fazem um alto conceito de si 
mesmos, mas a loucura torna o homem tão humilde que procura 
dividir a sua virtude com todos os outros homens e comunicar- 
lhes a glória do seu mérito. Salomão julgava ter chegado a tanta 
perfeição, dizendo no capítulo XXX: Eu sou o mais louco de 


ELOGIO DA LOUCURA 139 


todos os homens. São Paulo, esse evangelista, esse apóstolo das 
gentes, não passou sem atribuir-se o meu nome, pois disse aos 
coríntios: Como louco, eu afirmo que sou o maior de todos (de 
tal maneira considerava ele vergonhoso ser superado em loucu- 
ra). Mas, enquanto isso, insurgem-se contra mim certos teólogos 
grecistas, impingindo como novidades coisas rançosas e antigas 
e se esforçando por cegar o vulgo com anotações que, além do 
mais, são pensamentos roubados aqui e ali: entre eles, encontra- 
se, se não em primeiro, pelo menos em segundo lugar, o meu 
caro Erasmo, que frequentemente cito para lhes prestar uma 
homenagem"ºº. — Oh Loucura! — exclamam eles — tu te 
mostras verdadeiramente digna do teu nome, tanto em tuas inter- 
pretações como em tudo o mais! O pensamento do apóstolo é 
bem diverso daquele que tu sonhas: não há a intenção de persua- 
dir que ele seja mais louco que os outros; depois de ter dito que 
eles são ministros de Cristo e eu também o sou, como se não 
bastasse igualar-se aos outros, acrescenta, corrigindo-se: E o sou 
mais do que eles, sentindo-se não somente igual aos outros após- 
tolos no ministério do evangelho, mas ainda um tanto superior. 
Para evitar o escândalo que semelhante declaração poderia pro- 
vocar, São Paulo chama-se louco, pois só os loucos têm o direito 
de dizer tudo sem risco de ofender alguém. Mas, seja qual for a 
interpretação que se dê ao que escreveu São Paulo, deixo que o 
discuta quem quiser. Quanto a mim, prefiro ser atacada pelos 
fogos desses grandes, desses enormes, desses gordos, desses céle- 
bres teologastros, com os quais a maior parte dos doutores pre- 
fere correr o risco de enganar-se, a conhecer a verdade ocultada 
por esse séquito de pessoas de três línguas!º?, às quais se dá 
100 Erasmo refere-se às anotações por ele feitas ao Novo Testamento e à obra de São 


Jerônimo, consideradas muito úteis ao estudo das escrituras. 
101 Três línguas, isto é, o hebraico, o latim e o grego. 


140 ERASMO 


tanta importância como às gralhas. Além disso, tenho em meu 
favor glorioso teólogo, que prudentemente julgo não dever 
nomear, pois sei muito bem que as nossas gralhas não deixariam 
de me citar a fábula do Asinus ad Lyram!º2, Esse doutor assim 
explica magistralmente, teologicamente essa passagem: Eu o 
digo com menor sabedoria, eu o sou mais do que eles. Faz disso 
um novo capítulo — e assim é quem exige uma dialética consu- 
mada — que vos acrescenta uma nova seção. Eis, não só quanto 
à forma, mas também quanto ao fundo, as palavras do meu teó- 
logo: Eu o digo com menor sabedoria, isto é, se vos pareço louco 
quando me igualo aos falsos apóstolos, mais tolo vos parecerei 
ainda se quiser preferir-me a eles. Depois, como que divagando, 
passa de repente a outro assunto. 

Mas, como sou louca ao querer atormentar meu cérebro com 
a interpretação de um só teólogo! Pois não conquistaram os 
nossos teólogos o direito público de esticar o céu, isto é, as escri- 
turas, como se fossem uma pele? Se devemos dar crédito ao 
douto São Jerônimo, que possuía cinco línguas, o próprio São 
Paulo usava do referido direito, encontrando-se em suas obras 
coisas que parecem oposta às sagradas escrituras. Por essa pia 
fraude do apóstolo das gentes, podemos julgar todas as outras. 
Tendo São Paulo observado, certa vez, uma inscrição que os ate- 
nienses tinham posto sobre um altar, na qual se lia: Aos deuses 
da Ásia, da Europa e da África, aos deuses ignotos e estranhos 
— truncou a inscrição e, tomando somente a parte julgada van- 
tajosa à religião cristã, suprimiu o resto. E até as palavras: ao 
deus ignoto, que formam o texto do seu discurso, bem se vê que 
não foram citadas com fidelidade. Os teólogos modernos mos- 


'º02 “Burro diante da lira”, provérbio que exprime o mesmo que “boi diante do palácio”, 
quando se olha uma coisa sem saber o que significa. 


ELOGIO DA LOUCURA I41 


tram ter aproveitado bastante esse exemplo, pois frequente- 
mente, da passagem de um autor, costumam tirar cinco ou seis 
palavras e alterar-lhes o sentido, como lhes convém. E assim é 
que, ao se confrontar a cópia com o original, ou quando se com- 
para a citação com o desenvolvimento do raciocínio, fica paten- 
teado que o autor citado não teve a intenção de dizer o que se 
pretende, ou então disse justamente o contrário. Pois é o que 
fazem os nossos mestres, e o fazem com tão feliz impudência 
que os próprios legistas, que tanto se divertem em citar a torto e 
a direito, ficam com muita inveja deles. 

E como poderiam deixar de sair-se bem com essa astúcia os 
guerreiros espirituais? Tudo podem esperar depois do primeiro 
sucesso do grande teólogo de que há pouco vos falei. Oh! que 
bom! Estou com o nome na ponta da língua! Receio, porém, 
que me citem outra vez o provérbio grego do 4sinus ad Lyrani. 

Esse doutor, no evangelho de São Lucas, interpretou uma nas- 
sagem de forma tão consentânea com o espírito de Cristo como 
o fogo com a água. Julgai-o, pois. Por ocasião de um extremo 
perigo, ocasião em que os bons clientes mais assiduamente se 
acham em torno dos seus protetores, oferecendo-lhes todos cs 
seus serviços, o Salvador, querendo tornar os seus discípulos 
superiores à esperança de qualquer socorro humanc, íez cos 
mesmos a seguinte pergunta: — “Quando vcs enviei neio 
mundo, faltou-vos alguma coisa?” — Eles não “inhan: nem 
dinheiro para a viagem, nem sapatos para garantir-se contra as 
pedras e os espinhos, nem alforjes a que nugessem recorrer em 
caso de fome. Como os apóstolos lhe respondessem que tinham 
sempre encontrado o necessário, o Salvadcr acrescentou: — 
“Agora, aquele de vós que tiver um saco, pequeno ou grande, 
deve levá-lo consigo; e aquele que não tiver espada, venda a. tú- 


142 ERASMO 


nica para comprá-la”. Como toda a doutrina evangélica aconse- 
lha a mansidão, a tolerância e o desprezo pela vida, seria preciso 
ser cego para não perceber o sentido e a intenção de Cristo nessa 
passagem. O divino legislador queria preparar os seus convida- 
dos para o ministério do apostolado e, por isso, impunha-lhes 
que se destacassem de todas as coisas desta terra. Não bastava 
largar os sapatos e os alforjes, mas deviam ainda despojar-se dos 
hábitos, o que significa, sem dúvida, o perfeito desprendimento 
de coração com que deviam entrar na carreira do apostolado. 

É verdade que Jesus Cristo mandou que os apóstolos arran- 
jassem uma espada, mas não das que servem de instrumento 
fatal nas mãos dos ladrões e dos parricidas, e sim de uma espada 
espiritual que penetrasse até ao fundo do coração, que extirpasse 
todas as paixões mundanas, a fim de que só a piedade reinasse e 
dominasse no ânimo. Observai agora, por favor, como o nosso 
célebre Asinus ad Lyram esticou o sentido dessa passagem: por 
espada, entende ele o direito de defesa contra a perseguição; por 
alforje, entende a provisão de víveres, como se o Salvador, tendo 
percebido que sem essa medida não atenderia bastante ao 
esplendor e à dignidade dos seus missionários, tivesse mudado 
de parecer e se retratado da sua determinação. 

Não se recordava o nosso legislador da sua moral? Pois 
declarou formalmente aos seus discípulos que seriam beatos se 
sofressem pacientemente a infâmia, os ultrajes, os suplícios; dis- 
se-lhes que a verdadeira felicidade era reservada aos brandos de 
coração, e não aos soberbos; exortou-os, enfim, com o exemplo 
dos pássaros e dos lírios, a se abandonarem à Providência. 
Esquecera-se, então, o Salvador dessas suas máximas quando, 
por um espírito inteiramente oposto, mandou que os apóstolos 
trouxessem uma espada, vendessem o hábito para comprar uma, 


ELOGIO DA LOUCURA 143 


e preferissem andar nus a andar desarmados? Assim como o 
nosso sutil comentador encerra na espada tudo o que pode servir 
para repelir a força, assim também entende por alforje tudo o 
que diz respeito à comodidade da vida. Dessa forma, esse intér- 
prete do espírito de Deus faz com que os apóstolos apareçam no 
teatro do mundo, para pregar Jesus crucificado, todos armados 
de lanças, balistas, fundas e bombardas. E assim também, para 
não viajarem em jejum, carrega-os de dinheiro, malas e 
embrulhos. 

Mas, por que Jesus Cristo, depois de ter mandado que os seus 
discípulos vendessem a própria camisa (por honestidade, creio 
que foi só) para comprar uma espada, ordenou em seguida, com 
ar de severidade e desdém, que a pusessem na bainha? Por que 
os apóstolos,ao que saibamos, nunca desembainharam a espada 
contra a violência dos tiranos? Seriam obrigados a fazê-lo, em 
sã consciência, se Cristo expressamente o tivesse determinado. 
O nosso teólogo, porém, não se atrapalhou diante dessa 
dificuldade. 

Um outro doutor, cujo nome discretamente deixo de citar, deu 
o mais belo salto do mundo. O profeta Habacuc disse: “As peles 
da terra de Madia serão revolvidas”. Ora, é claro como o sol que 
o profeta quer referir-se às tendas dos madianitas; mas, firman- 
do-se o bom teólogo no termo peles, disse que a referida passa- 
gem era, sem dúvida alguma, uma alusão ao esfolamento de São 
Bartolomeu. 

Não faz muito tempo que intervim numa discussão teológica, 
pois quase nunca falto a esse gênero de combate. Tendo alguém 
perguntado como se poderia provar, com as sagradas escrituras, 
que contra os hereges deviam ser empregados o ferro e o fogo, 
em lugar da discussão e do raciocinio, logo se levantou um 


144 ERASMO 


velho, cujo aspecto severo e temerário facilmente indicava tra- 
tar-se de um teólogo, e, franzindo as sobrancelhas, respondeu 
com uma voz altissonante: “Foi o próprio São Paulo que fez 
esta sábia lei: Evita (devita) o herege depois de uma ou duas 
admoestações”. Como fosse repetindo muitas vezes e em voz 
alta essas palavras, todos o julgaram dominado por um acesso 
frenético. Mas ele acabou explicando o enigma: “Sereis — 
exclamou — tão ignorantes que não noteis que esse vocábulo 
devita (evita) é formado, em latim, pela preposição de, mais o 
nome substantivo vita, significando fora da vida? Portanto, São 
Paulo mandou queimar os hereges e jogar suas cinzas ao vento”. 
Alguns puseram-se a rir ante tão nova e inesperada etimolo- 
gia, mas outros acharam-na profunda e verdadeiramente teoló- 
gica. Percebendo o barbado que não eram por ele todos os sufrá- 
gios da assembléia, lançou mão do argumento decisivo: “Está 
escrito — disse ele — está escrito: Não permitirás que viva o 
malfeitor; ora, o herege é malfeitor, por conseguinte, etc.”. 
Então, todos admiraram o talento do doutor, e o seu juízo por 
conseguinte é universalmente aplaudido. Não passa pela cabeça 
de ninguém que a citada lei dissesse respeito unicamente aos 
feiticeiros, aos bruxos, aos magos e a todas as pessoas que os 
hebreus chamavam de malfeitores, porque, do contrário, seria 
preciso ainda condenar ao fogo a embriaguez e a fornicação. 
Mas é uma tolice perder-me em semelhantes frioleiras, cujo nú- 
mero é tão grande que nem Dídimo nem Crisipo disseram tan- 
tas, embora tenham publicado uma enorme quantidade de volu- 
mes, o primeiro tratando da dialética e o segundo da gramática. 
Apenas vos peço que me façais justiça numa coisa: se é per- 
mitido que esses divinos mestres se afastem tanto do bom senso 


ELOGIO DA LOUCURA 145 


e da verdade, não condeneis, com mais forte razão, a minha 
insensatez nas citações, pois não passo, afinal, de uma sombra 
em confronto com os teólogos. 

Volto de novo a São Paulo. Falando de si mesmo, diz esse 
apóstolo: Suportais pacientemente os tolos... Considerai-me 
também um tolo... Não falo segundo Deus, mas como se fosse 
tolo. .. Somos tolos por Jesus Cristo. Que glória para mim é o 
fato de um autor de tanto peso referir-se tão favoravelmente à 
Loucura! No entanto, o mesmo São Paulo, não contente com 
isso, passa a recomendar a loucura como coisa sumamente 
necessária à salvação. Aquele, dentre vós — diz ele — que qui- 
ser parecer sábio, deve tornar-se louco, para poder fazer-se 
sábio. Não chamou Jesus Cristo loucos, em São Lucas, àqueles 
dois discípulos com os quais se encontrou na estrada, depois da 


ressurreição? Não obstante, isso não me causa tanta surpresa 
como o que disse o apóstolo das gentes: 4 loucura de Deus é 


melhor que a sabedoria dos homens. Ora, de acordo com a ínter- 
pretação de Orígenes, não se pode aplicar essa loucura à opinião 


dos homens. Do mesmo gênero é esta passagem: O mistério da 
cruz é uma loucura para os que perecem. 


Mas, por que hei de me cansar invocando tantos testemu- 
nhos? O Homem-Deus, voltando-se para o seu Pai, já lhe disse 
nos salmos: Conheces minha loucura? Não é, pois, sem motivo, 
ou melhor é visivelmente por essa razão que os loucos são os 
prediletos de Deus. Nesse particular, o Ser Supremo assemelha- 
se aos príncipes da terra, pois que, em geral, essas divindades 
imortais não gostam nada das pessoas sensatas e honestas. Com 
efeito, César temia mais Cássio e Bruto, do que ao glutoníssimo 


146 ERASMO 


Antônio 'º3; Nero não podia tolerar Sêneca 'º 4; Platão desilu- 
diu-se com Dionísio, o tirano 'º º, No entanto, apreciaram muito 
os estúpidos, os simples e os imbecis. 

O Homem-Deus, igualmente, condena sempre e detesta os sá- 
bios que só confiam na própria filosofia. São Paulo disse nítida 
e claramente: Deus escolheu tudo o que há de tolo no mundo... 
Deus julgou conveniente salvar o mundo pela loucura. E assim o 
fez, decerto, porque não teria podido fazê-lo com a sabedoria. 

O próprio Deus diz pela boca do profeta Isaías: Eu confun- 
direi a sabedoria dos sábios e reprovarei a prudência dos pru- 
dentes. E a humanidade de Jesus não dá graças a Deus por ter 
ocultado aos sábios o mistério da salvação, para revelá-lo aos 
pequenos, isto é, aos maluquinhos, com toda a força e energia do 
vocábulo grego? Pela mesma razão, podemos explicar ainda a 
continua guerra que, segundo o evangelho, fez o Salvador aos 
doutores da lei, aos escribas e aos fariseus, ao mesmo tempo que 
tomava o partido do vulgo ignorante. Desgraçados de vós — 
dizia ele — ó escribas e fariseus! Não significará essa impreca- 
ção o mesmo que desgraçados de vós, ó sabios? Finalmente, o 
Senhor do universo só costumava conversar com os meninos, as 
mulheres e os pescadores. Também Jesus Cristo preferia, entre 
tantas espécies de animais, os que mais se afastavam da sagaci- 
dade da raposa: escolheu um burrinho para o seu carro de triun- 
fo, quando teria podido cavalgar um soberbo leão. O Espírito 
Santo desceu sobre a segunda pessoa da Santíssima Trindade, 


103 Quando lhe avisaram que tomasse cuidado com Antônio, César respondeu: “Não 
temo os gordos e os glutões, mas os sóbrios e os pálidos”. Referia-se a Bruto e Cássio, que 
de fato o apunhalaram em pleno Senado. 

194 Nero mandou cortar as veias de Sêneca, por ter esse filósofo, quando seu preceptor, 
censurado as suas infames ações. 

105 Tendo ido expressamente à Sicília para tentar melhor, pelo estudo da filosofia, os 
sentimentos do feroz Dionísio, tirano da ilha, Platão passou pelo desgosto de ver fracassar 
inteiramente o seu propósito. 


ELOGIO DA LOUCURA 147 


não em forma de águia ou de gavião, mas de pomba, que é o 
mais simples dos pássaros. Além disso, as sagradas escrituras 
falam frequentemente de animais que têm um instinto muito 
limitado, que são os veados, os cabritos e os cordeiros. E não é 
de ovelhas que Jesus Cristo chama os que são eleitos para gozar 
com ele do reino dos céus? Ora, onde haverá animal mais estú- 
pido do que a ovelha? Antigamente, por desprezo e injúria, 
costumava-se dar esse nome às pessoas estúpidas e idiotas. 
Ainda mais: em virtude da comparação dos eleitos com as ove- 
lhas, Jesus Cristo vangloria-se do título de pastor e gosta muitiís- 
simo do nome de Cordeiro. De fato, é com esse nome que São 
João Batista o faz conhecer, quando diz: Eis o Cordeiro de 
Deus! E sob essa forma é ele igualmente representado em diver- 
sas visões do Apocalipse. 

Mas quais são as nossas conclusões do que aqui fica dito? 
Ei-las: 

Os homens são malucos, sem excetuar mesmo os que fazem 
profissão de piedade. Jesus Cristo, que é a sabedoria do Pai, pro- 
cede como tolo ao unir-se à natureza humana da forma por que 
o fez, isto é, tornando-se pecador para redimir o pecado. Obser- 
vai como o Salvador executou dignamente o seu projeto. Tendo 
estabelecido, em seus decretos, que salvaria os homens com a 
loucura da cruz, utilizou nessa tarefa apóstolos grosseiros e idio- 
tas, recomendando-lhes calorosamente que evitassem a sabedo- 
ria e seguissem a loucura, e indicando-lhes o exemplo dos meni- 
nos, das gralhas e dos pássaros, seres sem nenhum artifício e 
sem inquietações, que só se orientam pelas leis da natureza e 
pelo mecanismo do instinto. 

Esse legislador proibiu-lhes que se preparassem para compa- 
recer perante os tribunais dos reis e dos presídios, e não quis que 
pensassem no dia seguinte nem observassem a medida do tempo, 


148 ERASMO 


com receio de que, fiando-se na própria sabedoria, não se aban- 
donassem inteiramenté à sua providência. E foi por essa razão 
que o grande Arquiteto do universo proibiu que o primeiro e 
lindo par de esposos, por ele feitos e unidos em matrimônio, pro- 
vassem o fruto da árvore da ciência do bem e do mal, sob pena 
de sua desgraça e morte. É a melhor prova de que a ciência é o 
veneno da felicidade. São Paulo rejeita-a como perniciosa, ao 
dizer que ensoberbece o coração, e creio que São Bernardo 
exprimiu o mesmo sentimento desse apóstolo, ao chamar monte 
do saber aquele monte no qual o soberbo Lúcifer fixou sua 
morada. 

Não me parece que deva silenciar sobre o sumo crédito de que 
gozo no céu, pois que aí facilmente se obtém o perdão com o 
meu nome, ao passo que não é favorável o da sabedoria. Pecou 
um homem com conhecimento de causa? Não penseis que pro- 
cure alegar suas luzes, pois pode considerar-se feliz quando pode 
cobrir-se com o manto da loucura. É por isso que Aarão, no 
livro XII dos Números, se não me engano, querendo implorar o 
perdão para si e para a sua mulher, exclama: Rogo-vos, Senhor, 
que não nos condeneis por esse pecado que tolamente comete- 
mos! O mesmo fez Saul, para desculpar-se com Davi. Logo se 
vê — diz ele — que agi como louco! O próprio Davi, procu- 
rando evitar a vingança divina, exclamou: Senhor! Suplico-vos 
que canceleis a inigúidade da parte do vosso servo, pois agimos 
como loucos! Bem vedes que não podia esperar ser favorecido, 
se não aduzisse como desculpa a sua tolice e a sua ignorância. 

Mas, de todas as provas, a que corta a cabeça do touro é a 
prece do Salvador na cruz pelos seus crucificadores: — Perdoai- 
Lies, Pei, — disse ele, e o Deus moribundo não aduziu em favor 
deies outra desculpa senão a da loucura, acrescentando: porque 


ELOGIO DA LOUCURA 149 


não sabem o que fazem. Disse São Paulo a Timóteo: Deus usou 
de misericórdia para comigo porque a minha incredulidade era 
efeito da minha ignorância. Mas, que significa essa ignorância? 
Não significará mais estultícia do que malícia? Qual é o sentido 
destas palavras: Deus usou de misericórdia para comigo porque, 
etc.? Não será, talvez, o de demonstrar claramente que, sem o 
crédito e a recomendação da loucura, São Paulo não teria obtido 
nenhuma misericórdia? 

O místico salmista mostrou-se, igualmente, da minha opinião 
naquela passagem que eu me esqueci de pór no seu lugar: 
Dignai-vos, Senhor, esquecer os delitos da minha juventude e 
das minhas ignorâncias. Refletistes bem sobre esse divino can- 
tor? Escusa-se por dois titulos: um, pela juventude, idade de que 
sou a fiel e inseparável companheira; outro, pelas ignorâncias, e 
notai que exprime a sua ignorância no plural, o que mostra a 
força imensa da sua loucura. 

Para terminar logo uma enumeração que por natureza não 
acabaria nunca, quero vos fazer ver, sucintamente, que a religião 
cristã se coaduna perfeitamente com a loucura e não tem a 
menor relação com a sabedoria. Como essa proposição pareça 
um verdadeiro paradoxo, não serei tão irrazoável que pretenda 
me acrediteis baseados apenas em minha boa fé. Vamos, pois, às 
provas. 

Em primeiro lugar, vemos que os que, com maior solicitude, 
intervêm nos sacrifícios e outras cerimônias do culto, não são as 
pessoas mais sensatas, mas os meninos, os velhos, as mulheres e 
os ignorantes. E de onde lhes vem o desejo de se aproximarem 
tanto do altar e o transporte que experimentam pela devoção? 
Vem de um impulso totalmente mecânico da natureza. Em 
segundo lugar, os fundadores da religião crista, fazendo profis- 


150 ERASMO 


são de uma maravilhosa simplicidade, eram os inimigos mais 
declarados do estudo das ciências. Finalmente, é impossível 
achar loucos mais extravagantes que os que se abandonam intei- 
ramente ao ardor da piedade cristã. Jogam fora o dinheiro como 
a água, desprezam as injúrias, deixam-se enganar, não vêem 
nenhuma diferença entre os amigos e os inimigos, sentem horror 
pela volúpia: a abstinência, as vigílias, as lágrimas, os padeci- 
mentos, os ultrajes, eis todas as suas delícias; além disso, odeiam 
a vida e desejam a morte, ao ponto de parecerem absolutamente 
privados de senso comum, não passando de corpos sem alma e 
sem sentimento. Que nome lhes daremos, se o de loucos não lhes 
fica bem? Não devemos, pois, estranhar que os judeus tenham 
considerado os apóstolos como borrachos. O juiz Festo não 
teria razão ao tomar São Paulo por um extravagante? 

Uma vez que, sem o perceber, me arvorei em sábia e em racio- 
cinadora, quero ir até ao fim do assunto. Coragem, meu belis- 
simo espírito! Sustentemos, diante desses ouvintes, diante dessa 
ilustre sociedade de loucos, uma tese inteiramente nova e inespe- 
rada. Sim, meus caros senhores, quero mostrar-vos que a felici- 
dade dos cristãos, essa felicidade almejada com tantas penas e 
tantos trabalhos, não é senão uma espécie de loucura e de furor. 
Como! vós me olhais de soslaio e com desdém? Devagar, deva- 
gar: não nos apeguemos as palavras, que não passam de sons 
articulados e arbitrários. Limitemo-nos ao exame da coisa. 
Entro no assunto. 

O sistema do cristianismo, acerca da felicidade da vida, muito 
se avizinha do dos platônicos. Segundo o princípio fundamental 
desses dois sistemas, a alma está encarcerada no corpo, ligada 
pelos nós da matéria e de tal modo oprimida pelo peso da má- 
quina orgânica que muito dificilmente pode descobrir e apreciar 


ELOGIO DA LOUCURA 151 


a verdade. É por essa razão que Platão definiu a filosofia como 
sendo a meditação da morte, porque tanto a filosofia como a 
morte destacam nossa alma das coisas visíveis e corporais. Por 
isso, quando a alma emprega os órgãos do corpo de acordo com 
a economia natural, costuma dizer-se sábia e sã; mas.quando, 
rompendo os liames, procura fugir do cárcere, pór-se em liberda- 
de, então se diz em estado de loucura. Quando essa desordem 
provém da enfermidade ou alteração dos órgãos, dão-lhe todos o 
nome de furor. Por outro lado, vemos esses felicissimos loucos 
que predizem o futuro, que conhecem línguas e ciências sem 
nunca as terem aprendido, e que mostram ter em si mesmos algo 
de divino. E de onde provém esse prodígio? Creio não haver dú- 
vida de que provém da alma, que, tornando-se um pouco mais 
livre da servidão do corpo, começa a utilizar sua força natural. 

Creio provir igualmente dessa causa a faculdade que têm os 
moribundos de dizer coisas prodigiosas, como que inspirados. O 
amor e o zelo da piedade produzem também essa alienação dos 
sentidos, que não parece ser, é verdade, o mesmo gênero de lou- 
cura, mas desta se aproxima de tal forma que em geral se lhe dá 
o mesmo nome. 

Com efeito, quem não trataria como loucos, e como loucos 
em último grau, aqueles homenzinhos que levam uma vida total- 
mente diversa da dos outros mortais? E aqui vem muito a propó- 
sito a idéia de Platão. Imaginou ele uma caverna repleta de pes- 
soas presas, da qual conseguiu fugir um dos prisioneiros. Este, 
depois de levar muito tempo vagando: sem destino, voltou e gri- 
tou em altas vozes aos companheiros: — Meus caros amigos! 
Como me inspirais piedade! Só vedes sombras e fantasmas, em 
suma, sois verdadeiramente tolos. Bem diversa é a minha situa- 
ção, pois só vi coisas sensíveis, existentes, reais. — Então, do 


152 ERASMO 


seu canto, os encarcerados, que nunca jamais sairam do subter- 
râneo, entreolhando-se com surpresa, exclamaram: — Que nos 
quer dizer com isso esse louco? Com certeza perdeu o juízo. — 
O mesmo costuma suceder com homens: os mais sensuais têm 
maior admiração pelas coisas materiais, quase acreditando que 
não existam outras; os que se consagram à piedade, ao contrá- 
rio, quanto mais relação com o corpo tem um objeto, tanto 
menos lhe dão valor e passam a vida sempre imersos na contem- 
plação das coisas invisíveis. 

A principal ocupação dos mundanos é acumular sempre 
riquezas e contentar em tudo e por tudo o próprio corpo, pouco 
ou nada se importando com a alma, cuja existência, por ser ela 
invisível, muitos chegam mesmo a pôr em dúvida. Já as pessoas 
inflamadas pelo fogo da religião seguem um caminho totalmente 
oposto e depositam toda a sua confiança em Deus, que é o mais 
simples de todos os seres: depois dele e dependendo dele, pensam 
na alma, como sendo a coisa que mais próxima está da divinda- 
de. É assim que não pensam no corpo e não só desprezam os 
bens da fortuna como até os recusam. E quando, por dever, são 
obrigados, como pais de família, a pensar nos interesses tempo- 
rais, por aí enveredam contra a vontade e experimentam um vivo 
pesar, porque têm como se não tivessem e possuem como se não 
possuíssem. 

Existem ainda muitos outros graus de diferença entre os que 
se ocupam somente com o corpo e os que se entregam inteira- 
mente à pia cultivação da alma. Para melhor distinguirmos esses 
graus, estabeleçamos um princípio incontestável. 

Embora todos os sentimentos da alma tenham uma corres- 
pondência necessária com o corpo, há contudo duas espécies: 
uns são materiais, como o tato, a audição, a vista, O olfato e o 


ELOGIO DA LOUCURA 153 


paladar; outros têm menor relação com os órgãos, como sejam a 
memória, o intelecto e a vontade. Disso resulta que a alma tem 
maior ou menor força à proporção que se aplica mais ou menos 
a esses diversos sentimentos. Raciocinemos, agora, sobre essa 
suposição. Assim como os que se abandonam totalmente à pie- 
dade se tornam o quanto podem superiores aos sentidos do 
corpo, mortificando-o a tal ponto que acabam perdendo toda 
sensibilidade — como São Bernardo, por exemplo, que, segundo 
a lenda, bebia óleo por vinho sem perceber — assim também os 
sensuais têm um grande vigor de ânimo no que se refere aos sen- 
tidos do corpo e uma fraqueza extrema quanto à alma. Além 
disso, hã algumas paixões que afetam o corpo mais de perto, 
como o amor, a fome, a sede, o sono, a cólera, a soberba, a inve- 
ja, contra as quais movem os verdadeiros devotos, se é que os 
há, uma perpétua guerra, ao passo que os adeptos da natureza 
acham que não podem viver sem essas coisas. Existem ainda ou- 
tras que têm lugar intermédio e são consideradas naturais, como 
sejam: amar a pátria, os parentes, os filhos diletos, os vizinhos, 
os amigos. Quase todos os homens possuem algo dessas paixões, 
mas as pessoas pias fazem tudo para extirpá-las do coração ou 
ao menos espiritualizá-las. Um filho, por exemplo, ama seu pai: 
julgais que ele honre a paternidade e ame de fato aquele de quem 
recebeu a vida? — Ora essa! — Que foi que me deu me pai — 
diz o devoto — a não ser esse corpo miserável, que é o meu pior 
inimigo? Aliás, também isso eu o devo a Deus, único e verda- 
deiro autor do meu ser. Amo meu pai como um homem em 
quem resplende a imagem daquela suprema inteligência que é o 
bem supremo e fora da qual nada existe de amável nem de dese- 
jável. — É também com essa regra que as pessoas de mortifica- 
ção misturam todos os deveres da vida, de modo que, quando 


154 ERASMO 


não desprezam em geral todas as coisas visíveis, pelo menos as 
põem infinitamente abaixo das invisíveis. 

Chegam mesmo a dizer que, nos sacramentos e nas outras 
funções do culto, não existiria a matéria sem o espirito. Nos dias 
de jejum, acreditam que seja quase nada a abstinência das car- 
nes e da ceia, se bem que a maioria faça consistir nesses dois 
pontos toda a obrigação do preceito. Os devotos vos dizem que 
é preciso jejuar com o espírito, dominar as próprias paixões, 
suprimir a cólera e o orgulho, a fim de que a alma, mais desem- 
baraçada da massa do corpo, possa melhor gozar dos bens do 
céu. O mesmo acontece em relação à missa: — Se bem que não 
desprezemos — dizem eles — tudo o que é visível nesse sacrifi- 
cio, todavia Os sinais não seriam menos inúteis que as cerimô- 
nias, quando não perniciosas, se não fosse o socorro do espirito. 
— Representando esse mistério a paixão do Salvador, faz-se 
mister que a representem também os fiéis, dominando, extin- 
guindo e sepultando suas paixões, a fim de ressurgirem numa 
nova vida e se unirem a Cristo e aos seus membros. Os devotos 
costumam assistir à santa missa com referida disposição, mas o 
mesmo não acontece com a maior parte dos homens, que, não 
reconhecendo nesse sacrifício senão a obrigação de comparecer, 
contentam-se em olhar, ouvir, prestar atenção ao canto e às ceri- 
mônias. Mas não é só no que diz respeito às coisas que acabo de 
vos referir a título de exemplo que os anjos mortais rompem 
toda relação com os corpos e com a matéria: para se elevarem 
aos bens eternos, invisíveis e espirituais, fazem o mesmo com 
tudo o que acontece no curso da vida. 

Vós mesmos não podereis negar, quando eu vo-lo tiver breve- 
mente demonstrado, que a infinita recompensa desejada que bus- 
cam com tanta ansiedade não é senão uma espécie de furor. 


ELOGIO DA LOUCURA 155 


Confirmo o meu sentimento com um oráculo do divino Platão: 
O furor dos amantes — diz o entusiasta filósofo — é de todos o 
mais feliz. Com efeito, um amante apaixonado não vive mais em 
si mesmo, mas na pessoa que se apoderou do seu coração, e 
quanto mais sai de si mesmo para transfundir-se no objeto do 
seu amor, tanto mais sente redobrar-se o seu prazer. Não tere- 
mos igualmente razão de qualificar com o nome de furor o pró- 
prio estado de uma alma devota que arde de desejo por alcançar 
a perfeição evangélica e que não procura senão sair do seu corpo 
pelo desprezo dos sentidos? Trazei à vossa memória os modos 
de dizer frequentemente usados: Está fora de si... Voltou a 
si... Caiuemsi... Além disso, segundo a idéia de Platão, pelo 
grau de amor é preciso medir a grandeza do furor e da felici- 
dade. Qual será, pois, a vida dos beatos no paraíso, vida pela 
qual suspiram as almas devotas com tanto transporte? Como, 
naquele estado de gozo perfeito e sempre novo, a alma vitoriosa 
e triunfante absorverá o corpo, resulta que esse absoluto domi- 
nio, bem longe de causar o menor sofrimento, torna-se natural, e 
o espírito se achará como no seu reino e gozará o fruto dos 
esforços feitos para reduzir o corpo a uma perfeita escravidão. 
Além disso, a alma verá de maneira incompreensível, como que 
absorta naquela suprema inteligência por que é infinitamente 
superada. E assim é que o homem ficará fora de si e não será 
feliz senão quando, não se achando mais em si mesmo, receber 
uma inexprimível felicidade daquele supremo Bem que tudo 
atrai a si. Mas como essa felicidade só pode ser destruída pela 
união da alma com o corpo, e sendo a vida dos santos na terra 
uma continua meditação e uma sombra das alegrias inefáveis do 
paraíso, resulta que principiam a gozar antecipadamente, neste 
mundo, a recompensa que lhes é prometida. É bem verdade que, 


156 ERASMO 


em confronto com a felicidade eterna, não passa de uma gota e 
de uma sombra a que experimentam os devotos nesta terra. Não 
obstante, essa gota, essa sombra é incomparavelmente superior a 
todos os prazeres dos sentidos, mesmo que se pudessem gozar 
todos ao mesmo tempo, porque todas as coisas espirituais supe- 
ram infinitamente as materiais e os bens invisíveis ultrapassam 
de muito os visíveis. É, aliás, o que promete um profeta, quando 
diz: Os olhos não viram, os ouvidos não escutaram, o coração 
do homem não sentiu ainda o que Deus preparou para os que o 
amam. É esse gênero de loucura, que, bem longe de se perder 
quando se passa da terra ao céu, alcança, ao contrário, seu últi- 
mo grau de perfeição. 

Para vos falar novamente daqueles aos quais Deus, por um 
favor todo especial, concede a graça de gozar antecipadamente 
as delícias da beatitude, dir-vos-ei que são eles em número muito 
reduzido e que, além disso, estão sujeitos a certos sintomas que 
muito se assemelham aos da loucura: suas palavras são descone- 
xas e fora do uso humano, ou, mais claramente, não sabem o que 
dizem; sua fisionomia transforma-se a cada momento, e ora 
estão alegres, ora melancólicos; choram, riem, suspiram, numa 
palavra, estão inteiramente fora de si. Acontece que voltam os 
seus sentidos? Protestam que positivamente não sabem de onde 
vêm, nem se existem somente na alma ou também no corpo, nem 
se estarão acordados ou dormindo. E de tudo, depois, que viram, 
ouviram, disseram, ou não se recordam ou fazem uma idéia tão 
confusa como se tivessem sonhado. 

Só sabem de uma coisa: que se acham felicíssimos no seu deli- 
rio. Eis por que sofrem a convalescença do cérebro e tudo sacri- 
ficariam de bom grado para serem perpetuamente loucos nessas 
condições. No entanto, toda essa felicidade não passa de uma 


- ELOGIO DA LOUCURA 157 


tenuíssima migalha da mesa celeste: imaginai, agora, o que não 
será o eterno banquete! 

Mas parece que, sem refletir no que sou, vou ultrapassando há 
bastante tempo todos os limites. Por conseguinte, se tagarelei de- 
mais e com demasiada ousadia, lembrai-vos de que sou mulher e 
sou a Loucura. Ao mesmo tempo, porém, não vos esqueçais 
deste antigo provérbio dos gregos: Muitas vezes, também o 
homem louco fala judiciosamente, a não ser que pretendais que, 
nesse provérbio, não estejam incluídas as mulheres, pois eu disse 
homem e não mulher. 

Esperais um epilogo do que vos disse até agora? Estou lendo 
isso em vossas fisionomias. Mas sois verdadeiramente tolos se 
imaginais que eu tenha podido reter de memória toda essa mistu- 
ra de palavras que vos impingi. Em lugar de um epílogo, quero 
oferecer-vos duas sentenças. A primeira, antiquissima, é esta: Eu 
jamais desejaria beber com um homem que se lembrasse de tudo. 
E a segunda, nova, é a seguinte: Odeio o ouvinte de memória fiel 
demais. 

E, por isso, sede sãos, aplaudi, vivei, bebei, ó celebérrimos ini- 
ciados nos mistérios da Loucura. 


= 


THOMAS MORE 


A UTOPIA 


LIVRO PRIMEIRO 


DA COMUNICAÇÃO DE RAFAEL HITLODEU 


O INVENCÍVEL rei da Inglaterra, Henrique, oitavo do none, 
principe dum gênio raro e superior, teve, não faz muito tempo, 
uma querela de certa importância com o sereníssimo Carlos, 
principe de Castela. Eu fui, então, enviado às Flandres, como 
parlamentar com a missão de tratar e resolver essa questão. 

Tinha por companheiro e colega, o incomparável Cuthbert 
Tunstall, a quem o rei confiara a chancela do arcebispado de 
Cantuária, com os aplausos de todos. Nada direi, aqui, em seu 
louvor. Não por temer que se acuse a minha amizade de adula- 
ção; porém, a sua doutrina e as suas virtudes estão acima de 
meus elogios, e sua reputação é tão brilhante que celebrar o seu 
mérito seria, como diz o provérbio, chover no molhado. 

Encontramos em Bruges, lugar fixado para a conferência, os 
delegados do Principe Carlos, todos personagens distintíssimos. 
O governador de Bruges era o chefe e o cabeça dessa deputação, 
e Jorge de Tomásia, preboste de Mont-Cassel, era a boca e o 
coração. Este homem, que deve sua eloquência, menos ainda à 
arte que à natureza, passava por um dos mais sábios juriscon- 
sultos em questões de Estado; e sua capacidade pessoal, aliada a 
longa prática dos negócios, fazia dele um habilissimo diplomata. 

A conferência já realizara duas sessões e não pudera ainda 
concordar sobre muitos artigos. Os enviados de Espanha despe- 
diram-se, então, de nós, para ir a Bruxelas consultar o príncipe. 
Aproveitei esse lazer e fui a Antuérpia. 


164 THOMAS MORE 


Durante a minha estada nesta cidade conheci muita gente; 
mas nenhuma relação me foi mais agradável que a de Pedro Gil, 
antuerpiense de uma grande integridade. Este moço, que desfruta 
de honrosa posição entre os seus concidadãos, merece, realmen- 
te, uma das mais elevadas, já pelos seus conhecimeiitos, já por 
sua moralidade, pois a erudição que possui iguala a indepen- 
dência do caráter. Sua alma está aberta a todos; mas nutre por 
seus amigos tanta benevolência, amor, fidelidade e devotamento 
que poder-se-ia qualificá-lo, muito justamente, como o perfeito 
modelo da amizade. Modesto e sem fingimentos, simples e pru- 
dente, sabe falar com espirito, e seu gracejo não é nunca uma 
injúria. Em suma, a intimidade que se estabeleceu entre nós foi 
tão cheia de prazer e encanto, que suavizou em mim a saudade 
da pátria, do lar, de minha mulher, de meus filhos, e acalmou as 
inquietações de uma ausência de mais de quatro meses. 

Um dia, estava eu na Notre-Dame, igreja da grande devoção 
do povo, e uma das obras-primas mais belas da arquitetura; de- 
pois de ter assistido ao oficio divino, dispunha-me a voltar para 
o hotel, quando, de repente, dou de cara com Pedro Gil, que con- 
versava com um estrangeiro já idoso. A tez trigueira do desco- 
nhecido, sua longa barba, a capa, quase a cair-lhe, negligente- 
mente, sua aparência e aspecto revelavam.um patrão de navio. 

Logo que Pedro deu comigo, aproximou-se, e, saudando-me, 
afastou-se um pouco de seu interlocutor que iniciava uma res- 
posta, e, a propósito deste, me disse: 

— Vede este homem; pois bem, ia levá-lo diretamente à 
vossa casa. 

— Meu amigo — respondi-lhe — por vossa causa, ele seria 
bem-vindo. 

— E mesmo por causa dele — replicou Pedro — se o conhe- 


A UTOPIA 1 165 


cêsseis. Não há sobre a terra outro ser vivo que possa vos dar 
detalhes tão completos e tão interessantes sobre os homens e os 
países desconhecidos. Ora, eu sei que sois excessivamente curio- 
so por essa espécie de notícias. 

— Não tinha adivinhado muito mal — disse eu então, pois 
que, logo à primeira vista, tomei o desconhecido por um patrão 
de navio. 

— Enganais-vos completamente; ele navegou, é certo, mas 
não como Palinuro. Navegou como Ulisses, e até mesmo como 
Platão. Escutai sua história: Rafael Hitlodeu (o primeiro destes 
nomes é o de sua família) conhece bastante bem o latim e domi- 
na o grego com perfeição. O estudo da filosofia, ao qual se devo- 
tou exclusivamente, fê-lo cultivar a língua de Atenas de prefe- 
rência à de Roma. E, por isso, sobre assuntos de alguma 
importância, só vos citará passagens de Sêneca e de Cicero. Por- 
tugal é o seu país. Jovem ainda, abandonou seu cabedal aos 
irmãos; e, devorado pela paixão de correr mundo, amarrou-se à 
pessoa e à fortuna de Américo Vespúcio. Não deixou por um só 
instante este grande navegador, durante as três das quatro últi- 
mas viagens, cuja narrativa se lê hoje em todo o mundo. Porém, 
não voltou para a Europa com ele. Américo, cedendo aos seus 
insistentes pedidos, lhe concedeu fazer parte dos VINTE E 
QUATRO que ficaram nos confins da NOVA-CASTELA. Foi, 
então, conforme seu desejo, largado nessa margem, pois o nosso 
homem não teme a morte em terra estrangeira; pouco se lhe dá 
a honra de apodrecer numa sepultura; e gosta de repetir este 
apotegma: O CADÁVER SEM SEPULTURA TEM O CÉU 
POR MORTALHA; HÁ POR TODA A PARTE CAMINHO 
PARA CHEGAR A DEUS. Este caráter aventureiro podia ter- 
lhe sido fatal, se a Providência divina não o tivesse protegido. 


166 THOMAS MORE 


Como quer que fosse, depois da partida de Vespúcio ele percor- 
reu, com cinco castelhanos, uma multidão de países, desem- 
barcou em Taprobana, como por milagre, e daí chegou a Cali- 
cut, onde encontrou navios portugueses que o reconduziram ao 
seu país, contra todas as expectativas. 

Assim que Pedro acabou essa narrativa, agradeci-lhe o empe- 
nho e solicitude em me fazer desfrutar conversação com homem 
tão extraordinário; depois, abordei Rafael e, após as saudações e 
cortesias habituais num primeiro encontro, levei-o à minha casa 
com Pedro Gil. Aí, sentados no jardim, sobre um banco de relva, 
a conversa começou. 

Rafael me contou como, após a partida de Vespúcio, ele e 
seus companheiros, com afabilidade e bons serviços, granjearam 
a amizade dos indígenas, e como viveram com eles em paz e na 
melhor harmonia. Houve mesmo um príncipe, cujo país e nome 
me escapam, que lhes deu proteção a mais afetuosa. Sua genero- 
sidade os proveu de barcos, carros e tudo o mais de que necessi- 
tavam para continuar a viagem. Um guia fiel teve ordem de 
acompanhá-los e apresentá-los aos príncipes com excelentes 
recomendações. 

Depois de vários dias de marcha descobriram burgos e cida- 
des bem administradas, nações inúmeras e Estados poderosos. 

No equador — acrescentava Hitlodeu — de uma parte e de 
outra, no espaço compreendido pela órbita do sol, não viram 
senão vastas solidões eternamente devoradas por um céu de 
fogo. Aí, tudo os aturdia de horror e espanto. A terra inculta 
tinha apenas como habitantes os animais mais ferozes, os reptis 
mais terríveis, ou homens mais selvagens que os animais. Afas- 
tando-se do equador, a natureza se abrandava pouco a pouco; o 
calor é menos abrasador, a terra se cobre de uma ridente verdura 


A UTOPIA -I 167 


e os animais são menos selvagens. Mais longe ainda, aparecem 
povos, cidades, povoações, em que se faz um comércio ativo por 
terra e por mar, não somente no interior e com as fronteiras, mas 
entre nações muito distantes. 

Estas descobertas inflamavam o ardor de Rafael e de seus 
companheiros. E o que alimentava essa paixão pelas viagens era 
o fato de serem admitidos sem dificuldade no primeiro navio a 
partir, qualquer que fosseo seu destino. 

As primeiras embarcações que viram eram chatas, as velas 
formadas de vimes entrelaçados ou de folhas de papiro, e algu- 
mas de couro. Em seguida, encontraram embarcações termina- 
das em ponta, as velas feitas de canhamo; e finalmente embarca- 
ções inteiramente semelhantes às nossas, e hábeis nautas 
conhecendo muito bem o céu e o mar, mas sem nenhuma idéia 
de bússola. 

Esses bons homens ficaram pasmados de admiração e cheios 
do mais vivo reconhecimento, quando nossos castelhanos lhes 
mostraram uma agulha imantada. Antes, era tremendo que se 
aventuravam ao mar, e ainda assim atreviam-se a navegar ape- 
nas no verão. Hoje, bússola em mão, arrostam os ventos e o 
inverno mais confiados do que seguros; pois, se não tomam cui- 
dado, essa bela invenção, que parecia dever trazer-lhes tantos 
benefícios, poderá transformar-se, por sua imprudência, em uma 
fonte de males. 

Seria muito extenso se relatasse, aqui, tudo o que Rafael viu 
em suas viagens. Aliás. não é essa a finalidade desta obra. 
Completarei talvez a sua narrativa num outro livro em que darei 
detalhes, principalmente, dos hábitos, costumes e sábias institui- 
ções dos povos civilizados, que frequentou Rafael. 

Sobre essas graves questões nós o importunamos com pergun- 


168 THOMAS MORE 


tas intermináveis, e ele consentia, prazerosamente, em satisfazer 
a nossa curiosidade. Nós nada lhe perguntamos sobre esses 
monstros famosos que já perderam o mérito da novidade: Cila?, 
Selenos, Lestrigões, comedores de gente, e outras harpias de 
mesma espécie que existem em quase toda parte. O que é raro, é 
uma sociedade sã e sabiamente organizada. 

Para dizer verdade, Rafael notou entre esses novos povos 
instituições tão ruins quanto as nossas, mas, observou também 
um grande número de leis capazes de esclarecer, de regenerar as 
cidades, nações e reinos da velha Europa. 

Todas essas coisas, repito-o, serão objeto de uma outra obra. 
Nesta, relatarei apenas o que Rafael nos contou dos costumes e 
instituições do povo utopiano. Antes, quero mostrar ao leitor de 
que maneira a conversa foi levada para este terreno. 

Rafael entremeava a sua narrativa com as reflexões mais pro- 
fundas. Examinando cada forma de governo, analisava com uma 
sagacidade maravilhosa, o que há de bom e verdadeiro numa, de 
mau e de falso noutra. Ao ouvi-lo discorrer tão sabiamente sobre 
as instituições e os costumes dos diferentes povos, era de pen- 
sar-se que vivera toda a vida nos lugares por onde apenas passa- 
ra. Pedro não póde conter a sua admiração. 

— Na verdade, — disse — meu caro Rafael, espanto-me que 
não vos tivésseis posto a serviço de algum rei. Certamente não 
haveria um só que não encontrasse em vós utilidade e satisfação. 
Encherieis de encanto os seus lazeres com o vosso conhecimento 
* Cia: perigoso penhasco no mar de Messina, vizinho a uma voragem não menos perigo- 
sa, chamada pelos antigos de Caribdis. Os poetas antigos contavam que ali morava um 
monstro — Cila — devorador dos navegantes. 

Selenos: outros seres legendários que enchiam a imaginação dos antigos. Provavelmente o 
autor queria referir-se a algum derivado dos Selenitas, supostos habitantes da Lua. 


Lestrigões: gigantes antropófagos, habitantes da Sicília, que comeram vários compa- 
nheiros de Ulisses, segundo a mitologia homérica. 


A UTOPIA -I 169 


universal das coisas e dos homens, e os incontáveis exemplos, 
que poderieis citar, proporcionar-lhe-iam um sólido ensinamento 
e conselhos preciosos. Faríeis, ao mesmo tempo, uma brilhante 
fortuna para vós € OS VOSSOS. 

— Eu pouco me inquieto com a sorte dos meus — retomou 
Hitlodeu. — Creio ter cumprido sofrivelmente os meus deveres 
para com eles. Os outros homens só abrem mão de seus bens já 
velhos e na agonia, e é ainda chorando, que renunciam ao que 
suas mãos desfalecentes não mais podem reter. Eu, cheio de 
saúde e juventude, tudo dei aos meus parentes e amigos. Eles 
não se queixarão, espero, do meu egoísmo; não exigirão que, 
para cumulá-los de ouro, eu me faça escravo de um rei. 

— Entendamo-nos — disse Pedro — a minha intenção não 
foi a de que servísseis um principe como lacaio e sim como 
ministro. 

— Os príncipes, meu amigo, poem nisto pouca diferença; e, 
entre estas duas palavras latinas servire e inservice, vêem apenas 
uma silaba a mais, ou a menos. 

— Chamai a coisa como quiserdes — respondeu Pedro —; é 
o melhor meio de ser útil ao público, aos indivíduos, e de tornar 
mais feliz a própria situação. 

— Mais feliz, dizeis! Mas, como aquilo que repugna ao meu 
sentimento, ao meu caráter, poderia fazer minha felicidade? 
Presentemente sou livre, vivo como quero, e duvido que muitos 
dos que vestem a púrpura possam dizer o mesmo. Muita gente 
ambiciona os favores do trono; os reis não sentirão falta, se eu e 
dois ou três da minha têmpera não nos encontrarmos entre os 
cortesões. 

Então falei assim: 

— É evidente, Rafael, que não procurais riquezas nem poder, 


170 THOMAS MORE 


e não tenho menos admiração e estima por um homem como 
vós, do que por aquele que está à frente de um império. Parece- 
me, entretanto, que seria digno de um espírito tão generoso, tão 
filosófico, como o vosso, aplicar todos os seus talentos na dire- 
ção dos negócios públicos, embora houvesse que comprometer o 
seu bem-estar pessoal; ora, a maneira de o fazer com mais pro- 
veito é ainda a de entrar para o conselho de algum grande prínci- 
pe; estou certo de que a vossa boca não se abriria jamais, senão 
para a virtude e para a verdade. Vós o sabeis, o príncipe é a 
fonte de onde o bem e o mal jorram como uma torrente, sobre o 
povo; e possuis tanta ciência e tantos talentos que, embora não 
tivésseis o hábito dos negócios, daríeis mesmo assim, um exce- 
lente ministro para o rei mais ignorante. 

— Incidis num duplo erro, caro More — replicou Rafael —; 
e não só quanto ao fato em si como quanto à pessoa; estou longe 
de ter a capacidade que me atribuís; e mesmo que a tivesse cem 
vezes maior, o sacrifício de meu sossego seria inútil à causa 
pública. 

Em primeiro lugar, os príncipes cuidam somente da guerra 
(arte que me é desconhecida e que não tenho nenhum desejo de 
conhecer). Eles desprezam as artes benfazejas da paz. Trata-se 
de conquistar novos reinados, e todos os meios lhes parecem 
bons; o sagrado e o profano, o crime e o sangue, não os detêm. 
Em compensação, ocupam-se muito pouco de bem administrar 
os Estados submetidos à sua dominação. 

Quanto aos conselhos dos reis, eis aproximadamente a sua 
composição: 

Uns se calam por inépcia, e teriam mesmo grande necessidade 
de ser aconselhados. Outros são capazes, e sabem que o são; 
mas partilham sempre do parecer do preopinante, que está em 


A UTOPIA -I 171 


melhores graças, e aplaudem, com entusiasmo, as pobres imbeci- 
lidades que este entênde desembuchar; esses vis parasitas só têm 
uma finalidade: ganhar, por uma baixa e criminosa lisonja, a 
proteção do primeiro favorito. Os outros são escravos de seu 
amor-próprio e escutam apenas a própria opinião, o que não é 
de admirar, pois a natureza insufla cada um a afagar com o 
amor os produtos de sua invenção. É assim que o corvo sorri à 
sua ninhada, e o macaco aos seus filhotes. 

Que sucede então no seio desses conselhos onde reinam a 
inveja, a vaidade e o interesse? Intenta, alguém, apoiar uma opi- 
nião razoável na história dos tempos passados, ou nos costumes 
dos outros países? Os outros se mostram surpresos e transtor- 
nados; e com o amor-próprio alarmado como se fossem perder a 
reputação de sábios e passar por imbecis. Eles quebram a cabeça 
até encontrar um argumento contraditório, e, se a memória e a 
lógica lhes mínguam entrincheiram-se neste lugar comum: 
“Nossos pais assim pensaram e assim fizeram; ah! queira Deus 
que igualemos a sabedoria de nossos pais!” Depois se assentam, 
pavoneando-se, como se acabassem de pronunciar um oráculo. 
Dir-se-ia, ao ouvi-los, que a sociedade vai perecer se surgir um 
homem mais sábio que os seus antepassados. Enquanto isso, 
permaneçamos indiferentes, deixando subsistir as boas institui- 
ções que eles nos legaram; e quando surge um melhoramento 
novo agarramo-nos à antiguidade para não acompanhar o pro- 
gresso. Vi, em quase toda a parte, desses julgadores rabugentos, 
insensatos ou presunçosos. Aconteceu-me uma vez na Inglater- 
RT 

— Perdão — disse eu, então, a Rafael —,estivestes também 
na Inglaterra? 

— Sim, estive lá alguns meses, pouco depois da guerra civil 


172 THOMAS MORE 


dos ingleses ocidentais contra o rei que terminou com uma hor- 
rorosa matança dos insurretos. Nessa ocasião, recebi enormes 
obséquios do reverendissimo padre João Morton, cardeal-ar- 
cebispo de Cantuária e chanceler da Inglaterra. 

Era um homem (dirijo-me unicamente a vós, meu caro Pedro, 
porque More não necessita dessas informações), era um homem 
ainda mais venerável por seu caráter e virtude do que por suas 
altas dignidades. Sua estatura mediana não se curvava ao peso 
da idade; sua fisionomia, sem ser dura, impunha respeito; era de 
trato fácil, mas severo e majestoso. Sentia prazer em experi- 
mentar os solicitantes com apóstrofes por vezes um tanto rudes, 
embora nunca ofensivas, mostrando-se encantado se percebia 
neles presença de espírito e respostas prontas, mas sem imperti- 
nência. Esta prova o ajudava a inferir do mérito de cada qual e 
a classificá-lo, segundo a especialidade. Sua linguagem era pura 
e enérgica; sua ciência do direito profunda, seu julgamento sele- 
to, sua memória prodigiosa. Essas brilhantes disposições natu- 
rais, ele as tinha ainda desenvolvido pelo exercício e pelo estudo. 
O rei fazia grande caso de seus conselhos e o considerava como 
um dos mais firmes esteios do Estado. Levado muito jovem do 
colégio para a corte, envolvido toda a vida nos acontecimentos 
mais graves, tangido, sem descanso, pelo mar tempestuoso do 
destino, adquirira, em meio de perigos sempre renovados, uma 
consumada prudência, um conhecimento tão profundo das coi- 
sas que, por assim dizer, com ele próprio se identificava. 

O acaso me fez encontrar um dia, à mesa desse prelado, um 
leigo reputado como douto legista. Este homem, não sei a que 
propósito, se pôs a cumular de louvores a rigorosa justiça exer- 
cida contra os ladrões. Narrava gostosamente como eles eram 
enforcados, aqui e ali, às vintenas, na mesma forca. 


A UTOPIA -I 173 


“Apesar disso — acrescentava — vejam que fatalidade! Mal 
escapam da forca dois ou tres desses bandidos, e, no entanto, na 
Inglaterra, eles formigam por toda parte !” 

Com a liberdade de palavra que gozava na casa do cardeal, 
disse eu, então: 

“— Nada disso devia surpreender-vos. Neste caso, a morte é 
uma pena injusta e inútil; é bastante cruel para punir o roubo, 
mas bastante fraca para impedi-lo. O simples roubo não merece 
a forca, e o mais horrível suplício não impedirá de roubar o que 
não dispõe de outro meio para não morrer de fome. Nisto a justi- 
ça da Inglaterra e de muitos países se assemelha aos mestres que 
espancam os alunos em lugar de instruí-los. Fazeis sofrer aos 
ladrões pavorosos tormentos; não seria melhor garantir a exis- 
tência a todos os membros da sociedade, a fim de que ninguém 
se visse na necessidade de roubar, primeiro, e de morrer, depois? 

“— A sociedade previu o fenômeno — replicou o meulegista. 
— A indústria, a agricultura oferecem ao povo inúmeros meios 
de existência; existem, porém, seres que preferem o crime ao 
trabalho.” 

“— Era aí mesmo onde eu vos esperava — respondi. — Não 
falarei dos que voltam das guerras civis ou estrangeiras com o 
corpo mutilado. Quantos soldados, entretanto, na batalha de 
Cornualha, ou na campanha de França, perderam um ou vários 
membros a serviço do rei e da pátria! Esses infelizes tornaram- 
se fracos demais para exercer o seu antigo ofício e velhos demais 
para aprender um novo. Mas deixemos isso, as guerras só se rea- 
cendem a longos intervalos. Olhemos o que se passa cada dia ao 
redor de nós. A principal causa da miséria pública reside no nú- 
mero excessivo de nobres zangões ociosos, que se nutrem do 
suor e do trabalho de outrem e que, para aumentar seus rendi- 


174 THOMAS MORE 


mentos, mandam cultivar suas terras, escorchando os rendeiros 
até à carne viva. Não conhecem outro gênero de economia. Mas 
tratando-se, ao contrário, de comprar um prazer, são pródigos, 
então, até à loucura e à mendicidade. E não menos funesto é o 
fato de arrastarem consigo uma turba de lacaios e mandriões 
sem estado e incapazes de ganhar a vida. 

“Caiam doentes esses lacaios, ou venha o seu patrão a morrer, 
e são jogados no olho da rua; porque é preferível nutri-los para 
não fazer nada do que alimentá-los enfermos; muitas vezes o 
herdeiro do defunto não está em condições de manter a domesti- 
cidade paterna. 

“Eis aí pessoas expostas a morrer de fome se não têm o ânimo 
de roubar. Terão eles, na realidade, outras possibilidades? Pro- 
curando emprego gastam a saúde e as roupas; e quando se tor- 
nam descorados pelas moléstias e cobertos de farrapos, os no- 
bres lhes têm horror, desprezando os seus serviços. Os 
camponeses mesmo não os querem empregar. Os camponeses 
sabem que um homem criado molemente na ociosidade e nos 
prazeres, habituado a trazer a cimitarra e o broquel, a olhar 
superiormente os vizinhos e a desprezar todo mundo; os campo- 
neses sabem que um tal homem não é apto a manejar a pãe a 
enxada, a trabalhar, fielmente, por um salário insignificante e 


uma parca alimentação, a serviço de um pobre lavrador”. 
Sobre esse ponto meu antagonista respondeu: 


“É precisamente essa espécie de gente que o Estado deve 
manter e multiplicar com mais cuidado. Há neles mais ânimo e 
nobreza dalma que no artesão e no trabalhador. São maiores e 
mais robustos e constituem, portanto, a força do exército na 
hora de combater”. 

“— Seria o mesmo que dizer — repliquei então — que se 


A UTOPIA -I 175 


deve, para a glória e o êxito dos vossos exércitos, multiplicar os 
ladrões. Porque esses mandriões são uma sementeira inesgotável 
para o exército. Com efeito, os ladrões não são os piores solda- 
dos, como os soldados não são os ladrões mais tímidos; hã 
muita analogia entre esses dois ofícios. Infelizmente, esta praga 
social não é particular à Inglaterra; corrói quase todas as 
nações. 

“A França estã infestada por uma peste ainda mais desas- 
trosa. O seu solo está inteiramente coberto e como que sitiado 
por inúmeras tropas arregimentadas e pagas pelo Estado. E isto 


em tempo de paz; se é que se pode chamar de paz às tréguas de 
um momento. Este deplorável sistema é injustificado pelo 
mesmo motivo que vos leva a sustentar miriades de lacaios ocio- 
sos. Pareceu a esses políticos, timoratos e aflitos, que a segu- 
rança do Estado exigia um exército numeroso, forte, permanen- 
temente em armas, e composto de veteranos. Não confiam nos 
conscritos. Dir-se-ia mesmo que fazem guerras para exercitar os 


soldados a fim de que, como escreveu Salústio, nesse grande 
matadouro humano, o coração ou a mão não se lhes entorpeçam 
no repouso. 


“A França aprende à sua custa o perigo de alimentar essa 
espécie de animais carnívoros. No entanto, bastar-lhe-ia olhar os 
romanos, os cartagineses e muitos outros povos antigos. Que 
benefícios tiraram, entretanto, de seus exércitos imensos e sem- 
pre em pé de guerra? A devastação de suas terras, a destruição 
de suas cidades, a ruína de seu império. Se, ao menos, tivesse 
adiantado aos franceses, exercitar, por assim dizer, seus solda- 
dos desde o berço! Mas os veteranos da França já combateram 
contra os conscritos da Inglaterra, e não estou certo se se podem 


176 THOMAS MORE 


gabar muitas vezes de ter levado a melhor. Eu me calo sobre esse 
capitulo; pareceria estar fazendo a corte aos que me ouvem. 

“Voltemos aos nossos soldados lacaios. 

“Têm eles, dizeis, mais coragem e grandeza dalma do que os 
artesãos e os trabalhadores. Eu, de mim, não creio que um lacaio 
faça muito medo nem a uns nem a outros, a não ser aqueles em 
que a fraqueza do corpo paralisa o vigor dalma e cuja energia foi 
aniquilada pela miséria. Os lacaios, dizeis ainda, são maiores e 
mais robustos. Mas não é uma lástima ver homens fortes e belos 
(porque os nobres escolhem as vítimas de sua corrupção) consu- 
mirem-se na inação, amolecerem-se em ocupações de mulheres, 
quando fácil seria torná-los laboriosos e úteis, dando-lhes um 
ofício honrado e habituando-os a viver do trabalho de suas 
mãos? 

“De qualquer maneira que se encare a questão, esta massa 
imensa de gente ociosa parece-me inútil ao país mesmo na hipó- 
tese de uma guerra, que poderieis, aliás, evitar todas as vezes que 
o quisésseis. Ela é, além do mais, o flagelo da paz; e a paz mere- 
ce que se trate dela tanto quanto da guerra. 

“A nobreza e a lacaiada não são as únicas causas dos assaltos 
e roubos que vos deixam desolado; há uma outra exclusivamente 
peculiar à vossa ilha.” 

“— E qual é ela? — disse o cardeal. 

“— Os inumeráveis rebanhos de carneiros que cobrem hoje 
toda a Inglaterra. Estes animais, tão dóceis e tão sóbrios em 
qualquer outra parte, são entre vós de tal sorte vorazes e ferozes 
que devoram mesmo os homens e despovoam os campos, as 
casas, as aldeias. 

“De fato, a todos os pontos do reino, onde se recolhe a lã mais 
fina emais preciosa, acorrem, em disputa do terreno, os nobres, 


A UTOPIA -1I 177 


os ricos e até santos abades. Essa pobre gente não se satisfaz 
com as rendas, benefícios e rendimentos de suas terras; não está 
satisfeita de viver no meio da ociosidade e dos prazeres, as 
expensas do público e sem proveito para o Estado. Eles sub- 
traem vastos tratos de terra da agricultura e os convertem em 
pastagens; abatem as casas, as aldeias, deixando apenas o tem- 
plo para servir de estábulo para os carneiros. Transformam em 
desertos os lugares mais povoados e mais cultivados. Temem, 
sem dúvida, que não haja bastantes parques e bosques e que o 
solo venha a faltar para os animais selvagens. 

“Assim um avarento faminto fecha, num cercado, milhares de 
Jeiras; enquanto que honestos cultivadores são expulsos de suas 
casas, uns pela fraude, outros pela violência, os mais felizes por 
uma série de vexações e de questiúnculas que os forçam a vender 
suas propriedades. E estas famílias mais numerosas do que ricas 
(porque a agricultura tem necessidade de muitos braços) emi- 
gram campos em fora, maridos e mulheres, viúvas e órfãos, pais 
e mães com seus filhinhos. Os infelizes abandonam. chorando, o 
teto que os viu nascer, o solo que os alimentou, e não encontram 
abrigo onde refugiar-se. Então vendem a baixo preço o que 
puderam carregar de seus trastes, mercadoria cujo valor é já 
bem insignificante. Esgotados esses fracos recursos, que lhes 
resta? O roubo, e, depois, o enforcamento segundo as regras. 

“Preferem arrastar sua miséria mendigando”? Não tardam em 
ser atirados na prisão como vagabundos e gente sem eira nem 
beira. No entanto, qual é o seu crime? É o de não achar ninguém 
que queira aceitar os seus serviços, ainda que eles os ofereçam 
com o mais vivo empenho. E, aliás, como empregar esses 
homens? Eles só sabem trabalhar a terra; não há então nada a 
fazer com eles, onde não há mais nem semeaduras nem colhei- 


178 THOMAS MORE 


tas. Um só pastor ou vaqueiro é suficiente, agora, a fazer com 
que brote, de si mesma, a terra onde outrora, para seu cultivo, 
centenas de braços eram necessários. 

“Outro efeito desse fatal sistema é uma grande carestia de 
vida em diversos lugares. 

“Mas não é tudo. Após a multiplicação dos pastos, uma hor- 
rorosa epizootia veio matar uma imensa quantidade de carnei- 
ros. Parece que Deus queria punir a avareza insaciável dos vos- 
sos açambarcadores com esta medonha mortandade que talvez 
fosse mais justo lançar sobre suas próprias cabeças. Então, o 
preço das lãs subiu tão alto que os operários mais pobres não as 
podem atualmente comprar. E eis aí de novo uma multidão de 
gente sem trabalho. É verdade que o número de carneiros cresce 
rapidamente todos os dias; mas nem por isso o preço baixou; 
porque se o comércio das lãs não é um monopólio legal, está, na 
realidade, concentrado nas mãos de alguns ricos açambarca- 
dores e nada pode constrangê-los a vender a não ser com altos 
lucros. 

“As outras espécies de gado encareceram proporcionalmente 
pela mesma causa e por uma causa mais forte ainda, porque a 
reprodução destes animais está completamente abandonada, 
desde a abolição das granjas e a ruína da agricultura. Vossos 
grandes senhores não cuidam da criação do gado, mas unica- 
mente da criação de seus carneiros. Vão comprar, distante, ani- 
mais magros, quase por nada, engordam-nos nos seus campos e 
os revendem a preços extraordinários. 

“Temo bastante que a Inglaterra não tenha sofrido todos os 
efeitos desses deploráveis abusos. Até agora os engordadores de 
gado só provocaram a carestia nos lugares onde vendem; mas à 
força de transportar o gado do lugar onde compram, sem lhe dar 


A UTOPIA -I 179 


tempo de reproduzir, o seu número acabará por diminuir, insen- 
sivelmente, e o país acabará por cair numa horrível penúria. 
Assim, o que devia fazer a riqueza de vossa ilha fará a miséria, 
devido à avareza de um punhado de miseráveis. 

“A escassez geral obriga todo mundo a restringir sua despesa 
e sua criadagem. E os que são despedidos, para onde vão? Men- 
digar ou roubar, se têm coragem. 

“A estas causas de miséria ajuntam-se ainda o luxo e as des- 
pesas insensatas. Lacaios, operários, camponeses, todas as clas- 
ses da sociedade, ostentam um luxo inaudito nas vestes e na 
alimentação. Que direi dos lugares de prostituição, dos vergo- 
nhosos antros de embriaguez e devassidão, das infames casas de 
tavolagem de todos os jogos, do baralho, do dado, do jogo da 
péla e da conca que devoram o dinheiro de seus frequentadores, 
e os impelem diretamente ao roubo para reparar as perdas? 

“Arrancai de vossa ilha essas pestes públicas, esses germens 
do crime e da miséria. Obrigai os vossos fidalgos demolidores a 
reconstruir as quintas e burgos que destruíram, ou a ceder os ter- 
renos para os que quiserem reconstruir sobre as ruínas. Colocai 
um freio ao avarento egoismo dos ricos; tirai-lhes o direito do 
açambarcamento e monopólio. Que não haja mais ociosos entre 
vós. Dai a agricultura um grande desenvolvimento; criai a 
manufatura da lã e a de outros ramos de indústria, para que 
venha a ser ocupada utilmente esta massa de homens que a misé- 
ria transformou em ladrões, vagabundos ou lacaios, o que é 
aproximadamente a mesma coisa. 

“Se não remediardes os males que vos assinalo, não vos 
vanglorieis de vossa justiça; é ela uma mentira feroz e estúpida. 

“Abandonais milhões de crianças aos estragos de uma educa- 
ção viciosa e imoral. A corrupção emurchece, à vossa vista, 


180 THOMAS MORE 


essas jovens plantas que poderiam florescer para a virtude, e vós 
as matais quando, tornadas homens, cometem os crimes que ger- 
minavam desde o berço, em suas almas. E, no entanto, que é que 
fabricais? Ladrões, para ter o prazer de enforcá-los”. 

Enquanto eu assim falava, o meu adversário preparava a ré- 
plica. Ele se dispunha a seguir a pomposa dialética desses pole- 
mistas categóricos, que repetem mais do que respondem e que 
fazem ponto de honra de uma discussão os exercícios de 
memória. 

“-— Falastes muito bem — disse-me ele — sobretudo vós 
que sois estrangeiro e que não podeis conhecer estas matérias 
senão de oitiva. Eu vos darei melhores esclarecimentos. Eis a 
ordem do meu discurso: antes de tudo, recapitularei tudo o que 
vos disse; em seguida, realçarei os erros a que vos induziu a 
ignorância dos fatos; finalmente, refutarei os vossos argumentos 
e pulverizá-los-ei. Começo, pois, como o prometi. Tendes, se não 
me engano, enumerado quatro... 

“— Eu vos detenho aí — interrompeu bruscamente o car- 
deal, — o exórdio me faz temer que o discurso seja um pouco 
longo. Nós vos pouparemos hoje desta fadiga. Mas não vos dou 
por desembaraçado dessa arenga; guardai-a integralmente para 
a próxima entrevista que tiverdes com vosso adversário. Desejo 
que estejam ambos aqui, amanhã, a menos que vós, ou Rafael, 
estejais na impossibilidade de vir. Enquanto isso, meu caro 
Rafael, far-me-íeis o obséquio de explicar por que o roubo não 
merece a morte, e por que outra pena a substituirteis de forma a 
garantir melhor a segurança pública. Como não pensais que se 
deva tolerar o roubo, e se a forca não é hoje uma barreira para 
o banditismo, que terror excercereis sobre os celerados quando 
eles tiverem a certeza de não perder a vida? Que sanção bastante 


A UTOPIA -I 181 


forte dareis à lei? Uma pena mais branda não seria um prêmio 
de incitamento ao crime? 

“-— Minha convicção íntima, eminência, é que é injusto 
matar-se um homem por ter tirado dinheiro de outrem, desde que 
a sociedade humana não pode ser organizada de modo a garan- 
tir para cada um uma igual porção de bens. 

“Podem objetar-me, sem dúvida, que a sociedade, tirando-lhe 
a vida, vinga a justiça e as leis, e não pune somente uma miserá- 
vel subtração de dinheiro. Responderei com este axioma: Sum- 
mum jus, summa injuria. O supremo direito é uma injustiça 
suprema. A vontade do legislador não é tão infalível e absoluta 
que seja necessário desembainhar a espada à menor infração aos 
seus decretos. A lei não é tão rígida e estóica que coloque, no 
mesmo nível, todos os delitos e crimes, e não estabeleça nenhu- 
ma diferença entre matar um homem e roubâ-lo. Se a equidade 
não é uma palavra và, há entre essas duas ações um abismo. 

“E como! Deus proibiu o assassínio e nós nos matamos tão 
facilmente por causa do furto de algumas moedas! 

“Alguém dirá talvez: “Deus, com esse mandamento, tirou o 
poder de matar ao homem privado, mas não ao magistrado que 
condena aplicando as leis da sociedade.” 

“Mas se é assim, quem impede os homens de fazer outras leis 
igualmente contrárias aos preceitos divinos, e de legalizar o estu- 
pro, o adultério e o perjúrio? Como!... Deus nos proibiu tirar 
a vida não somente ao nosso próximo mas também a nós mes- 
mos; e nós poderíamos legitimamente convencionar em degolar- 
mo-nos em virtude de algumas sentenças jurídicas! E esta con- 
vicção atroz colocaria juízes e carrascos por cima da lei divina, 
dando-lhes o direito de mandar à morte os que o código penal 
condena a morrer ! 


182 THOMAS MORE 


“Resultaria disso esta consequência monstruosa: a justiça di- 
vina tem necessidade de ser legalizada e autorizada pela justiça 
humana; e que, em todos os casos possíveis, cabe ao homem 
determinar quando deve obedecer ou não aos mandamentos de 
Deus. 

“A própria lei de Moisés, lei de terror e vingança, feita para 
escravos e homens embrutecidos, não punia de morte o simples 
roubo. Evitemos pensar que, sob a lei cristã, lei de perdão e cari- 
dade, em que Deus ordena como pai, nós temos o direito de ser 
mais desumanos, e de derramar, sob qualquer pretexto, o sangue 
de nosso irmão. 

“Tais são os motivos que me persuadem que é injusto aplicar 
ao ladrão o mesmo castigo que ao assassino. Poucas palavras 
vos farão compreender como esta penalidade é absurda em si 
mesma e como é perigosa à segurança pública. 

“O celerado vê que não há menos a temer furtando do que 
assassinando; então, ele mata aquele a quem apenas despojara; e 
mata-o para a sua própria segurança. Assim agindo, ele se des- 
carta do seu principal denunciador, e tem maior probabilidade 
de esconder o crime. Eis o belo efeito desta justiça implacável: 
aterrorizando o ladrão com a expectativa da forca, faz dele um 
assassino ! 

“Chego, agora, à solução deste problema tão controvertido: 
Qual é o melhor sistema penitenciário? 

“Na minha opinião, era mais fácil encontrar o melhor do que 
q pior. Primeiramente, todos vós conheceis a penalidade adotada 
pelos romanos, povo tão adiantado na ciência de governar. Eles 
condenavam os grandes criminosos à escravatura perpétua, aos 
trabalhos forçados nas pedreiras ou nas minas. Esse modo de 
repressão parece-me conciliar a justiça com a utilidade pública. 


A UTOPIA -1 183 


Entretanto, para vos dizer o meu modo de pensar sobre esse 
ponto, não conheço nada de comparável ao que vi nos polileri- 
tas, nação dependente da Pérsia. 

“É aquele um país bastante povoado, e às suas instituições 
não falta sabedoria. Além do tributo anual que pagam ao rei da 
Pérsia, gozam de liberdade e se governam por suas próprias leis. 
Longe do mar, cercados de montanhas, se satisfazem com os 
produtos do seu solo feliz e fértil; vão raramente a outros lugares 
e raramente outros vão ao seu país. Fiéis aos princípios e costu- 
mes dos seus antepassados, não procuram nunca estender as 
suas fronteiras e nada têm a temer de fora. Suas montanhas, e o 
abrigo que pagam, anualmente, ao monarca, pôem-nos ao abrigo 
duma invasão. Vivem comodamente na paz e na abundância, 
sem exército e sem nobreza, ocupados com sua felicidade e 
despreocupados de qualquer va celebridade; pois seu nome, 
desconhecido no resto da terra, talvez o seja mesmo aos seus 
vizinhos. 

“Quando ali um indivíduo é apanhado em furto, obrigam-no, 
primeiro, a restituir o objeto roubado ao proprietário e não ao 
príncipe, como é de uso em outras partes. Os polileritas julgam 
que o furto não destrói o direito de propriedade. Se o objeto foi 
danificado ou perdido, o valor dele é descontado dos bens do 
autor do furto, deixando-se o que sobrar do desconto à sua mu- 
lher e filhos. Ele é condenado aos trabalhos públicos; e se o furto 
não é acompanhado de circunstâncias agravantes, o seu autor 
não é jogado no calabouço nem posto a ferros; trabalha, o corpo 
livre e sem entraves. 

“Para forçar os preguiçosos e os rebeldes, empregam-se os 
castigos corporais de preferência às correntes. Os que cumprem 
bem o seu dever não sofrem nenhum mau trato. De tarde se faz 


184 THOMAS MORE 


a chamada nominal dos condenados, encerrando-os nas celas 
onde passam a noite. Aliás, a única pena que podem vir a sofrer 
é a continuidade do trabalho; porque lhes são fornecidas todas 
as coisas necessárias à vida; uma vez que trabalham para a 
sociedade, é a sociedade que os mantém. 

“Os costumes, nesse ponto, variam segundo as localidades. 
Em certas províncias, o produto das esmolas é das coletas é 
reservado aos condenados; este recurso, precário por si mesmo, 
é, na realidade, o mais fecundo devido à humanidade dos habi- 
tantes. Em outros lugares destina-se, para este fim, uma parte 
das rendas públicas, ou então um tributo particular e pessoal. 

“Hã mesmo regiões em que os condenados não são emprega- 
dos nos trabalhos públicos. Todo individuo que tem necessidade 
de operários, ou de carregadores, vem alugá-los por dia, pagan- 
do-lhes salário pouco menor que o de um homem livre. A lei dá 
ao patrão o direito de bater nos preguiçosos. Dessa forma, os 
condenados não faltam nunca ao trabalho; ganham roupas e 
alimentação, e cada dia contribuem com alguma coisa para o 
tesouro. 

“Eles são reconhecíveis facilmente pela cor do seu uniforme, 
igual para todos e só a eles reservado. A cabeça não é raspada, 
exceto um pouco acima das orelhas, uma das quais é mutilada. 
Os amigos podem lhes dar de beber, comer, e uma roupa. Mas 
um presente em dinheiro acarreta a morte tanto do que dá como 
do que recebe. Um homem livre não pode, sob nenhum pretexto. 
receber dinheiro de um escravo (é assim que são chamados os 
condenados). O escravo não pode tocar em armas. Estes dois úl- 
timos crimes são punidos de morte. 

“Cada província marca seus escravos com um sinal particular 
e característico. Fazê-lo desaparecer é para eles um crime capi- 


A UTOPIA -I 185 


tal, assim como transpor a fronteira e falar com os escravos 
duma outra província. O simples projeto de fugir não é menos 
perigoso que a própria fuga. Por ter-se envolvido em semelhante 
trama o escravo perde a vida e o homem livre, a liberdade. 
Ainda mais, a lei confere recompensas ao delator; dinheiro, se 
este é livre; liberdade, se escravo; impunidade, se cúmplice, a fim 
de que o malfeitor não se sinta mais seguro perseverando num 
mau desígnio, do que arrependendo-se. 

“Eis aí as penalidades correspondentes ao roubo entre os poli- 
leritas. Não é dificil divisar nelas uma grande humanidade alia- 
da a um grande senso utilitário. Se a lei castiga, é para matar o 
crime, conservando o homem. Trata o condenado com tanta 
benignidade e justiça que o força a se tornar honesto e a reparar, 
durante o resto de sua vida, todo o mal que fez à sociedade. 

“Também é extremamente raro que os condenados voltem aos 
seus antigos habitos. Os cidadãos não têm nenhum medo deles, 
e é mesmo comum, entre os que empreendem qualquer viagem, 
escolher seus guias entre os escravos que são trocados de uma 
província a outra. Na verdade, que se pode temer? A lei tira ao 
escravo a possibilidade, e até o pensamento, do roubo; suas 
mãos estão desarmadas; o dinheiro é para ele um crime capital; 
se aprisionado, a morte é bem próxima e a fuga impossível. 
Como quereis que um homem vestido de modo diferente dos ou- 
tros possa dissimular a sua fuga? E se fugisse completamente 
nu? Mas mesmo assim a sua orelha meio cortada o trairia. 

“É impossível igualmente que os escravos possam urdir uma 
conspiração contra o Estado. A fim de assegurar a revolta algu- 
ma probabilidade de êxito, os cabeças teriam necessidade de 
incitar e arrastar para o seu lado os escravos de diversas provin- 
cias. Ora, isto é impraticável. Uma conspiração não é fácil a 


186 THOMAS MORE 


pessoas que, sob pena de morte, não se podem reunir, se falar, 
dar ou retribuir uma saudação. Ousariam mesmo confiar seu 
projeto aos camaradas que conhecem o perigo do silêncio e a 
enorme vantagem da denúncia? Por outro lado, todos alimentam 
a esperança de recobrar, um dia, a liberdade, mostrando-se sub- 
missos e resignados, dando, por seu bom comportamento, garan- 
tias para o futuro; aliás, não há sequer um ano sem que grande 
número deles, transformados em boas pessoas, seja reabilitado e 
emancipado. 

“— Por que — acrescentei então — não se estabeleceria na 
Inglaterra uma penalidade semelhante? Isso valeria infinita- 
mente mais do que esta justiça que desperta tão exaltado entu- 
siasmo ao meu sábio antagonista”. 

“— Um semelhante estado de coisas — respondeu este — 
não poderia jamais se estabelecer na Inglaterra, sem acarretar a 
dissolução e a ruína do império”. 

“Depois sacudiu a cabeça, mordeu os lábios, e calou. 

“Todos os ouvintes aplaudiram com arrebatamento esta mag- 
nífica sentença, até que o cardeal fez a seguinte reflexão: 

“— Não somos profetas para saber, antes de experimentar, 
se a legislação polilerita convém ou não ao nosso país. Todavia, 
parece-me que, depois do pronunciamento da sentença de morte, 
o príncipe poderia decretar o sursis, a fim de experimentar este 
novo sistema de repressão, abolindo, ao mesmo tempo, os privi- 
légios dos lugares de asilo. Se a experiência desse bons resulta- 
dos, adotariamos o sistema: se não, que os condenados conti- 
nuem a ser levados ao suplício. Essa maneira de proceder apenas 
suspende o curso da justiça e não oferece nenhum perigo no 
intervalo. Irei mesmo além, creio que seria muito útil tomar 
medidas igualmente moderadas e sábias para reprimir e acabar 


A UTOPIA -I 187 


com a vagabundagem. Temos acumulado leis sobre leis contra 
este flagelo e o mal é hoje pior do que nunca”. 

“Apenas terminara o cardeal, os louvores mais exagerados 
acolheram as opiniões expendidas por Sua Eminência, as quais 
não tinham encontrado senão desprezo e desdém quando sozi- 
nho as sustentara. O incenso dos cortesões envolvia particular- 
mente as idéias do prelado referentes à vagabundagem. 

“Não sei se seria preferível suprimir o resto da conversação; 
coisas bem ridículas já foram ditas. Entretanto, vou relatá-las; 
não eram de todo ruins e se relacionam com o assunto. 

“Havia na mesa um desses parasitas, cuja honra provém do 
ofício de fazer-se de louco. A esse respeito a semelhança era tão 
perfeita, que poderia ser facilmente tomada a sério. Seus grace- 
Jos eram tão estúpidos e insípidos que o riso era provocado mais 
amiúde pela sua própria pessoa do que por suas graças. Mas, de 
vem em quando escapavam-lhe algumas palavras bastante 
razoáveis. 

“Um dos convivas observou que eu procurava remediar a 
sorte dos ladrões e o cardeal,a dos vagabundos; mas que exis- 
tiam ainda duas classes de infelizes as quais a sociedade devia 
assegurar a existência, porque são incapazes de trabalhar para 
viver: os doentes e os velhos. 

“— Deixai-me falar — disse o bufão — possuo a este res- 
peito um plano soberbo. Para falar francamente, grande é o.meu 
desejo de poupar-me ao espetáculo desses miseráveis e enclausu- 
rá-los longe de todos os olhos. Eles me fatizam com as suas 
lamúrias, suspiros e lamentáveis súplicas, embora deva convir 
que esta lúgubre música ainda não conseguiu arrancar-me um 
cêntimo; aliás, sempre acontece comigo uma destas duas coisas: 
ou quando posso dar não o quero, ou quando quero não o posso. 


188 THOMAS MORE 


Também agora já se mostram bastante avisados: quando me 
vêem passar se calam para não perder tempo. Sabem que de 
mim hã tanto a esperar quanto de um padre. 

“Eis então o decreto que sugiro: 

“Todos os mendigos velhos e doentes serão distribuídos e 
classificados como se segue: os homens entrarão para os con- 
ventos dos beneditinos na qualidade de irmãos leigos; as mulhe- 
res tornar-se-ão religiosas. Tal é o meu bom desejo”. 

“O cardeal sorriu desse repente, aprovou-o como um rasgo de 
espirito, enquanto os demais ouvintes o tomaram como uma sen- 
tença séria e grave. Causou particular bom humor a um irmão 
teólogo que ali se achava. Este reverendo, desfranzindo um 
pouco a carrancuda fisionomia, riu-se maliciosamente, à custa 
dos padres e frades, e depois, dirigindo-se ao bufo, falou: 

“-— Não tereis suprimido a mendicidade, se não provirdes à 
subsistência de nós mesmos, frades mendicantes”. 

“— Sua Eminência, o cardeal, proveu perfeitamente, quando 
disse que se devia encerrar os vagabundos e fazê-los trabalhar. 
Ora, os frades mendicantes são os maiores vagabundos do 
mundo.” 

“A vivacidade da resposta, todos os olhos se fixaram sobre o 
cardeal, que, no entanto, não pareceu se formalizar; o epigrama 
foi então ruidosamente aplaudido. Quanto ao frade reverendo, 
ficou petrificado. O dardo satírico, que acabava de lhe ser lança- 
do ao rosto, acendeu subitamente a sua cólera; e, vermelho 
como fogo, desatou numa torrente de injúrias, tratando o engra- 
çado de velhaco, caluniador, tagarela, ameaçando-o de danação, 
tudo temperado com as ameaças mais aterradoras da Santa 
Escritura. 


“Então o nosso bufão gracejou com seriedade e, levando a 
melhor, replicou: 


A UTOPIA -I fãs 


“-— Não nos zanguemos, caríssimo irmão. Está escrito: 
“Com paciência dominareis as vossas almas”. 

“O teólogo recomeçou, no mesmo instante, e foram estas as 
suas expressões: 

“— Não me agasto, pícaro; ou pelo menos não peço; porque 
o salmista diz: — Encolerizai-vos mas não pequeis ”. 

“O cardeal, numa admoestação cheia de doçura, convida, 
então, o frade a moderar os seus transportes. 

“— Não, monsenhor — exclamou, — não, não posso calar- 
me, não o devo. É um zelo divino que me exalta, e os homens de 
Deus tiveram destas santas cóleras. Está escrito: O ZELO DE 
TUA CASA ME CONSOME. Não se ouve cantar nas igrejas: 
AQUELES QUE ZOMBAVAM DE ELISEU ENQUANTO 
ELE SUBIA PARA A CASA DE DEUS SOFRERAM A CÓ- 
LERA DO CALVO? A mesma punição castigará talvez esse 
gracejador, esse bufão, esse devasso”. 

“— Sem dúvida — disse o cardeal — a vossa-intenção é boa. 
Mas me parece que procederíeis mais sabiamente, senão mais 
santamente, evitando comprometer-vos com um louco numa 
querela ridícula”. 

“— Monsenhor, meu comportamento não poderia ser mais 
sábio. Salomão, o mais sábio dos homens, disse: RESPONDEI 
AO LOUCO CONFORME A SUA LOUCURA. Pois bem, é 
isso o que faço. Mostro-lhe o abismo onde vai se precipitar, se 
não se cuida. Aqueles que riam de Eliseu eram em grande núme- 
ro, e foram todos punidos por terem zombado dum único calvo. 
Qual será, pois, o castigo do único homem que ridiculariza um 
tão grande número de frades, entre os quais hã tantos calvos? 
Mas o que deve, sobretudo, fazê-lo tremer é que temos uma bula 
do papa que excomunga aqueles que escarnecem de nós”. 

“O cardeal, vendo que o caso não acabava, despediu, com um 


190 THOMAS MORE 


aceno, o bufão parasita e mudou prudentemente o curso de 
conversação. Logo depois levantou-se da mesa para dar audiên- 
cia a seus vassalos, é despediu todos os convivas”. 

Caro More, fatiguei-vos com a narrativa de uma história bas- 
tante longa. Estaria verdadeiramente envergonhado de tê-la pro- 
longado tanto, se não fosse por ter cedido às vossas instâncias, e 
se a atenção que prestastes aos detalhes não me tivesse obrigado 
a não omitir nenhum. Poderia ter abreviado, mas quis esclare- 
cer-vos sobre o espírito e o caráter dos convivas. Enquanto, sozi- 
nho, desenvolvi minhas idéias, foi com o desprezo geral que 
foram acolhidas as minhas palavras; mas, assim que o cardeal 


me trouxe o seu beneplácito, o elogio substituiu o desprezo. Suas 
cortesanices iam ao ponto de achar judiciosas e sublimes as 
bufonerias dum bobo, que o cardeal tolerava como uma brinca- 
deira frívola. 

Julgais ainda que as pessoas da corte levariam em grande 
consideração minha pessoa e meus conselhos? 

Respondi a Rafael: 

— Vossa narrativa fez-me experimentar uma grande alegria. 
Ela reunia o interesse e a atração a uma profunda sabedoria. 


Escutando-vos, eu me acreditava na Inglaterra; porque fui edu- 
cado desde criança no palácio desse bom cardeal, e sua lem- 
brança me reconduz aos primeiros anos da vida. Já vos tinha 
dado a minha amizade, mas todo o bem que dissestes à memória 
do piedoso arcebispo, tona-vos ainda mais caro ao meu cora- 
ção. De resto, persisto na mesma opinião a vosso respeito, estan- 
do persuadido de que vossos conselhos seriam de uma alta utili- 
dade pública, se quisésseis vencer o horror que vos inspiram os 
reis e as cortes. E não é um dever para vós, como para todo bom 
cidadão, sacrificar ao interesse geral as suas ojerizas particula- 


A UTOPIA -I 191 


res? Platão disse: 4 humanidade será feliz um dia, quando os 
filósofos forem reis, ou quando os reis forem filósofos. Ai! 
Como está longe de nós esta felicidade quando os filósofos nem 
ao menos se dignam assistir Os reis com seus conselhos! 


— Caluniais os sábios — replicou-me Rafael —: eles não 
são bastante egoístas para esconder a verdade; muitos a têm 
revelado em seus escritos; e se os senhores do mundo estivessem 
preparados para receber a luz, poderiam ver e compreender. 
Infelizmente cega-os uma venda fatal, a venda dos preconceitos 
e dos falsos princípios em que se formaram, dos quais foram 
infecionados já na infância. Platão não ignorava isso; sabia, 
como nós, que os reis nunca seguiam os conselhos dos filósofos, 
se eles próprios já não o eram também. Platão teve disso a triste 
experiência na corte de Dionísio, o Tirano?. 

Suponhamos, pois, que eu seja ministro de um rei. Proponho- 
lhe os decretos mais salutares; esforço-me por arrancar de seu 


coração e de seu império todos os germens do mal. Acreditais 
que não me expulsará da corte ou que não me exporá ao riso dos 
cortesões? 


Suponhamos, por exemplo, que eu seja ministro do rei de 
França. Eis-me sentado à mesa do Conselho, ao passo que, no 
fundo do palácio, o monarca preside, em pessoa, às deliberações 
dos mais judiciosos políticos do reino. Essas nobres e poderosas 
cabeças estão procurando laboriosamente por quais maquina- 
ções e intrigas o rei, senhor, conservará o ducado de Milão, reco- 
brará o reino de Nápoles, sempre a escapar-lhe, e como, em 


2 Tirano de Siracusa (405-368 a. C.). Platão, em consequência de intrigas, foi preso por 
este da primeira vez que esteve naquela cidade. Da segunda vez que ali esteve o fez como 
conselheiro do filho do tirano (368-343 a. C.) que sucedeu ao pai no trono. Também desta 
vez Platão não se deu bem na corte e teve de abandonar as suas funções e voltar a Grécia. 


192 THOMAS MORE 


seguida, destruirá a república de Veneza e submeterá a Itália 
toda; finalmente, como reunirá à sua coroa as Flandres, o Bra- 
bante, a Borgonha inteira, e outras nações que sua ambição já 
invadiu e conquistou há muito tempo. 

Este propõe concluir com os venezianos um tratado que dura- 
rá enquanto não houver interesse em rompê-lo. *Para melhor dis- 
sipar suas desconfianças”, acrescenta o mesmo, *comunicar- 
lhes-emos as primeiras palavras do enigma; podemos mesmo 
deixar com eles uma parte do saque; fácil nos será retomá-la de- 
pois da execução completa do plano.” 

Aquele aconselha aliciar alemães; um terceiro, que se atraiam 
os suíços com dinheiro. Um outro pensa que se deve tornar pro- 
pício o deus imperial, sacrificando-lhe outro em expiação; aque- 
le julga oportuno entrar em entendimentos com o rei de Aragão, 
abandonando-lhe, como garantia de paz, o reino da Navarra, 
que não lhe pertence. Outro ainda quer engordar o príncipe de 
Castela com a esperança de uma aliança, e manter, em suja 
corte, algumas inteligências, pagando gordas pensões a alguns 
grandes personagens. 

Depois, vem a questão dificil e insolúvel, a questão da Ingla- 
terra, verdadeiro nó górdio político. A fim de se prevenir contra 
qualquer eventualidade, tomam-se as seguintes resoluções: 

Negociar com essa potência as condições de paz, e apertar 
mais estreitamente os laços duma união sempre vacilante; dar- 
lhe, publicamente, o nome de melhor amiga da França, e, no 
fundo, dela desconfiar como de seu inimigo mais poderoso. 

Manter os escoceses permanentemente em guarda, como sen- 
tinelas avançadas, atentas a tudo, e, ao primeiro sintoma de 
movimento na Inglaterra, lançá-los imediatamente como um 
exército de vanguarda. 


A UTOPIA -I 193 


Manter secretamente (por causa dos tratados que se opõem a 
uma proteção aberta) algum grande personagem exilado, ani- 
mando-o a fazer valer os seus direitos à coroa da Inglaterra, e, 
assim, pôr em xeque o príncipe reinante de quem se receiam os 
desígnios. 

Então se, no meio dessa assembléia real onde se agitam tão 
vastos interesses, na presença desses profundos homens de Esta- 
do, a concluir, unânimes, pela guerra, se eu, homem do nada, me 
levantasse para transtornar suas combinações e cálculos, e 
dissesse: 

“Deixemos a Itália em sossego e fiquemos na França; a Fran- 
ça já é grande demais para ser bem administrada por um só 
homem e o rei não deve cuidar em aumenta-la. Escutai, senho- 
res, o que aconteceu aos acorianos numa situação semelhante, e 
a decisão que então tomaram: 

“Esta nação, situada em frente à ilha de Utopia, nas margens 
do Euronstons, fez, outrora, a guerra, porque seu rei pretendia a 
sucessão dum reinado vizinho, em virtude de antiga aliança. O 
reino vizinho foi subjugado mas cedo se reconheceu que a 
conservação da conquista era mais difícil e onerosa do que a 
própria conquista. 

“A todo momento havia revoltas internas a reprimir, ou tro- 
pas a enviar para o país conquistado; a cada instante era-se for- 
çado a combater pró ou contra os novos súditos. Em conse- 
quência, o exército tinha que ser mantido de pé, e os cidadãos 
eram esmagados pelos impostos; o dinheiro fugia para fora; e, 
para lisonjear a vaidade dum só homem, o sangue corria em 
borbotões. Os curtos instantes de paz não eram menos desas- 
trosos do que a guerra. A depravação das tropas lançara a cor- 
rupção nos costumes; o soldado voltava ao lar com o amor da 


194 THOMAS MORE 


pilhagem e a audácia do assassinato, resultado adquirido no 
trato da violência nos campos de batalha. 

“Essas desordens, esse desprezo geral pelas leis, provinham de 
que o príncipe, ao dividir sua atenção e cuidados entre dois rei- 
nos, não podia bem administrar nem um nem outro. Os acoria- 
nos quiseram pôr um termo a tantos males; reuniram-se em con- 
selho nacional, e, polidamente, deram ao monarca a escolher 
entre os dois Estados, declarando-lhe que não podia mais carre- 
gar duas coroas, e que era absurdo que um grande povo fosse 
governado por uma metade de rei, quando ninguém desejava um 
almocreve que estivesse ao mesmo tempo a serviço de outro 
patrão. 

“Esse bom príncipe resolveu-se: cedeu o novo reino a um dos 
seus amigos, que foi expulso dali logo depois, e contentou-se 
com seu antigo domínio. 

“Volto à minha hipótese. Se fosse mais longe ainda; se, diri- 
gindo-me ao próprio monarca, o fizesse ver que essa paixão de 
guerrear, que transtorna as nações, depois de ter esgotado as 
finanças e arruinado o povo, poderia ocasionar à França as 
consequências mais fatais: se lhe dissesse: 

“-— Senhor, aproveitai a paz que um feliz acaso vos concede, 
cultivai o reino de vossos pais, fazei nele florescer a felicidade, a 
riqueza e a força; amai vossos súditos, e que o amor deles faça 
a vossa alegria; vivei como pai no meio deles e não comandeis 
nunca como déspota; deixai em paz os outros reinos; aquele que 
vos coube por herança é suficientemente grande para vós.” 

Dizei-me, caro More, com que espécie de bom ou mau humor 
seria acolhida semelhante arenga? 

— Com péssimo mau humor — respondi. 

— E não é tudo — continuou Rafael —: passamos em revis- 


A UTOPIA -I 195 


ta a política exterior dos ministros de França; a glória era então 
o de que necessitava o seu senhor; agora é o dinheiro. Vejamos 
um instante os seus novos princípios de governo e justiça. 

Este propõe elevar o valor da moeda quando se trate de reem- 
bolsar um empréstimo, e de fazê-lo descer muito abaixo do par 
quando se trate de tornar a encher o tesouro. Com esse duplo 
expediente, o príncipe poderá cobrir suas enormes dívidas, e, 
sem trabalho, fazer uma grande colheita sem recursos. 

Aquele, aconselha simular uma guerra próxima. Este pretexto 
legitimaráã um novo imposto. Depois da arrecadação do tributo 
extraordinário, o príncipe fará subitamente a paz; ordenará a 
celebração desse feliz acontecimento por meio de ações de graça 
nos templos e de todas as pompas das cerimônias religiosas. A 
nação ficará deslumbrada e o reconhecimento público elevará 
até aos céus as virtudes dum rei tão humanamente avaro do san- 
gue de seus súditos. 

Um outro vem, e exuma velhas leis carcomidas pelas traças e 
caidas em desuso pelo tempo. Como todo mundo ignora sua 
existência, todo mundo as transgride. Restaurando, assim, as 
multas pecuniárias contidas nessas leis, criar-se-ia uma fonte de 
renda lucrativa e até honrada, pois que se agiria em nome da 
Justiça. 

Um terceiro pensa que não seria de menor proveito lançar, 
sob pena de pesadas multas, uma multidão de novas proibições, 
a maioria delas em benefício do povo. O rei, mediante soma 
considerável, dispensaria aqueles cujos interesses privados fos- 
sem comprometidos por estas proibições. Dessa maneira o rei 
ver-se-ia cumulado das bênçãos do povo e faria dupla receita, 
recebendo, ao mesmo tempo, dinheiro dos contraventores e dos 
privilegiados. O melhor do negócio é que quanto mais exorbi- 


196 THOMAS MORE 


tante fosse o preço das dispensas tanto mais Sua Majestade 
ganharia em estima e consideração. 

“Vejam — diriam — como este bom príncip. violenta seu 
coração ao vender tão caro o direito de prejudicar o povo”. 

Outro ainda, enfim, aconselha ao monarca ter à disposição 
juízes sempre dispostos a sustentar, em todas as ocasiões, os 
direitos da coroa. “Vossa Majestade, acrescenta ele, “deveria 
chamá-los à corte, e persuadi-los a discutir, perante a vossa 
augusta pessoa, Os próprios negócios reais. Por pior que seja 
uma causa, haverá sempre um juiz para julgá-la boa, seja pela 
mania de contradição, seja por amor da novidade e do paradoxo, 
seja para agradar o soberano. Então, uma discussão se trava; a 
multiplicidade e o conflito de opiniões embrulham uma coisa de 
si mesma muito clara, e a verdade é posta em dúvida. Vossa 
Majestade aproveita o momento para resolver a dificuldade, 
interpretando o direito em proveito próprio. Os dissidentes se 
submetem à opinião real por timidez ou por temor, e o julga- 
mento é dado, segundo as formalidades, com franqueza e sem 
escrúpulo. Faltarão jamais ao juiz, que dá uma sentença a favor 
do príncipe, os necessários consideranda? Não há o texto da lei, 
a liberdade de interpretação, e, acima das leis, para um juiz reli- 
gioso e fiel, a prerrogativa real?” 

Ouvi os axiomas de moral política proclamados unanime- 
mente pelos membros do nobre conselho: 

'O rei que sustenta um exército nunca tem dinheiro bastante”. 

“O rei não poderia fazer o mal mesmo que o quisesse”. 

'O reié o proprietário universal e absoluto dos bens e das pes- 
soas de todos os seus súditos; estes nada possuem senão como 
usufrutuários pelas boas graças do rei”. 

“A pobreza do povo é o baluarte da monarquia”. 


A UTOPIA -I 197 


“A riqueza e a liberdade conduzem a insubordinação e ao des- 
prezo da autoridade; o homem livre e rico suporta com impa- 
ciência um governo injusto e despótico”. 

“A indigência e a miséria degradam os caracteres, embrutecem 
as almas, habituam-nas ao sofrimento e à escravidão, compri- 
mindo-as a ponto de lhes tirar a energia necessária para sacudir 
O Jugo”. 

Se outra vez me erguesse, e falasse assim a esses poderosos 
senhores: 

“— Vossos conselhos são infames, vergonhosos para o rei, 
funestos para o povo. À honra de vosso senhor e a sua felicidade 
consistem na riqueza de seus súditos mais ainda do que na sua 
própria. Os homens fizeram os reis para os homens e não para 
os reis; colocaram chefes a sua frente para que pudessem viver 
comodamente ao abrigo das violências e dos ultrajes; o dever 
mais sagrado do principe é velar pela felicidade do povo antes de 
velar pela sua própria; como um pastor fiel, deve dedicar-se a 
seu rebanho, e conduzi-lo as pastagens mais férteis. 

“Sustentar que a miséria pública é a melhor salva-guarda da 
monarquia, é sustentar um erro grosseiro e evidente; onde se 
vêem mais querelas e rixas do que entre os mendigos? 

“Qual o homem que mais deseja uma revolução? Não será 
aquele cuja existência atual é miserável? Qual Estado? Não será 
aquele que com isso só pode ganhar por nada ter a perder? 

“Um rei que provocasse o ódio e o desprezo dos cidadãos e 
cujo governo não pudesse se manter senão pelas vexações, pela 
pilhagem, pelo confisco e pela miséria universal, deveria descer 
do trono e depor o poder supremo. Empregando estes meios tira- 
nicos, talvez pudesse conservar o nome de rei, mas de rei não 
teria mais nem o ânimo nem a majestade. A dignidade real não 


198 THOMAS MORE 


consiste em reinar sobre mendigos, mas sobre homens ricos e 
felizes. 

“Fabrício?, esta grande alma, estava todo penetrado desse 
sublime sentimento quando respondeu: “Prefiro governar ricos a 
eu mesmo ser rico”. E, de fato, nadar em delícias, saciar-se de 
voluptuosidade em meio às dores e gemidos de um povo, não é 
manter um reino e sim uma cadeia. 

“O médico que só sabe curar as moléstias de seus clientes 
dando-lhes moléstias mais graves, passa por ignaro e imbecil; 
confessai, pois, — ó vós que não sabeis governar senão arreba- 
tando aos cidadãos a subsistência e as comodidades da vida! — 
confessai que sois indignos e incapazes de dirigir homens livres! 
Ou então corrigi vossa ignorância, vosso orgulho e vossa pregui- 
ça: é isso o que excita o ódio e o desprezo pelo soberano. “*Vivei 
do vosso patrimônio, segundo a justiça; medi vossas despesas na 
proporção de vossas rendas; detende as torrentes do vício; criai 
instituições de benemerência, que previnam o mal e o matem no 
gérmen, ao invés de inventar suplícios contra os infelizes que 
uma legislação absurda e bárbara impele ao crime e à morte. 

“Não ressusciteis leis carunchosas caídas no olvido e no 
esquecimento, lançando sobre os vossos súditos toda a sorte de 
obstáculos. Não eleveis o preço de um delito a uma taxa que o 
Juiz condenaria, como injusta e vergonhosa, entre simples parti- 
culares. Tende sempre diante dos olhos este belo hábito dos 
macarianos. 

“Nesta nação, vizinha da Utopia, no dia em que o rei toma 
posse do império, oferece sacrifícios à divindade, comprometen- 
do-se por um juramento sagrado a não ter nunca em seus cofres 


3 Fabricio» general romano, cônsul em 282-275 a. C. Morreu tão pobre que o Estado foi 
forçado a fazer-lhe os funerais. 


A UTOPIA -I 199 


mais do que mil libras de ouro ou a soma em dinheiro de valor 
equivalente. Este uso foi introduzido por um príncipe que tinha 
mais desejo de trabalhar pela prosperidade do Estado, do que 
acumular milhões. Quis desse modo pór um freio à avareza dos 
seus sucessores e impedi-los de enriquecer pelo empobrecimento 
de seus súditos. Mil libras de ouro lhe pareceram uma quantia 
suficiente para um caso de guerra civil ou estrangeira, mas 
demasiado fraca para apoderar-se da fortuna da nação. Foi 
principalmente este último motivo que o induziu a decretar esta 
lei; mas visava ele ainda a duas outras finalidades: em primeiro 
lugar, ter em reserva, para os tempos de crise, a quantidade de 
dinheiro necessária à circulação e às transações quotidianas dos 
cidadãos; em segundo lugar, limitar as cifras dos impostos e da 
lista civil no intuito de impedir que o principe empregasse o 
excesso da dotação legal em semear a corrupção e cometer injus- 
tiças. Um rei como este é o terror dos maus e a veneração das 
pessoas de bem”. 

Mas, dizei-me, caro More, pregar uma tal moral a homens que 
por interesse e por sistema se orientam por princípios diametral- 
mente opostos não é contar histórias a surdos? 

— E a surdos como portas — respondi. — Mas isto não me 
espanta, e, para vos revelar o meu modo de pensar, é perfeita- 
mente inútil dar conselhos quando se tem a certeza de que serão 
repelidos quer na forma, quer no fundo. Ora, os ministros e os 
políticos de hoje estão impregnados de erros e preconceitos; 
como quereis bruscamente modificar suas crenças e fazer pene- 
trar, de chofre, em suas cabeças e em seu coração, a verdade e a 
justiça? Esta filosofia escolástica está no seu lugar em uma 
conversação familiar, entre amigos; está fora de propósito nos 


200 THOMAS MORE 


conselhos dos reis, onde grandes coisas são tratadas com grande 
autoridade e em face do poder supremo. 

— Fra isto o que vos dizia ainda agora — retrucou Rafael, 
— a filosofia não tem acesso na corte dos principes. 

— Dizeis a verdade se vos referis a esta filosofia de escola, 
que ataca de frente, e cegamente, os tempos, os lugares, e as pes- 
soas. Mas existe uma filosofia menos selvagem; esta conhece o 
teatro em que atua, e, na peça que deve representar, desempenha 
seu papel com decência e harmonia. É esta a que deveis 
empregar. 

Suponhamos que, durante a representação de uma comédia de 
Plauto, no momento em que os escravos estão de bom humor, 
irrompeis em cena, em trajes de filósofo, declamando a passa- 
gem de Otávio, em que Sêneca repreende e prega moral a Nero; 
duvido muito que fósseis aplaudido. Certamente, teríeis agido 
com mais acerto se vos tivésseis limitado ao papel de um perso- 
nagem mudo do que oferecer ao público este drama tragicômico. 
Um monstruoso amálgama destes estragaria todo o espetáculo, 
mesmo que a vossa citação valesse cem vezes mais do que a 
peça. Um bom.ator põe todo seu talento no papel que vai repre: 
sentar, qualquer que ele seja; e não perturba o conjunto porque 
lhe ocorre à fantasia de clamar uma tirada magnífica e pomposa. 

Da mesma maneira convém agir quando se delibera acerca 
dos negócios do Estado, no seio do conselho real. Se não se pode 
desarraigar de uma só vez as máximas perversas, nem abolir os 
costumes imorais, não é isto razão para se abandonar a causa 
pública. O piloto não abandona o navio diante da tempestade 
porque não pode domar o vento. 

Falais a homens imbuiídos de princípios contrários aos vos- 
sos; que caso poderão fazer de vossas palavras, se lhes atirais à 


A UTOPIA -I 201 


face a contradita e o desmentido? Segui o caminho oblíquo — 
ele vos conduzirá mais seguramente à meta. Aprendei a dizer a 
verdade com propriedade e a propósito; e, se vossos esforços 
não puderem servir para efetuar o bem, que sirvam ao menos 
para diminuir a intensidade do mal; porque tudo só será bom e 
perfeito, quando os próprios homens forem bons e perfeitos; e 
até lã, os séculos passarão. 

Rafael respondeu: 

— Quereis saber o que me sucederia se assim procedesse? 
Ao querer curar a loucura dos outros, acabaria demente tam- 
bém. Mentiria, se falasse de maneira diferente da que vos falei. A 
mentira é talvez permitida a certos filósofos, mas não está em 
minha natureza. Sei que minha linguagem parecerá dura e severa 
aos conselheiros do rei; apesar disso, não vejo por que sua novi- 
dade seja de tal modo estranha que toque ao absurdo. Se me 
referisse às teorias da República de Platão, ou aos usos atual- 
mente em vigor entre os utopianos, coisas melhores e infinita- 
mente superiores às nossas idéias e costumes, então, poder-se-ia 
crer que eu vinha de outro mundo, porque aqui o direito de pos- 
suir de seu pertence a cada um, enquanto que lá todos os bens 
são comuns. Mas, o que disse eu que não fosse conveniente e 
mesmo necessário divulgar? Minha moral mostra o perigo e dele 
salva o homem ponderado; não fere senão o insensato que se 
atira de olhos fechados ao abismo. 

Há covardia ou má fé em calar as verdades que condenam a 
perversidade humana, sob o pretexto de que serão escarnecidas 
como novidades absurdas ou quimeras impraticáveis. De outra 
forma, seria necessário deitar um véu sobre o Evangelho e dissi- 
mular aos cristãos a doutrina de Jesus. Mas Jesus proibia a seus 
apóstolos o silêncio e o mistério; repetia-lhes sempre: O que vos 


202 THOMAS MORE 


digo em voz baixa e ao ouvido, pregai por toda parte, em voz 
alta e as claras. Ora, a moral de Cristo está muito mais em 
contradição com os costumes deste mundo, do que nossos 
discursos. 

Os pregadores, homens sagazes, seguiram o caminho oblíquo 
de que me falastes há pouco; vendo que repugnava aos homens 
acomodar seus maus costumes à doutrina cristã, torceram o 
Evangelho, como se fosse uma lei de chumbo, para modelá-lo 
segundo os maus costumes dos homens. Onde os conduziu esta 
hábil manobra? A dar ao vício a calma e a segurança da virtude. 

Quanto a mim, não obteria melhor resultado nos conselhos 
dos príncipes, porque, ou minha opinião é contrária à opinião 
geral, e, nesse caso, não seria tomada em consideração, ou coin- 
cide com a opinião geral, e então, deliro também como os lou- 
cos, segundo a expressão de Micion, a personagem de Terêncio. 
Assim, não vejo aonde pode levar o vosso caminho retorcido. 
Dizeis: “Quando não se pode atingir a perfeição, deve-se, ao 
menos, atenuar o mal”. Mas, aqui, a dissimulação é impossível e 
a conivência um crime, pois se trata de aprovar as propostas 
mais execráveis, de votar decretos mais perigosos que a peste, e, 
neste caso, aprovar perfidamente deliberações infames como 
essas seria comportar-se tal qual um espião e um traidor. 

Não há, pois, nenhuma maneira de ser útil ao Estado nessas 
altas regiões. O ar que aí se respira corrompe a própria virtude. 
Os homens que vos cercam, longe de corrigir-se com os vossos 
ensinamentos, vos depravam com seu contato e pela influência 
de sua perversão; e, se conservais vossa alma pura e incorrup- 
tível, servireis de manto às suas imoralidades e loucuras. Não 
há, pois, esperança de transformar o mal em bem, trilhando o 
vosso caminho oblíquo, aplicando os vossos meios indiretos. 


A UTOPIA -I 203 


Agora, caro More, vou revelar-vos o fundo de minha alma, e 
dizer-vos os meus pensamentos mais íntimos. Em toda a parte 
onde a propriedade for um direito individual, onde todas as coi- 
sas se medirem pelo dinheiro, não se poderá jamais organizar 
nem a justiça nem a prosperidade social, a menos que denomi- 
neis justa a sociedade em que o que há de melhor é a partilha dos 
piores, e que considereis perfeitamente feliz o Estado no qual a 
fortuna pública é a presa dum punhado de indivíduos insaciáveis 
de prazeres, enquanto a massa é devorada pela miséria. 

Também, quando comparo as instituições utopianas com as 
dos outros países, não me canso de admirar a sabedoria e a 
humanidade de uma parte, e deplorar, da outra, o desvario e a 
barbaria. 

Na Utopia, as leis são pouco numerosas; a administração dis- 
tribui indistintamente seus benefícios por todas as classes de 
cidadãos. O mérito é ali recompensado; e, ao mesmo tempo, a 
riqueza nacional é tão igualmente repartida que cada um goza 
abundantemente de todas as comodidades da vida. 

Alhures, o princípio do teu e do meu é consagrado por uma 
organização cujo mecanismo é tão complicado quão vicioso. Há 
milhares de leis, e que ainda não bastam, para que um indivíduo 
possa adquirir uma propriedade, defende-la e distingui-la da 
propriedade de outrem. A prova é o número infinito de proces- 
sos que surgem todos os dias e não terminam nunca. 

Quando me entrego a esses pensamentos, faço inteira justiça a 
Platão e não me admiro mais que ele tenha desdenhado legislar 
para os povos que não aceitam a comunidade dos bens. Esse 
grande gênio previra facilmente que o único meio de organizar a 
felicidade pública, fora a aplicação do princípio da igualdade. 
Ora, a igualdade é, creio, impossível num Estado em que a posse 


204 THOMAS MORE 


é particular e absoluta; porque cada um se apóia em diversos ti- 
tulos e direitos para atrair para si tudo quanto possa, e a riqueza 
nacional, por maior que seja, acaba por cair na posse de um 
reduzido número de indivíduos que deixam aos outros apenas 
indigência e miséria. 

Muitas vezes até a sorte do rico deveria caber ao pobre. Não 
hã ricos avatos, imorais, inúteis, e pobres simples, modestos, 
cujo engenho e trabalho trazem proveito ao Estado mas não o 
trazem a si mesmos? 

Eis o que invencivelmente me persuade que o único meio de 
distribuir os bens com igualdade e justiça, e de fazer a felicidade 
do gênero humano, é a abolição da propriedade. Enquanto o 
direito de propriedade for o fundamento do edifício social, a 
classe mais numerosa e mais estimável não terá por quinhão 
senão miséria, tormentos e desesperos. 

Sei que existem remédios que podem aliviar o mal; mas estes 
remédios são impotentes para curá-los. Por exemplo: 

Decretar um máximo de posse individual em terras e dinheiro. 

Premunir-se por meio de severas leis contra o despotismo e a 
anarquia. 

Denunciar e castigar a ambição e a intriga. 

Não traficar as magistraturas. 

Suprimir o fausto e a representação nos altos cargos, a fim de 
que o funcionário, para sustentar sua posição, não se entregue à 
fraude e à rapina, a fim de que não se veja obrigado a dar aos 
mais ricos OS cargos que deveriam caber aos mais capazes. 

Estes meios, repito-o, são excelentes paliativos que podem 
adormecer a dor e aliviar as chagas do corpo social; mas não 
espereis com isto devolver-lhe a força e a saúde, enquanto cada 
um possuir solitariamente e absolutamente seus bens; podeis 


A UTOPIA -] 205 


cauterizar uma úlcera, mas inflamareis todas as outras; curareis 
um doente, e matareis um homem são; porque o que acrescentais 


ao haver de um indivíduo tirais ao de seu vizinho. 
Disse eu, então, a Rafael: 


— Longe de compartilhar vossas convicções, penso, ao 
contrário, que o país em que se estabelecesse a comunidade de 
bens seria o mais miserável de todos os países. Com efeito, como 
produzir para as necessidades do consumo? Todo mundo fugiria 
do trabalho e descansaria dos cuidados, com sua existência 
baseada sobre o trabalho dos outros. E, mesmo que a miséria 
perseguisse os preguiçosos, desde que a lei não mantém inviola- 
velmente, para e contra todos, a propriedade de cada um, a rebe- 
lião rugiria, sem cessar, esfomeada e ameaçadora, e a matança 
ensanguentaria vossa república. 

Que barreira oporíeis à desordem? Vossos magistrados têm 
apenas uma autoridade nominal; estão despidos, despojados de 
tudo o que impõe o temor e o respeito. Não chego nem mesmo a 
conceber a possibilidade de governo nesse povo de niveladores 
que repele toda espécie de superioridade. 

— Não me espanto que penseis assim — replicou Rafael. — 
Vossa imaginação não poderia fazer a menor idéia de uma tal 
república, ou dela tem apenas uma idéia falsa. Se tivésseis estado 
na Utopia, se tivésseis assistido ao espetáculo de suas institui- 
ções e de seus costumes, como eu, que lá passei cinco anos de 
minha vida, e que não me decidi a sair senão para revelar esse 
novo mundo ao antigo, confessarieis que em nenhuma outra 
parte existe sociedade perfeitamente organizada. 

Pedro Gil disse então, dirigindo-se a Rafael: 

— Não me persuadireis jamais que haja nesse novo mundo 
povos melhor constituídos do que neste. A natureza não produz 


206 THOMAS MORE 


entre nós espíritos de têmpera inferior. Temos, além disso, o 
exemplo duma civilização mais antiga, e uma série de descober- 
tas, que o tempo fez brotar, para as necessidades ou para o luxo 
da vida. Não me refiro às invenções nascidas do acaso, e que o 
gênio mais sutil não teria podido imaginar. 

— A questão da antiguidade — respondeu Rafael, — vós a 
discutiríeis com mais solidez se tivésseis lido as histórias desse 
novo mundo. Ora, segundo essas histórias, lá houve cidades, 
antes que aqui houvesse homens. Pelo que se refere às desco- 
bertas devidas ao gênio ou ao acaso, elas podem igualmente sur- 
gir em todos os continentes. Admito que tenhamos sobre esses 
povos a superioridade da inteligência; em compensação, eles nos 
deixam bem atrás em matéria de atividade e engenho. Ides ter a 
prova: 

Seus anais testemunham que não tinham jamais ouvido falar 
de nosso mundo, antes de nossa chegada; somente, há aproxima- 
damente mil e duzentos anos, um navio impelido pela tempes- 
tade afundou em frente à ilha da Utopia. As ondas jogaram à 
praia alguns egípcios e romanos, que, desde então, só sem vida, 
queriam deixar o país. Os utopianos tiraram desse conhecimento 
um partido enorme; na escola dos náufragos aprenderam tudo 
que estes conheciam das ciências e artes espalhadas no império 
romano. Mais tarde, esses primeiros germens se desenvolveram, 
€ O pouco que os utopianos tinham aprendido, levou-os a desco- 
brir o resto. Assim, um único ponto de contato com o mundo an- 
tigo bastou para transmitir-lhes a indústria e o gênio. 

É possível que depois desse naufrágio, a mesma sorte tenha le- 
vado alguns dos nossos à Utopia; mas a lembrança, disso está 
completamente apagada. Talvez a posteridade também esqueça 
a minha estada nesta ilha afortunada, estada esta que foi infini- 


A UTOPIA -I 207 


tamente preciosa para os seus habitantes, pois, por este meio, 
puderam apropriar-se das mais belas invenções da Europa. 

Mas para nós, quantos séculos nos serão precisos para apren- 
der deles o que há de perfeito em suas instituições? Eis o que 
lhes dá a superioridade do bem-estar material e social, embora 
os igualemos em inteligência e riqueza: essa atividade do espírito 
dirigida incessantemente para a pesquisa, o aperfeiçoamento e a 
aplicação das coisas úteis. 

— Pois então — disse eu a Rafael, — fazei-nos a descrição 
desta ilha maravilhosa. Não suprimais nenhum detalhe, suplico- 
vos. Descrevei-nos os campos, os rios, as cidades, os homens, os 
costumes, as instituições, as leis, tudo o que pensais que deseja- 
mos saber, e, acreditai-me, esse desejo abarca tudo o que 
ignoramos. 

— Com muito gosto — respondeu Rafael —: essas coisas 
estão sempre presentes à minha memória; mas a narrativa exige 
tempo. 

— Nesse caso — disse-lhe, — vamos então jantar, primeiro; 
teremos depois todo o tempo necessário. 

— Perfeitamente — acrescentou Rafael. 

Entramos então em casa para jantar, e depois voltamos ao 
Jardim, onde sentamo-nos no mesmo banco. Recomendei parti- 
cularmente aos criados afastar os importunos, pois havia asso- 
ciado minhas instâncias às de Pedro, para que Rafael cumprisse 
sua promessa. Sentindo a nossa curiosidade, ávida e atenta, 
recolheu-se, um instante, no silêncio e meditação, e começou 
com estas palavras. 


LIVRO SEGUNDO 


DA COMUNICAÇÃO DE RAFAEL HITLODEU 


O QUE 
VOS DIGO 
EM VOZ BAIXA 
E AO OUVIDO, 
PREGAI-O 
EM VOZ ALTA E 
ABERTAMENTE. 


MATEUS 10 27. 


À ILHA DA UTOPIA tem duzentos mil passos em sua maior lar- 
gura, situada na parte média. Esta largura diminui gradual e 
sistematicamente do centro para as duas extremidades, de 
maneira que a ilha inteira se arredonda em um semicírculo de 
quinhentas milhas de arco, apresentando a forma de um crescen- 
te, cujos cornos estão afastados onze mil passos aproximada- 
mente. 

O mar enche esta imensa bacia; as terras adjacentes que se 
estendem em anfiteatro quebram o furor dos ventos, mantendo 
as águas calmas e pacíficas, e dando a esta grande massa líquida 
a aparência de um lago tranquilo. Esta parte côncava da ilha é 
como um único e vasto porto acessível aos navios em todos os 
pontos. 

A entrada do golfo é perigosa por causa dos bancos de areia 
de um lado, e dos escolhos, do outro. No meio se levanta um 
rochedo visível de muito longe, e que por isto não oferece ne- 
nhum perigo. Os utopianos construíram uma fortaleza, defen- 
dida por uma boa guarnição. Outros rochedos ocultos pela água 
oferecem armadilhas inevitáveis aos navegantes. Unicamente os 
nativos conhecem as passagens navegáveis e por esse justo moti- 
vo ninguém pode entrar no estreito sem ser guiado por um piloto 
utopiano. Esta precaução seria ainda insuficiente, se os faróis 
dispostos pela costa não indicassem o rumo a seguir. A simples 
transposição desses faróis seria suficiente para destruir a frota 
mais numerosa, dando-lhe uma falsa direção. 


214 THOMAS MORE 


Se se der crédito às tradições, aliás plenamente justificadas 
pela configuração do país, esta terra não foi sempre uma ilha. 
Chamava-se antigamente Abraxa e se ligava ao continente; Uto- 
pus apoderou-se dela, e deu-lhe seu nome. 

Este conquistador teve bastante gênio para humanizar uma 
população grosseira e selvagem e para formar um povo que 
ultrapassa hoje todos os outros em civilização. Desde que a vitó- 
ria o fez dono deste país, mandou cortar um istmo de quinze mil 
passos no lado em que está ligado ao continente; e a terra de 
Abraxa tornou-se, assim, a ilha da Utopia. Utopus empregou, no 
acabamento dessa obra gigantesca, os soldados do seu exército, 
assim como os indígenas, a fim de que estes não olhassem o tra- 
balho imposto pelo vencedor como uma humilhação e um ultra- 
je. Milhares de braços foram então postos em movimento e o 
êxito, em breve, coroava o empreendimento. Os povos vizinhos 
que, antes, haviam tachado esta obra de vaidade e loucura, 
tomaram-se de espanto e de terror. 

A ilha da Utopia tem cinquenta e quatro cidades espaçosas e 
magníficas. A linguagem, os hábitos, as instituições, as leis são 
perfeitamente idênticas. As cinquenta e quatro cidades são edifi- 
cadas sobre o mesmo plano e possuem os mesmos estabeleci- 
mentos e edifícios públicos, modificados segundo as exigências 
locais. A menor distância entre essas cidades é de vinte e quatro 
milhas, a maior é de uma jornada a pé. 

Todos os anos, três velhos experientes e capazes são nomea- 
dos deputados por cada cidade e se congregam em Amaurota, a 
fim de tratar dos negócios do país. Amaurota é a capital da ilha; 
sua posição central transformou-a em ponto de reunião mais 
conveniente para todos os deputados. 

Um mínimo de vinte mil passos de terra é destinado em cada 


A UTOPIA -I 215 


cidade à produção dos artigos de consumo e à lavoura. Em 
geral, a extensão do território é proporcional ao afastamento das 
cidades. Estas felizes cidades não procuram os limites fixados 
pela lei. Os habitantes se olham mais como rendeiros do que 
como proprietários do solo. 


Há pelos campos casas comodamente construídas, providas 
de toda espécie de instrumentos de agricultura, e que servem de 
morada aos exércitos de trabalhadores que a cidade envia perio- 
dicamente ao campo. 


A família agricola se compõe pelo menos de quarenta indiví- 
duos, homens e mulheres, e de dois escravos. Está sob a direção 
de um pai e de uma mae de família, pessoas graves e prudentes. 


Trinta famílias são dirigidas por um filarca*. 

Todos os anos vinte cultivadores de cada família regressam à 
cidade; são os que terminaram seus dois anos de serviço agrico- 
la. São substituídos, então, por vinte individuos que ainda não 
serviram. Os recém-chegados recebem instrução dos que já 
trabalharam um ano no campo, e, no ano seguinte, se tornam 
Instrutores por sua vez. Assim os cultivadores não são, nunca, 
todos de uma vez ignorantes e novatos, e a subsistência pública 
não tem nada a temer da imperícia dos cidadãos encarregados 
de mantê-la. 


Esta renovação anual tem ainda outra finalidade que é a de 
não consumir por muito tempo a vida dos cidadãos nos traba- 
lhos materiais e penosos. Entretanto, alguns tomam natural- 
mente gosto pela agricultura e obtêm autorização de passar vá- 
rios anos no campo. 

Os agricultores cultivam a terra, criam animais, juntam 


* De Philarca, de phil ou philo (amigo), prefixo grego significando que ama. 


216 THOMAS MORE 


madeira e transportam os aprovisionamentos para a cidade vizi- 
nha, por água ou por terra. Eles usam de um processo extrema- 


mente engenhoso para conseguir grande quantidade de pintos; 
não deixam as galinhas a tarefa de chocar os ovos, mas o fazem 
por meio de um calor artificial convenientemente temperado. E, 
quando o pinto quebra a casca, é o homem que lhe serve de mãe, 
que o guia e sabe reconhecê-lo. Criam poucos cavalos, e somen- 
te árdegos, destinados a corridas, e que não têm outra aplicação 
que a de exercitar a juventude na equitação. 

Os bois são empregados exclusivamente na lavoura e no 
transporte. O boi, dizem os utopianos, não tem a vivacidade do 
cavalo, mas o sobrepuja em paciência e força; é menos sujeito a 
moléstias, custa menos para ser nutrido, e quando não serve 
mais para o trabalho serve ainda para a mesa. 

Os utopianos convertem em pão os cereais; bebem o suco da 
uva, da maçã, da pera; bebem também água pura ou fervida com 
mel e alcaçuz, que possuem em abundância. 

A quantidade de víveres necessária ao consumo de cada cida- 
de e de seus territórios é determinada da maneira mais precisa. 
Não obstante, os habitantes não deixam de semear o grão e criar 
gado, muito além das necessidades do consumo. O excedente é 
posto em reserva para os países vizinhos. 

Quanto aos móveis, utensílios domésticos e outros objetos que 
não podem ser encontrados no campo, os agricultores vão 
procurá-los na cidade. Eles se dirigem aos magistrados urbanos 
que lhos mandam entregar sem remuneração nem atraso. Todos 
os meses se reúnem para celebrar uma festa. 

Quando chega o tempo da colheita os filarcas das famílias 
agricolas comunicam aos magistrados das cidades quantos bra- 
ços auxiliares necessitam; e enxames de ceifadores chegam no 


A UTOPIA - II 217 


momento convencionado e, se o céu está plácido, a colheita é 
feita quase num só dia. 


DAS CIDADES DA UTOPIA E 
PARTICULARMENTE DA CIDADE DE AMAUROTA 


Quem conhece uma cidade, conhece todas, porque todas são 
exatamente semelhantes, tanto quanto a natureza do lugar o per- 
mita. Poderia portanto descrever-nos indiferentemente a pri- 
meira que me ocorresse; mas escolherei de preferência a cidade 
de Amaurota, porque é a sede do governo e do senado, fato que 
lhe dá preeminência sobre as demais. Além disso, é a cidade que 
melhor conheço, pois habitei-a cinco anos inteiros. 

Amaurota se estende em doce declive sobre a vertente de uma 
colina. Sua forma é de quase um quadrado. Começa a estender- 
se um pouco acima do cume da colina, prolonga-se cerca de dois 
mil passos sobre as margens do rio Anidra, alargando-se à medi- 
da que vai margeando o rio. 

A nascente do Anidra é pouco abundante; está situada a 
oitenta milhas acima de Amaurota. À fraca corrente se engrossa 
na sua marcha com o encontro de numerosos rios, entre os quais 
se distinguem dois de grandeza média. Ao chegar diante de 
Amaurota, o Anidra medê quinhentos passos de largo. A partir 
daí, segue se avolumando sempre até desembocar no mar, após 
ter percorrido uma extensão de sessenta milhas. 

Dentro de todo o espaço compreendido entre a cidade e o 
mar, e algumas milhas acima da cidade, o fluxo e o refluxo da 
maré, que duram seis horas por dia, modificam singularmente o 


220 THOMAS MORE 


curso do rio. À maré crescente, o oceano invade o leito do Ani- 
dra numa extensão de trinta milhas, rechaçando-o para a nas- 
cente. Então a vaga salina comunica seu amargor ao rio; mas 
este, pouco a pouco, se purifica, e leva à cidade uma água doce 
e potável, e a reconduz inalterada até perto de sua embocadura, 
quando a maré baixa. As duas margens do Anidra estão ligadas 
por uma ponte de pedra, construída em arcadas maravilhosa- 
mente curvas. Esta ponte se encontra na extremidade da cidade 
mais afastada do mar, a fim de que os navios possam ancorar 
em todos os pontos da baia. 

Um outro rio, pequeno é verdade, mas belo e tranqúilo, corre 
também no perímetro de Amaurota. Este ribeiro brota a pouca 
distância da cidade, na montanha sobre a qual está ela assenta- 
da; e, depois de a ter cortado ao meio, vem unir suas águas às do 
Anidra. Os amaurotanos cercaram a nascente de fortificações 
que a ligam aos arrabaldes. Desta forma, no caso de cerco, o ini- 
migo não poderá envenenar o rio, nem barrar ou desviar-lhe o 
curso. Do ponto mais elevado, ramificam-se em todos os senti- 
dos canos de barro que conduzem a água aos quarteirões baixos 
da cidade. Onde este meio é impraticável, vastas cisternas reco- 
lhem as águas pluviais para os diversos usos dos habitantes. 

Uma cadeia de altas e largas muralhas circunda a cidade e, a 
pequenas distâncias, erguem-se torres e fortalezas. As muralhas, 
dos três lados, estão cercadas de fossos sempre secos, mas largos 
e profundos, atravancados de sebes e espinheiros. O quarto lado 
tem por fossa o próprio rio. 

As ruas e as praças são convenientemente dispostas, seja para 
o transporte, seja para abrigar-se do vento Os edifícios são 
construídos confortavelmente; brilham de elegância e de con- 
forto e formam duas fileiras contíguas, acompanhando de longo 
as ruas, cuja largura é de vinte pés. 


A UTOPIA - II 221 


Atrás, e entre as casas, abrem-se vastos jardins. Em cada casa 
hã uma porta que dá para a rua e outra para o jardim. Estas 
duas portas se abrem facilmente com um ligeiro toque, e deixam 
entrar o primeiro que chega. 

Os habitantes da Utopia aplicam aqui o princípio da posse 
comum. Para abolir a idéia da propriedade individual e absolu- 
ta, trocam de casa todos os dez anos e tiram a sorte da que lhes 
deve caber na partilha. 

Os habitantes das cidades tratam de seus jardins com desvelo; 
cultivam a vinha, os frutos, as flores e toda a sorte de plantas. 
Põem nessa cultura tanta ciência e gosto que jamais vi em outra 
parte maior fertilidade e abundância combinadas num conjunto 
mais gracioso. Não é o prazer o único motivo que os incita à 
arte da jardinagem, há emulação entre os diferentes quarteirões 
da cidade, que lutam à porfia por quem terá o jardim mais bem 
cultivado. Na verdade, nada se pode conceber mais agradável, 
nem mais útil aos cidadãos que esta ocupação. O fundador do 
império bem o compreendeu, quando tantos esforços envidou 
para encaminhar os espíritos nessa direção. 

Os utopianos atribuem a Utopus o plano geral de suas cida- 
des. Este grande legislador não teve tempo de concluir as cons- 
truções e embelezamentos que tinha projetado; isso demandava 
o trabalho de muitas gerações. Assim, legou à posteridade o cui- 
dado de continuar e aperfeiçoar sua obra. 

Lê-se nos anais da Utopia, conservados religiosamente desde 
a conquista da ilha e que abarcam a história de mil setecentos e 
sessenta anos; lê-se que, no começo, as casas eram muito baixas, 
não havia senão choupanas, cabanas de madeira, com paredes 
de barro e tetos de palha, terminados em ponta. As casas, hoje, 
são elegantes edifícios de três andares, com paredes externas de 
pedra ou de tijolo e paredes internas de estuque. Os tetos são 


222 THOMAS MORE 


chatos, recobertos de uma matéria moída e incombustível, que 
não custa nada e protege melhor que o chumbo dos danos do 
tempo. As janelas envidraçadas (faz-se na ilha grande uso do 
vidro) abrigam do vento. Algumas vezes substitui-se o vidro por 
um tecido de uma finura extrema revestido de âmbar ou óleo 
transparente, o que oferece ainda a vantagem de deixar passar a 
luz e evitar o vento. 


223 


DOS MAGISTRADOS 


Trinta famílias fazem, todos os anos, a eleição de um magis- 
trado, chamado sifogrante na antiga linguagem do pais e filarca 
na moderna. 

Dez sifograntes e suas trezentas famílias obedecem a um 
protofilarca, antigamente denominado traníbora. 

Finalmente os sifograntes, em número de mil e duzentos, após 
o juramento de dar os seus votos ao cidadão mais virtuoso e 
mais capaz, escolhem por escrutínio secreto e proclamam prín- 
cipe um dos quatro cidadãos propostos pelo povo; porque a ci- 
dade sendo dividida em quatro seções, cada quarteirão apresenta 
seu candidato ao senado. 

O principado é vitalício, a menos que recaia sobre o príncipe 
a suspeita de aspirar à tirania. Os traníboras são nomeados 
todos os anos, mas só por graves motivos são eles mudados. Os 
outros magistrados são renovados anualmente. 

Todos os três dias, e ainda mais frequentemente se o caso o 
exige, os traniboras se reúnem em conselho com o principe para 
deliberar sobre os negócios do país e terminar rapidamente os 
processos que surgem entre os particulares, processos aliás 
excessivamente raros. Os dois sifograntes assistem a cada uma das 
sessões do senado, e esses dois magistrados populares são alter- 
nados em cada sessão. 

A lei quer que as moções de interesse geral sejam discutidas 


558 THOMAS MORE 


no senado três dias antes de ir a votação e de ser convertido em 
decreto o projeto. 

Reunir-se fora do senado e das assembléias do povo para deli- 
berar sobre os negócios públicos é um crime punido com a 
morte. 

Estas instituições têm por finalidade impedir o príncipe e os 
traníiboras de conspirarem juntos contra a liberdade, de oprimir 
o povo com leis tirânicas e de mudar a forma do governo. A 
constituição é de tal modo vigilante a este propósito que as ques- 
tões de alta importância são relatadas nos comícios dos sifo- 
grantes, que as comunicam às suas familias. O caso é então exa- 
minado em assembléia popular; depois, os sifograntes, após 
terem deliberado, transmitem ao senado seu parecer e a vontade 
do povo. Algumas vezes mesmo a opinião de toda a ilha é 
consultada. 

Entre os regulamentos do senado, o seguinte merece ser assi- 
nalado. Quando uma proposta é feita, é proibido discuti-la no 
mesmo dia; a discussão é transferida à sessão seguinte. 

Desta maneira ninguém fica exposto a desembuchar leviana- 
mente as primeiras coisas que lhe passem pela cabeça, e a defen- 
der, em seguida, a sua opinião antes do que o bem geral; pois 
não é frequente acontecer que se recue diante da vergonha de 
uma retratação e do reconhecimento de um erro irrefletido? 
Então, sacrifica-se o bem público para salvar a reputação. Este 
perigo funesto da precipitação foi previsto, e aos senadores é 
dado o tempo suficiente para refletir. 


DAS ARTES E OFÍCIOS 


Há uma arte comum a todos os utopianos, homens e mulhe- 
res, e da qual ninguém tem o direito de isentar-se — é a agricul- 
tura. As crianças aprendem a teoria nas escolas e a prática nos 
campos vizinhos da cidade aonde são levadas em passeios 
recreativos. Ai assistem ao trabalho e trabalham também, e este 
exercício traz ainda a vantagem de desenvolver as suas forças 
físicas. 

Além da agricultura, que, repito-o, é um dever imposto a 
todos, ensina-se a cada um um ofício especial. Uns tecem a lã ou 
o linho; outros são pedreiros ou oleiros; outros trabalham a 
madeira ou os metais. São esses os principais ofícios. 

As roupas têm a mesma forma para todos os habitantes da 
ilha; esta forma é invariável, e apenas distingue o homem da 
mulher, o solteiro do casado. Estas vestes reúnem a elegância à 
comodidade; facilitam todos os movimentos do corpo, defen- 
dem-no contra os calores do verão e do frio do inverno. Cada 
família confecciona suas próprias vestes. 

Todos, homens e mulheres, sem exceção, são obrigados a 
aprender um dos ofícios mencionados acima. As mulheres, 
sendo mais fracas, trabalham apenas a lã e o linho, os homens 
são encarregados das coisas mais penosas. 

Em geral cada um é adestrado na profissão de seus pais, por- 
que é habitualmente a natureza que inspira o gosto desta profis- 


226 THOMAS MORE 


são Entretanto, se alguém sente mais aptidão e é atraído por 
outra, passa a fazer parte, por adoção, de uma das famílias que 
a exercem. Seu pai, de acordo com o magistrado, trata de colo- 
cá-lo a serviço de um pai de família honesto e respeitável. 

Se alguém, tendo já uma profissão, quer aprender outra, pode 
aprendê-la nas condições precedentes. Deixa-se-lhe a liberdade 
de exercer a que melhor lhe convier, a menos que a cidade não 
lhe designe uma por motivo de utilidade pública. 

A função principal e quase única dos sifograntes é a de velar 
por que ninguém se entregue à ociosidade e à preguiça e todos 
exerçam com ânimo a sua profissão. Não se deve crer que os 
utopianos se atrelem ao trabalho como bestas de carga desde a 
madrugada até à noite. Esta vida, embrutecedora para o espírito 
e para o corpo, seria pior que a tortura e a escravidão. E no 
entretanto, tal é, em outra qualquer parte, a triste sorte do 
operário! 

Os utopianos dividem o intervalo de um dia e de uma noite em 
vinte e quatro horas iguais. Seis horas são empregadas nos tra- 
balhos materiais. Eis a sua distribuição. 

Três horas de trabalho antes do meio-dia, depois almoçam. 
Depois do meio-dia, duas horas de repouso, três de trabalho, em 
seguida jantam. 

Contam uma hora onde contamos meio-dia, deitam-se as nove 
e reservam nove horas para o sono. 

O tempo compreendido entre o trabalho, as refeições e o sono, 
cada qual é livre de empregar à sua vontade. Longe de abusar 
dessas horas de lazer, abandonando-se à ociosidade e à preguiça, 
descansam variando suas ocupações e trabalho. Estão aptos a 
assim fazer, graças a uma instituição verdadeiramente admirá- 
vel. 


A UTOPIA - II 223 


Todas as manhas, antes de o sol se levantar, os cursos públi- 
cos são abertos. Somente os individuos especialmente destinados 
as letras são obrigados a seguir esses cursos; mas todo mundo 
tem direito a assisti-los, as mulheres como os homens, quaisquer 
que sejam as suas profissões. O povo acorre em massa; e cada 
um se apega ao ramo de ensino que tem mais relação com sua 
indústria e seus gostos. 

Alguns, durante as horas de liberdade, entregam-se de prefe- 
rência ao exercício de sua profissão. São os homens cujo espirito 
não tem o gosto das especulações abstratas. Longe de serem 
contrariados nessa preferência, são, ao contrário, aplaudidos; 
pois se tornam, assim, constantemente úteis a seus concidadãos. 

À noite, depois da ceia, os utopianos se entregam, durante 
uma hora, aos divertimentos; no verão, pelos jardins, e no inver- 
no, nas salas comuns onde fazem suas refeições. Fazem música 
ou se distraem conversando. Desconhecem os dados, o baralho e 
todos os outros jogos de azar, tão estúpidos como perigosos. 
Praticam entretanto duas espécies de jogos, que têm muita seme- 
lhança com o nosso xadrez; um é a batalha aritmética, na qual 
o número pilha o número; o outro é o combate dos vícios e das 
virtudes. Este último mostra, com destaque, a desordem dos vi- 
cios entre si, o Ódio que os divide e, contudo, seu perfeito acordo 
quando se trata de atacar as virtudes. Faz ver ainda quais são os 
vícios opostos a cada uma das virtudes, como aqueles atacam a 
estas pela violência e a descoberto, ou pela astúcia e meios 
sinuosos; como a virtude repele os assaltos do vício, derruba-o e 
aniquila seus esforços; e: como, finalmente, a vitória se decide 


por um ou outro lado. 
Aqui espero uma séria objeção e apresso-me em rebaté-la. 


Dir-se-á talvez: Seis horas de trabalho por dia não são sufi 


o THOMAS MORE 


cientes para as necessidades do consumo público, e a Utopia 
deve ser um país muito miserável. 

Mas não é este realmente o caso. Ao contrário, as seis horas 
de trabalho produzem abundantemente para todas as necessi- 
dades e comodidades da vida, e ainda um supérfluo bem supe- 
rior às exigências do consumo. 


Compreendereis facilmente se refletirdes no grande número de 
pessoas ociosas existentes nas outras nações. Antes de tudo, são 
essas quase todas as mulheres, que em si constituem a metade da 
população, e a maioria dos homens, ali onde as mulheres traba- 
lham. Em seguida, esta imensa multidão de padres e religiosos 
vagabundos. Somai ainda todos esses ricos proprietários vulgar- 
mente chamados nobres e senhores; acrescentai também as nu- 
vens de lacaios e outro tanto de malandros de libré; e o dilúvio 
de mendigos robustos e válidos que escondem sua preguiça sob 
o disfarce de enfermidades. E achareis, em resumo, que o núme- 
ro de todas as necessidades é bem menor do que imaginais. 

Considerai também como são poucos aqueles que a trabalhar 
estão empregados em coisas verdadeiramente necessárias. Por- 
que, neste século de dinheiro, onde o dinheiro é o deus e a medi- 
da universal, grande é o número das artes frívolas e vas que se 
exercem unicamente a serviço do luxo e do desregramento. Mas 
se a massa atual dos trabalhadores estivesse repartida pelas 
diversas profissões úteis, de maneira a produzir mesmo com 
abundância tudo o que exige o consumo, o preço da mão-de- 
obra baixaria a um ponto que o operário não poderia mais viver 
de seu salário. 

Supondo, pois, que se faça trabalhar utilmente aqueles que 
não produzem senão objetos de luxo e os que nada produzem, 
embora comam o trabalho e o quinhão de dois bons operários; 


A UTOPIA -II 229 


então, concebereis, sem dificuldade, que disporão de mais tempo 
do que necessitam para prover às necessidades e mesmo aos pra- 
zeres da vida, quero dizer, os que se fundam na natureza e na 
verdade. 

Ora, o que afirmo aqui, na Utopia está provado pelos fatos. 
Em toda a extensão duma cidade utopiana, inclusive seu territó- 
rio, não mais de quinhentos indivíduos, compreendidos os ho- 
mens e mulheres na idade e força de trabalhar, existem isentos 
por lei. Neste número estão os sifograntes; mas mesmo esses 
magistrados trabalham como os outros cidadãos a fim de esti- 
mulá-los pelo exemplo. Este privilégio se estende também aos jo- 
vens que o povo destina às ciências e as artes, por recomendação 
dos padres e conforme os sufrágios secretos dos sifograntes. Se 
um desses eleitos ilude a esperança pública, é transferido para a 
classe dos operários. Se, ao contrário, e o caso é frequente, um 
operário consegue adquirir uma instrução suficiente consa- 
grando suas horas de lazer aos estudos intelectuais, fica isento 
do trabalho mecânico e sobe à classe dos letrados. 

É entre os letrados que se escolhem os embaixadores, os 
padres, os traníboras e o príncipe, chamado antigamente barza- 
me e hoje ádemo. O resto da população continuamente ativa não 
exerce senão profissões úteis e produz, em pouco tempo, uma 
massa considerável de trabalhos perfeitamente executados. 

O que contribui ainda para abreviar o trabalho é que, tudo 
sendo bem estabelecido e conservado, há muito menos o que 
fazer na Utopia do que entre nós. 

Nas outras partes, a construção e a reparação dos edifícios 
exigem trabalhos contínuos. A razão disto é que o pai, após ter 
edificado a sua casa com grandes sacrifícios, deixa seus bens a 
um filho negligente e dissipador, em cujas mãos tudo se dete- 


230 THOMAS MORE 


riora pouco a pouco; o resultado é que o herdeiro deste último 
não pode empreender reparações sem fazer despesas enormes. 
Frequentemente acontece mesmo que um mais requintado no 
luxo desdenha as construções paternas, e se poe a construir, com 
maiores despesas ainda, noutro terreno, enquanto a casa de seu 
pai cai em ruínas. 

Na Utopia, tudo está tão bem previsto e organizado que raro 
é-se obrigado a construir em novos terrenos. Os estragos são 
consertados no momento em que aparecem, e os que estão imi- 
nentes são prevenidos. Assim, as construções se conservam com 
pouco gasto e trabalho. A maior parte do tempo, os operários 
permanecem em casa, para, desbastando os materiais, talhar a 
madeira e a pedra. Quando há uma construção a fazer, os mate- 
riais estão todos prontos e a obra é rapidamente terminada. 

Ides ver como despendem pouco os utopiangs para se 
vestirem. 

No trabalho, vestem de couro ou de pele; este traje pode durar 
sete anos. Em público, cobrem-se de um casaco ou sobretudo 
que tapa a roupa grosseira do trabalho. O casaco é de cor natu- 
ral, e igual para todos. Desta sorte usam muito menos casimira 
do que em qualquer parte, e a lã lhes vem por menor preço. O 
linho é de uso muito difundido, porque exige menos trabalho. 
Eles não dão preço senão à brancura do linho, à nitidez e à lim- 
peza da lã, sem considerar a fineza ou delicadeza da fiação. Um 
só traje dura de ordinário dois anos; enquanto que alhures cada 
pessoa carece de quatro a cinco roupas de diferentes cores, ou- 
tras tantas vestimentas de seda e os mais elegantes não se satis- 
fazem com uma dezena. Os utopianos não vêem motivos para 
possuir um tão grande número; não se sentiriam por isso nem 
mais cômoda nem mais elegantemente vestidos. 


A UTOPIA - II 231 


Assim, todo mundo, na Utopia, vive ocupado em artes e ofi- 
cios realmente úteis. O trabalho material é de curta duração e 
mesmo assim produz a abundância e o supérfluo. Quando há 
acúmulo de produtos, os trabalhos diários são suspensos e a 
população é transportada em massa para reparar as estradas 
esburacadas e estragadas. Na falta de obras comuns ou extraor- 
dinárias a realizar, um decreto autoriza uma diminuição nas 
horas de trabalho, porque o governo não procura fatigar seus 
cidadãos em labores inúteis. 

O fim das instituições sociais na Utopia é de prover antes de 
tudo às necessidades do consumo público e individual; e deixar 
a cada um o maior tempo possível para libertar-se da servidão 
do corpo, cultivar livremente o espirito, desenvolvendo suas 
faculdades intelectuais pelo estudo das ciências e das letras. É 
neste desenvolvimento completo que eles poem a verdadeira 
felicidade. 


DAS RELAÇÕES MÚTUAS 
ENTRE OS CIDADÃOS 


Agora passo a expor as relações dos cidadãos entre si, seu 
comércio e a lei da distribuição das coisas necessárias a vida. 

A cidade se compõe de famílias, na sua maioria unidas pelos 
laços de parentesco. 

Desde que uma moça é núbil, é-lhe dado um marido e ela vai 
morar com ele. 

Os varões, filhos e netos, não deixam as suas famílias. O 
membro mais antigo de uma família é o chefe, e se os anos enfra- 
queceram sua inteligência, é substituído por aquele que mais se 
aproxima de sua idade. 

As seguintes disposições mantém o equilíbrio da população, 
impedindo-a de tornar-se muito rara em certos pontos, muito 
densa em outros. 

Cada cidade deve ser constituida de seis mil famílias. Cada 
família não pode conter senão de dez a dezesseis mancebos na 
idade da puberdade. O número de crianças impúberes é 
Himitado. 

Quando uma família cresce além da medida, o excedente é 
colocado entre as famílias menos numerosas. 

Quando há numa cidade mais gente do que deve conter, o 
excedente vai preencher os claros das cidades menos povoadas. 

Finalmente, se a ilha inteira se visse sobrecarregada de habi- 
tantes, seria decretada a emigração geral. Os emigrantes iriam 


234 THOMAS MORE 


fundar uma colônia no continente mais próximo, onde os indige- 
nas dispoem de mais terreno do que cultivam. 

A colônia se governa segundo as leis utopianas, e chama a 
si os nativos que queiram partilhar de seus trabalhos e gênero de 
vida. 

Se os colonos encontram um povo que aceita suas instituições 
e costumes, formam com ele uma mesma comunidade social, e 
esta união é benéfica a todos. Pois, a viver todos, assim, à uto- 
piana, uma terra que, outrora, era ingrata e estéril para um único 
povo, torna-se produtiva e fecunda para dois povos ao mesmo 
tempo. 

Mas se os colonos encontram uma nação que repele as leis da 
Utopia, eles expulsam esta nação da região do país que querem 
colonizar, e, se preciso, empregam, para tal, a força das armas. 
Segundo os seus princípios, a guerra mais justa é aquela que se 
faz a um povo que possui imensos territórios incultos e que os 
conserva desertos e estéreis, notadamente quando este mesmo 
povo interdiz a sua posse e o seu uso aos que vêm para cultivá- 
los e deles se nutrir, conforme a lei imprescritível da natureza. 

Se acontecesse (e este foi o caso, por duas vezes, em conse- 
quência de pestes horríveis) que a população do lugar diminuísse 
a ponto de não poder ser restabelecida sem romper o equilíbrio 
e a constituição das outras partes da ilha, os colonos regressa- 
riam à Utopia. Nossos insulares prefeririam deixar que as coló- 
nias perecessem a permitir que decrescesse uma única cidade da 
mãe-pátria. 

Mas voltemos às relações mútuas entre os cidadãos. 

O mais idoso, como já o disse, preside a família. As mulheres 
servem a seus maridos; as crianças, a seus pais e mães; os mais 
Jovens, aos mais velhos. 


A UTOPIA -II 235 


A cidade inteira se divide em quatro quarteirões iguais. No 
centro de cada quarteirão, encontra-se o mercado das coisas 
necessárias à vida. São depositados aí os diferentes produtos do 
trabalho de todas as famílias. Esses produtos, depositados 
primeiramente nos entrepostos, são em seguida classificados nas 
lojas de acordo com sua espécie. 

Cada pai de familia vai procurar no mercado aquilo de que 
tem necessidade para si e os seus. Tira o que precisa sem que 
seja exigido dele nem dinheiro nem troca. Jamais se recusa algu- 
ma coisa aos pais de família. A abundância sendo extrema, em 
todas as coisas, não se teme que alguém tire além de sua necessi- 
dade. De fato aquele que tem a certeza de que nada faltará 
jamais, não procurará possuir mais do que é preciso. O que 
torna, em geral, os animais cúpidos e rapaces é o temor das pri- 
vações no futuro. No homem em particular, existe uma outra 
causa de avareza — o orgulho, que o excita a ultrapassar em 
opulência os seus iguais e a déslumbrá-los pelo aparato de um 
luxo supérfluo. Mas as instituições utopianas tornam este vício 
impossível. 

Aos mercados de que acabo de falar juntam-se os mercados 
de comestíveis, onde se depositam os legumes, as frutas, o pão, O 
peixe, as aves domésticas e as partes de se comer dos animais 
quadrúpedes. 

Fora da cidade, existem os matadouros onde se abatem os 
animais destinados ao consumo. Esses matadouros são manti- 
dos sempre limpos graças a correntes de água que arrastam o 
sangue e as imundícies dos animais. É daí que é levada ao mer- 
cado a carne limpa e retalhada pelas mãos dos escravos: poís a 
lei proíbe aos cidadãos o ofício de carniceiro, temerosa que o há- 
bito da matança destrua pouco a pouco o sentimento de humani- 


É THOMAS MORE 


dade, o sentimento mais nobre do coração do homem. Esses 
açougues são situados fora da cidade no intuito de evitar tam- 
bém aos cidadãos um espetáculo hediondo, ao mesmo tempo 
que desembaraça a cidade das sujeiras e matérias animais cuja 
putrefação poderia provocar moléstias. 

Em cada rua amplos palácios estão dispostos a igual distân- 
cia, distinguindo-se uns dos outros por nomes particulares. É aí 
que moram os sifograntes; suas trinta famílias estão alojadas 
nos dois lados, quinze à direita e quinze à esquerda; é no palácio 
do sifogrante que elas vão fazer as refeições em comum. 

Os provedores se reúnem no mercado a uma hora fixa e reque- 
rem uma quantidade de víveres proporcional ao número de 
bocas que têm de nutrir. Começa-se sempre por servir os doen- 
tes, que são alojados em enfermarias públicas. 

Em torno da cidade e um pouco além de seus muros estão 
situados quatro hospitais de tal forma espaçosos, que poderiam 
ser tomados por quatro burgos consideráveis. Evitam-se assim a 
acumulação e o atravancamento dos doentes, inconvenientes que 
retardam a cura; além disto, quando um homem é atingido por 
uma moléstia contagiosa, pode-se isolá-lo completamente. Esses 
hospitais possuem com abundância todos os remédios e todas as 
coisas necessárias ao restabelecimento da saúde. Os doentes são 
aí tratados com um cuidado afetuoso e assíduo, sob a direção 
dos mais hábeis médicos. Ninguém é obrigado a ir para lá; 
entretanto, não há quem, em caso de doença, não prefira tratar- 
se no hospital a tratar-se em sua casa. 

Depois que os provedores dos hospitais recebem o que pedi- 
ram, segundo as prescrições dos médicos, o que há de melhor no 
mercado é distribuído, sem distinção, entre todos os refeitórios, 
proporcionalmente ao número dos comedores. Serve-se, ao 


A UTOPIA II 237 


mesmo tempo, o príncipe, o pontífice, os traníboras, os embaixa- 
dores, os estrangeiros, se os há, o que é muito raro. Estes últi- 
mos, ao chegarem à cidade, encontram seus alojamentos já pre- 
parados e providos de tudo o que possam necessitar. 

Uma trombeta marca a hora das refeições. Então toda a sifo- 
grantia encaminha-se para o refeitório comum, com exceção dos 
indivíduos acamados em casa ou no hospital. É permitido ir ao 
mercado à procura de víveres para o consumo particular, mas só 
depois que as mesas públicas estiverem completamente providas. 
Os utopianos, porém, não se utilizam jamais desse direito, a não 
ser por graves motivos: se cada qual é livre de comer em sua 
casa, ninguém encontra prazer em fazê-lo. Ademais, seria loucu- 
ra dar-se ao trabalho de preparar um mau jantar, quando se 
pode ter um bem melhor a alguns passos. 

Os escravos são encarregados dos trabalhos de cozinha mais 
sujos e penosos. As mulheres cozinham os alimentos, temperam 
os guisados €e servem e tiram as mesas. Revezam-se nestes miste- 
res, família por família. 

Preparam-se três mesas ou mais, de acordo com o número de 
convivas. Os homens assentam-se ao lado da parede, as mulhe- 
res ficam dispostas em frente, a fim de que, se alguma for acome- 
tida de uma indisposição súbita, o que acontece frequentemente 
as mulheres grávidas, possa se retirar sem incomodar ninguém, e 
ir para os aposentos das amas. 

As amas se sentam à parte com as crianças de peito, em salas 
particulares, sempre aquecidas e providas de água limpa e ber- 
ços; desta maneira elas podem deitar as criancinhas, desenfai- 
xá-las e fazê-las brincar próximo do fogo. 

Cada mãe aleita seu filho, exceto em caso de morte ou de 
doença. Nestes dois casos, as mulheres dos sifograntes procuram 


238 THOMAS MORE 


imediatamente uma ama, o que não é difícil encontrar. As 
mulheres em situação de prestar este serviço são as primeiras a 
se oferecer. Aliás, esta função é uma das mais honrosas, e a 
criança pertence tanto à sua ama-de-leite como à sua mãe. 

Na sala das amas vivem também as crianças que não têm 
ainda cinco anos completos. Os meninos e as meninas, da puber- 
dade até a época do casamento, servem a mesa. Os mais jovens, 
e que não têm força para servir, conservam-se de pé e em silên- 
cio; comem o que lhes é dado pelos que estão à mesa, e não têm 
outro momento para fazer suas refeições. 

O sifogrante e sua mulher são colocados no centro da pri- 
meira mesa. Esta mesa ocupa a extremidade do fundo da sala e 
de lá se descortina, num golpe de vista, toda a assembléia. Dois 
velhos, escolhidos entre os mais idosos e mais respeitáveis, 
assentam-se com o sifogrante, e, assim, todos os convivas são 
servidos e comem quatro a quatro. Se há um templo na sifogran- 
tia, o sacerdote e sua mulher substituem os dois velhos, presi- 
dindo a refeição. 

Dos dois lados da sala estão enfileirados alternadamente dois 
Jovens e dois indivíduos mais idosos. Esta disposição aproxima 
os iguais e mistura, ao mesmo tempo, todas as idades; e além 
disso preenche uma finalidade moral. Como nada se pode dizer 
ou fazer que não seja percebido pelos vizinhos, assim a gravi- 
dade da velhice, o respeito que ela inspira, contêm a petulância 
dos jovens, impedindo-os de sair da medida tanto nas palavras 
como nos gestos. 

A mesa do sifogrante é servida em primeiro lugar; em seguida 
as outras, segundo sua posição. Os melhores pedaços são dados 
aos velhos das famílias que ocupam lugares fixos e de destaque. 
Todos os demais são servidos com uma igualdade perfeita. As 


A UTOPIA - TI 239 


porções desses bons velhos não são bastante grandes para dar a 
todo mundo; mas eles as repartem, como entendem, com os vizi- 
nhos mais próximos. Assim, rende-se à velhice a honra que lhe é 
devida, e esta homenagem volve ao bem de todos. 

Os almoços e os jantares começam pela leitura de um livro de 
moral; esta leitura é breve para que não aborreça. Quando term:- 
nada, os mais idosos encetam conversações honestas, mas cheias 
de jovialidade e alegria. Longe de falar exclusivamente, eles gos- 
tam de escutar os jovens; provocam mesmo seus repentes, a fim 
de apreciar-lhes a natureza do caráter e do espírito. Ao calor e 
liberdade reinantes nas horas de refeição, essa natureza facil- 
mente se trai. 

O almoço é rápido; a ceia é demorada; porque ao almoço 
seguem-se os trabalhos, enquanto que, depois da ceia, vêm o 
sono e o repouso da noite. Ora, os utopianos acreditam que o 
sono da noite é mais favorável do que o trabalho a uma boa 
digestão. A ceia não se realiza sem música e sem uma sobremesa 
copiosa e delicada. Os perfumes, as essências mais delicadas, 
nada é poupado pata o bem-estar e o gozo dos convivas. Poder- 
se-à talvez, por isto, acusar os utopianos de uma tendência 
excessiva ao prazer? Eles têm por princípio que a volúpia que 
não engendra nenhum mal é perfeitamente legitima. 

É assim que vivem entre si os utopianos das cidades. Aqueles 
que trabalham no campo estão muito apartados uns dos outros 
para comer em comum; tomam suas refeições em casa, particu- 
larmente. De resto, as famílias agrícolas têm assegurada uma 
alimentação abundante e variada. Nada lhes falta: não são elas 
as provedoras, as mães nutrizes das cidades? 


DAS VIAGENS DOS UTOPIANOS 


Quando um cidadão deseja ir ver um amigo que mora noutra 
cidade, ou quer simplesmente ter o prazer de uma viagem, os 
sifograntes e os traníboras consentem de boa vontade em sua 
partida se não houver impedimento razoável. 

Os viajantes se reúnem para partir em conjunto; munem-se 
duma carta do príncipe que é um certificado de licença e que fixa 
o dia de regresso. Fornecem-lhes uma carruagem e um escravo 
para guiar a carruagem e cuidar dos animais. Mas habitual- 
mente, a menos que levem mulheres em sua companhia, os via- 
jantes dispensam o carro como um obstáculo. Não se provêm de 
nada durante o percurso; porque nada lhes pode faltar e em 
qualquer lugar estão em sua casa. 

Se um viajante passa mais de um dia numa localidade, tem 
que trabalhar no seu ofício e recebe o mais carinhoso acolhi- 
mento dos operários de sua profissão. 

Aquele que por sua própria vontade se permite franquear os 
limites de sua província é tratado como criminoso; apanhado 
sem a licença do príncipe, é reconduzido como desertor e severa- 
mente punido. Em caso de reincidência, perde a liberdade. 

Se algum cidadão deseja fazer uma excursão nos campos que 
dependem de sua cidade, pode fazê-lo com o consentimento de 
sua mulher e do pai de família. Mas é necessário que compre e 
pague o seu sustento trabalhando antes do almoço e da ceia 


242 THOMAS MORE 


tanto quanto os que aí moram. Sob esta condição, cada indivi- 
duo tem o direito de sair da cidade e percorrer o território adja- 
cente, porgue ele é tão útil ali como aqui. 

Vede que na Utopia a ociosidade e a preguiça são impossíveis. 
Não se vêem nem tabernas, nem lugares de prostituição, nem 
oportunidade para deboches, nem antros ocultos, nem assem- 
bléias secretas. Cada um, continuamente exposto ao olhar de 
todos, se sente na feliz contingência de trabalhar e de repousar, 
conforme as leis e os costumes do país. A abundância de todas 
as coisas é o fruto desta vida pura e ativa. O bem-estar se reparte 
igualmente por todos os membros desta admirável sociedade; a 
mendicidade e a miséria são aí monstros desconhecidos. 

Já disse que cada cidade da Utopia enviava três deputados ao 
senado de Amaurota. As primeiras sessões do senado são consa- 
gradas a levantar a estatística económica das diversas partes da 
ilha. Desde que se verificam os pontos onde há demais e os pon- 
tos onde não há bastante, o equilíbrio é restabelecido enchendo- 
se a carência das cidades infelizes com a superabundância das 
cidades mais favorecidas. Esta compensação é gratuita. A cida- 
de que dá nada recebe em troca da parte que entrega; e, recipro- 
camente, recebe de graça duma outra cidade à qual nada deu. 

Assim, toda a república utopiana é como uma única e mesma 
família. 

A ilha é sempre abastecida por dois anos, na incerteza de uma 
boa ou má colheita para o ano seguinte. Exportam-se para fora 
da ilha os gêneros supérfluos, tais como trigo, mel, lã, linho, 
madeiras, matérias para tinturas, peles, cera, sebo, animais. A 
sétima parte dessas mercadorias é distribuída aos pobres do país 
para onde se exporta; o resto é vendido a um preço moderado. 
Este comércio permite à Utopia importar não somente objetos 


A UTOPIA - II 243 


de necessidade, o ferro, por exemplo, como também uma massa 
considerável de ouro e prata. 

Desde que os utopianos praticam este negócio que acumula- 
ram uma quantidade incrível de riquezas. É por isso que lhes é 
indiferente, hoje, vender a vista ou a prazo. Habitualmente, rece- 
bem vales em pagamento; mas não se fiam em assinaturas indi- 
viduais. Os vales devem estar revestidos das formas legais e 
garantidos pelo selo da cidade que os emite. No dia do venci- 
mento, a cidade signatária exige o reembolso aos devedores 
particulares; o dinheiro é depositado no tesouro público e o seu 
valor é garantido até que os credores utopianos o reclamem. 

Estes não reclamam quase nunca o pagamento da dívida intei- 
ra; acreditariam cometer uma injustiça, tirando a um outro uma 
coisa que lhe é necessária e que para eles é inútil. Entretanto, há 
casos em que retiram toda a soma que lhes é devida; isto acon- 
tece quando querem se servir desta para emprestar a uma nação 
vizinha ou para empreender uma guerra. Neste último caso, jun- 
tam todas as suas riquezas para fazer como que uma trincheira 
de metal contra os perigos urgentes e imprevistos. Estas riquezas 
são destinadas a engajar e a pagar copiosamente as tropas 
estrangeiras; porque o governo da Utopia prefere expor à morte 
os estrangeiros e não os seus cidadãos. Ele sabe também que o 
inimigo mais encarniçado se vende algumas vezes, se o preço da 
venda está à altura de sua cobiça; sabe que, em geral, o dinheiro 
é o nervo da guerra, quer para comprar traições, quer para com- 
bater abertamente. 

Para tais fins, os utopianos têm sempre à sua disposição imen- 
sos tesouros; mas, longe de conservá-los com uma espécie de 
culto religioso, como fazem outros povos, eles os empregam em 
coisas que mal ouso dizer-vos. Temo que não acrediteis, pois eu 


244 THOMAS MORE 


mesmo, confesso-vos francamente, se não o tivesse visto não 
acreditaria sobre palavra. Isso é muito natural; quanto mais os 
costumes estrangeiros são opostos aos nossos, menos estamos 
dispostos a acreditar neles. Contudo, o homem sábio que julga 
Judiciosamente, ao saber que os utopianos pensam e agem de 
modo exatamente contrário aos outros povos, não se surpreen- 
derá que eles empreguem o ouro e a prata de modo inteiramente 
diverso de nós. 

Na Utopia não se utiliza jamais dinheiro em moeda nas tran- 
sações mútuas; são elas reservadas para os acontecimentos criíti- 
cos sempre possíveis, ainda que incertos. 

O ouro e a prata não têm, nesse país, mais valor do que lhes 
deu a natureza. Esses dois metais são ali considerados bem abai- 
xo do ferro, o qual é tão necessário ao homem quanto a água e 
o fogo. Com efeito, o ouro e a prata não têm nenhuma virtude, 
nenhum uso, nenhuma propriedade cuja privação acarrete um 
inconveniente natural e verdadeiro. Foi a loucura humana que 
pôs tanto valor em sua raridade. 

A natureza, esta excelente mãe, escondeu-os em grandes 
profundidades, como produtos inúteis e vãos, enquanto que 
expõe a descoberto a água, o ar, a terra, e tudo o que há de bom 
e realmente útil. 

Os utopianos não escondem seus tesouros nas torres, ou em 
outros lugares fortificados e inacessíveis. O vulgo, numa extra- 
vagante malícia, poderia suspeitar que o príncipe e o senado 
enganassem o povo, enriquecendo-se e pilhando a fortuna públi- 
ca. Com o ouro e a prata-não se fabricam nem vasos, nem obras 
artisticamente trabalhadas. Porque, se houvesse necessidade de 
um dia fundi-los, para pagar o exército em caso de guerra, os 


A UTOPIA -H 245 


que tivessem posto sua afeição e suas delícias nesses objetos de 
arte e de luxo, sentiriam, ao perdê-los, uma dor amarga. 

A fim de prevenir esses inconvenientes, os utopianos imagina- 
ram um uso perfeitamente em harmonia com o restante de suas 
instituições, mas em completo desacordo com as do nosso conti- 
nente, onde o ouro é adorado como um deus, procurado como o 
bem supremo. Eles comem e bebem em louça de barro ou vidro, 
que, se é elegante na forma, é, no entanto, despida do menor 
valor; o ouro e a prata são destinados aos usos mais vis, tanto 
nas residências comuns, como nas casas particulares; são feitos 
com eles até os vasos noturnos. Forjam-se cadeias e correntes 
para os escravos, e marcas de opróbrio para os condenados que 
cometeram crimes infames. Estes últimos trazem argolas de 
ouro nas orelhas e nos dedos, um colar de ouro no pescoço, um 
freio de ouro na cabeça. 

Assim, tudo concorre para manter o ouro e a prata na ignomi- 
nia. Entre outros povos a perda da fortuna é um sofrimento tão 
cruel como um dilaceramento das entranhas; mas quando se 
arrancasse à nação utopiana todas as suas imensas riquezas nin- 
guém pareceria ter perdido um cêntimo. 

Os utopianos recolhem pérolas na sua costa, diamantes e pe- 
dras preciosas em certos rochedos. Sem ir à cata desses objetos 
raros, eles gostam de polir os que a sorte lhes presenteia, a fim 
de adornar os seus filhinhos, que ficam orgulhosos de trazer 
esses ornamentos. Mas, à medida que crescem, percebem logo 
que estas frivolidades não convêm senão as crianças pequenas. 
Então, não esperam pela observação dos pais; espontaneamente 
e por amor-próprio livram-se desses enfeites. É como entre nós, 
quando as crianças que vão crescendo abandonam as bolas e as 
bonecas. 


246 THOMAS MORE 


Estas instituições, tão diferentes das dos outros povos, gra- 
vam no coração do utopiano sentimentos e idéias inteiramente 
contrários às nossas. Fiquei singularmente chocado com esta 
diferença por ocasião duma embaixada anemoliana. Os envia- 
dos de Anemólia vieram a Amaurota quando eu lá estava, e, 
como deviam tratar de negócios de alta importância, o senado 
esteve reunido na capital. Até então, os embaixadores das 
nações limitrofes que tinham vindo à Utopia, aí levaram vida 
mais simples e modesta, porque estavam já a par dos costumes 
utopianos. Sabiam que o luxo de seus atavios não tem lá nenhum 
valor, a seda é desprezada e o ouro uma coisa infame. 

Mas os anemolianos, muito mais afastados da ilha, tinham 
tido muito poucas relações com ela. Ao saberem que os seus 
habitantes vestiam-se de modo grosseiro e uniforme, imagina- 
ram que esta extrema simplicidade era causada pela miséria, e, 
mais vaidosos do que sagazes, resolveram apresentar-se com a 
magnificência digna de enviados celestes e ofuscar esses miserá- 
veis insulares com o brilho de fausto deslumbrante. 

Os três ministros, que eram grandes senhores de Anemólia, ao 
entrar em Amaurota, faziam-se seguidos de cem pessoas, vesti- 
das de trapos de seda de diversas cores. Os próprios embaixa- 
dores traziam uma vestimenta rica e suntuosa; trajavam uma 
roupa de lã tecida com ouro, traziam colares e brincos de ouro 
nas orelhas, anéis de ouro nos dedos e os seus chapéus resplan- 
deciam de pedrarias. Enfim, estavam cobertos do que na Utopia 
constitui o suplício do escravo, a marca vergonhosa da infâmia, 
o brinquedo da criança. 

Era divertido ver a orgulhosa satisfação dos embaixadores e 
das pessoas do seu séquito, que comparavam o luxo de seus 
paramentos às vestes simples e negligentes do povo utopiano, 


A UTOPIA - IH 247 


espalhado em massa à sua passagem. De outro lado, não era 
menos curioso observar a atitude da população, e como esses 
estrangeiros se enganavam em sua expectativa, e como estavam 
longe de despertar a estima e as honras que tinham imaginado. 

À parte um pequeno número de utopianos, que tinha viajado 
ao exterior por graves motivos, todos os outros olhavam com 
piedade todo este aparato suntuoso; os utopianos saudavam os 
mais ínfimos lacaios do cortejo, tomando-os por embaixadores, 
e deixavam passar os embaixadores, sem lhes dar mais atenção 
do que aos lacaios, porque os viam carregados de cadeias de 
ouro como seus escravos. 

As crianças que já tinham abandonado os diamantes e as pé- 
rolas e que as viam nos chapéus dos embaixadores, puxavam 
suas mães gritando: 

“Veja este grandalhão que ainda traz pedrarias como se fosse 
pequenino.” 

E as mães respondiam gravemente: 

“Calai-vos, meu filho; é, eu penso, um dos bufões da 
embaixada”. 

Muitos criticavam a forma dessas correntes de ouro. 

“Elas são, diziam, muito finas, e poderiam ser quebradas 
facilmente; além disso, não estão bem fechadas e apertadas, e o 
escravo poderia se desembaraçar delas, se quisesse, e fugir.” 

Dois dias depois de sua entrada em Amaurota, os embaixa- 
dores compreenderam que os utopianos desprezavam o ouro 
tanto quanto ele era venerado no seu país. Tiveram ocasião de 
observar no corpo de um escravo mais ouro e prata do que o que 
trazia toda a sua escolta. Então, humilhados em sua vaidade e 
envergonhados da mistificação de que tinham sido vítimas, 
despojaram-se apressadamente do fausto que tão orgulhosa- 


so THOMAS MORE 


mente tinham exposto. As relações íntimas que entretiveram na 
Utopia ensinaram-lhes quais eram os princípios e os costumes 
de seus habitantes. 

Os utopianos admiram-se de que seres razoáveis possam se 
deleitar com a luz incerta e duvidosa de uma pedra ou de uma 
pérola, quando têm os astros e o sol com que encher os olhos. 
Encaram como louco aquele que se acredita mais nobre e mais 
estimável só porque está coberto de uma lã mais fina, lã tirada 
das costas de um carneiro, e que foi usada primeiro por este ani- 
mal. Admiram-se que o ouro, inútil por sua própria natureza, 
tenha adquirido um valor fictício tão considerável que seja 
muito mais estimado do que o homem; ainda que somente o 
homem lhe tenha dado este valor e dele se utilize, conforme seus 
caprichos. 

Espantam-se também que um rico, de inteligência de chumbo, 
estúpido como uma acha de lenha, tão tolo quanto imoral, man- 
tenha em sua dependência uma multidão de homens sábios e vir- 
tuosos, apenas porque a sorte lhe deixou algumas pilhas de 
escudos. 

Mas, dizem, a fortuna pode traí-lo e a lei (que tanto quanto a 
sorte precipita frequentemente o homem do pináculo ao lodo) 
pode arrancar-lhe o dinheiro, fazendo-o passar às mãos do mais 
ignóbil de seus lacaios. Então, este mesmo rico se sentirá feliz 
em passar também, na companhia de seu dinheiro, a serviço de 
seu antigo criado. 

Há uma outra loucura que os utopianos detestam ainda mais, 
e que dificilmente concebem: é a loucura dos que rendem home- 
nagens quase divinas a um homem porque é rico, sem serem, 
entretanto, nem seus devedores nem seus súditos. Os insensatos 
sabem, não obstante, como é sórdida a avareza desses Cresos 


A UTOPIA - II 249 


egoístas; sabem, perfeitamente, que nunca terão um vintém de 
todos os tesouros destes últimos. 

Nossos insulares adquirem semelhantes sentimentos, parte no 
estudo das letras, parte na educação que recebem no seio de uma 
república, cujas instituições são formalmente opostas a todas as 
nossas espécies e gêneros de extravagância. É verdade que um 
número muito pequeno é dispensado dos trabalhos materiais, 
entregando-se exclusivamente à cultura do espírito. São, como já 
disse, aqueles que, desde a infância, demonstraram aptidões 
raras, um gênio penetrante, vocação científica. Mas nem por isso 
se deixa de dar uma educação liberal a todas as crianças; e a 
grande massa dos cidadãos — homens e mulheres — consagra, 
cada dia, seus momentos de repouso e liberdade aos trabalhos 
intelectuais. 

Os utopianos aprendem as ciências em sua própria língua, 
rica € harmoniosa, intérprete fiel do pensamento; ela é difundida, 
mais ou menos alterada, sobre uma grande extensão do globo. 

Antes de nossa chegada, os utopianos nunca tinham ouvido 
falar nesses filósofos tão famosos no nosso mundo; entretanto, 
fizeram as mesmas descobertas que nós, no terreno da música, 
da aritmética, da dialética, da geometria. Se igualam em quase 
tudo os nossos antigos, são bastante inferiores aos dialéticos 
modernos, porque ainda não inventaram nenhuma dessas regras 
sutis de restrição, amplificação, suposição, que se ensinam à 
juventude nas escolas de lógica. Ainda não aprofundaram as 
idéias segundas; e, quanto ao homem em geral, ou universal, 
segundo a gíria metafísica, este colosso, o maior dos gigantes, 
que nos mostram aqui, ninguém na Utopia póde ainda 
percebêe-lo. 

Em compensação, conhecem de uma maneira precisa o curso 


250 THOMAS MORE 


dos astros e o movimento dos corpos celestes. Imaginaram má- 
quinas que representam com grande exatidão os movimentos e 
as posições respectivas do. Sol e da Lua e dos astros visíveis 
acima do seu horizonte. Quanto aos ódios e as amizades dos pla- 
netas e às demais imposturas de adivinhação pelo céu, nem 
mesmo em sonhos disso se ocupam. Sabem prever, por indícios 
confirmados por uma longa experiência, a chuva, o vento e as 
outras revoluções do ar. Fazem apenas conjeturas sobre as cau- 
sas desses fenômenos, sobre o fluxo e o refluxo do mar, sobre a 
composição salina dessa imensa massa líquida, a origem e a 
natureza do céu e do mundo. Seus sistemas coincidem em certos 
pontos com os dos nossos antigos filósofos; e, em outros, se 
afastam. Mas, na nova teoria que imaginaram, há dissidências 
entre eles, como entre nós. | 

Em filosofia moral, agitam as mesmas questões que os nossos 
doutores. Procuram na alma do homem, no seu corpo e nos 
objetos exteriores, o que pode contribuir para sua felicidade; per- 
guntam, procuram saber se o nome de Bem convém indiferente- 
mente a todos os elementos da felicidade material e intelectual, 
ou só ao desenvolvimento das faculdades do espírito. Dissertam 
sobre a virtude e o prazer; mas a primeira e principal de suas 
controvérsias tem por fito determinar a condição única, ou as 
diversas condições da felicidade do homem. 

Talvez possais acusá-los de propender demais para o epicu- 
rismo, porque, se a volúpia não é, para eles, o único elemento da 
felicidade, é um dos mais essenciais. E, fato singular, invocam 
em apoio dessa moral voluptuosa a religião tão grave e severa, 
tão triste e rígida. Têm por princípio não discutir jamais sobre o 
Bem e o Mal, sem partir dos axiomas da religião e da filosofia; 
de outra maneira, temeriam raciocinar em bases falhas e edificar 
falsas teorias. 


A UTOPIA - II 251 


Eis aqui seu catecismo religioso: 

A alma é imortal: Deus, que é bom, criou-a para ser feliz. De- 
pois da morte, as recompensas coroam a virtude, suplícios ator- 
mentam o crime. 

Embora esses dogmas pertençam à religião, os utopianos pen- 
sam que a razão pode induzir, por si mesma, a crer neles e acei- 
tá-los. Não hesitam em declarar que, na ausência desses princi- 
pios, fora preciso ser estúpido para não procurar O prazer por 
todos os meios possíveis, criminosos ou legítimos. A virtude 
consistiria, então, em escolher, entre duas volúpias, a mais deli- 
ciosa, a mais picante; e em fugir dos prazeres a que se seguissem 
dores mais vivas do que o gozo que tivessem proporcionado. 

Mas praticar virtudes severas e dificeis, renunciar aos praze- 
res da vida, sofrer voluntariamente a dor & nada esperar depois 
da morte em recompensa as mortificações da terra, é, aos olhos 
dos nossos insulares, o cúmulo da loucura. 

A felicidade, dizem, não está em toda espécie de voluptuosi- 
dade; está unicamente nos prazeres bons e honestos. É para 
esses prazeres que tudo, até a própria virtude, arrasta irresisti- 
velmente a nossa natureza; são eles que constituem a felicidade. 

Os utopianos definem a virtude: viver segundo a natureza. 
Deus, criando o homem, não lhe deu outro destino. 

O homem que segue o impulso da natureza é aquele que obe- 
dece à voz da razão, em seus ódios e seus apetites. Ora, a razão 
inspira, em primeiro lugar, a todos os mortais o amor e a adora- 
ção da majestade divina, à qual nós devemos o ser e o bem-estar. 
Em segundo lugar, ela nos ensina e nos instiga a viver alegre- 
mente e sem lamentações, e a proporcionar aos nossos seme- 
lhantes, que são nossos irmãos, os mesmos benefícios. 

De fato, o mais enfadonho e o mais fanático zelador da virtu- 
de, o inimigo mais odiento do prazer, ao vos propor imitar seus 


252 THOMAS MORE 


trabalhos, sua vigílias e mortificações, ordena-vos, também, 
mitigar, com todas as vossas forças, a miséria e as aflições dos 
outros. Esse moralista severo cumula de elogios, em nome da 
humanidade, o homem que consola e que salva o homem; e crê, 
assim, que a virtude mais nobre e mais humana, em qualquer ter- 


reno, consiste em suavizar os sofrimentos do próximo, arrancá- 
lo ao desespero e à tristeza, restituir-lhe as alegrias da vida, ou, 
em outros termos, fazê-lo tér parte também da volúpia. 

E por que a natureza não induziria cada um de nós a se fazer, 
a si mesmo, o mesmo bem que aos outros? Pois, das duas uma: 
ou uma existência agradável, isto é, a volúpia, é um bem ou um 
mal. Se é um mal, não somente não se deve ajudar seus seme- 
lhantes a fruí-la, mas ainda deve-se arrancá-la como coisa peri- 


gosa e condenável. Se é um bem, pode-se e deve-se procurá-la 
para si próprio como para os outros. Por que iriamos ter menos 
compaixão de nós do que dos outros? A natureza, que inspira 
em nós a caridade por nossos irmãos, não ordena que sejamos 
cruéis conosco mesmos. 


Eis o que leva os utopianos a afirmarem que uma vida hones- 
tamente agradável quer dizer que a volúpia é o fim de todas as 
nossas ações; que tal é a vontade da natureza e que obedecer a 
esta vontade é ser virtuoso. 


A natureza, dizem eles, convida todos os homens a se ajuda- 
rem mutuamente e a partilharem em comum do alegre festim da 
vida. Este conceito é justo e razoável, pois não há indivíduo tão 
altamente colocado acima do gênero humano que somente a 
Providência deva cuidar dele. A natureza deu a mesma forma a 
todos; aqueceu-os todos com o mesmo calor, envolve todos com 
o mesmo amor; o que ela reprova é aumentar o próprio bem-es- 
tar agravando a infelicidade de outrem. 

É por isto que os utopianos pensam que é necessário observar 


A UTOPIA - II 253 


não só as convenções privadas entre simples cidadãos, mas 
ainda as leis públicas, que regulam a distribuição das comodi- 
dades da vida, em outros termos, que distribuem a matéria do 
prazer, quando estas leis foram justamente promulgadas por um 
bom príncipe, ou sancionadas pelo consentimento geral de um 
povo, nem oprimido pela tirania, nem embaído pelo artifício. 

A sabedoria reside em procurar a felicidade sem violar as leis. 
A religião é trabalhar pelo bem geral. Calcar aos pés a felicidade 
de outrem, em busca da sua, é uma ação injusta. 

Ao contrário, privar-se de algum prazer, para comunicá-lo a 
outrem, é indício de um coração nobre e humano, e que encontra 
prazer em sacrificar-se para os outros. Primeiro que tudo, esta 
boa ação é recompensada pela reciprocidade dos serviços; em 
seguida, o testemunho da consciência, a lembrança e o reconhe- 
cimento dos que foram obsequiados causam à alma delícia 
maior que não poderia ter dado ao corpo o objeto de que se foi 
privado. Finalmente, o homem que tem fé nas verdades religio- 
sas deve estar firmemente persuadido de que Deus recompensa a 
privação voluntária de um prazer efêmero e passageiro, com ale- 
grias inefáveis e eternas. 

Assim, em última análise, os utopianos reduzem todas as 
ações e mesmo todas as virtudes ao prazer, como finalidade. 

Eles chamam volúpia todo o estado ou todo movimento da 
alma e do corpo, nos quais o homem experimenta uma deleita- 
ção natural. Não é sem razão que eles acrescentam a palavra 
natural, porque não é somente a sensualidade, é também a razão 
que nos atrai para as coisas naturalmente deleitáveis; e por isto 
devemos compreender os bens que se podem procurar sem injus- 
tiça, Os gozos que não privem de um prazer mais vivo, e que não 
arrastem consigo nenhum mal. 

Há coisas fora da natureza que os homens, por uma conven- 
ção absurda, intitulam prazeres (como se tivessem o poder de 


254 THOMAS MORE 


transformar a essência tão facilmente como modificam as pala- 
vras). Elas, longe de contribuir para a felicidade, são outros tan- 
tos obstáculos em seu caminho; aos que seduzem, elas impedem 
gozarem satisfações puras e verdadeiras; viciam o espírito, preo- 
cupando-o com a idéia de um prazer imaginário. Há, com efeito, 
uma quantidade delas, às quais a natureza não juntou nenhuma 
doçura, às quais chegou até a misturar amargura e que, no 
entanto, os homens olham como altas volúpias de algum modo 
necessárias à vida, apesar de, na sua maioria, serem essencial- 
mente mãs e só estimularem as paixões perversas. 

Os utopianos classificam nessa espécie de prazeres bastardos 
a vaidade daqueles que já falei, que se crêem melhores porque 
usam uma roupa mais bonita. A vaidade desses tolos é dupla- 
mente ridícula. 

Em primeiro lugar, consideram suas roupas acima de suas 
pessoas; pois, quanto ao que é de uso, em que, vos pergunto, 
uma lã mais fina prevalece sobre uma lã mais grossa? Entre- 
tanto, os insensatos, como se se distinguissem da multidão pelo 
que há de excelente em sua natureza, e não pela loucura de seu 
comportamento, erguem orgulhosamente a cabeça, imaginando 
que valem um grande preço. Exigem, em virtude da rica elegan- 
cia de suas vestes, honras que não ousariam esperar com um 
traje simples e comum; mostram-se indignados quando se olha a 
sua roupa com um olhar de indiferença. 

Em segundo lugar, esses mesmos homens não são menos estú- 
pidos por se alimentarem de honras sem realidade e sem provei- 
tos. É natural e verdadeiro o prazer que se sente em frente de um 
adulador que tira o chapéu e dobra humildemente o joelho? 
Uma genuflexão cura alguém da febre ou da gota? 

Entre aqueles que ainda seduz uma falsa imagem do prazer, 


A UTOPIA - II 255 


estão os nobres que se comprazem com orgulho e amor no pen- 
samento de sua nobreza. E de que se gabam? Do acaso que os 
fez nascer em uma longa série de ricos antepassados, e, sobretu- 
do, de ricos proprietários (porque a nobreza de hoje é a riqueza). 
Todavia, se esses insensatos nada tivessem herdado de seus pais, 
ou tivessem devorado todo seu patrimônio, ainda assim não se 
sentiriam, por isso, diminuídos na sua nobreza dum só cabelo. 

Os utopianos classificam os amadores de pedrarias na catego- 
ria dos maníacos de nobreza. Os homens que têm essa paixão 
Julgam-se uns pequenos deuses, quando encontram uma pedra 
bela e rara, particularmente apreciada na sua época e no seu 
país, pois a mesma pedra não conserva sempre e por toda a parte 
o mesmo valor. O amador de pedras as compra nuas e sem ouro; 
leva mesmo a precaução a ponto de exigir do vendedor uma cau- 
ção e até o juramento que o diamante, o rubi, o topázio são de 
bom quilate, de tal modo teme que um falso brilhante impres- 
sione os seus olhos! Que prazer há, pois, em olhar uma pedra 
natural de preferência a uma artificial, já que o olho não 
apreende a diferença? Tanto uma como outra não têm realmente 
mais valor para um que enxerga do que para um cego. 

Que dizer dos avarentos que acumulam dinheiro e mais 
dinheiro, não para seu uso, mas para se consumir na contempla- 
ção duma enorme quantidade de metal? O prazer desses ricos 
miseráveis não é pura quimera? Será mais feliz aquele que, por 
uma extravagância mais estúpida ainda, enterra as suas moe- 
das? Este último nem ao menos vê o seu tesouro, e o medo de 
perdê-lo faz com que o perca de fato. Mas enterrar ouro não é o 
mesmo que roubar a si próprio e aos outros? No entanto, o ava- 
rento sente-se tranquilo, salta de alegria quando enterrou bem 
suas riquezas. Agora, suponhamos que alguém se apodere desse 


256 THOMAS MORE 


depósito confiado à terra, e que o nosso avarento sobreviva dez - 
anos à sua ruína, sem o saber; eu vos pergunto, que lhe importou 
nesse intervalo ter conservado ou perdido o tesouro? Enterrado 
ou roubado, ele lhe deu exatamente a mesma serventia. 

Os utopianos encaram também como imaginários os prazeres 
da caça e dos jogos de azar. Dos últimos não conhecem os desa- 
tinos senão de nome, não os praticando jamais. Que diverti- 
mento podereis encontrar, dizem eles, em jogar um dado sobre a 
mesa? E supondo que houvesse nisso qualquer prazer, vos far- 
tastes tantas vezes dele que deve ter-se tornado enfadonho e 
insípido. 

Não é mais fatigante do que agradável ouvir os cães ladrarem 
e ganirem? Em que é mais divertido ver correr um cão atrás de 
uma lebre do que vê-lo atrás de outro cão? Entretanto, se é a 
corrida que faz o prazer, a corrida existe nos dois casos. Mas 
não é antes a expectativa da morte ou a espera da carniceria que 
apaixonam os homens pela caça? E como não abrir a alma à 
piedade, como não ter horror a esta matança, em que o cão forte, 
cruel e audaz, dilacera a lebre fraca, timida e fugitiva? 

É por isso que os nossos insulares proíbem a caça aos homens 
livres, como um exercício indigno deles; ela só é permitida aos 
magarefes, que são todos escravos. E, mesmo na opinião deles, a 
caça é a parte mais vil da arte de matar os animais; as outras 
partes desse ofício são muito mais consideradas, porque trazem 
maior lucro e porque nelas só matam os animais por necessi- 
dade, enquanto que o caçador procura no sangue e na morte um 
divertimento estéril. 

Os utopianos desprezam todas essas alegrias, e muitas outras 
semelhantes em número quase infinito, e que o vulgo considera 
como bens supremos, mas cuja suavidade aparente não se 


A UTOPIA - TI 257 


encontra na natureza. Mesmo que esses prazeres enchessem os 
sentidos da mais deliciosa embriaguez (o que parece ser o efeito 
natural da volúpia), os utopianos sustentam que os mesmos nada 
têm de comum com a verdadeira voluptuosidade; porque, dizem, 
esse prazer sensual não vem da própria natureza do objeto, é o 
fruto de hábitos depravados que fazem achar doce o que é amar- 
go. É assim que as mulheres grávidas, cujo gosto está corrom- 
pido, acham a resina e o sebo mais doce que o mel. 

Os utopianos distinguem diversas espécies de prazeres verda- 
deiros: uns se relacionam com o corpo, outros com a alma. 

Os prazeres da alma estão no desenvolvimento da inteligência 
e nas puras delícias que acompanham a contemplação da verda- 
de. Nossos insulares acrescentam ainda o testemunho duma vida 
irreprochável e a esperança certa duma imortalidade bem-aven- 
turada. 

Eles dividem em duas espécies as voluptuosidades do corpo: 

À primeira espécie compreende todas as volúpias que exercem 
sobre os sentidos uma impressão atual, manifesta, e cuja causa é 
o restabelecimento dos órgãos consumidos pelo calor interno. 
Essa impressão nasce, de um lado, da ação de beber e comer que 
devolve as forças perdidas; de outro lado, das funções animais 
que expelem do corpo as matérias supérfluas. Tais são as secre- 
ções intestinais, o coito e o alívio duma comichão qualquer, ao 
esfregar-se ou ao coçar-se. 

Algumas vezes o prazer dos sentidos não provém das funções 
animais que reparam os órgãos esgotados, ou os aliviam duma 
exuberância penosa; mas pelo efeito duma força interior e indefi- 
nível que comove, encanta e seduz; tal é o prazer que nasce da 
música. 

A segunda espécie de volúpia sensual consiste no equilíbrio 


258 THOMAS MORE 


estável e perfeito de todas as partes do corpo, isto é, numa saúde 
isenta de mal-estar. Com efeito, o homem que não é afetado pela 
dor, experimenta em si um certo sentimento de bem-estar, 
mesmo que nenhum objeto exterior agite agradavelmente os seus 
órgãos. É verdade que esta espécie de volúpia não afeta nem 
atordoa os sentidos, como por exemplo os prazeres da mesa; 
apesar disso, muitos a colocam em primeiro lugar; e quase todos 
os utopianos declaram que ela é a base e o fundamento da verda- 
deira felicidade. Porque, dizem, só uma saúde perfeita torna a 
condição da vida humana tranquila e apetecível; sem saúde, não 
há voluptuosidade possível; sem ela, a própria ausência da dor 
não é um bem, é a insensibilidade do cadáver. 

Uma viva disputa travou-se outrora na Utopia a este respeito. 
Alguns pretendiam que não se devia contar no número dos pra- 
zeres uma saúde estável e tranquila, porque esta não dá a perce- 
ber um gozo atual e diferente, como as sensações que nos vêm de 
fora. Mas hoje, todos, com pequeniíssima exceção, concordam 
em proclamar a saúde como uma volúpia essencial. Com efeito, 
para eles, é a dor que, na moléstia, é a inimiga da saúde; por que 
então não haveria prazer na saúde, da mesma forma que há dor 
na moléstia? Pouco importa que a doença seja a dor ou que a 
dor seja inerente à moléstia, desde que os resultados são de todo 
semelhantes. Ainda que se considere a saúde como a própria 
voluptuosidade, ou como a causa que a produz necessariamente, 
assim como o fogo produz necessariamente o calor, o homem de 
saúde inalterável deve nos dois casos experimentar um certo 
prazer. 

Quando comemos, perguntam os utopianos, não é a saúde 
que, começando a desfalecer, luta contra a fome com a ajuda 
dos alimentos? Estes avançam, repelindo o seu inimigo cruel, e 


A UTOPIA - II á 259 


dão ao homem a alegria que acompanha o retorno do seu vigor 
normal. Mas a saúde, que lutara com tanto gosto, não teria o 
direito de rejubilar-se após a vitória? O que ela procurava na 
luta era a sua força primitiva; e, obtido este resultado, é admis- 
sível que venha a cair num entorpecimento estúpido, sem conhe- 
cer e apreciar a própria felicidade? 


Em conseqgiiência disto, os utopianos rejeitam completamente 
a opinião de que o homem sadio não tem consciência de seu 
estado. Segundo eles, é necessário estar-se doente ou adormecido 
para não sentir que está são; seria preciso ser-se de pedra, ou 


estar-se atacado de letargia, para não se comprazer com uma 
saúde perfeita, e nisso sentir encanto. Ora, este encanto, esta 
satisfação, que outra coisa é senão a voluptuosidade? 


Eles se entregam acima de tudo aos prazeres do espírito, que 
encaram como o principal e mais essencial de todos os prazeres; 
colocam no plano dos mais puros e mais desejáveis a prática da 


virtude e a consciência de uma vida sem mancha. Entre as volú- 
pias corporais, dão preferência à saúde, porque não se deve pro- 
curar a boa mesa e os outros prazeres da vida animal senão 


visando à conservação da saúde, visto que essas coisas não são 
deleitáveis em si mesmas, mas unicamente em virtude de se opo- 
rem à invasão secreta da moléstia. 


O homem prudente previne o mal, de preferência a empregar 
os remédios; evitar a dor antes de recorrer aos alívios. De 
conformidade com essas normas, os utopianos usam de todos os 
prazeres corporais, para cuja privação fosse preciso o emprego 
de meios curativos. Mas não depositam toda sua felicidade nes- 
ses prazeres; do contrário, o cúmulo da felicidade humana seria 
a fome e a sede permanentes, pois que seria preciso então comer 


260 THOMAS MORE 


e beber sem cessar. Certamente semelhante vida seria tão mise- 
rável quão ignóbil. 

Os prazeres animais são os mais vis, os menos puros, e sem- 
pre uma dor os acompanha. Não está presa a fome ao prazer de 
comer, e isto em proporções desiguais? Com efeito, a sensação 
da fome é a mais violenta; ela é também a mais durável, pois 
nasce antes do prazer e não morre senão com ele. 

Os utopianos, formados nesses princípios, pensam que se não 
deve dar importância as volúpias carnais senão na medida em 
que são úteis. Todavia, eles se entregam alegremente a elas, 
agradecidos à natureza, que, ao cuidar do homem, tem a ternura 
duma mãe e mistura impressões tão doces e suaves com as fun- 
ções indispensáveis da vida. 

Que triste destino seria o nosso, se nos fosse preciso expulsar, 
à força de venenos e drogas amargas, a fome e a sede de cada 
dia, como expulsamos as moléstias que nos assaltam de longe 
em longe! 

Eles mantêm e cultivam de boa vontade a beleza, o vigor, a 
agilidade do corpo, os dons mais agradáveis e felizes da nature- 
za. Admitem também os prazeres que a natureza criou exclusi- 
vamente para o homem e que fazem a graça e o encanto da vida. 
Porque o animal não demora a olhar sobre a magnificência da 
criação, sobre a ordem e o arranjo do Universo. Sente o odor 
para distinguir a alimentação, mas não saboreia a delícia dos 
perfumes; não conhece as relações dos sons, e não aprecia nem 
a dissonância nem a harmonia. 

Finalmente, em toda espécie de satisfações sensuais, os uto- 
pianos não esquecem jamais esta regra prática: Fugir à volúpia 
que impede gozar uma volúpia maior ou que é seguida de qual- 
quer dor. Ora, a dor é, a seus olhos, a consequência inevitável de 
toda volúpia desonesta. 


A UTOPIA -I 261 


Eis ainda um de seus princípios: 

Desprezar a beleza do corpo, enfraquecer suas forças, conver- 
ter sua agilidade em entorpecimento, esgotar seu temperamento 
pelo jejum e pela abstinência, arruinar a saúde, em uma palavra, 
repelir todos os favores da natureza, no intuito de devotar-se 
mais eficazmente à felicidade humana, na esperança de que 
Deus venha recompensar essas penas de um dia por êxtases de 
alegria eterna, é dar mostra de religião sublime. Mas crucificar a 
carne, sacrificar-se por um vão fantasma de virtude, ou para 
habituar-se antecipadamente a misérias que talvez não aconte- 
çam nunca, é dar mostra de loucura, de uma covarde crueldade 
para consigo mesmo, de orgulhosa ingratidão para com a natu- 
reza. É pisar aos pés os benefícios do Criador, como desde- 
nhando ser-lhe obrigado em alguma coisa. 

Tal é a teoria utopiana no que se refere à virtude e ao prazer. 
A menos que uma revelação descida do céu inspire ao homem 
algo de mais santo, eles créem que a razão humana não pode 
conceber nada de mais verdadeiro. 

Esta moral é boa, é má? É o que não discutirei; não tenho 
tempo para tanto e não é, aliás, necessário ao meu objetivo; faço 
apenas história e não uma apologia. O que é certo para mim, é 
que o povo da Utopia, graças às suas instituições, é o primeiro 
de todos os povos, e que não existe em parte alguma república 
mais feliz. 

O utopiano é agil e nervoso; sem ser de pequeno talhe, é mais 
vigoroso do que parece exteriormente. A ilha não é de igual ferti- 
ildade em todos os lugares; o ar não é em toda parte igualmente 
puro e salubre. Os habitantes combatem pela temperança as 
influências funestas da atmosfera; corrigem o solo por meio 
duma excelente cultura; de modo que em nenhuma outra parte vi 
Jamais gado tão robusto, nem mais abundantes colheitas. Em 


262 THOMAS MORE 


país nenhum a vida do homem é mais longa e as moléstias 
menos numerosas. 

Não somente os cidadãos agricultores executam com grande 
perfeição os trabalhos que tornam fértil uma terra naturalmente 
ingrata, mas o povo em massa é empregado algumas vezes em 
derrubar florestas mal situadas para a comodidade de trans- 
porte, e plantar novas perto do mar, dos rios ou das cidades; 
porque de todos os produtos do solo, a madeira é o mais difícil 
de transportar por terra. 

O povo utopiano é espiritual, amável, engenhoso, ama o lazer, 
é paciente no trabalho, quando o trabalho é necessário; sua pai- 
xão favorita é o exercício e o desenvolvimento do espirito. 

Durante a nossa estada na ilha tivemos ocasião de dizer algo 
aos seus habitantes das letras e ciências da Grécia. Era verdadei- 
ramente curioso ver o ardor com que esses bons insulares nos 
suplicavam interpretar-lhes os autores gregos; não lhes falamos 
dos latinos, pensando que não apreciariam desses últimos senão 
os historiadores e poetas. Afinal foi forçoso ceder às suas súpli- 
cas; e, confessar-vos-ei, foi de nossa parte um ato de pura 
complacência de que não esperávamos tirar grande proveito. 
Mas, depois de algumas lições, tinhamos razão em nos felicitar 
pelo êxito do empreendimento. Ficamos maravilhados da facili- 
dade com que nossos discípulos copiavam a forma das letras, da 
nitidez de sua pronúncia, da presteza de sua memória e da fideli- 
dade de suas traduções. É verdade que a maior parte dos que se 
tinham entregue a esse estudo, a princípio, espontaneamente, 
com tão belo ardor, depois foi obrigada a fazê-lo por um decreto 
do senado; eram eles os sábios mais notáveis da classe dos letra- 
dos, e homens de idade madura. Em menos de três anos não 
havia nada nas obras dos bons autores que não compreendessem 


A UTOPIA - II 263 


perfeitamente à simples leitura, exceto as dificuldades prove- 
nientes de erros tipográficos. 

Sou de opinião que a grande facilidade com que aprenderam o 
grego prova que esta lingua não lhes era inteiramente desconhe- 
cida. Creio que são gregos de origem e ainda que o seu idioma se 
aproxime muito do persa; nos nomes das suas cidades e magis- 
traturas encontram-se alguns traços da lingua grega. 

Quando de minha quarta viagem à Utopia, em lugar de 
mercadorias, embarquei com uma lindíssima coleção de livros, 
resolvido que estava a só regressar à Europa depois de longo 
tempo. Ao deixar os utopianos, leguei-lhes minha biblioteca; 
ficaram assim, por meu intermédio, com quase todas as obras de 
Platão, um grande número das de Aristóteles, o livro de Teo- 
frasto Acerca das Plantas, que estava rasgado em várias passa- 
gens, o que lastimo infinitamente. 

Durante a travessia descuidei-me dele e por infelicidade um 
macaco deu com o livro, e pôs-se a divertir-se arrancando-lhe as 
folhas ao acaso. Dentre os gramáticos, só pude dar aos nossos 
insulares Lascaris, por não ter trazido o grande Teodoro; em 
matéria de dicionários dei-lhes Hesichius e Dioscórido. 

Plutarco é o autor favorito deles; a jovialidade, a sedução de 
Luciano os encantam. Entre os poetas possuem Aristófanes, 
Homero, Euripides e Sófocles. Como historiadores, deixei-lhes 
Tucídides, Heródoto e Herodiano. 

De medicina, têm algumas obras de Hipócrates e o Microtec- 
né, de Galeno, que meu companheiro de viagem, Tricius Apinas, 
levara consigo. Os dois últimos livros são muito apreciados 
entre eles porque se não há país algum onde a medicina seja 
menos necessária do que na Utopia, em compensação em parte 
alguma é mais respeitada. Os utopianos a situam entre as partes 


264 THOMAS MORE 


mais úteis e mais nobres da filosofia natural. O médico, costu- 
mam dizer, que se aplica em penetrar os mistérios da vida, não 
somente tira deste estudo admiráveis prazeres, como ainda se 
torna agradável ao divino obreiro, autor da vida. Nas idéias uto- 
pianas, o Criador, assim como os operários da terra, expõe sua 
máquina do mundo aos olhos do homem, único ser capaz de 
compreender esta bela imensidade. Deus olha com amor aquele 
que admira essa grande obra e procura descobrir suas molas e 
leis; olha com piedade o que permanece frio e estúpido perante 
esse maravilhoso espetáculo, como um animal sem alma. 

É fácil compreender agora por que os utopianos, cujo espírito 
é cultivado incessantemente pelo estudo das ciências e das letras, 
são tão dotados para as artes e invenções úteis ao bem-estar da 
vida. Devem a nós a imprensa e a fabricação do papel; mas nisto 
seu próprio gênio lhes serviu tanto quanto as nossas lições, pois 
não conhecíamos bem a fundo nenhuma dessas duas artes. Não 
fizemos senão mostrar as invenções tipográficas dos Aldos e 
falar-lhes em termos vagos da matéria empregada na fabricação 
do papel, e demais processos de impressão. Logo adivinharam o 
que apenas havíamos indicado. 

Antes escreviam em peles, cascas, folhas de papiro; ensaiaram 
logo depois fabricar papel e imprimir. Estas primeiras tentativas 
foram estéreis, mas à força de experiências mil vezes repetidas 
chegaram a obter um êxito completo; e se tivessem à mão todos 
os manuscritos gregos poderiam tirar numerosas edições. Eles 
não possuem hoje outros livros além dos deixados por mim; mas 
estes livros já foram multiplicados por milhares de exemplares. 

O estrangeiro que aporta à Utopia é bem recebido, se se reco- 
menda por um mérito real, ou se longas viagens lhe deram uma 
ciência exata dos homens e das coisas. Foi por este último título 


A UTOPIA - II 265 


que fomos recebidos de braços abertos ali, onde enorme é a 
curiosidade de conhecer-se o que se passa no estrangeiro. O 
comércio com a ilha atrai pouca gente; porque, à exceção do 
ferro, que se pode levar à Utopia? Ouro? Prata? Mas quem o 
fizesse certamente seria obrigado a voltar com um e outro. 
Quanto ao comércio de exportação, são os próprios utopianos 
que o fazem; e ao fazê-lo têm em vista dois objetivos: primeiro, 
por-se ao corrente de tudo o que se passa no exterior; e depois, 
manter e aperfeiçoar sua navegação. 


DOS ESCRAVOS 


Nem todos os prisioneiros de guerra são indistintamente 
entregues à escravidão; mas unicamente os indivíduos captura- 
dos de armas na mão. 

Os filhos de escravos não são escravos. O escravo estrangeiro 
torna-se livre ao tocar na terra da Utopia. 

A servidão recai particularmente sobre os cidadãos culpáveis 
de grandes crimes e sobre os condenados à morte pertencentes 
ao estrangeiro. Estes são muito numerosos na Utopia; os utopia- 
nos vão mesmo procurá-los no exterior onde os compram a vil 
preço; algumas vezes obtêm-nos até de graça. 

Todos os escravos são submetidos a um trabalho contínuo, e 
trazem correntes. Os que são tratados, porém, com mais rigor, 
são os indígenas, que são tidos como os mais miseráveis dos 
celerados, dignos de servir de exemplo aos outros por uma pior 
degradação. Com efeito, eles receberam todos os germens da vir- 
tude; aprenderam a ser felizes e bons, e, no entanto, abraçaram 
o crime. 

Hã ainda uma outra espécie de escravos, os trabalhadores po- 
bres das regiões vizinhas que vêm se oferecer voluntariamente 
para trabalhar. São em tudo tratados como cidadãos; apenas são 
obrigados a trabalhar um pouco mais, uma vez que têm o hábito 
de fadiga maior. São livres de partir quando querem e nunca são 
devolvidos de mãos vazias. 


268 THOMAS MORE 


Já disse dos cuidados afetuosos que têm os utopianos pélos. 
enfermos; nada é poupado que possa contribuir para sua cura, 
quer em remédios, quer em alimentos. 

Os infelizes afetados de males incuráveis recebem todos os 
consolos, todas as atenções, todos os alívios morais e físicos, 
capazes de lhes tornar a vida mais suportável. Mas quando a 
esses males incuráveis se juntam sofrimentos atrozes, que nin- 
guém pode suprimir ou suavizar, os padres e magistrados se 
apresentam ao paciente e lhe levam a exortação suprema. 

Mostram-lhe que ele está despojado dos bens e das funções da 
vida; que não faz senão sobreviver à própria morte, tornando-se 
assim um peso para si e os outros. Persuadem-no, então, a ali- 
mentar mais o mal que o devora, e a morrer com resolução, uma 
vez que a existência não é para ele senão uma horrenda tortura. 

Confiai — dizem-lhe — quebrai as cadeias que vos amarram, 
e desprendei-vos, por vossas próprias mãos, da masmorra da 
vida; ou pelo menos consenti que os outros dela vos libertem. 
Vossa morte não é uma ímpia repulsa aos bens da existência, 
mas o termo de um cruel suplício. 

Obedecer, neste caso, à voz dos padres, intérpretes da divina 
vontade, é fazer obra religiosa e santa. 

Os que se deixam persuadir pôem fim a seus dias pela absti- 
nência voluntária ou são adormecidos por meio de um narcótico 
mortal, e morrem sem se aperceber. Os que não querem a morte, 
nem por isso passam a receber menos atenções e cuidados; 
quando cessam de viver a opinião pública honra sua memória. 

O homem que se mata sem motivo reconhecido pelo magis- 
trado e pelo padre, é julgado indigno da terra e do fogo; seu 
corpo é privado de sepultura e atirado ignominiosamente nos 
pântanos. 


A UTOPIA - II 269 


As raparigas não se podem casar antes dos dezoito anos; os 
rapazes, antes dos vinte e dois. 

Os indivíduos dum e doutro sexo, convictos de se terem entre- 
gue ao prazer antes do casamento, são passíveis de uma censura 
severa; e o casamento lhes é completamente interdito, a menos 
que o príncipe-releve a falta. O pai e a mãe de família, em cuja 
casa foi o delito praticado, ficam desonrados por não terem vela- 
do com bastante cuidado pelo comportamento de seus filhos. 

Esta lei parece-vos, talvez, rígida em excesso; porém, na Uto- 
pia, pensa-se que o amor conjugal não tardaria a extinguir-se 
entre dois seres condenados a viver eternamente um em face do 
outro, € a sofrer os mil inconvenientes desse comércio intimo, se 
amores vagabundos e efêmeros fossem tolerados e impunes. 

Aliás, os utopianos não se casam às cegas; e, para melhor se 
escolherem, seguem um uso que, à primeira vista, nos pareceu 
eminentemente ridículo, mas que praticam com um sangue-frio e 
uma seriedade verdadeiramente notáveis. 

Uma dama honesta e grave mostra ao prometido sua noiva, 
donzela ou viúva, em estado de completa nudez; e, reciproca- 
mente, um homem de probidade comprovada mostra à rapariga 
seu noivo nu. 

Este costume singular nos fez rir muito e o consideramos 
mesmo sofrivelmente estúpido; mas, a todos os nossos epigra- 
mas, Os utopianos respondiam que nunca se cansariam de admi- 
rar a loucura da gente dos paises estranhos. 

“Quando, diziam eles, comprais um poldro, negócio de alguns 
escudos, tomais precauções infinitas. O animal está quase nu, e 
entretanto tirais-lhe a sela ou o arnês, temendo que esses fracos 
invólucros escondam alguma úlcera. E, quando se trata de esco- 
lher uma mulher, escolha que influi sobre o resto da vida, e que 


270 THOMAS MORE 


pode fazer desta uma delícia ou uma tortura, procedeis com a 
maior incúria! Como?! Prendei-vos indissoluvelmente a um 
corpo todo oculto em vestes que o envolvem; julgais a mulher 
inteira por um pedaço de sua pessoa, tão grande quanto a mão, 
pois só o rosto está à vista! E não temeis encontrar depois disto 
alguma deformidade secreta, que vos leve a maldizer esta união 
arriscada? !” 

Os utopianos tinham alguma razão em falar assim porque 
todos os homens não são bastante filósofos para estimar uma 
mulher apenas por seu espírito e coração, os próprios filósofos 
não se aborreceriam por encontrar reunidas a beleza do corpo e 
as qualidades da alma. É certo que o mais belo ornato pode 
encobrir a mais repugnante deformidade; então, o coração e os 
sentidos do infortunado marido repelirão para bem longe a mu- 
lher da qual não poderá jamais se separar fisicamente; pois se a 
mistificação não se deu senão após a consumação do enlace, não 
destrói a sua indissolubilidade, e ao marido não lhe resta mais 
do que guardar consigo a sua desventura. 

É pois necessário que as leis forneçam meios infalíveis de não 
se cair na armadilha, sobretudo na Utopia, onde a poligamia é 
severamente proscrita e onde o casamento não se dissolve, na 
maioria das vezes, senão pela morte, excetuando-se o caso de 
adultério e de costumes absolutamente dissolutos. 

Nos dois casos o senado dá ao cônjuge ofendido o direito de 
se casar novamente; o outro é condenado a viver perpetuamente 
na infaâmia e no celibato. 

Não é permitido, sob nenhum pretexto, repudiar uma mulher 
de comportamento irrepreeensível, sob o fundamento de alguma 
enfermidade corporal que haja adquirido. Abandonar assim uma 
esposa, no momento em que tem maior necessidade de socorros, 


A UTOPIA - II 271 


é, aos olhos dos utopianos, uma cruel covardia; é ainda tirar à 
velhice toda esperança no futuro, pois não é a velhice a mãe de 
todos os achaques, e não é ela, já em si, uma doença? 

Acontece algumas vezes na Utopia que o marido e a mulher, 
não podendo conviver juntos por incompatibilidade de gênios, 
procuram novas metades, que lhes prometam uma vida mais 
feliz e mais doce. A demanda de separação deve ser levada aos 
membros do senado que, após terem escrupulosamente exami- 
nado a questão, juntamente com suas mulheres, rejeitam ou 
autorizam o divórcio. Neste último caso, as duas partes queixo- 
sas separam-se com mútuo consentimento e casam-se em segun- 
das núpcias. 

O divórcio é raramente permitido; os utopianos sabem que 
dar a esperança de poder casar novamente, com facilidade, não 
é o melhor meio de estreitar os laços do amor conjugal. 

O adultério é punido com a mais dura escravidão. 

Se os dois culpados eram casados, os esposos ultrajados têm, 
cada qual, o direito de repúdio respectivo, e podem casar-se 
entre si ou com quem bem lhes pareça. 

Entretanto, se o cônjuge, homem ou mulher, que sofreu a injú- 
ria ama ainda o esposo indigno, o casamento não é rompido, 
com a condição, entretanto, de que o inocente siga o culpado 
aonde ele foi condenado a trabalhar. 

A reincidência no adultério é punida com a morte. 

As penas dos outros crimes não são invariavelmente determi- 
nadas pela lei. O senado proporciona a pena conforme a exten- 
são do delito. 

Os maridos castigam suas mulheres; os pais, seus filhos; a 
menos que a gravidade do delito exija uma reparação pública. 

A pena ordinária, mesmo para os maiores crimes, é a escravi- 


2io THOMAS MORE 


dão. Os utopianos crêem que a escravidão não é menos terrível 
para os celerados do que a morte, sendo, além disso, mais vanta- 
josa para o Estado. 

Um homem que trabalha, afirmam, é mais útil que um cadá- 
ver; e o exemplo de um suplício perpétuo inspira um terror 
muito mais duradouro do que uma matança legal, que faz o cul- 
pado desaparecer num instante. 

Quando os condenados escravos se revoltam, são mortos 
como animais ferozes e indomáveis que a cadeia e a prisão não 
puderam conter. 

Mas os que suportam pacientemente sua sorte não perdem de 
todo a esperança. Vêem-se infelizes que, domados pelo tempo e 
pelo rigor dos sofrimentos, testemunham verdadeiro arrependi- 
mento, mostrando que o crime lhes pesa com mais força do que 
o castigo. Então, a prerrogativa do príncipe, ou a voz do povo, 
concede-lhes a liberdade. 

A simples solicitação ao deboche é passível da mesma pena 
que o estupro cometido. Em toda matéria criminal, a tentativa 
bem definida é reputada igual ao fato. Os obstáculos que impe- 
dem a execução de uma má intenção não justificam aquele que a 
concebeu, e que, por certo, teria cometido o mal se tivesse 
podido. 

Os bufões da Utopia fazem as delícias dos habitantes; maltra- 
tá-los é coisa vergonhosa. Assim, o prazer que se tira da loucura 
de outrem não é proibido. Os utopianos não confiam os bobos a 
esses homens tristes e severos que as palavras e as ações mais 
cômicas não conseguem desanuviar. Temem que tão sérias 
personagens não possuam a indulgência precisa para aturar e 
cuidar de um pobre louco que não serve para nada e que nem ao 


menos os consegue fazer rir, único talento com que a natureza o 
dotou. 


A UTOPIA -II 273 


É igualmente. vergonhoso insultar a fealdade ou a mutilação; 
o que reprocha a um infeliz os defeitos físicos, que não estava 
em si evitar, passa por insensato. 

Menosprezar o zelo pela beleza natural é dar prova de uma 
preguiça ignóbil; mas chamar em seu auxílio o artifício e o enfei- 
te é infame impertinência. Os nosso insulares sabem, de expe- 
riência própria, que as graças do corpo recomendam menos uma 
mulher ao amor de seu marido, do que a probidade dos costu- 
mes, a doçura e o respeito. Muitos se deixam seduzir pela beleza; 
mas nem um só é constante e fiel, se não encontra, com a beleza, 
a bondade e a virtude. 

Os utopianos não somente afastam o crime pelas leis penais, 
como incitam à virtude com honrarias e recompensas. Estátuas 
são erguidas nas praças públicas aos homens de gênio e aqueles 
que prestaram à república serviços relevantes. Assim, a memória 
das grandes ações se perpetua e a glória dos antepassados é um 
aguilhão a estimular a conquista da posteridade e o incitamento 
ao bem. 

Aquele que afronta um só magistrado perde toda esperança de 
exercer algum dia qualquer magistratura. 

Os utopianos vivem em família. Os magistrados não se mos- 
tram nem orgulhosos nem terríveis; são chamados pais, e real- 
mente destes têm a justiça e a bondade. Recebem com simplici- 
dade as honras que as suas funções são rendidas 
voluntariamente; essas provas de deferência não constituem 
obrigação para ninguém. O próprio príncipe não se distingue da 
massa nem pela púrpura nem pelo diadema, mas apenas por um 
feixe de trigo “que traz à mão. As insígnias do pontífice redu- 
zem-se a um círio que é levado à sua frente. 

As leis são em muito pequeno número e não obstante bastam 
as instituições. O que os utopianos desaprovam especialmente 


a THOMAS MORE 


nos outros povos é a quantidade infinita de volumes, leis e 
comentários, que, apesar de tudo, não são suficientes para 
garantir a ordem pública. Consideram como injustiça suprema 
enlear os homens numa infinidade de leis, tão numerosas que se 
torna impossível conhecê-las todas, ou tão obscuras que setorna 
impossível compreendê-las. 


Não hã advogados na Utopia. Os demandistas de profissão, 
que se esforçam por torcer a lei, e decidir uma questão com a 
maior astúcia, foram dali excluídos. Os utopianos pensam que é 
preferível que cada um defenda sua causa e confie diretamente 
ao juiz o que teria a dizer a um advogado. Desta maneira há 
menos ambigiidade e rodeio e a verdade se descobre mais facil- 
mente. As partes expõem seus negócios simplesmente, pois não 
há advogados para ensinar-lhes as mil artimanhas da chicana. 

O juiz examina e pesa as razões de cada um com bom senso 
e boa fé; defende a ingenuidade do homem simples contra as 
calúnias do velhaco. 

Seria bem difícil praticar semelhante justiça nos outros países, 
enterrados num montão de leis, tão embrulhadas e tão equivo- 
cas. De resto, toda a gente na Utopia é doutor em direito; por- 
que, repito-o, as leis são em muito pequeno número e a interpre- 
tação mais grosseira e mais material é admitida como a mais 
razoável e mais justa. 

As leis são promulgadas, dizem os utopianos, com a única 
finalidade de que cada qual seja advertido de seus direitos e 
deveres. Ora, as sutilezas de vossos comentários são acessíveis a 
pouca gente e esclarecem apenas um punhado de sábios; ao 
passo que uma lei claramente formulada, cujo sentido não é 
equivoco e se apresenta naturalmente ao espírito, está ao alcance 
de todos. 


A UTOPIA -II 275 


Que importa à massa, isto é, à classe mais numerosa e à que 
mais importa ter normas se não hã leis ou que as leis estabele- 
cidas sejam de tal maneira embrulhadas que para obter-se sua 
significação verdadeira se faça necessário um gênio superior, ou 
longas discussões e longos estudos? O julgamento do vulgo não 
é bastante metafísico para penetrar essas profundidades; aliás 
toda uma existência ocupada incessantemente em ganhar o pão 
de cada dia não deixaria tempo suficiente para tal mister. 

Os povos vizinhos invejam o governo desta ilha afortunada; 
sentem-se fortemente atraídos pela sabedoria de suas instituições 
e pelas virtudes de seus habitantes. As nações livres e que se 
governam por si mesmas (muitas dentre elas foram outrora liber- 
tadas da tirania pelos utopianos) vão pedir na Utopia magis- 
trados para um ou cinco anos. Na expiração do prazo de suas, 
fundações, esses magistrados de empréstimo são reconduzidos 
ao seu país com as honras que merecem, enquanto outros par- 
tem a fim de substituí-los. 

É certo que os povos que assim agem resolvem favoravel- 
mente seus interesses. A salvação ou a perda de um império 
dependem dos costumes dos que o administram. Ora, nossos 
insulares oferecem à escola dos que os requerem para chefes as 
melhores garantias de probidade política. O utopiano não se dei- 
xará corromper pelos atrativos da riqueza, por mais brilhante 
que ela possa ser, porque dentro de pouco já não lhe serviria 
para nada: quando tivesse de retornar à pátria dentro de poucos 
anos ou meses. Tampouco o utopiano deixar-se-ia levar pelo 
amor ou pelo ódio, pois é completamente desconhecido dos seus 
administrados. 

Infeliz do país onde a avareza e as afeições privadas sentam- 
se no banco do magistrado ! Adeus justiça! o esteio mais firme 
dos Estados! 


276 THOMAS MORE 


A república utopiana reconhece como aliados os povos que 
lhe vêm pedir chefes, e por amigos os que lhe devem um benefi- 
cio. Quanto aos tratados que as outras nações assinam tão 
frequentemente para rompé-los e renová-los em seguida, ela 
nunca os assina. 

Para que servem os tratados? interrogam os utopianos. Não 
uniu a natureza o homem ao homem por laços bastante indisso- 
lúveis? Aquele que despreza esta aliança íntima e sagrada terá 
escrúpulo em violar um protocolo? 

Consolida-os nesta opinião o fato de que nas terras desse 
novo mundo é raro que as convenções entre príncipes sejam 
observadas de boa fé. 

Na Europa, e principalmente nas regiões onde reinam a fé e a 
religião de Cristo, a majestade dos tratados é santa e inviolável. 
Isso decorre em parte da justiça e da bondade dos monarcas, em 
parte do temor e do respeito que lhes inspiram os soberanos 
pontífices. Os papas em nada se comprometem que não execu- 
tem religiosamente; por isso obrigam os outros soberanos a 
cumprirem exatamente as suas promessas, empregando o inter- 
dito pastoral e a severidade canônica para forçar os que tergiver- 
sam. Os papas crêem com razão que seria vergonhoso para a 
cristandade ver aqueles que se glorificam acima de tudo do 
nome de Fiéis, se mostrarem infiéis às suas próprias convenções. 

Mas, nesse novo mundo separado do nosso, menos ainda pelo 
círculo equatorial do que pelos usos e costumes, não se presta 
nenhuma confiança aos tratados. Uma repentina ruptura segue 
de ordinário aos juramentos de paz mais solenes e que recebe- 
ram a consagração das mais santas cerimônias. É muito fácil 
descobrir matéria para chicana no texto de uma aliança; os 
negociadores insinuam de má fé, nos textos, manhosas escapató- 


A UTOPIA - II 277 


rias, a fim de que o príncipe não fique jamais indissoluvelmente 
preso, e possa encontrar sempre uma saída secreta para seus 
compromissos. 

E, entretanto, este mesmo ministro que se vangloria de falsifi- 
car assim as negociações, por conta do rei, seu senhor, se perce- 
besse que semelhantes embustes, ou melhor, velhacarias, eram 
introduzidos num contrato entre simples particulares, este 
mesmo diplomata, franzindo o sobrolho do alto de sua probida- 
de, condenaria a fraude como um sacrilégio digno da forca. 

Por este exemplo, dir-se-ia que a justiça é uma virtude plebéia 
e de baixo nível, a rastejar muito abaixo dos tronos dos reis. A 
menos que se distingam duas espécies de justiças; uma boa para 
o povo, que anda a pé e de cabeça baixa, encerrada em estreitos 
limites que não pode transpor; outra, para uso dos reis, infinita- 
mente mais augusta e mais elevada, infinitamente mais livre, e a 
qual só está inibida de fazer o que não quer. 

Sou levado a pensar que a deslealdade dos príncipes nesses 
países longínquos é a causa que determina os utopianos a não 
assinar nenhuma espécie de convenção diplomática. Mudariam 
talvez de opinião se morassem na Europa. 

Contudo, em tese, encaram como um mal a introdução de tra- 
tados entre os povos, mesmo que fossem observados religiosa- 
mente. Este uso habitua os homens a se considerarem mutua- 
mente inimigos, nascidos para se guerrearem sempre e para 
legitimamente se entredevorarem, na falta de um tratado de paz; 
como se não houvesse mais uma sociedade natural entre duas 
nações só porque uma colina ou um rio as separa. 

Ainda se as alianças garantissem a amizade dos confedera- 
dos, mas, na realidade, nunca eliminam elas todos os pretextos 
de rompimento, e por conseguinte, de saque e de guerra, dada a 


278 THOMAS MORE 


leviandade dos diplomatas que redigem os artigos. É raro que os 
plenipotenciários possam abarcar todos os casos possíveis de 
proibições e compromissos, ou que os formulem de uma forma 
perfeitamente clara e precisa. 

Os utopianos têm por princípio que não se deve ter por inimi- 
go senão aquele que se torna culpado de injustiça ou violência. 
A comunhão na mesma natureza parece-lhes um laço mais 
indissolúvel do que todos os tratados. 

O homem, afirmam, está unido ao homem de uma maneira 
mais íntima e mais forte pelo coração e pela caridade do que 
pelas palavras e protocolos. 


A UTOPIA II 


DA GUERRA 


Os utopianos abominam a guerra como uma coisa puramente 
animal e que o homem, no entanto, pratica mais frequentemente 
do que qualquer espécie de animal feroz. Contrariamente aos 
costumes de quase todas as nações, nada existe de tão vergo- 
nhoso na Utopia como procurar a glória nos campos de batalha. 
Não se quer dizer com isto que eles não se exercitem com muita 
assiduidade na disciplina militar; as próprias mulheres são a isto 
obrigadas tanto quanto os homens; certos dias são fixados para 
Os exercícios, a fim de que ninguém fique sem habilitação para o 
combate quando chegar o momento de combater. 

Mas os utopianos não fazem a guerra sem graves motivos. Só 
a empreendem para defender suas fronteiras ou repelir uma inva- 
são inimiga nas terras de seus aliados, ou ainda para libertar da 
escravidão e do jugo de um tirano um povo oprimido. Neste 
caso, não consultam os seus interesses; vêem apenas o bem da 
humanidade. 

A república da Utopia presta gratuitamente socorros a seus 
amigos, não só no caso de agressão armada, mas também para 
vingar e obter reparação de uma injúria. Entretanto, no caso, ela 
só age assim quando foi consultada antes da declaração de guer- 
ra; examina então concienciosamente a justiça da causa, e se o 
povo que cometeu o dano não o quer reparar, é, então, declarado 
o único autor e o único responsável pelos males da guerra. 


280 THOMAS MORE 


Os utopianos tomam esta deliberação extrema todas as vezes 
que se dá um saque em consegiência de uma invasão armada. 
Mas a sua cólera nunca é tão horrível como quando os nego- 
ciantes de uma nação amiga, sob o pretexto de algumas leis ini- 
quas, ou de conformidade com uma interpretação pérfida de leis 
justas, sofreram no estrangeiro vexações- injustas em nome da 
Justiça. 

Tal foi a origem da guerra que empreenderam pouco antes da 
atual geração contra os alaopólitas e a favor dos nefelógitas. 

Os alaopólitas, no dizer dos nefelógitas, causaram a alguns de 
seus comerciantes prejuízos consideráveis, sob um pretexto legal 
qualquer. Fosse ou não a queixa fundamentada, o fato é que 
resultou uma guerra atroz. Aos ódios e às forças dos dois inimi- 
gos principais, juntaram-se as paixões e os socorros dos países 
vizinhos. Nações poderosas foram violentamente sacudidas, ou- 
tras derrotadas. Esta deplorável sucessão de males só terminou 
com a derrota completa e a escravidão dos alaopólitas. Estes úl- 
timos foram submetidos à dominação dos nefelógitas, dado que 
a guerra não envolvia interesse direto dos utopianos. Entretanto, 
os nefelógitas estavam longe da situação florescente dos 
primeiros. 

É com tamanho vigor que os nossos insulares vingam o ultra- 
je feito a seus amigos, mesmo que esteja em jogo apenas o 
dinheiro destes últimos. São menos ciosos quanto a seus pró- 
prios negócios. E se acontece que alguns de seus cidadãos são 
despojados de seus bens no estrangeiro, vítimas de alguma tra- 
páça, vingam-se do povo que cometeu o ultraje cessando todo o 
comércio com ele, a menos que tenha havido atentado contra as 
pessoas. 

Não é que tenham menos apego aos interesses de seus conci- 


A UTOPIA -II 281 


dadãos do que aos de seus aliados; porém suportam com menos 
paciência as trapaças praticadas em prejuízo desses últimos, 
porque o negociante que não é utopiano perde então uma parte 
de sua fortuna privada, e esta perda representa para ele uma 
pura desgraça, ao passo que o utopiano não perde senão parte 
da fortuna pública, ou melhor, parte da abundância e do supér- 
fluo de seus países; e, então, a exportação é proibida. É por isso 
que as perdas em dinheiro só debilmente afetam na Utopia os 
indivíduos. Eles julgam, e com razão, que seria demasiado cruel 
vingar, com a morte de um grande número de pessoas, um dano 
que não pode afetar nem a vida nem o bem-estar de seus 
concidadãos. 

Aliás, caso um utopiano seja maltratado ou morto injusta- 
mente, em consequência de deliberação pública ou premeditação 
privada, a república encarrega seus embaixadores de verificarem 
o fato; pede que lhe sejam entregues os culpados e, no caso de 
recusa, somente a imediata declaração de guerra pode apazi- 
guá-la. No caso contrário, os autores do crime são punidos com 
a morte ou com a escravidão. 

Os utopianos choram amargamente sobre os louros de uma 
vitória sangrenta; envergonham-se mesmo, considerando absur- 
do comprar as mais brilhantes vantagens ao preço do sangue 
humano. Para eles, o mais belo título de glória é o de ter vencido 
o inimigo à força de habilidade e engenho. É então quando cele- 
bram os triunfos públicos e erguem os troféus, como após uma 
ação heróica; é então quando se vangloriam de ter agido como 
homens e como heróis, uma vez que venceram unicamente pela 
força da razão, coisa de que não é capaz nenhum animal, exceto 
o homem. Os leões, dizem, os ursos, os javalis, os lobos, os cães 
e outros animais ferozes não sabem empregar no combate senão 


282 THOMAS MORE 


as forças corporais; a maioria deles nos sobrepuja em audácia e 
vigor, mas todos, entretanto, se dobram ao império da inteli- 
gência e da razão 

Fazendo a guerra, os utopianos não têm outra finalidade 
senão obter o que lhes teria evitado declará-la, caso suas recla- 
mações fossem satisfeitas antes da ruptura da paz. Quando toda 
satisfação é impossível, vingam-se sobre os provocadores, de 
forma a impedir, no futuro, pelo terror, os que ousassem tentar 
repetir semelhantes cometimentos. Tal é o fito dos utopianos na 
execução dos seus projetos, fito que se esforçam por atingir com 
presteza, procurando antes evitar o perigo que colher uma fama 
inútil. 

Uma vez declarada a guerra, eles tratam de mandar pregar, 
secretamente, no mesmo dia, nos lugares mais visíveis do país 
inimigo, proclamações revestidas com o selo do Estado. Essas 
proclamações prometem magníficas recompensas ao assassino 
do príncipe inimigo; outras recompensas menos consideráveis, 
ainda que bastante sedutoras, pelas cabeças de um certo número 
de indivíduos, cujos nomes são escritos nessas fatais proclama- 
ções. Os utopianos proscrevem, desta maneira, os conselheiros 
ou os ministros, que são, depois do príncipe, os principais auto- 
res da ofensa. 

O preço prometido pelo homicídio é dobrado para quem 
entregar vivo um dos proscritos. Mesmo aqueles cujas cabeças 
foram postas a prêmio são convidados a trair seus partidários 
por oferecimento de iguais recompensas e pela promessa de 
impunidade. 

Esta medida tem por efeito colocar imediatamente os chefes 
do partido adverso em estado de suspeição mútua. Não há mais 
confiança entre eles, e não se sentem mais seguros; temem uns 


A UTOPIA - II 283 


aos outros e este temor não é quimérico. Não é raro acontecer 
que muitos sejam traidos, sobretudo o príncipe, por aqueles em 
que depositavam mais confiança. Tal é o poder que tem o ouro 
para arrastar ao crime! Também, os utopianos não poupam 
dinheiro nessa circunstância. Recompensam com a gratidão 
mais generosa aqueles que impelem aos perigos da traição; eles 
têm o cuidado de fazer com que a grandeza do perigo seja larga- 
mente compensada pela magnificência do prêmio. 

É por isso que prometem aos traidores não só imensas somas 
em dinheiro, mas ainda a propriedade perpétua de terras de 
grande rendimento situadas em lugar seguro no país aliado. E 
cumprem fielmente a palavra. 

O uso de negociar os seus próprios inimigos, pondo suas 
cabeças a prêmio, é reprovado nos outros países como uma infã- 
mia digna unicamente de almas degradadas. Os utopianos, 
porém, se gabam disso como de uma ação de alta sabedoria que 
termina sem combate as guerras mais terríveis. Honram-se disso 
como de uma ação humanitária e misericordiosa, que resgata, ao 
preço da morte de um punhado de culpados, a vida de vários 
milhares de inocentes, de um como de outro lado, destinados a 
morrer nos campos de batalha. A piedade dos utopianos tam- 
bém se estende aos soldados de todas as bandeiras; sabem que o 
soldado não vai por sua própria vontade à guerra, mas é arras- 
tado pelas ordens e pelos furores dos príncipes. 

Se os meios precedentes não dão resultados, os nossos insula- 
res semeiam e alimentam a discórdia, dando ao irmão do prin- 
cipe ou a alguma outra personagem a esperança de se apoderar 
do trono. Se as facções internas definham amortecidas, então 
eles instigam as nações vizinhas do inimigo, jogando-as contra 
eles, exumando mesmo alguns desses velhos títulos que nunca 


284 THOMAS MORE 


faltam aos reis; ao mesmo tempo, prometem socorros aos novos 
aliados, dando-lhes dinheiro. 

Os cidadãos são para a república da Utopia o tesouro mais 
caro e mais precioso: a consideração que os habitantes da ilha 
têm uns pelos outros é de tal modo elevada que não consentiriam 
de bom grado em trocar qualquer dos seus por um principe ini- 
migo. Prodigalizam ouro sem pena porque este não é empregado 
senão para os usos já referidos e porque nenhum deles seria 
exposto a viver menos comodamente, mesmo que lhes fosse 
necessário gastar o último escudo. 

Aliás, além das riquezas guardadas na ilha, são os utopianos 
ainda, creio já tê-lo dito, credores para muitos Estados de imen- 
sos capitais. É com parte deste dinheiro que eles alugam solda- 
dos de todos os países e principalmente do país dos zapoletas, 
situado a leste da Utopia, numa distância de- quinhentos mil 
passos. 

O zapoleta, povo bárbaro, feroz e selvagem, não sabe viver 
senão no meio das florestas e rochedos em que foi nutrido. Cale- 
jado na fadiga, suporta pacientemente o frio, o calor, o trabalho. 
As delícias da vida lhe são desconhecidas; menospreza a agri- 
cultura, a arte de bem morar e de bem vestir. Não possui outra 
indústria que a criação dos rebanhos, e as mais das vezes não 
conhece outros meios de vida além da caça e da pilhagem. 

Nascidos exclusivamente para a guerra, os zapoletas a procu- 
ram avidamente e não perdem nenhuma oportunidade de fazê-la; 
entao descem aos milhares das montanhas e vendem a baixo 
preço seus serviços à primeira nação que deles necessite. O 
único ofício que sabem exercer é o de matar; batem-se com bra- 
vura e incorruptível fidelidade a serviço dos que os contratam. 
Nunca se alistam por tempo determinado; e sempre sob a condi- 


A UTOPIA - II 285 


ção de passar no dia seguinte para o inimigo se lhe oferecer me- 
lhor paga, ou voltar à primeira bandeira se aí lhes concedem 
ligeiro aumento no soldo. 

É raro haver uma guerra nessas regiões sem que haja zapole- 
tas nos dois campos. É também comum verem parentes muito 
próximos, amigos estreitamente ligados, enquanto serviam a 
mesma causa, combatendo-se com o mais vivo encarniçamento, 
desde que a sorte os dispersou pelas fileiras das duas partes 
contrárias. Eles esquecem família, amizade e se matam furiosa- 
mente só pelo fato de dois soberanos inimigos pagarem alguns 
patacos por seu sangue e seu furor. A paixão do dinheiro é entre 
eles tão forte que um vintém a mais no soldo diário basta para 
fazê-los mudar de campo. Esta paixão degenerou numa avareza 
desenfreada, mas inútil; porque o que o zapoleta ganha pelo san- 
gue derramado, gasta-o na devassidão. 

Este povo faz a guerra pelos utopianos, contra todo o mundo, 
porque em parte alguma encontra melhor pagamento. De seu 
lado, os utopianos, que tratam a gente honrada com honesti- 
dade, ajustam com muito gosto essa infame soldadesca para 
enganá-la e destruí-la. Quando precisam dos zapoletas começam 
por seduzilos com brilhantes promessas; depois expóem-nos 
sempre nos postos mais perigosos. À maior parte perece e não 
volta para reclamar o que se lhes prometera; os que sobrevivem 
recebem exatamente o preço convencionado e esta boa fé ani- 
ma-os a afrontar outra vez o perigo com a mesma audácia. Aos 
utopianos pouco se lhes dá perder grande número desses merce- 
nários, pois estão persuadidos de que serão beneméritos do gêne- 
ro humano se puderem um dia expurgar a terra desta raça impu- 
ra de bandidos. 

Além dos zapoletas, os utopianos empregam ainda, em tempo 


286 THOMAS MORE 


de guerra, as tropas dos Estados de que tomam a defesa, e mais 
as legiões auxiliares de seus outros aliados; só depois, por últi- 
mo, recorrem a seus próprios concidadãos, entre os quais esco- 
lhem um homem de talento e coragem para colocar à frente de 
todo o exército. 

Este general-chefe tem sob suas ordens dois lugares-tenentes 
que não possuem nenhum poder enquanto ele pode comandar. 
Assim que o general é morto ou aprisionado, um dos seus dois 
lugares-tenentes lhe sucede como por direito de herança; este úl- 
timo é, por sua vez, substituído por um terceiro. Resulta disto 
que os perigos a que está exposto pessoalmente o general, sujeito 
como qualquer um aos azares da guerra, não poderá jamais 
comprometer a sorte do exército. 

Cada cidade recruta e exercita suas tropas, formadas pelos 
que se alistam voluntariamente. Ninguém é alistado contra a 
vontade para as expedições longínquas, pois um soldado natu- 
ralmente medroso, em lugar de se comportar valorosamente, não 
pode senão infundir nos camaradas sua própria covardia. Entre- 
tanto, em caso de guerra intestina, todos os poltrões robustos e 
válidos são utilizados; enquanto uns são postos entre os melho- 
res soldados, a bordo dos navios do Estado, os outros são disse- 
minados pelas praças fortes. 

Aí, não há possibilidade de retirada; o inimigo está a dois pas- 
sos, a fuga é impossível, e os camaradas os observam. Esta posi- 
ção extrema sufoca o temor da morte; e muitas vezes o excesso 
do perigo faz leão o mais covarde dos homens. 

Se a lei não obriga ninguém a marchar contra sua vontade 
para a fronteira, permite às mulheres que o queiram acompanhar 
seus maridos no exército. Longe de serem impedidas, são, ao 
contrário, estimuladas a seguir, constituindo tal gesto para elas 


A UTOPIA - II 287 


brilhante título de honra. Durante o combate, os esposos são 
colocados no mesmo posto, cercados de seus filhos, de seus alia- 
dos e parentes, a fim de que se prestem um mútuo e rápido 
socorro, os que a natureza impele a se protegerem entre si com 
mais afinco. 

A desonra e a infâmia esperam o esposo que volta sem a mu- 
lher e o filho sem o pai. Também quando os utopianos são força- 
dos a passar às vias de fato e o inimigo resiste, uma longa e lúgu- 
bre refrega precipita a carnificina e a morte. Lançam mão de 
todos os meios para não se expor pessoalmente ao combate e ter- 
minar a guerra apenas por meio dos auxiliares que mantêm as 
suas custas. Mas se surge a necessidade imperiosa de entrar real- 
mente em combate, sua intrepidez, na ação, não é menor do que 
a prudência despendida quando era possível. 

Não põem todo o entusiasmo no primeiro choque. A resis- 
tência e a duração duma batalha reforçam pouco a pouco o seu 
valor, exaltando-os a ponto de tornar-se mais fácil matá-los que 
fazê-los recuar. 

O que lhes inspira esse valor sublime, esse desprezo pela 
morte e pela vitória é a certeza de ter, sempre em sua terra, de 
que viver perfeitamente, sem carecer inquietar-se sobre a sorte 
da família, inquietação essa que, em todos os outros lugares, 
alquebra as almas mais generosas. O que ainda aumenta a con- 
fiança é a habilidade extrema na tática militar; é enfim, acima de 
tudo, a excelente educação que recebem, desde a infância, nas 
escolas e instituições da república. Desde cedo aprendem a não 
desdenhar tanto a vida, para esbanjá-la estouvadamente; mas 
também a não amá-la tanto para guardá-la com vergonhosa ava- 
reza, quando a honra exige que seja arriscada. 

No mais forte da peleja, um troço seleto de jovens, conjurados 


288 THOMAS MORE 


e devotados até à morte, tem por objetivo perseguir a todo o 
transe o chefe do exército inimigo. Ataca-o de surpresa ou a 
descoberto, de perto ou de longe. Esta pequena tropa disposta 
em triângulo não faz alto nem conhece repouso. É continua- 
mente renovada com novos recrutas perfeitamente descansados 
que substituem os soldados fatigados; é raro que não consiga o 
seu fim, isto é, matar o general inimigo ou aprisioná-lo, a menos 
que este escape pela fuga. 

Os utopianos, uma vez vitoriosos, não matam inutilmente os 
vencidos. Preferem prender a matar os fugitivos, e nunca os per- 
seguem sem ter ao mesmo tempo um corpo de reserva disposto 
em ordem de batalha e preparado. Salvo no caso em que, desba- 
ratadas as suas primeiras linhas, a retaguarda arrebate a vitória, 
os utopianos preferem deixar escapar todos os inimigos a ter que 
correr atrás deles e a habituar, com isso, os soldados a rompe- 
rem as próprias filas, desordenadamente. Não se esquecem que 
muitas vezes deveram sua salvação a esta tática. 


Realmente, muitas vezes o inimigo, depois de ter derrotado 
completamente o grosso do exército utopiano, tem-se arremes- 
sado, sem ordem, embriagado pelo triunfo, no encalço dos fugiti- 
vos. Nesse momento uma pequena reserva, atenta às oportuni- 
dades, pode mudar rapidamente a face do combate, atacando os 
vencedores de improviso quando estes, dispersos aqui e ali, se 
esquecem de toda a precaução por excesso de confiança. Desta 
forma, a vitória mais segura tem sido algumas vezes arrebatada 
das mãos que a detinham e, por seu turno, os vencidos batem os 
vencedores. 

É difícil afirmar-se se os utopianos são mais hábeis em armar 
emboscadas do que prudentes em evitá-las. Acreditarieis que 
preparam uma fuga quando preparam justamente o contrário; e, 


A UTOPIA - II 289 


reciprocamente, se tinham intenção de fugir não o poderieis adi- 
vinhar. Quando se sentem bastante inferiores em posição ou em 
número, levantam o acampamento de noite, em profundo silên- 
cio, ou então contornam o perigo com qualquer outro estrata- 
gema. Algumas vezes retiram-se em pleno dia, mas em tão boa 
ordem que não é menos perigoso atacá-los durante a retirada do 
que quando oferecem batalha. 

Têm o maior cuidado em defender o próprio campo com fos- 
sos grandes e profundos; a terra dali retirada é amontoada no 
interior do campo. Estas construções não são entregues a operá- 
rios mas aos próprios soldados; todo o exército trabalha, exce- 
tuando-se as sentinelas que velam armadas em redor do campo, 
prontas a fazer abortar qualquer surpresa. Por esse meio, pode- 
rosas fortificações são erguidas prontamente, abrangendo uma 
imensa extensão de terreno. 

As armas defensivas dos utopianos são muito sólidas, e, entre- 
tanto, prestam-se tão bem a toda espécie de movimentos e gestos 
que não embaraçam nem mesmo o soldado a nado. Um dos pri- 
meiros exercícios militares ensinados aos soldados da Utopia, é 
o de nadar armado. Combatem de longe com a azagaia, que lan- 
çam com vigor e segurança, tanto cavaleiros como infantes. De 
perto, em lugar de espadas, combatem com machados, cujo 
corte ou peso ocasionam inevitavelmente a morte, qualquer que 
seja a direção do golpe. São extremamente engenhosos em inven- 
tar máquinas de guerra, e as novas máquinas ficam cuidadosa- 
mente secretas até o momento de ser postas em uso, por temor 
de que, sendo conhecidas anteriormente, se tornem mais um 
brinquedo ridículo do que um objeto de real utilidade. O que 
mais procuram, ao fabricá-las, é a facilidade de transporte e a 
aptidão de girar em todos os sentidos. 


290 THOMAS MORE 


Os utopianos observam tão religiosamente as tréguas con- 
cluídas com o inimigo que não as violam mesmo em caso de 
provocação. Não devastam as terras do país conquistado; não 
queimam suas colheitas; vão até a impedir, tanto quanto possi- 
vel, que elas sejam esmagadas sob os pés dos homens e dos 
cavalos, na previsão de que venham a necessitar delas um dia. 

Nunca maltratam um homem sem armas, a menos que seja 
espião. Conservam as cidades que se rendem e não abandonam 
à pilhagem as que tomam de assalto. Apenas, matam os princi- 
pais chefes que puseram obstáculos à rendição da praça, e con- 
denam a escravidão o resto dos que enfrentaram o sítio. Quanto 
à massa indiferente e pacífica, deixam-na em paz. Se sabem que 
um ou mais sitiados haviam aconselhado a capitulação, dão-lhes 
uma parte dos bens dos condenados; a outra parte é para as tro- 
pas auxiliares. Não tocam no despojo. 

Com a terminação da guerra, não são os aliados em favor dos 
quais foi a guerra empreendida que suportam os seus gastos; são 
os vencidos. Em virtude desse princípio, os utopianos exigem 
dos últimos, primeiramente, dinheiro, que empregam para os fins 
que já conheceis, em caso de guerra futura; em segundo lugar, a 
concessão de vastos domínios situados no território conquis- 
tado, domínios que trazem à república pingues rendas. 

Atualmente, esta república conta em vários países do estran- 
geiro com imensas rendas desta espécie; oriundas de diversas 
causas, foram pouco a pouco se acumulando e dão hoje mais de 
setecentos mil ducados. O Estado envia para essas propriedades 
cidadãos com o título de questores que vivem magnificamente, 
possuem grande séquito e fornecem ainda fortes somas ao tesou- 
ro. Muitas vezes, também, os utopianos cedem o produto dessas 
propriedades ao povo do país onde elas se acham, enquanto não 


A UTOPIA - II 291 


sentem necessidade dele. É raro que reclamem o reembolso total. 
Uma parte desses dominios é reservada aos que, cedendo à sedu- 
ção, afrontam os perigos de que já vos falei. 

Assim que um príncipe pegou em armas contra a Utopia e se 
prepara para invadir uma das terras de seu domínio, os utopia- 
nos reúnem imediatamente um exército formidável e o expedem 
para atacar o inimigo fora das suas fronteiras. Só em medida 
extrema fazem nossos insulares a guerra em sua terra; e não há 
necessidade no mundo que os force a deixar entrar na ilha um 
socorro de tropas estrangeiras. 


DAS RELIGIÕES DA UTOPIA 


As religiões, na Utopia, variam não unicamente de uma pro- 
víncia para outra, mas ainda dentro dos muros de cada cidade; 
estes adoram o Sol, aqueles divinizam a Lua ou outro qualquer 
planeta. Alguns veneram como Deus supremo um homem cuja 
glória e virtude brilharam outrora de um vivo fulgor. 

Não obstante, a maior parte dos habitantes, que é também a 
mais sábia, repele estas idolatrias e reconhece um Deus único, 
eterno, imenso, desconhecido, inexplicável, acima das percep- 
ções do espírito humano, enchendo o mundo inteiro com sua 
onipotência e não com sua vastidão corpórea. Este Deus é cha- 
mado Pai; é a ele que atribuem as origens, o crescimento, o pro- 
gresso, as revoluções e o fim de todas as coisas. É a ele unica- 
mente que rendem homenagens divinas. 

De resto, apesar da diversidade de suas crenças, todos os uto- 
pianos concordam numa coisa: que existe um ser supremo, ao 
mesmo tempo Criador e Providência. Este ser é designado, na 
língua do país, sob o nome comum de Mitra. A dissidência con- 
siste em que Mitra não é o mesmo para todos. Mas qualquer que 
seja a forma pela qual um represente seu Deus, cada um adora, 
sob esta forma, a natureza majestosa e potente, a quem somente 
pertence o soberano império de todas as coisas, por consenti- 
mento geral dos povos. 

Esta variedade de superstições tende, dia a dia, a desaparecer 


294 THOMAS MORE 


e a converter-se numa única religião, a qual parece muito mais 
razoável. É mesmo provável que a fusão já se teria operado, sem 
os infortúnios imprevistos e pessoais que impedem a conversão 
de um grande número. Muitos, em lugar de atribuir ao acaso aci- 
dentes desse jaez, metem-se a interpretá-los, sob o terror supers- 
ticioso que sentem, como uma vingança do Deus que estavam 
prestes a abandonar. Temem que este Deus se vingue de sua 
apostasia. 

Entretanto, quando aprenderam conosco o nome do Cristo, 
sua doutrina, sua vida, seus milagres, a admirável constância de 
tantos mártires, cujo sangue voluntariamente vertido submeteu à 
lei do Evangelho a maioria das nações da terra, não podeis ima- 
ginar com que afetuosa inclinação ouviram esta revelação. Tal- 
vez que Deus agisse secretamente em suas almas; talvez o cris- 
tianismo lhes parecesse em todos os pontos conforme aà seita que 
entre eles goza de maior prestígio. 

O que na minha opinião contribuiu sobretudo para inspirar- 
lhes estas felizes disposições foi a narração da vida em comum 
dos primeiros apóstolos, tão cara a Jesus Cristo, e atualmente 
ainda em uso nas sociedades dos verdadeiros e perfeitos cristãos. 

Como quer que seja muitos dentre os utopianos abraçaram 
nossa religião e foram purificados pelas águas sagradas do batis- 
mo; infelizmente, de nós quatro (a morte de outros dois compa- 
nheiros nos tinha reduzido a este número), nenhum era padre. 
Eles não puderam, portanto, ainda que já iniciados nos outros 
mistérios, receber os sacramentos que, entre nós, unicamente os 
padres têm o poder de conferir; não obstante, têm uma idéia 
perfeitamente exata desses sacramentos e de tal modo os dese- 
jam que ouvi-os discutir acaloradamente a questão de saber se 
um cidadão, escolhido por eles, não poderia adquirir o caráter 


A UTOPIA - II 295 


de padre. À minha partida, não tinham ainda eleito ninguém, 
mas pareciam resolvidos a fazê-lo. 

Os habitantes da ilha que não crêem no cristianismo, não se 
opõem à sua propagação e não maltratam de nenhuma maneira 
os neoconvertidos. Apenas um dos nossos neófitos foi preso em 
minha presença. Recém-batizado, pregava em público, não obs- 
tante os meus conselhos, com mais zelo que prudência. Arreba- 
tado por seu ardente fervor, não se contentava em elevar ao pri- 
meiro plano o cristianismo; e condenava todas as outras 
religiões vociferando contra seus mistérios, que classificava de 
impios e sacrilegos, dignos do inferno. Este neófito, depois de ter 
deblaterado neste tom durante muito tempo, foi preso, não sob 
prevenção de ultraje ao culto, mas por ter provocado tumulto 
entre o povo. Foi a julgamento e condenado ao exílio. 

Os utopianos incluem no número de suas mais antigas insti- 
tuições a que proíbe prejudicar uma pessoa por sua religião. 
Utopus, na época da fundação do império, apurou que, antes de 
sua chegada, os indígenas viviam em guerras continuas por 
motivos religiosos. Notara também que tal situação lhe facilitara 
a conquista do país porque as seitas dissidentes, em vez de se 
reunirem em massa, combatiam isoladamente e à parte. Assim 
que se viu vitorioso e senhor do pais, apressou-se em decretar a 
liberdade de religião. 

Entretanto, não proscreveu o proselitismo, que propaga a fé 
pelo raciocínio, com doçura e modéstia; que não procura des- 
truir pela força bruta a religião contrária, quando não consegue 
persuadir; que, finalmente, não emprega a violência nem a 
injúria. 

Utopus, decretando a liberdade religiosa, não tinha unica- 
mente em vista a manutenção da paz outrora perturbada por 


296 THOMAS MORE 


combates contínuos e ódios implacáveis; pensava ainda que o 
próprio interesse da religião exigia tal medida. Nunca ousou ele 
estatuir temerariamente qualquer regra, em matéria de fé, na 
incerteza de que o próprio Deus não tenha inspirado aos homens 
as diversas crenças no intuito de experimentar, por assim dizer, 
esta grande variedade de cultos. Quanto ao emprego da violên- 
cia e de ameaças para constranger alguém a adotar a mesma 
crença que outrem, pareceu-lhe tirânico e absurdo. Previa que se 
todas as religiões fossem falsas, à exceção de uma, tempo viria 
em que, com o auxílio da doçura e da razão, a verdade se desta- 
caria espontaneamente, luminosa e triunfante, da noite do erro. 

Ao contrário, quando a controvérsia se faz pelo tumulto e de 
armas na mão, dado que os piores homens são os mais teimosos, 
sucede que a melhor e mais santa das religiões acabaria sepul- 
tada sob uma multidão de vas superstições, como uma bela 
seara coberta pelo mato e os espinhos. 

Foi por isto que Utopus deixou a cada um inteira liberdade de 
consciência e de fé. 

Não obstante, castigou severamente, em nome da moral, o 
homem que degrada a dignidade de sua natureza a ponto de pen- 
sar que a alma morre com o corpo ou que o mundo marcha ao 
léu sem que exista alguma providência. 

Os utopianos crêem, pois, numa vida futura, onde castigos 
são preparados para os crimes e recompensas para as virtudes. 
Não dão o nome de homem aquele que nega estas verdades e que 
rebaixa a natureza sublime de sua alma à vil condição de um 
corpo de animal; com mais forte razão, não o honram com o ti- 
tulo de cidadão, persuadidos de que, se o tal não estivesse amar- 
rado pelo temor, calcaria aos pés como flocos de neve os hábitos 
e as instituições sociais. Quem pode duvidar, com efeito, que um 


A UTOPIA - TI 297 


indivíduo que não tem outro freio senão o código penal, outra 
esperança que a matéria e o nada, não encontre prazer em iludir, 
astuciosa e secretamente, as leis de seu país, ou violá-las pela 
força, desde que satisfaça a sua paixão e o seu egoísmo? 

A esses materialistas não se rendem homenagens, não se con- 
fiam magistraturas ou cargos públicos. São desprezados como 
seres de natureza inerte e impotente. Entretanto, não são conde- 
nados a pena, na convicção generalizada de que não está no 
poder de ninguém sentir segundo sua fantasia. Não se fazem 
ameaças para obrigá-los a dissimular a própria opinião. A dissi- 
mulação é proscrita na Utopia e a mentira é detestada tanto 
quanto a trapaça. Unicamente, não têm o direito de sustentar 
seus princípios em público perante o vulgo; podendo faze-lo 
entretanto em particular junto aos padres e outras graves perso- 
nagens. São mesmo insistentemente convidados para essas 
conferências, na esperança de que seu delírio ceda enfim à razão. 

Grande número de utopianos professa um sistema diametral- 
mente oposto ao materialismo; e, como suas idéias não são peri- 
gosas nem totalmente desprovidas de bom senso, a propaganda 
não lhes é proibida. Estes últimos, caindo no extremo oposto, 
pretendem que as almas dos animais são imortais como as nos- 
sas, ainda que muito inferiores quanto ao quinhão da dignidade 
e da felicidade que lhes são destinadas. 

Todos os utopianos, à parte pequena minoria, alimentam a 
convicção íntima de que uma felicidade imensa aguarda o 
homem além-túmulo. É por isto que choram pelos doentes e ja- 
mais pelos mortos, excetuado o caso em que o moribundo deixa 
a vida inquieto ou a contragosto. O temor da morte é para eles 
mau augúrio; parece-lhes que este temor não existe senão nas 
almas sem esperança e cujas consciências intranquilas tremem 


298 THOMAS MORE 


diante da eternidade, como se sentissem já o aproximar do supli- 
cio. Além disso acreditam que Deus não recebe com prazer o 
homem que não acorre de bom grado ao seu chamado, mas é 
pela morte arrastado à sua presença entre rebelde e aflito. 

Aqueles que vêem alguém morrer assim tomam-se de horror; 
levam o defunto, tristes e silenciosos; e, após suplicar à divina 
clemência perdão às suas fraquezas, enterram-no. 

Ninguém, ao contrário, lamenta um cidadão que sabe morrer 
alegremente, cheio de esperança. Cânticos de alegria acompa- 
nham seus funerais. Recomenda-se com fervor sua alma a Deus, 
e queima-se-lhe o corpo com respeito mas sem lamentações. 
Sobre o lugar da sepultura, levanta-se uma coluna em que são 
gravados os titulos do morto. Seus amigos, reunidos, conversam 
sobre seus hábitos e ações; e o que mais frequentemente lhes 
agrada relatar é a história de sua morte gloriosa. 

Estas homenagens dedicadas à memória das pessoas de bem 
são, aos olhos de nossos insulares, um incitamento eficaz a vir- 
tude e um nobre culto aos mortos. Porque os mortos, segundo os 
preconceitos da maioria dos utopianos, assistem às conversa- 
ções dos vivos, ainda que invisíveis ao pequeno alcance dos 
olhos dos mortais. Não conviria à sorte dos bem-aventurados 
não serem livres de se transportar aonde bem lhes parecesse; e 
poder-se-ia justamente acusá-los de ingratidão, se se mostrassem 
indiferentes ao desejo de rever os amigos a que na terra estavam 
presos pelos laços do amor e da caridade. Mas tal não poderia 
dar-se visto que o amor e a caridade, longe de se extinguirem 
após a morte no coração dos eleitos, devem provavelmente cres- 
cer, como todas as outras perfeições. Por conseguinte, segundo 
as idéias utopianas, os mortos se misturam à sociedade dos 
vivos e são testemunhas de suas ações e de suas palavras. A 


A UTOPIA -II 299 


crença na presença dos antepassados inspira a este povo uma 
confiança extrema nas suas ações, porque lhe assegura a prote- 
ção e o apoio de poderosos defensores; além disso, impede uma 
enorme quantidade de crimes ocultos. 

Quanto aos augúrios e outros meios supersticiosos de adivi- 
nhação, tão frequentes em outros países, os nossos insulares 
rejeitam-nos e deles se riem. 

Veneram os milagres que surgem sem o concurso das leis da 
natureza, considerando-os como fatos que atestam a presença da 
divindade. Afirmam mesmo que muitos milagres têm-se verifi- 
cado em seu país, e que não raro em meio a terríveis calami- 
dades as preces públicas e uma grande fé logram obter prodígios 
capazes de salvar o império. 

Crêem que contemplar o universo, louvar o autor das maravi- 
lhas da criação é um culto agradável a Deus. 

Entretanto, encontra-se entre eles uma classe numerosa de 
cidadãos que, por espírito religioso preconcebido, abandonam a 
ciência, desdenham aplicar-se ao conhecimento das coisas, 
renunciam, enfim, a toda espécie de contemplação e lazer. Estes 
homens procuram merecer o céu unicamente pela vida ativa e 
pelos bons serviços prestados ao próximo. Uns cuidam dos 
doentes; outros consertam as estradas e as pontes, limpam os 
canais, nivelam os terrenos, tiram dos caminhos as pedras e os 
obstáculos, abatem e cortam as árvores; transportam, para as 
cidades, em carros puxados a cavalo, a madeira, O grão, os fru- 
tos e os outros produtos do campo. 

Não só trabalham para o público, mas se poem ainda a servi- 
ço dos particulares, como simples domésticos, mais diligentes e 
submissos que escravos. Encarregam-se com alegria dos traba- 
lhos mais rudes e mais difíceis, dos serviços mais repugnantes, 


00 THOMAS MORE 


para cuja realização as penas, o desespero e o nojo afugentam a 
maioria dos homens. Entregam-se, sem descanso, ao trabalho e à 
fadiga, a fim de obter para o próximo um repouso maior. Não 
exigem para tanto nenhum agradecimento. Não censuram a vida 
dos outros e não se vangloriam de todo o bem que fazem. Quan- 
to mais, por devotamento, se rebaixam ao nível dos escravos, 
tanto mais se elevam na estima pública. 

Esta classe de homens devotados divide-se em duas seitas: 

Uns renunciam ao matrimônio. Não só se abstêm do comér- 
cio com as mulheres, como ainda rejeitam o uso de qualquer 
carne. Privam-se de todos os prazeres da vida, como coisas peri- 
gosas; não aspiram senão a merecer as delícias da vida futura à 
força de vigílias e suores. A esperança de cedo gozar dessas deli- 
cias torna-os alegres e sãos. 

Os outros, não menos ávidos de trabalhos, preferem o estado 
de casados, do qual apreciam as obrigações e as doçuras. Jul- 
gam que têm obrigações para com a natureza e que devem filhos 
a pátria. Não fogem dos prazeres, contanto que estes não os dis- 
traiam do trabalho. Comem carne dos quadrúpedes, a fim de se 
tornarem mais robustos e mais capazes de suportar as fadigas. 

Os utopianos crêem os últimos mais sábios e os primeiros 
mais santos. Se, não obstante, aqueles que preferem o celibato 
ao casamento, as fadigas ao repouso, fundamentassem tal 
comportamento no bom senso da razão, os utopianos se ririam 
deles com piedade. Mas professam por estes homens uma viva 
admiração, porque a religião é o móvel de seu devotamento e na 
Utopia todo mundo evita, escrupulosamente, tomar qualquer 
decisão a respeito da religião. Estes rígidos sectários se chamam 
na língua do país butrescos; denominação que corresponde entre 
nós a religiosos. 


A UTOPIA - II 301 


Os padres da Utopia são de uma santidade perfeita, e, por 
consequência, em número muito restrito; para cada cidade não 
há senão treze a serviço de igual número de templos. Entretanto, 
em caso de guerra, sete padres devem acompanhar o exército, e 
neste caso é forçoso nomear outros sete em lugar dos que par- 
tem. Os titulares retomam suas funções assim que regressam. Os 
suplentes sucedem por ordem aos antigos, à proporção e à medi- 
da que estes morrem; como suplentes, assistem o pontífice. 

Em cada cidade há um pontífice acima dos outros padres. 

Os padres, da mesma forma que os outros magistrados, são 
eleitos pelo povo em escrutínio secreto, a fim de evitar a intriga; 
o colégio sacerdotal da cidade consagra os novos eleitos. Presi- 
dem as coisas divinas, velam sobre a religião, e são, de algum 
modo, os censores dos costumes. É vergonhoso ser citado a 
comparecer perante eles e receber suas reprimendas; é esse um 
indício de vida pouco regular. De resto, se têm o direito de acon- 
selhar e de repreender, somente ao príncipe e aos magistrados 
cabe o direito de prender e processar criminalmente os culpados. 
O poder dos padres se limita a interditar os sagrados mistérios 
aos homens reconhecidamente pervertidos. Não existe suplício 
nenhum que faça mais horror, na Utopia, que esta excomunhão; 
ela os marca de infâmia, causa à consciência mil temores religio- 
sos e não deixa, a quem fere, tranquilidade quanto à própria 
segurança pessoal; pois, se os reprovados não se apressam em 
dar mostra de arrependimento verdadeiro perante os padres, o 
senado manda prendê-los e lhes é aplicada a penalidade dos 
impios. 

A educação da infância e da juventude é confiada ao sacerdo- 
te, para quem os primeiros cuidados são para o ensino da moral 
e da virtude de preferência ao das ciências e das letras. O mestre, 


o THOMAS MORE 


na Utopia, emprega toda a sua experiência e talento em impri- 
mir, na alma ainda tenra e impressionável da criança, os bons 
princípios que são a salvaguarda da república. A criança que 
recebeu o gérmen desses princípios guarda-os em sua carreira de 
homem, tornando-se mais tarde um elemento útil à conservação 
do Estado. É o vício que destrói os impérios e o vício é engen- 
drado pelas más opiniões. 

Os padres escolhem suas mulheres na fina flor da população. 
As próprias mulheres não são exclukdas do sacerdócio, contanto 
que sejam viúvas e de idade avançada. 

Não há magistratura mais honrada que o sacerdócio. A vene- 
ração que se dedica aos padres é de tal modo profunda que, se 
algum deles comete uma infâmia, não comparece em juízo mas 
é abandonado a Deus e à sua própria consciência. Os utopianos 
não julgam permitido tocar-se com mão mortal naquele que foi 
consagrado a Deus, como uma oferenda santa, como uma coisa 
inviolável e à parte. 

Esta lei é tanto mais fácil de praticar quanto é pequeno o nú- 
mero dos padres e quão grandes as precauções postas em elegê- 
los. Assim, deve ser extremamente raro que um homem elevado 
a um tão alto grau de dignidade, em consequência mesmo de 
suas virtudes e de ser o melhor entre os bons, venha a cair no 
vício e na depravação. E, se tamanho escândalo viesse a dar-se 
(pois a natureza humana é fraca e inconstante), a segurança do 
Estado não se sentiria gravemente comprometida por uma classe 
tão pouco numerosa e que possui somente brilhantes honras, 
sem influência e poder. 

Os utopianos, ao limitar a tão pequeno número a quantidade 
de padres, procuram não baratear a dignidade de uma ordem 
que goza atualmente da mais alta consideração, transmitindo 


A UTOPIA - IH 303 


esta dignidade a muitos indivíduos. A razão principal é que lhes 
parece difícil encontrar muitos homens dignos de preencher uma 
função cujo exercício exige uma perfeição invulgar. 

Os padres da Utopia não são menos estimados nas nações 
estrangeiras que entre seus concidadãos. Eis a explicação para o 
fato: 

Durante os combates, os padres, retirados a um lado, mas não 
muito longe dos campos de batalha, rezam de joelhos, as mãos 
erguidas ao céu e paramentados com os hábitos sagrados. 
Imploram a paz acima de tudo, e só em segundo lugar a vitória 
do seu país, e, ainda assim, uma vitória que não seja sangrenta 
para nenhum dos dois lados. Se são os seus concidadãos os 
vencedores, atiram-se no mais forte da refrega e evitam a matan- 
ça dos vencidos. O infeliz que deles se aproxima, os vê ou os 
chama, tem sua vida poupada; aquele que consegue tocar suas 
vestimentas sagradas, longas e flutuantes, conserva, com a vida, 
a fortuna. 

Esta bela atitude fez ressaltar tanto a real majestade de seu 
caráter, e inspira aos povos vizinhos tanta veneração, que mui- 
tas vezes a intervenção dos padres não tem sido menos salutar 
aos próprios utopianos do que aos exércitos inimigos. De fato, 
tem acontecido às tropas utopianas se submeterem e fugirem de- 
pois de perdidas todas as esperanças; mas, no momento em que 
o inimigo se entregava ao saque e ao assassínio, a mediação dos 
padres suspendia a carnificina, separava os contendores e conse- 
guia que se concluísse a paz sob condições razoáveis. Nunca, 
naquelas plagas, houve povo bastante bárbaro, ou bastante feroz 
e cruel, para não respeitar os padres da Utopia como um corpo 
sagrado e inviolável. 

Os utopianos celebram uma festa nos primeiros e últimos dias 


304 THOMAS MORE 


do mês e do ano. Dividem o ano em meses lunares e o medem 
pela revolução solar. Esses primeiros e últimos dias se chamam 
cinemerne e trapemerne segundo a língua utopiana, nomes que 
aproximadamente significam festa inicial e festa final. 

Podem-se ver na Utopia templos magníficos, de rica estrutura 
e de extensão capaz de conter uma imensa multidão, o que é 
necessário em vista do pequeno número existente. Neles reina 
uma semi-obscuridade mesmo com a claridade do dia; esta 
disposição não é motivada pela ignorância dos arquitetos; foi 
adotada de propósito e a conselho dos padres. A razão disso é 
que uma luz excessiva dispersa as idéias, enquanto que uma luz 
fraca e dúbia recolhe o espírito, desenvolve e exalta o sentimento 
religioso. 

Se bem que os utopianos não professam a mesma religião, 
entretanto todos os cultos desse país, em suas múltiplas varieda- 
des, convergem por diversos caminhos para o mesmo fim — que 
é a adoração da natureza divina. É por isto que não se vê e não 
se encontra nada nos templos que não sirva a todas as crenças 
em conjunto. Cada um celebra em sua casa, em família, os mis- 
térios particulares à sua fé. O culto público é organizado de 
maneira a não contradizer em nada o culto doméstico e privado. 
Não se encontra nos templos nenhuma imagem de deuses, a fim 
de que fique cada um livre de conceber a Divindade sob a forma 
que corresponda à sua crença. Não se invoca jamais Deus sob 
outro nome que o de Mitra, termo que exprime em geral a essên- 
cia da majestade divina, qualquer que seja esta essência. Não se 
faz ali nenhuma prece que todos não possam repetir sem ferir 
sua própria consciência religiosa. 

Nos dias de trapemerne o povo se reúne nos templos à tarde e 
ainda em jejum. Aí, agradecem a Deus as graças alcançadas 


A UTOPIA - II 305 


durante o ano ou mês de que a festa é o último dia. No dia 
seguinte, dia de cinemerne, o povo enche os templos já pela 
manhã implorando aos céus um futuro feliz durante o ano ou 
mês que esta solenidade inaugura. 

Nos dias de trapemerne, antes de ir ao templo, as mulheres se 
atiram aos pés de seus maridos, as crianças aos pés de seus pais. 
Assim prosternadas, confessam seus pecados por atos ou negli- 
gências no cumprimento dos deveres, e depois pedem perdão de 
seus erros. No meio desta confissão em família, desta satisfação 
piedosa, as nuvens de ódio que obscureciam a paz doméstica são 
rapidamente dissipadas e todo mundo pode, então, assistir aos 
sacrifícios com a alma tranquila e pura, pois os utopianos teriam 
escrúpulos se a eles assistissem com o ódio e a perturbação no 
coração. Se sua consciência estivesse carregada de cólera ou 
ressentimento, não ousariam jamais participar da celebração dos 
mistérios antes de se terem reconciliado e purificado seus senti- 
mentos. Temem que Deus exerça qualquer vingança terrível por 
essa impiedade. 

Dentro do templo, os homens ficam à direita e as mulheres à 
esquerda, separados. Os lugares são distribuídos de forma que 
os indivíduos de cada um dos dois sexos estejam respectiva- 
mente sentados em frente do pai e da mãe da família. Isto é 
assim ordenado a fim de que os chefes de família possam obser- 
var o comportamento exterior daqueles que eles instruem e 
governam na intimidade. Tem-se o cuidado de distribuir os mais 
jovens entre os mais velhos, a fim de que as crianças, não estan- 
do muito aglomeradas, não percam, em tolices pueris, o tempo 
que devem empregar em impregnar-se da crença religiosa nos 
deuses, crença que é, nessa idade, o incentivo mais urgente e tal- 
vez mais capaz de estimulá-las à virtude. 


306 THOMAS MORE 


Os utopianos não imolam animais nos seus sacrifícios. Pen- 
sam que a clemência divina, que deu a vida aos seres animados 
para que vivam, não pode se alegrar com a visão do sangue e da 
morte. Queimam incenso e outros perfumes, e velas em grande 
número. Sabem muito bem que a natureza divina não tem neces- 
sidade dessas coisas nem das preces dos homens; mas gostam de 
render a Deus este culto de paz. Aliás, não sei como, sob a 
influência dessas luzes, desses perfumes, dessas cerimônias, o 
homem sente sua alma elevar-se e, com fervor, entrega-se à ado- 
ração do Todo-Poderoso. 

O povo, no templo, veste-se de branco; o padre leva uma ves- 
timenta de diversas cores, admirável de confecção e de forma, 
ainda que a fazenda não seja muito preciosa. A vestimenta do 
padre não é nem brochada de ouro nem presa por pedrarias; é 
um tecido de penas de pássaros, dispostas com tanta arte e gosto 
que o mais rico paramento ficaria abaixo desse maravilhoso tra- 
balho. Além disso, a ordem com que são distribuidas as penas e 
plumas obedece a simbolos que encerram mistérios secretos. Os 
sacrificadores conservam e comunicam fielmente a interpretação 
desses símbolos, cuja vista recorda perenemente aos utopianos 
os benefícios que Deus lhes prodigaliza, o reconhecimento que 
devem, em retribuição, e os deveres que têm a cumprir uns para 
com os outros. 

Desde que o padre revestido de seus paramentos se apresenta 
à entrada do santuário, todo mundo se prosterna, com um res- 
peito e silêncio tão profundos que este espetáculo fere a alma de 
uma espécie de terror como se um deus aparecesse no templo. 
Após alguns instantes, a um sinal do padre, todos se erguem. 
Então os assistentes começam a cantar louvores a Deus, inter- 
rompidos, a intervalos, pela música instrumental. 


A UTOPIA - 307 


Os instrumentos da música utopiana têm formas, em grande 
parte, diferentes das que vemos entre nós. Na sua maioria são 
mais harmoniosos que os nossos, e alguns não lhes podem 
mesmo ser comparados. Mas o que dá à música utopiana, seja 
instrumental, seja vocal, uma superioridade incontestável, é que 
ela imita e exprime todos os sentimentos da natureza com rara 
perfeição. Os utopianos acordam tão bem o som, pintam tão 
vivamente as súplicas da prece, a alegria e a piedade, a inquieta- 
ção, o pesar, a cólera; a forma de sua melodia, numa palavra, 
representa com tal verdade os sentimentos mais íntimos, que a 
alma de quem escuta fica maravilhosamente comovida, embeve- 
cida e inflamada. 

No fim do ofício divino, o povo e o padre rezam juntos rezas 
solenes, formuladas em termos determinados por lei, e de manei- 
ra a cada um reportar a st mesmo o que todos recitam em 
comum. 

Nessas preces, os ouvintes reconhecem Deus como autor da 
criação e da conservação de todos os bens; rendem-lhe graças 
pelos numerosos benefícios recebidos. Agradecem a Deus, em 
particular, tê-los feito nascer, por insigne favor, no seio da repú- 
blica mais feliz e da religião que lhes parece ser a verdadeira. 
Entretanto, se esta crença for um erro, se existir um governo e 
um culto melhores, mais propícios ao Eterno, suplicam sua divi- 
na bondade de lhes trazer esta revelação, declarando-se prontos 
a obedecer, em tudo, à sua vontade. Mas, ao contrário, se o culto 
e o governo da Utopia são os mais perfeitos, pedem então a 
Deus que lhes conceda o favor de perseverar, e que conduza o 
resto dos homens as mesmas instituições religiosas e sociais; a 
não ser que, nos seus desígnios impenetráveis, tenha por bem 
esta grande diversidade de religiões. Finalmente suplicam à 


308 THOMAS MORE 


misericórdia divina recebê-los em paz, depois de uma boa morte. 
Não ousam pedir ao céu prolongar ou abreviar a duração da 
própria vida; mas o que dizem a Deus, sem temer ofender sua 
majestade, é que prefeririam chegar a ele pela morte mais penosa 
do que ficar muito tempo privado de sua presença na vida mais 
venturosa. 

Terminada esta prece, todo mundo se prosterna de novo e se 
ergue momentos depois para ir jantar. O resto do dia é empre- 
gado em jogos e exercícios militares. .. 

Tenho tentado, continuou Rafael, descrever-vos a forma desta 
república, que julgo ser, não somente a melhor, como a única 
que pode se arrogar, com boa justiça, o nome de república. Por- 
que, em qualquer outra parte, aqueles que falam do interesse 
geral não cuidam senão do seu interesse pessoal; enquanto que 
lá, onde não se possui nada em particular, todo mundo se ocupa 
seriamente da causa pública, pois o bem particular realmente se 
confunde com o bem geral. Qual o homem que, em outro lugar, 
não sabe que se abandonar os seus próprios negócios, por mais 
florescente que esteja a república, não deixará, por isso, de mor- 
rer de fome? Dai a necessidade com que pensam em si antes de 
pensar em seu país, isto é, no seu próximo. 

Na Utopia, ao contrário, onde tudo pertence a todos, não 
pode faltar nada a ninguém, desde que os celeiros públicos este- 
jam cheios. A fortuna do Estado nunca é injustamente distri- 
buida naquele país; não se vêem nem pobres nem mendigos, e 
ainda que ninguém tenha nada de seu, no entretanto todo mundo 
é rico. Existe, na realidade, mais bela riqueza do que viver alegre 
e tranquilo, sem inquietações nem cuidados? Existe sorte mais 
feliz do que não tremer pela existência, não ser azoinado pelos 
pedidos e queixas da esposa, não temer a pobreza para seu filho, 


A UTOPIA -II 309 


não apoquentar-se pelo dote da filha; mas estar sempre seguro e 
certo da existência do bem-estar, seu e dos seus, mulher, filhos, 
netos, bisnetos, até à mais longinqua posteridade de que poderia 
orgulhar-se um fidalgo? 

A república utopiana garante essas vantagens aos que, inváli- 
dos hoje, outrora trabalharam tão bem quanto os cidadãos ati- 
vos aptos a trabalhar. 

Gostaria de ver alguém, aqui, que ousasse comparar esta jus- 
tiça à justiça das outras nações. Eu, de mim, estou pronto a mor- 
rer se me mostrarem nas outras nações o menor sinal de equi- 
dade e justiça. 

É justo que um nobre, um ourives, um usurário, um homem 
que não produz senão objetos de luxo, inúteis ao Estado, é justo 
que tais indivíduos levem uma vida caprichosa e esplêndida por 
entre a ociosidade e ocupações frívolas, enquanto que um traba- 
lhador, um carreteiro, um artesão, um lavrador vivam na negra 
miséria, mal podendo alimentar-se? E, no entanto, os últimos 
estão amarrados a um trabalho tão pesado e tão penoso que as 
bestas de carga mal suportariam; tão necessário que nenhuma 
sociedade poderia subsistir um ano sem ele. Na verdade, a con- 
dição de uma besta de carga parece mil vezes preferível; esta tra- 
balha menos tempo, sua alimentação não chega a ser pior, e é 
mesmo mais conforme aos seus gostos. E depois, o animal não 
teme o futuro. 

Mas qual é o destino do operário? Um trabalho infrutífero, 
estéril, a esmagá-lo agora, e a expectativa de uma velhice miserá- 
vel no futuro; o seu salário diário não chega para todas as neces- 
sidades quotidianas; como, então, poderá ele aumentar sua for- 
tuna e reservar dia a dia um pouco do supérfluo para as 
necessidades da velhice? 


310 THOMAS MORE 


Não é iniqua e ingrata a sociedade que prodigaliza tantos 
bens aos que se intitulam nobres, aos joalheiros, aos ociosos ou 
a esses artesões de luxo que só sabem lisonjear e servir a frivolas 
volúpias; quando, de outra parte, não tem nem coração nem cui- 
dados para o lavrador, o carvoeiro, o carregador, o operário, 
sem os quais não existiria sociedade? Em seu cruel egoísmo, ela 
abusa do vigor da juventude dessa gente para tirar dela maior 
proveito; e logo que fraquejam esses pobres homens, sob o peso 
da idade e da doença, justamente quando tudo lhes falta, é que 
ela esquece das suas canseiras infindas, dos seus numerosos ser- 
viços, e os recompensa deixando-os morrer de fome. 

E não é tudo. Os ricos diminuem cada dia alguma coisa no 
salário dos pobres, não só por meio de manobras fraudulentas, 
mas ainda decretando leis para tal fim. Recompensar tão mal 
aqueles que mais merecem da república, parece-nos à primeira 
vista uma evidente injustiça; mas os ricos fazem desta monstruo- 
sidade um direito, sancionando-o em leis. 


É por isto que, quando considero e observo as repúblicas mais 
florescentes, hoje, não vejo, Deus me perdoe, senão uma conspi- 
ração de ricos a gerir do melhor modo os seus negócios sob o ró- 
tulo e o título pomposos de república. Os conjurados procuram 
por todas as manhas e meios possíveis atingir um duplo fim: 

Primeiramente, assegurar a posse certa e indefinida de uma 
fortuna mais ou menos mal adquirida; em segundo lugar, abusar 
da miséria dos pobres, abusar de suas pessoas, e comprar pelo 
preço mais baixo suas habilidades e labores. 

E essas maquinações decretadas pelos ricos em nome do Esta- 
do, e, por conseguinte, em nome dos pobres também, são trans- 
formadas em leis. 

Entretanto, embora tenham esses homens perversos parti- 


A UTOPIA -II 311 


lhado entre si, com insaciável cobiça, bens suficientes à felici- 
dade de todo um povo, longe ainda estariam da felicidade que 
gozam os utopianos. 

Na Utopia a avareza é impossível, porque o dinheiro ali não é 
de uso algum, e, por isso mesmo, que abundante fonte de males 
não estancou? Que enorme seara de crimes não cortou pela 
raiz? Quem não sabe, com efeito, que as fraudes, os roubos, as 
rapinas, as rixas, os tumultos, as querelas, as sedições, os assas- 
sínios, as traições, os envenenamentos; quem não sabe, digo, que 
todos esses crimes dos quais se vinga a sociedade com suplícios 
permanentes, sem, entretanto, poder preveni-los, seriam suprimi- 
dos no dia em que o dinheiro desaparecesse? Então, desapare- 
ceriam também o temor, a inquietude, os cuidados, as fadigas e 
as canseiras. A própria pobreza, que parece ser a única a carecer 
de dinheiro, diminuiria no instante mesmo, caso o dinheiro fosse 
completamente abolido. 

E veja-se esta prova evidente: 

Suponde que venha um ano mau e estéril, durante o qual uma 
horrível fome roube muitos milhares de vidas. Sustento que, ao 
fim da calamidade, se fossem pesquisados os celeiros dos ricos, 
neles se encontrariam imensas provisões de grãos. De sorte que, 
se essas provisões tivessem sido distribuídas em tempo, nenhum 
dos infelizes que morreram de fraqueza e debilidade teria sido 
tocado pela inclemência do céu e a avareza da terra. Vedes, pois, 
que, sem o dinheiro, a existência teria podido e poderá ser asse- 
gurada a todos; e que a chave de ouro, esta bem-aventurada 
invenção que nos devia abrir as portas da felicidade, no-las fecha 
impiedosamente. 

Os próprios ricos, não o duvido, compreendem estas verda- 
des. Sabem que é infinitamente preferível não lhes faltar jamais 


312 THOMAS MORE 


o necessário a ter em abundância quantidades de coisas supér- 
fluas; que mais vale verem-se livres de males inúmeros do que se 
cercarem de grandes riquezas. Creio mesmo que de há muito 
teria o gênero humano abraçado as leis da república utopiana, 
seja em interesse próprio, seja em obediência às leis do Cristo, 
pois a sabedoria do Salvador não poderia ignorar o que há de 
mais útil aos homens, e sua bondade divina certamente já soube 
recomendar-lhes o que sabia ser bom e perfeito. 

Mas o orgulho, paixão feroz, rainha e mãe de todas as pragas 
sociais, opõe uma resistência invencível a essa conversão dos 
povos. O orgulho não mede a felicidade de acordo com o bem- 
estar pessoal, mas de acordo com a infelicidade alheia. O orgu- 
lho recusaria mesmo ser Deus, se não lhe restassem mais infeli- 
zes a insultar e a tratar como escravos, se o luxo de sua 
felicidade não fosse mais exaltado pelas angústias da miséria e 
se a ostentação de suas riquezas não torturasse mais a indi- 
gência e acendesse o seu desespero. O orgulho é uma serpente do 
inferno, que se introduziu no coração dos homens, que os cega 
com seu veneno e os afasta da senda de uma vida melhor. Este 
reptil agarra-se tão fortemente à carne que se torna difícil 
arrancá-lo. 

Desejo, do fundo da alma, a todos os países, uma república 
semelhante à que vos acabo de descrever. Alegra-me, ao menos, 
saber que os utopianos encontraram e fundaram o seu império 
sobre instituições que lhes asseguram não somente a prosperi- 
dade mais brilhante como, tanto quanto pode conjeturar a previ- 
são humana, uma duração eterna. 

Porque nela todos os germens da ambição, do facciosismo, 
foram extirpados com os demais vícios. Desde então, o Estado 
não teme as discórdias civis que aniquilavam a potência e a 


A UTOPIA -II 313 


riqueza de tantas cidades. A união dos cidadãos sendo assim 
fortemente consolidada no interior, a excelência e a solidez das 
instituições defendem a república contra os perigos de fora. A 
inveja reunida de todos os reis vizinhos seria impotente para 
abalar e perturbar o império; já o experimentaram muitas vezes 
e todas as vezes viram seus projetos desmoronar. 


Assim que Rafael terminou sua narrativa, veio-me à mente 
quantidade de coisas que me pareceram absurdas nas leis e cos- 
tumes utopianos, tais como seu sistema de fazer a guerra, O 
culto, a religião e várias outras instituições. O que sobretudo 
transtornava todas as minhas idéias era o alicerce sobre que foi 
erguida esta estranha república, quero dizer, a comunidade de 
vida e de bens, sem tráfico de dinheiro. Ora, esta comunidade 
destrói radicalmente toda nobreza e magnificência, todo esplen- 
dor e majestade — coisas que, aos olhos da opinião pública, 
fazem a honra e o verdadeiro ornamento de um Estado. Não 
apresentei, entretanto, a Rafael, nenhuma objeção, porque o 
sabia fatigado da longa narrativa. Por outro lado, não estava 
certo de que suportasse pacientemente a contradição. Lembra- 
va-me tê-lo visto censurar com vivacidade a certos contradi- 
tores, repreendendo-lhes temerem passar por imbeeis, se nada 
encontravam a objetar às invenções dos outros. 

Pus-me, então, a louvar as instituições utopianas e a narrativa 
feita. Depois tomei pela mão o narrador, a fim de levá-lo a cear, 
e prometi que, de outra feita, teriamos ocasião de meditar mais 
profundamente sobre essas matérias, e de juntos conversar mais 
demoradamente. 

Praza a Deus que isto aconteça algum dia! 


314 THOMAS MORE 


Porque, se de um lado não posso concordar com tudo o que 
disse este homem, aliás incontestavelmente muito sábio e muito 
hábil nos negócios humanos, de outro lado confesso sem dificul- 
dade que há entre os utopianos uma quantidade de coisas que eu 
aspiro ver estabelecidas em nossas cidades. 

Aspiro, mais do que espero. 


“e 


Te 


Este livro integra a coleção 
OS PENSADORES — HISTÓRIA DAS GRANDES IDÉIAS DO MUNDO OCIDENTAL 
Composto e impresso nas oficinas da 
Abril S. A. Cultural e Industrial, caixa postal 2732, São Paulo